Considere o poema a seguir, de Agostinho Neto, primeiro pre...

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Q3917636 Português

Considere o poema a seguir, de Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola: 


(…)

Hoje somos

as crianças nuas das sanzalas do mato

os garotos sem escola a jogar a bola de trapos

nos areais ao meio-dia somos nós mesmos

os contratados a queimar vidas nos cafezais

os homens negros ignorantes

que devem respeitar o homem branco

e temer o rico

somos os teus filhos

dos bairros de pretos

além aonde não chega a luz elétrica

os homens bêbedos a cair

abandonados ao ritmo dum batuque de morte

teus filhos com fome

com sede com vergonha de te chamarmos Mãe

com medo de atravessar as ruas

com medo dos homens

nós mesmos



Amanhã

entoaremos hinos à liberdade

quando comemorarmos

a data da abolição desta escravatura

(…)


Neto, Agostinho. Sagrada Esperança. 9a ed. Lisboa: Sá da Costa, 1979, p. 9-10.

 O poema busca evocar o(a):


Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o campo semântico da opressão colonial no poema, explicitado por “os contratados a queimar vidas nos cafezais / os homens negros ignorantes / que devem respeitar o homem branco / e temer o rico (...) Amanhã / entoaremos hinos à liberdade / quando comemorarmos / a data da abolição desta escravatura”. Esse conjunto de marcas textuais orienta a leitura para a denúncia da exploração e da dominação colonial, o que confirma a alternativa B.

Tema central: opressão colonial e exploração africana
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa reduz o poema a um problema de infraestrutura urbana, mas o texto não se organiza em torno disso. Embora apareça “além aonde não chega a luz elétrica”, esse dado é apenas um componente de uma denúncia mais ampla, que inclui “os contratados a queimar vidas nos cafezais”, “o homem branco”, “temer o rico” e “escravatura”. Além disso, o poema menciona também “sanzalas do mato” e “cafezais”, o que afasta a leitura centrada apenas em cidades.
B
Certa
A alternativa B sintetiza o eixo temático construído pelo poema. A voz coletiva de “somos” e “nós mesmos” apresenta um povo submetido à miséria, à exploração do trabalho, à hierarquia racial, ao medo, à fome e à “escravatura”. Assim, o poema evoca o sofrimento e a exploração vividos pelos povos africanos sob o domínio colonial europeu.
C
Errada
A leitura proposta contraria o valor contextual de “Mãe”. O poema não apresenta memória materna protetora; ao contrário, diz “com vergonha de te chamarmos Mãe”, em meio a “fome”, “sede” e “medo”. Logo, a referência não sustenta ideia de proteção afetiva diante da vida adulta, mas integra a expressão do sofrimento coletivo.
D
Errada
A alternativa introduz um contexto ausente do texto: imigração africana na Europa. O poema situa a opressão no espaço africano colonizado, com marcas como “sanzalas do mato”, “cafezais”, “bairros de pretos” e a submissão ao “homem branco”. Não há nenhuma marca textual de deslocamento migratório nem de vida na Europa.
E
Errada
A alternativa é eliminada por inserir referências extratextuais sem apoio no poema: ajuda humanitária, países capitalistas e Guerra Fria não são mencionados. O texto trata de exploração, racismo, fome, medo e escravatura; não de assistência internacional ou disputa geopolítica.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de tomar um elemento secundário como tema central, especialmente “não chega a luz elétrica”, ou de deslocar a denúncia racial para contextos externos ao poema. O eixo decisivo, porém, está na articulação entre exploração, submissão ao “homem branco” e “escravatura”.
Dica para questões semelhantes
  • Em perguntas sobre tema central, procure o campo semântico que mais se repete e organiza o texto inteiro, não um detalhe isolado.
  • Quando a alternativa acrescentar contexto histórico não verbalizado no texto, elimine-a por extrapolação.
  • Observe se a voz do texto é individual ou coletiva; aqui, “somos” e “nós mesmos” indicam denúncia de um povo, não experiência pessoal.
  • Leia palavras afetivamente ambíguas pelo contexto imediato; “Mãe”, aqui, aparece ligada a vergonha e privação, não a proteção.

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