Rousseau considera que há uma vontade geral e uma vontade de...

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Q39273 Português
A idéia de que o povo é bom e que deve, por conseguinte, ser o titular da soberania política, provém, sem dúvida, de Rousseau. Mas o pensamento do grande filósofo sobre esse ponto era muito mais complexo e profundo do que podem supor alguns de seus ingênuos seguidores.
Do fato de que o homem é sempre bom, e que a sociedade o corrompe, não se seguia logicamente, no pensamento de Rousseau, a conclusão de que as deliberações do povo fossem sempre boas. "Cada um procura o seu bem, mas nem sempre o enxerga. O povo nunca é corrompido, mas é freqüentemente enganado, e é então que ele parece querer o mal" - advertia o filósofo.
É aí que se insere a sua famosa distinção entre vontade geral e vontade de todos. Aquela "só diz respeito ao interesse comum; a outra, ao interesse privado, sendo apenas a soma de vontades particulares". Para Rousseau, nada garantiria que a vontade geral predominasse sempre sobre as vontades particulares. Ao contrário, ele tinha mesmo da vida em sociedade uma visão essencialmente pessimista. Sustentava que os povos são virtuosos apenas na sua infância e juventude. Depois, corrompem-se irremediavelmente.
Não há, pois, maior contra-senso interpretativo do que afirmar que o princípio da soberania absoluta do povo tem origem em Rousseau. Na verdade, ele, que sempre foi um moralista, preocupado antes de tudo com a reforma dos costumes, descria completamente de qualquer remédio jurídico para os males da humanidade.



(Fábio Konder Comparato)
Rousseau considera que há uma vontade geral e uma vontade de todos,
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a fidelidade semântica ao trecho em que o texto explicita a distinção entre "vontade geral" e "vontade de todos": "Aquela \"só diz respeito ao interesse comum; a outra, ao interesse privado, sendo apenas a soma de vontades particulares\"." Como a alternativa correta precisa preservar essa oposição conceitual, o gabarito é D.

Tema central: paráfrase fiel
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque transforma a distinção formulada por Rousseau em "grande contra-senso interpretativo", quando o texto usa essa expressão para criticar uma leitura errada sobre Rousseau, não para qualificar a distinção entre "vontade geral" e "vontade de todos". Além disso, o texto não diz que essa distinção enfraquece sua tese.
B
Errada
Incorreta por contradição direta com o texto. O último parágrafo afirma: "Não há, pois, maior contra-senso interpretativo do que afirmar que o princípio da soberania absoluta do povo tem origem em Rousseau." Portanto, a distinção entre as duas vontades não serve de base para defender a soberania absoluta do povo.
C
Errada
Incorreta porque cria uma relação causal que o texto não estabelece. O texto afirma que o pensamento de Rousseau é "muito mais complexo e profundo do que podem supor alguns de seus ingênuos seguidores", mas não diz que a distinção entre as duas vontades seja a razão pela qual esses seguidores o considerariam complexo.
D
Certa
A alternativa D está correta porque reexprime com fidelidade a distinção conceitual formulada no texto: uma vontade se orienta pelo interesse comum, e a outra corresponde à soma de interesses particulares. Essa é precisamente a oposição semântica apresentada no trecho definidor atribuído a Rousseau.
E
Errada
Incorreta porque nega a própria oposição construída pelo texto. O trecho decisivo distingue expressamente "vontade geral" de "vontade de todos"; não há equivalência entre elas.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o que o texto atribui a Rousseau e o que o autor do texto critica como leitura equivocada sobre Rousseau, além da semelhança vocabular entre "vontade geral" e "vontade de todos", que pode induzir à falsa ideia de equivalência.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão cobra interpretação conceitual, localize o trecho em que o próprio texto define os termos centrais e procure a alternativa que apenas os parafraseia com fidelidade.
  • Elimine alternativas que troquem oposição por equivalência, porque isso altera o núcleo semântico do texto.
  • Desconfie de opções que acrescentem causa, consequência ou julgamento que não estejam explicitamente sustentados pelo texto-base.

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Aproveitando a oportunidade para comentar sobre os pronomes demonstrativos.

Em enumerações, usa-se  o pronome demonstrativo "aquele", ou suas variações, quando queremos citar o primeiro item enumerado, isto é, o mais distante, e "este" para o mais próximo:

Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade são dois dos maiores nomes da literatura brasileira. Este (Carlos Drummond) é conhecido por suas poesias; aquele (Machado de Assis), por seus brilhantes romances."

Também usa-se aquele quando queremos nos refereir  em um passado remoto:

"Em 1922 aconteceu a Semana de Arte Moderna; naquela época, havia muitos poetas eminentes."


Portanto no fragmento:

É aí que se insere a sua famosa distinção entre vontade geral e vontade de todos. Aquela "só diz respeito ao interesse comum; a outra, ao interesse privado

"Aquela" está se referindo à "vontade geral".

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