Considere o seguinte trecho hipotético, formulado a partir d...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q4320499 Português
Saúde mental e os limites do trabalho contemporâneo


   No último ano, transtornos mentais e comportamentais motivaram mais de meio milhão de benefícios previdenciários. Foram 546 mil, um crescimento de 15,66% em relação a 2024. Os dados do Ministério da Previdência Social, por si só, dimensionam um problema que o país já não consegue ignorar – e ajudam a compreender por que a atualização da NR-1, norma regulamentadora do Ministério do Trabalho sobre Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, chega em momento oportuno.

  Cansaço permanente, conexão sem pausa, medo de errar, metas abusivas e a sensação de que o trabalho perdeu propósito não são custos normais da eficiência. Transformadas em rotina, essas situações revelam a necessidade de repensar a própria forma de organizar o trabalho.

  Durante décadas, a proteção à saúde do trabalhador foi associada aos perigos físicos mais evidentes: máquinas, quedas, ruídos, agentes químicos e acidentes. Esses riscos seguem presentes e exigem atenção rigorosa. Mas o trabalho tornou-se mais complexo. O desgaste já não decorre apenas do esforço corporal. Nasce da pressão por desempenho, da hiperconectividade, da instabilidade, do monitoramento digital e de outros fatores contemporâneos.

  A inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais na lógica preventiva da NR-1 deve ser compreendida nesse contexto. A ideia não é tratar todo desconforto profissional como risco ocupacional, nem reduzir a legitimidade da cobrança responsável por resultados, mas reconhecer que certas formas de organização podem afetar a saúde mental de quem trabalha.

  Produtividade, inovação, responsabilidade e cobrança legítima fazem parte da vida profissional. O trabalho envolve tarefas, objetivos e compromissos. Mas a busca por eficiência não pode transformar a organização do trabalho em um mecanismo de desgaste das pessoas que o realizam.

   Esses fatores não dizem respeito a meras sensibilidades individuais. Dizem respeito ao modo como o trabalho é distribuído, cobrado, supervisionado e sustentado ao longo do tempo. Quando sobrecarga, insegurança, assédio, avaliação algorítmica de desempenho e jornadas que se estendem por mensagens de celular passam a compor a rotina, o problema deixa de ser apenas pessoal e passa a envolver a estrutura da organização.

   A comparação com uma construção ajuda a tornar isso mais claro. Uma obra pode parecer correta no papel, mas apresenta problemas quando sua execução ignora o peso suportado, o uso contínuo, a qualidade dos materiais ou as condições reais do terreno. Nem sempre o problema aparece de uma vez; nem tudo desmorona no primeiro sinal de desgaste. Algo semelhante ocorre no trabalho: bons resultados imediatos podem esconder desgaste, perda de confiança e adoecimento entre aqueles que dão vida à organização.

  Por isso, a NR-1 reforça uma passagem importante: da reação ao dano já consumado para a prevenção das condições que podem produzi-lo. A pergunta deixa de ser apenas “quem adoeceu?” e “como compensar isso?” e passa a incluir “como o trabalho está sendo estruturado?”. Essa mudança desloca o sofrimento psíquico do campo exclusivamente particular para a responsabilidade coletiva pelas condições reais de trabalho.

   O tema interessa aos trabalhadores porque dignidade não se resume à ausência de acidente físico. Interessa às organizações, porque nenhum modelo produtivo se mantém por muito tempo sobre afastamentos, rotatividade, medo e perda de confiança. Interessa ao país, porque desenvolvimento econômico e proteção social devem caminhar juntos.

   Nenhuma norma resolve, sozinha, os desafios do trabalho contemporâneo. A NR-1 não é exceção. Seu mérito é abrir caminho para que a saúde mental seja tratada com o mesmo rigor preventivo historicamente dirigido aos riscos físicos.

   A Justiça do Trabalho, por vocação e experiência histórica, tem o preparo institucional para enfrentar os conflitos que essa nova agenda trará. Mas o ponto decisivo se dá antes, no modo como cada organização decide tratar quem dela faz parte.


(Por: Valdir Florindo. Saúde mental e os limites do trabalho contemporâneo. Folha de S. Paulo, 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/06/saude-mental. Acesso em: junho de 2026. Adaptado.)
Considere o seguinte trecho hipotético, formulado a partir do 11º§ do texto:

“A Justiça do Trabalho manifestou-se favoravelmente ___ sua intervenção nos conflitos organizacionais, demonstrando apoio total ___ essa nova agenda preventiva.”
Tendo em vista a regência dos termos, a possibilidade de emprego do artigo feminino e as regras de ocorrência do sinal indicativo de crase, analise as afirmativas a seguir.

I. No primeiro espaço, o emprego do sinal indicativo de crase é facultativo, pois o advérbio “favoravelmente” rege a preposição “a”, e o pronome possessivo “sua” admite, na norma-padrão, a presença facultativa do artigo feminino.
II. No segundo espaço, emprega-se apenas a preposição “a”, pois o pronome demonstrativo “essa” ocorre sem artigo feminino, o que impede a formação da crase.
III. No primeiro espaço, a ausência do sinal indicativo de crase decorre da inexistência de artigo feminino diante do pronome possessivo “sua”, circunstância prevista como regra para esse contexto.
IV. O emprego ou a ausência do sinal indicativo de crase no primeiro espaço depende da possibilidade de ocorrência do artigo feminino diante do pronome possessivo, desde que seja mantida a regência exigida pelo termo antecedente.

Está correto o que se afirma apenas em
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O sinal grave resulta da fusão da preposição exigida com o artigo: diante de “sua intervenção”, o artigo é facultativo; diante de “essa nova agenda preventiva”, não ocorre artigo. Como a ausência do artigo no primeiro caso não é obrigatória, III é falsa, e a resposta é C.

Tema central: Crase, regência e artigo
Análise das alternativas
A
Errada
Embora I e II sejam verdadeiras, falta IV, também correta: no primeiro espaço, a presença do artigo produz “à”; sua ausência mantém apenas a preposição “a”. A alternativa apresenta uma combinação incompleta.
B
Errada
Embora I e IV sejam verdadeiras, falta II. A construção exige “apoio a”, e o demonstrativo “essa” não admite artigo feminino anteposto. Portanto, o segundo espaço recebe apenas “a”, sem crase.
C
Certa
A alternativa C reúne todas e somente as afirmativas corretas. I reconhece que “favoravelmente” exige a preposição “a” e que o artigo diante de “sua intervenção” é facultativo. II identifica que “apoio” exige “a”, mas “essa” não admite artigo feminino anteposto, impedindo a crase. IV explica corretamente que a alternância entre “a” e “à” no primeiro espaço depende da presença do artigo, sem eliminar a preposição exigida.
D
Errada
Inclui III e exclui I indevidamente. O artigo diante de “sua intervenção” é facultativo, não proibido. Na leitura adotada pelo gabarito, a expressão “circunstância prevista como regra para esse contexto.” apresenta a ausência do artigo como obrigatória, tornando III falsa. A relação entre ausência de artigo e ausência de crase, por si só, não é o erro; o erro é transformar essa opção em imposição.
Pegadinha da questão
A facultatividade está no artigo diante de “sua intervenção”, não na preposição exigida por “favoravelmente”. III transforma a ausência possível do artigo em regra obrigatória; além disso, A e B reúnem afirmativas verdadeiras, mas omitem outra correta.
Dica para questões semelhantes
  • Separe a exigência da preposição da possibilidade de artigo: a regência, isoladamente, não determina a crase.
  • Diante de possessivo feminino adjetivo no singular, verifique se o artigo é facultativo; neste caso, a preposição permanece com ou sem acento grave.
  • Diante de “essa”, não acrescente artigo: o substantivo feminino posterior não basta para autorizar crase.
  • Em questões de combinação, confira se a alternativa inclui todas as afirmativas corretas, e não apenas algumas delas.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

GAB: C

_________________________________

Crase facultativa se dá em três casos:

ATÉ SUA MARIA

  • 1 - Após a preposição até

Ex: Fui até a secretaria / Fui até à secretaria



  • 2 - Diante de pronomes possessivos femininos no singular (sua, minha, nossa)

Ex: Referi-me a sua professora / Referi-me à sua professora

  • 3 - Antes de nomes próprios femininos

Ex: Entregarei tudo a Maria / Entregarei tudo à Maria 

I. CORRETA: Descreve perfeitamente o caso de crase facultativa no 1º espaço: a regência do advérbio "favoravelmente" pede a preposição "a", e o pronome possessivo "sua" admite o artigo feminino opcionalmente.

II. CORRETA: Explica com precisão o 2º espaço: usa-se apenas preposição "a", pois o pronome demonstrativo "essa" repele o artigo feminino, impedindo o fenômeno da crase.

III. INCORRETA: Afirma que a ausência de crase decorre da "inexistência" de artigo como regra obrigatória. Na verdade, a presença/ausência do artigo é facultativa, e não uma proibição ou inexistência absoluta.

IV. CORRETA: Sintetiza a lógica da crase facultativa diante de possessivo: a ocorrência da crase fica condicionada à presença do artigo opcional, contanto que o termo antecedente continue exigindo a preposição.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo