O texto problematiza a relaç...

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O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Estudo citado por vinte e cinco anos para defender agrotóxico mais usado no Brasil foi invalidado


Um estudo publicado há cerca de vinte e cinco anos, que afirmava que o agrotóxico glifosato não oferecia riscos à saúde humana nem causava câncer, foi excluído em dezembro da revista científica que o havia divulgado. O artigo, produzido no fim da década de 1990, tornou-se por décadas uma das principais referências para embasar decisões regulatórias favoráveis ao uso do produto.


O glifosato é um dos agrotóxicos mais utilizados no mundo, especialmente no Brasil e nos Estados Unidos. Amplamente associado ao cultivo de soja transgênica, o herbicida teve papel decisivo na expansão da produção agrícola brasileira e na consolidação do país como maior produtor mundial do grão.


Segundo comunicado da revista, a exclusão ocorreu devido a problemas considerados graves o suficiente para comprometer a integridade acadêmica do trabalho e a confiabilidade de suas conclusões. Entre as falhas apontadas estão a participação de funcionários da Monsanto na elaboração do artigo e o fato de ele se apoiar essencialmente em um único estudo produzido pela própria empresa, historicamente a principal fabricante do glifosato, comercializado sob a marca Roundup e hoje pertencente à Bayer.


A publicação reconheceu que o artigo exerceu influência significativa em decisões regulatórias relacionadas ao glifosato por décadas. A retratação foi justificada pela falta de transparência sobre a autoria de trechos do texto e pela incerteza quanto à independência das conclusões, especialmente na afirmação de que o glifosato não apresenta potencial cancerígeno. Também foram mencionadas decisões judiciais que indicam a possibilidade de compensação financeira aos autores, informação que não constava no artigo original.


No Brasil, em 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária concluiu sua reavaliação toxicológica do glifosato e decidiu manter sua autorização de uso, alegando inexistência de evidências científicas conclusivas de que cause câncer, mutações genéticas ou má-formação fetal. Nos Estados Unidos, o produto segue considerado seguro pelas autoridades ambientais, com nova reavaliação prevista para 2026 após ações judiciais de entidades ambientais e de defesa de trabalhadores. Na União Europeia, a aprovação do glifosato foi renovada por mais dez anos em 2023.


Essas posições contrastam com a conclusão da Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde, que em 2015 classificou o glifosato como "provavelmente cancerígeno" com base em ampla revisão de estudos científicos.


Em 2018, a Monsanto foi condenada pela Justiça dos Estados Unidos a indenizar um trabalhador que atribuiu o desenvolvimento de câncer ao uso de produtos à base de glifosato. Desde então, a Bayer firmou acordos bilionários para encerrar milhares de processos relacionados ao Roundup, sem admissão de culpa, e manteve a comercialização do herbicida.


O glifosato é o princípio ativo de diversos herbicidas. Introduzido no mercado na década de 1970, teve sua patente expirada em 2000 e passou a ser fabricado por diferentes empresas. É utilizado na agricultura, na silvicultura, em áreas industriais e em jardins, embora alguns países e cidades tenham restringido ou proibido seu uso em espaços públicos. Por ser não seletivo, elimina a maioria das plantas, o que levou ao desenvolvimento de culturas geneticamente modificadas para resistir à substância, como a soja. Sua aplicação costuma ocorrer antes do plantio, para reduzir a competição com plantas daninhas.


https://www.bbc.com/portuguese/articles/clymlk6ge1ko.adaptado.

O texto problematiza a relação entre produção científica, interesses institucionais e decisões regulatórias, evidenciando como fragilidades metodológicas e éticas podem invalidar estudos influentes sem produzir, de modo automático, alterações normativas.


De acordo com o texto-base, assinale a alternativa correta.


Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é que o texto atribui a retratação a falhas de integridade acadêmica e de confiabilidade das conclusões, enquanto informa a manutenção e a renovação de autorizações regulatórias em diferentes jurisdições; assim, a exclusão do estudo não implica revisão normativa imediata.

Tema central: ciência e regulação
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui efeito direto e vinculante à classificação de 2015 como "provavelmente cancerígeno", mas o texto afirma o contrário ao registrar que as posições regulatórias "contrastam" com essa conclusão. Se há contraste entre a classificação da IARC/OMS e as decisões regulatórias, não se pode dizer que ela passou a orientá-las de forma direta e vinculante.
B
Errada
Está errada porque troca a causa expressa da retratação por outra não afirmada no texto. A exclusão do artigo ocorreu por problemas de integridade acadêmica, falta de transparência, participação de funcionários da Monsanto e dependência de estudo da própria empresa. As decisões judiciais são mencionadas apenas como elemento que "indicam a possibilidade de compensação financeira", e não como comprovação científica conclusiva da relação causal entre glifosato e câncer.
C
Certa
A alternativa C está correta porque preserva exatamente a distinção central construída pelo texto. De um lado, o estudo perde legitimidade científica, já que sua exclusão decorreu de falhas de integridade acadêmica, falta de transparência e incerteza quanto à independência das conclusões. De outro, o texto informa que as autorizações regulatórias continuaram vigentes em diferentes jurisdições: no Brasil, a autorização foi mantida; nos Estados Unidos, o produto segue considerado seguro; na União Europeia, a aprovação foi renovada. Portanto, a retratação atinge a credibilidade do estudo, mas não implica, por si só, revisão imediata das autorizações regulatórias.
D
Errada
Está errada porque extrapola o texto ao afirmar invalidade retroativa das decisões regulatórias e comprometimento automático de sua legalidade. O texto diz que o artigo exerceu influência significativa, mas não afirma que ele era a única base dessas decisões nem que sua retratação anula atos anteriores. Ao contrário, informa manutenção, renovação e continuidade de avaliações regulatórias.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre deslegitimação científica de um estudo e revogação normativa automática das decisões regulatórias que, em algum grau, foram influenciadas por ele.
Dica para questões semelhantes
  • Separe os planos do texto: uma conclusão sobre credibilidade científica não equivale automaticamente a efeito jurídico ou regulatório.
  • Verifique os modalizadores e evite transformar termos cautelosos, como "possibilidade", "incerteza" e "provavelmente", em afirmações categóricas.
  • Quando a alternativa disser "direta", "vinculante", "conclusiva" ou "retroativamente", confira se o texto realmente autoriza esse grau de certeza.

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