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Q3457324 Português
Solidários na porta


   Vivemos a civilização do automóvel, mas atrás do volante de um carro o homem se comporta como se ainda estivesse nas cavernas. Antes da roda. Luta com seu semelhante pelo espaço na rua como se este fosse o último mamute. Usando as mesmas táticas de intimidação, apenas buzinando em vez de rosnar ou rosnando em vez de morder.

   O trânsito em qualquer grande cidade do mundo é uma metáfora para a vida competitiva que a gente leva, cada um dentro do seu próprio pequeno mundo de metal tentando levar vantagem sobre o outro, ou pelo menos tentando não se deixar intimidar. E provando que não há nada menos civilizado que a civilização. Mas há uma exceção. Uma pequena clareira de solidariedade no jângal. É a porta aberta. Quando o carro ao seu lado emparelha com o seu e alguém põe a cabeça para fora, você se prepara para o pior. Prepara a resposta. “É a sua!” Mas pode ter uma surpresa.

   — Porta aberta!

   — O quê?

   Você custa a acreditar que nem você nem ninguém da sua família está sendo xingado. Mas não, o inimigo está sinceramente preocupado com a possibilidade da porta se abrir e você cair do carro.

   A porta aberta determina uma espécie de trégua tácita. Todos a apontam. Vão atrás, buzinando freneticamente, se por acaso você não ouviu o primeiro aviso. “Olha a porta aberta!” é como um código de honra, um intervalo nas hostilidades. Se a porta se abrir e você cair mesmo na rua, aí passam por cima. Mas avisaram. Quer dizer, ainda não voltamos ao estado animal.


VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
Para o narrador do texto, nos tempos da civilização do automóvel, a civilidade é demonstrada através de:
Alternativas

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Conteúdo central da questão:
Esta questão avalia a habilidade de interpretação de texto, exigindo que o candidato identifique a ideia principal e compreenda a lógica argumentativa do autor. Destaca a necessidade de perceber qual comportamento, segundo o texto, expressa civilidade no trânsito.

Justificativa da alternativa correta (B):
O texto critica a postura agressiva dos motoristas, equiparando-a ao comportamento selvagem, mas ressalta uma "exceção": informar que a porta do carro ao lado está aberta. Esse gesto revela preocupação com o outro, funcionando como uma "clareira de solidariedade no jângal".
Segundo Koch & Elias (2006), interpretar textos implica captar não só o que está explícito, mas também os sentidos construídos entre as linhas. O texto sugere que, num ambiente muitas vezes hostil, há momentos de civilidade quando o motorista alerta sobre a porta aberta.

A atenção ao contexto e à progressão temática – como orientam os PCN – mostra que esse gesto é uma trégua, um “intervalo nas hostilidades”, sendo a única demonstração de civilidade destacou pelo narrador.

Análise das alternativas incorretas:

A) Compete pelo espaço; comportamento criticado no texto, vinculado ao egoísmo.
C) Intimidações (buzinas, emparelhamentos) são apresentados como atitudes primitivas.
D) Saudações não aparecem nem são sugeridas como prática comum.
E) Xingamentos são exemplos de hostilidade, reiterando a falta de civilidade.

Estrategicamente, atente-se em provas para termos como “demonstração de civilidade”, “exceção” ou “momento de solidariedade”. Eles costumam indicar o núcleo da resposta correta.

Resumo: O texto exemplifica que, apesar do ambiente competitivo, a atitude civilizada é avisar ao próximo sobre um risco. Compreender o contexto, atentos às palavras-chave, é essencial para acertar questões desse tipo.

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