Atente para estas afirmações: I. No trecho citado de Schope...

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Q209220 Português
Atenção: A questão refere-se ao texto seguinte.


                                        A dor como destino

              Outro dia, folheando desavisadamente um livro de Schopenhauer (há autores que jamais devemos frequentar desavisadamente...), deparei-me com este trecho: 

             Trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda vida a sorte da maioria das pessoas. De fato: se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana? Que se transfira o homem a um país utópico, em que tudo cresça sem ser plantado, em que as aves revoem já assadas, e cada um encontre logo sua bem-amada. Ali os homens morrerão de tédio ou se enforcarão; promoverão guerras, massacres e assassinatos para se proporcionarem mais sofrimento do que o posto pela natureza.
           Será mesmo que sofremos porque precisamos? É da nossa natureza ocupar-nos com nossos desejos insatisfeitos, sem os quais vivemos infelizes pela falta de uma causa para viver? Nosso grande poeta Drummond, um schopenhaueriano empedernido, chegou a escrever: “Estamos para doer, estamos doendo". E outro Andrade, o Mário, garantiu-nos: “A própria dor é uma felicidade". 
           De minha parte modestíssima, ouso dizer: se um dia me sentir absolutamente feliz, tentarei não me matar. Talvez também não conte para ninguém, para que não me matem. De inveja. 


                                                                                                                   (Bráulio Ventura, inédito






Atente para estas afirmações:

I. No trecho citado de Schopenhauer, a correlação estabelecida entre país utópico e tédio é muito reveladora de um espírito pessimista.

II. Ao se valer da expressão de minha parte modestíssima, o autor acentua o fato de que sua aprovação da tese de Schopenhauer em nada a fortalece.

III. No último parágrafo, há uma clara corroboração da crença de que os homens dependem do sofrimento para dar sentido às suas vidas.

Em relação ao texto, está correto SOMENTE o que se afirma em
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A resolução depende de distinguir a inferência textual direta da leitura extrapolada de passagens irônicas e modalizadas: no trecho “Que se transfira o homem a um país utópico (...) Ali os homens morrerão de tédio ou se enforcarão; promoverão guerras, massacres e assassinatos para se proporcionarem mais sofrimento do que o posto pela natureza.”, a utopia é associada ao tédio e à produção de sofrimento, o que sustenta a afirmação I e conduz ao gabarito A.

Tema central: inferência textual e ironia
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque somente a afirmação I decorre diretamente do texto. No trecho de Schopenhauer, a supressão das carências em um “país utópico” não produz realização humana, mas “tédio”, autodestruição e violência deliberada. Essa associação revela, de modo textual e explícito, uma visão pessimista da condição humana. As demais afirmações dependem de transformar marcas de autoatenuação e humor do narrador em adesões literais ou em comentários objetivos sobre força argumentativa, o que o texto não autoriza.
B
Errada
Está errada porque depende da afirmação II, e II não se sustenta. A expressão “De minha parte modestíssima” marca autoatenuação e autoironia; dela não se pode concluir, de modo necessário, que a aprovação do autor “em nada fortalece” a tese de Schopenhauer. Essa paráfrase acrescenta um sentido técnico sobre peso argumentativo que não está explicitado no texto.
C
Errada
Está errada porque depende da afirmação III, e III força o sentido do último parágrafo. Em “se um dia me sentir absolutamente feliz, tentarei não me matar. Talvez também não conte para ninguém, para que não me matem. De inveja.”, o efeito é hiperbólico, irônico e humorístico. Isso não constitui “clara corroboração” da crença de que os homens dependem do sofrimento para dar sentido à vida.
D
Errada
Está errada porque reúne I e II, mas apenas I é válida. I se apoia em inferência textual direta do excerto de Schopenhauer; II extrapola o valor discursivo de “De minha parte modestíssima”, convertendo autoironia em declaração objetiva sobre irrelevância argumentativa da opinião do narrador.
E
Errada
Está errada porque tanto II quanto III são incorretas. II erra ao atribuir à expressão “De minha parte modestíssima” um sentido que o texto não fixa; III erra ao ler literalmente um fecho construído com ironia e humor, como se ele representasse adesão inequívoca à tese filosófica discutida.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre problematizar uma tese e endossá-la literalmente: o candidato pode projetar no narrador o pessimismo de Schopenhauer e, com isso, ler como afirmações objetivas passagens que funcionam por autoironia, modalização e humor.
Dica para questões semelhantes
  • Separe o que o texto afirma de modo direto do que aparece em pergunta, atenuação ou ironia.
  • Não transforme marca de modéstia ou autoironia em conclusão objetiva sobre valor argumentativo sem apoio expresso no texto.
  • Em fechamento humorístico, verifique se há adesão literal à tese anterior ou apenas efeito irônico.
  • Quando a alternativa usa termos fortes como “clara corroboração”, exija sustentação textual inequívoca.

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Comentários

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Apesar de eu não concordar com a pequenez tipificadora da questão.
O trecho I parece estar correto. "País utópico" é sempre referido como uma coisa boa, uma idealização perfeita de algo. Então, associar isso ao "tédio" é a revelação de um espírito pessimista.
O trecho II também parece estar correto.
Resposta D

A resposta é a LETRA A. 

 

I - está correto

II - está incorreto. O autor desaprova a tese de Schopenhauer e também não a fortalece. Pelo contrário, conforme justificativa do item III.

III - está incorreto. No último parágrafo, o argumento do autor está está em desacordo com a tese de Schopenhauer. Ele afirma, inclusive, se estiver feliz não avisará ninguém, pois tentarão matá-lo de inveja.

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