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Q3614736 Português
A volta do filho pródigo


Cerca de 30 mil crianças e adolescentes fogem todo ano no Brasil. Oitenta por cento voltam para casa. Dificuldades com a família e busca de independência são as causas mais frequentes das fugas. A volta é acompanhada de arrependimento.

   Meus pais não me compreendem, ele pensava sempre. As brigas, em casa, eram frequentes. Os pais reclamavam do som muito alto, das roupas estranhas, das tatuagens. Revoltado, decidiu fugir de casa. Sabia que, para seus velhos, aquilo seria uma dura prova: afinal, ele era filho único. Mas estava na hora de mostrar que não era mais criança. Estava na hora de dar a eles uma lição. Botou algumas coisas na mochila e, uma madrugada, deixou o apartamento. Tomou um ônibus e foi para uma cidade distante, onde tinha amigos.

   Ali ficou por vários meses. Não foi uma experiência gratificante, longe disso. Os amigos só o ajudaram na primeira semana. Depois disso ficou entregue à própria sorte. Teve de trabalhar como ajudante de cozinha, morava num barraco, foi assaltado várias vezes, até fome passou. Finalmente resolveu voltar. Mandou um e-mail, dizendo que estaria em casa daí a dois dias. E, lembrando que a mãe era uma grande leitora da Bíblia, assinou-se como “filho pródigo”.

  Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava. Como já não tinha a chave do apartamento, bateu à porta. E aí a surpresa, a terrível surpresa.

   O homem que estava ali não era seu pai. Na verdade, ele nem sequer o conhecia. Mas o simpático senhor sabia quem era ele: você deve ser o Fábio, disse, e convidou-o a entrar. Explicou que tinha comprado o apartamento em uma imobiliária:

   – Seus pais não moram mais aqui. Eles se separaram. A causa da separação tinha sido exatamente a fuga do Fábio:

   – Depois que você foi embora, eles começaram a brigar, um responsabilizando o outro por sua fuga. Terminaram se separando. Seu pai foi para o exterior. De sua mãe, não sei. Parece que também mudou de cidade, mas não sei qual.

   Fábio não aguentou mais: caiu em prantos. O homem se aproximou dele, abraçou-o. Entre aqui no seu antigo quarto, disse, tenho uma coisa para lhe mostrar. Ainda soluçando, Fábio entrou. E ali estavam, claro, o pai e a mãe, ambos rindo e chorando ao mesmo tempo. Tinha sido tudo uma encenação. Abraçaram-se, Fábio jurando que nunca mais sairia de casa.

   A verdade, porém, é que não gostou da brincadeira, mesmo que ela tenha lhe ensinado muita coisa. Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo. Se fizeram, é por uma única razão: não o compreendem. Um dia, ele terá de sair de casa. Mais tarde, naturalmente, quando for homem, quando tiver sua própria casa. Só que aí levará os pais junto. Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.


(SCLIAR, Moacyr. Folha de São Paulo. São Paulo. Em: 04/04/2005. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: julho de 2025.)
Nos fragmentos a seguir, os trechos destacados exercem a mesma função, EXCETO em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito comentado – Função sintática dos termos destacados

Tema central: A questão aborda função sintática dos termos destacados: sujeito e objeto direto, elementos essenciais para compreender a estrutura das orações conforme a norma-padrão da Língua Portuguesa.

Regra-chave: O sujeito é quem realiza ou sofre a ação verbal, enquanto o objeto direto é o termo sobre o qual recai a ação de um verbo transitivo direto.

Análise das alternativas:

A) “Mandou um e-mail, [...]”

O termo destacado (um e-mail) é objeto direto do verbo “mandou”. Pergunta: Mandou o quê? – Resposta: um e-mail. Portanto, completa o sentido do verbo “mandar” sem preposição.
Referência: CUNHA & CINTRA: Objeto direto completa verbo transitivo direto.

B) “Ainda soluçando, Fábio entrou.”

O termo (Fábio) é sujeito do verbo “entrou”. Ele realizou a ação.

C) “As brigas, em casa, eram frequentes.”

O termo as brigas exerce a função de sujeito do verbo “eram”. É sobre elas que se faz a afirmação.

D) “Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo.”

O termo os pais é sujeito do verbo “podiam”. Eles são os agentes da ação.

Justificativa da correta (A):

Enquanto “um e-mail” é objeto direto de “mandou”, os outros termos destacados (Fábio, as brigas, os pais) são sujeitos dos respectivos verbos. Ou seja, a função sintática é diferente apenas em A.

Análise das incorretas:

- B, C e D: Todas destacam termos com função de sujeito. Nenhuma está fora do padrão solicitado.

Estratégia para provas: Ao identificar a função, pergunte: Quem faz a ação? (sujeito). O que é alvo direto da ação? (objeto direto). Fique atento: verbos com e sem preposição exigem objetos diferentes!

Referência: BECHARA; CUNHA & CINTRA – conceito de sujeito e objeto direto.

Resumo: Alternativa A se distingue por apresentar objeto direto. As demais destacam sujeitos.

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Comentários

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  • A) “Mandou um e-mail, [...]”
  • O verbo é "mandou". O sujeito está oculto (ele/ela). Quem manda, manda algo. O termo "um e-mail" é o complemento do verbo, respondendo à pergunta "mandou o quê?".
  • Função: Objeto Direto.
  • B) “Ainda soluçando, Fábio entrou.”
  • O verbo é "entrou". Quem praticou a ação de entrar? "Fábio".
  • Função: Sujeito.
  • C) “As brigas, em casa, eram frequentes.”
  • O verbo é "eram". O que "eram frequentes"? "As brigas".
  • Função: Sujeito.
  • D) “Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo.”
  • O verbo principal é a locução "podiam ter feito". Quem "não podia ter feito aquilo"? "Os pais".
  • Função: Sujeito.

Portanto, os trechos em B, C e D exercem a função de sujeito, enquanto o trecho em A exerce a função de objeto direto, sendo esta a exceção.

GABARITO: A

Diferentemente das outras alternativas, além do trecho “um e-mail” possuir função sintática de objeto direto do verbo “mandou”, vale destacar e diferenciar que na frase “mandou um e-mail”, o sujeito é oculto desinencial/elíptico.

Sujeito oculto: existe, mas não está escrito; dá para saber pelo contexto ou pela desinência do verbo.

Sujeito indeterminado: não se sabe quem é; usa-se “se” ou verbo na 3ª pessoa do plural.

Exemplo rápido:

  • Oculto: Mandou um e-mail. → “Ele/ela” (oculto)
  • Indeterminado: Disseram que a festa foi ótima. → não se sabe quem disse

um email: complemento verbal

as demais: sujeito

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