A observação de que há autores que jamais devemos frequent...

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Q209218 Português
Atenção: A questão refere-se ao texto seguinte.


                                        A dor como destino

              Outro dia, folheando desavisadamente um livro de Schopenhauer (há autores que jamais devemos frequentar desavisadamente...), deparei-me com este trecho: 

             Trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda vida a sorte da maioria das pessoas. De fato: se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana? Que se transfira o homem a um país utópico, em que tudo cresça sem ser plantado, em que as aves revoem já assadas, e cada um encontre logo sua bem-amada. Ali os homens morrerão de tédio ou se enforcarão; promoverão guerras, massacres e assassinatos para se proporcionarem mais sofrimento do que o posto pela natureza.
           Será mesmo que sofremos porque precisamos? É da nossa natureza ocupar-nos com nossos desejos insatisfeitos, sem os quais vivemos infelizes pela falta de uma causa para viver? Nosso grande poeta Drummond, um schopenhaueriano empedernido, chegou a escrever: “Estamos para doer, estamos doendo". E outro Andrade, o Mário, garantiu-nos: “A própria dor é uma felicidade". 
           De minha parte modestíssima, ouso dizer: se um dia me sentir absolutamente feliz, tentarei não me matar. Talvez também não conte para ninguém, para que não me matem. De inveja. 


                                                                                                                   (Bráulio Ventura, inédito






A observação de que há autores que jamais devemos frequentar desavisadamente justifica-se em virtude de que há textos, como o transcrito de Schopenhauer, que
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é inferir, do comentário metatextual “há autores que jamais devemos frequentar desavisadamente...” e do excerto de Schopenhauer, uma visão pessimista e generalizante da existência humana, apresentada com força argumentativa e atração intelectual. Essa combinação sustenta a alternativa que identifica teses sedutoras e a ênfase na negatividade da vida.

Tema central: pessimismo existencial
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o excerto não oferece ensinamento prático nem orientação útil para viver melhor. O que ele formula é uma interpretação pessimista da condição humana, marcada por “aflição”, “necessidade”, “tédio” e “sofrimento”. Há incompatibilidade semântica entre “lição pragmática e útil” e o teor existencialmente sombrio do texto.
B
Errada
Está errada porque o texto não cria esperança, nem sequer falsa. A referência ao “país utópico” não funciona como promessa, mas como hipótese usada para negar a felicidade duradoura: mesmo ali, “os homens morrerão de tédio ou se enforcarão”. A alternativa contraria diretamente a construção do pessimismo no trecho.
C
Errada
Está errada porque o excerto não desvia da razão por sentimentalismo. A passagem se organiza como tese filosófica argumentada sobre a natureza humana e o sofrimento. O tema da dor pode sugerir emotividade, mas o modo de construção do texto é especulativo e racional, não sentimental.
D
Certa
A alternativa D traduz corretamente o motivo pelo qual certos autores não devem ser lidos “desavisadamente”: o trecho de Schopenhauer apresenta uma tese filosoficamente atraente e contundente segundo a qual o sofrimento não é acidental, mas constitutivo da vida humana. Isso aparece tanto na afirmação de que “Trabalho, aflição, esforço e necessidade” marcam a vida quanto na radicalização do exemplo utópico, em que, mesmo sem carências, os homens tenderiam ao tédio e à produção de mais sofrimento. O núcleo da alternativa está certo porque capta ao mesmo tempo a força de convencimento da tese e seu conteúdo negativo.
E
Errada
Está errada porque introduz um tema ausente do texto: justiça humana. O excerto não discute instituições, equidade ou avaliação jurídica; discute a existência humana em chave pessimista. Trata-se de deslocamento temático indevido.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar a menção ao “país utópico” como sinal de esperança, quando ela reforça o pessimismo, e entender “sedutoras” como apelo emocional positivo, quando o termo aponta para a força de atração intelectual de uma tese sombria.
Dica para questões semelhantes
  • Relacione o comentário inicial do narrador ao trecho citado em seguida; muitas vezes o sentido da observação depende do exemplo textual reproduzido.
  • Observe o campo semântico dominante do excerto; aqui, a sucessão de termos ligados a dor, tédio e sofrimento define o eixo interpretativo.
  • Quando a alternativa usar palavra inferida, como “sedutoras”, verifique se ela resume fielmente o efeito do texto, e não se aparece literalmente nele.

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GABARITO D.  d) formulam teses sedutoras, relevando a negatividade da vida.
Letra D.
Porque o autor não concorda com a visão pessimista dos autores que ele cita em seu texto e nos leva a indagar-nos se a dor é, realmente, uma necessidade do ser humano.
D) formulam teses sedutoras, relevando a negatividade da vida.
Neste caso o verbo relevar esta no sentido de DAR RELEVO.
Então, conforme o autor do texto, há autores que jamais devemos frequentar desavisadamente, pois eles DÃO REVELO a negatividade da vida.
At.
Não acho que seja essa a justificativa de fato que o autor quer dar ao texto. O autor usa de uma linguagem sarcástica e complexa. A vida é muito mais diversa do que essas alternativas dicotômicas/maniqueístas. Passo raiva fazendo essas questões de interpretação de texto. Parece que os examinadores se esforçam para estragar o verdadeiro sentido dos textos. É tudo tão pobre... Infelizmente, não cabe nenhuma compreensão dialética nesse mundo cartesiano de alternativas.

O fato de Schopenhauer ter atraído dois nomes de prestigio da literatura brasileira ( Drummond e Mário de Andrade) pode ter levado a banca a usar o termo teses sedutoras. Embora não concorde com ele ( a meu ver a expressão teses influentes seria mais apropriada), o examinador - talvez baseado em um critério pessoal - tenha-o usado para se referir ao transcrito do filósofo.

No entanto, ao empregar a frase relevando a negatividade, a banca já dá uma dica do que pede o enunciado: a frase  "trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda vida a sorte da maioria das pessoas", mais adiante, reforça o caráter negativo na mensagem do pensador alemão. A título de curiosidade - Arthur Schopenhauer é um dos principais representantes do pessimismo filosófico; sua frase viver é sofrer é bem conhecida.

De todas as alternativas, a penúltima é a que, no meu entendimento, melhor se coaduna com o comando da questão.

Gabarito, letra D.

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