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Q2040969 Português
 Das vantagens de ser bobo


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que não faz alguma coisa, responde: ¨Estou fazendo. Estou pensando.¨
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidades de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos as espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara pra a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: Até tu, Brutus? ¨

Bobo não reclama. Compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Linspector
Entre as concepções de ser bobo que integram a visão de Clarice Lispector, o que o texto mais destaca é:
Alternativas

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Assunto central: Interpretação de texto, com foco na identificação do tema principal.

Nesta questão, o candidato deve reconhecer qual traço essencial, segundo Clarice Lispector, distingue o “bobo” no texto apresentado.

Estratégia de resolução: É fundamental observar as repetições de conceitos, exemplos e frases marcantes associadas ao “bobo”. Trechos-chave mostram que a autora insiste na capacidade de amar do bobo, chegando a dizer: “É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.”

Essas construções reforçam que o amor é tanto causa quanto consequência da essência do bobo. Outros aspectos, como espontaneidade e boa-fé, são mencionados, mas não recebem o mesmo realce temático.

Justificativa da alternativa correta:

D) O amor.
O texto enfatiza várias vezes o vínculo entre o bobo e o amor, apresentando-o como elemento transformador e diferenciador. Esse enfoque supera qualquer menção a insegurança, imoralidade ou instabilidade. Conforme Celso Cunha e Lindley Cintra (2013), a identificação do tema principal exige distinguir dados centrais dos acessórios: aqui, o amor é a base da construção textual.

Análise das alternativas incorretas:

A) A insegurança em defender suas ideias.
Não há, no texto, referência à insegurança; pelo contrário, o bobo é descrito como original, tranquilo e autêntico.

B) A imoralidade.
O texto atribui ao bobo valores como boa-fé, confiança e ingenuidade, mas jamais insinua qualquer traço de imoralidade.

C) A instabilidade.
O “bobo” é apresentado como alguém estável emocionalmente, sereno e despreocupado, contrapondo-se aos “espertos” sempre inquietos.

Dica para provas: Atente para termos repetidos e frases de conclusão ou ênfase no texto. São eles que costumam sintetizar o ponto central da intenção do autor.

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Letra D O amor.

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