O autor do texto se vale de citações de Carlos Drummond de ...

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Q209219 Português
Atenção: A questão refere-se ao texto seguinte.


                                        A dor como destino

              Outro dia, folheando desavisadamente um livro de Schopenhauer (há autores que jamais devemos frequentar desavisadamente...), deparei-me com este trecho: 

             Trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda vida a sorte da maioria das pessoas. De fato: se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana? Que se transfira o homem a um país utópico, em que tudo cresça sem ser plantado, em que as aves revoem já assadas, e cada um encontre logo sua bem-amada. Ali os homens morrerão de tédio ou se enforcarão; promoverão guerras, massacres e assassinatos para se proporcionarem mais sofrimento do que o posto pela natureza.
           Será mesmo que sofremos porque precisamos? É da nossa natureza ocupar-nos com nossos desejos insatisfeitos, sem os quais vivemos infelizes pela falta de uma causa para viver? Nosso grande poeta Drummond, um schopenhaueriano empedernido, chegou a escrever: “Estamos para doer, estamos doendo". E outro Andrade, o Mário, garantiu-nos: “A própria dor é uma felicidade". 
           De minha parte modestíssima, ouso dizer: se um dia me sentir absolutamente feliz, tentarei não me matar. Talvez também não conte para ninguém, para que não me matem. De inveja. 


                                                                                                                   (Bráulio Ventura, inédito






O autor do texto se vale de citações de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade para
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a função discursiva das citações como reforço intertextual da tese anterior. Isso fica ativado pelo trecho obrigatório: "Nosso grande poeta Drummond, um schopenhaueriano empedernido, chegou a escrever: “Estamos para doer, estamos doendo". E outro Andrade, o Mário, garantiu-nos: “A própria dor é uma felicidade"." Como Drummond é explicitamente alinhado a Schopenhauer e Mário é acrescentado em sequência de continuidade, as citações não contestam a tese sobre a dor, mas mostram que ela ecoa em outras formulações, o que conduz à alternativa E.

Tema central: função das citações
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque lê oposição onde o texto marca concordância. O trecho "um schopenhaueriano empedernido" elimina a hipótese de Drummond ser citado contra Schopenhauer, e a entrada de Mário de Andrade na sequência mantém essa continuidade argumentativa.
B
Errada
Está errada por atribuir às citações uma função que o texto não lhes dá. Não há discussão sobre "melhores sentimentos" nem sobre a poesia como iluminação sentimental; o conteúdo citado gira especificamente em torno da dor como componente da existência humana.
C
Errada
Está errada porque projeta no texto uma valoração positiva da Natureza que não aparece. A menção à natureza ocorre no excerto de Schopenhauer, em "mais sofrimento do que o posto pela natureza", sem qualquer construção de natureza como "mãe e amiga dos homens".
D
Errada
Está errada porque inverte o sentido das citações. "Estamos para doer, estamos doendo" e "A própria dor é uma felicidade" não rejeitam justificativas para a dor; ao contrário, formulam a dor como algo integrado à condição humana, em convergência com a reflexão anterior.
E
Certa
A alternativa E está correta porque as duas citações são incorporadas ao texto como vozes convergentes com a reflexão antes exposta sobre a dor na condição humana. A expressão "um schopenhaueriano empedernido" vincula Drummond diretamente ao pensamento de Schopenhauer, e a sequência "chegou a escrever" / "garantiu-nos" introduz exemplos que prolongam a mesma linha argumentativa. Assim, o autor usa os poetas para mostrar que a tese filosófica reaparece em formulações diferentes, e não para refutá-la.
Pegadinha da questão
A banca explora a falsa impressão de que a pergunta "Será mesmo que sofremos porque precisamos?" introduz refutação. Mas o desenvolvimento posterior e, sobretudo, a expressão "schopenhaueriano empedernido" mostram alinhamento com a tese de Schopenhauer, não combate a ela.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique o verbo e a expressão que introduzem a citação: aqui, eles indicam continuidade argumentativa, não contraste.
  • Quando o texto nomeia um autor citado como adepto de outro pensamento, isso bloqueia leitura de oposição entre as vozes.
  • Não trate frase poética ou paradoxal como discordância automática; primeiro observe se ela reformula a mesma ideia central em outra linguagem.

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Comentários

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"nosso grande poeta Drummond, um schopenhaueriano..." 
Ouso discordar do gabarito desta questão, a meu ver mal forumulada, pois a própria letra "e" também está incorreta. Não há elementos no texto que indiquem que a tese pode levar a "formulações outras e variadas". A única informação que o texto traz é a de que o Drummond pode ter sido influenciado pelo texto, já que era um "Schopenhaueriano", qualidade que não pode ser estendida ao Mário de Andrade. Não há ligação entre este último autor citado e o texto escrito por Schopenhauer. Logo, não se pode dizer que o Mário de Andrade formulou sua frase sob a influência do texto cujo fragmento foi colacionado. Ademais formulações "outras e variadas" deveriam, no mínimo, destoar da ideia inicial, o que não se vê nas frases negritadas, uma vez que as expressões confirmam a tese de schopenhauer. Essa é a minha visão. Alguém concorda ou refuta? 

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