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Q1860895 Português
Atenção: Para responder à questão, considere o trecho do livro O elogio do vira-lata e outros ensaios, de Eduardo Giannett.


   A ciência destrói o seu passado. Os clássicos da literatura científica, como os tratados hipocráticos, o Le Monde de Descartes ou a Philosophia Botanica de Lineu, foram obras que marcaram época, mas que a passagem do tempo reduziu à condição de peças de antiquário e objeto de interesse restrito a especialistas em história da ciência. Nenhum cientista que se preze aprende o seu ofício destrinchando os clássicos de sua disciplina. 

    Com a filosofia é diferente. Os clássicos da literatura filosófica, como os diálogos platônicos, as Meditações de Descartes ou o Leviatã de Hobbes, são obras que parecem dotadas do dom da eterna juventude. Embora também se prestem à lupa antiquária do historiador de ideias, elas conseguem de algum modo driblar o tempo e falar diretamente aos espíritos vivos das novas gerações. A filosofia, como a arte, não enterra o seu passado.

     A diferença, é certo, resulta em parte da ausência de um critério bem definido de progresso na história da filosofia. Mas não é só. A consciência da nossa ignorância cresce de mãos dadas com o avanço do saber científico. Como observa com certa malícia Adam Smith na Teoria dos Sentimentos Morais, ao comentar a dificuldade de refutar conclusivamente teorias no campo da ética, a progressividade das ciências naturais também reflete a sua maior vulnerabilidade e propensão ao erro.

(GIANNETTI, Eduardo. O elogio do vira-lata e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2018)
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Comentário sobre o gabarito:

Tema central: Esta questão avalia interpretação de texto, ou seja, sua capacidade de compreender o sentido explícito e implícito das ideias do autor. Isso exige atenção aos mecanismos de coesão (conexão entre ideias) e coerência (lógica e consistência do texto), conforme destacam as gramáticas de Bechara e Cunha & Cintra.

Justificativa da alternativa correta (B):
A ausência de uma concepção rigorosa de progressividade no âmbito da filosofia é uma razão pela qual obras filosóficas parecem resistir à passagem do tempo.

O texto afirma que, enquanto a ciência “destrói o seu passado”, tornando os clássicos meros objetos de estudo histórico, a filosofia preserva sua relevância ao longo das gerações. O autor atribui essa diferença, em parte, à ausência de um critério bem definido de progresso na história da filosofia. Ou seja, não há um avanço linear que torne obsoletos os pensadores do passado filosófico, como ocorre nas ciências.

Essa estratégia de leitura envolve identificar palavras-chave (“diferente”, “critério bem definido de progresso”, “não é só”) e conectivos que evidenciem relações de causa e oposição. Segundo Bechara, essa é uma das principais competências avaliadas em concursos.

Análise das alternativas incorretas:

A) Falsa. O texto informa que o avanço científico “reduz” os clássicos à condição de relíquias, não há previsão de resgate de importância futura.

C) Incorreta. A diferença não se restringe ao critério de progresso; o autor diz “não é só”. Há outros fatores envolvidos.

D) Errada. Não há menção a contaminação da ciência pela falta de critério progressivo presente na filosofia.

E) Incorreta. Afirma exatamente o oposto ao texto: a filosofia não assume a ideia de progressividade, portanto não alcança o tipo de avanço linear científico.

Estratégia para provas: Ao interpretar textos, leia atentamente os trechos que apresentam explicação e contraste (como “com a filosofia, é diferente”). Cuidado com generalizações e oposições nas alternativas; geralmente, o autor apresenta nuances, como nesta questão (“em parte, mas não é só”).

B é a alternativa que respeita com exatidão o argumento de Giannetti e as relações de sentido do texto.

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Gabarito B

Embora também se prestem à lupa antiquária do historiador de ideias, elas (as obras filosóficas) conseguem de algum modo driblar o tempo e falar diretamente aos espíritos vivos das novas gerações. (2° parágrafo).

A diferença, é certo, resulta em parte da ausência de um critério bem definido de progresso na história da filosofia. (3° parágrafo).

Gab B

"A diferença, é certo, resulta em parte da ausência de um critério bem definido de progresso na história da filosofia."

Traduzindo em miúdos: O fato da ciência está sempre buscando o progresso faz com que obras antigas e "refutadas" acabem sendo esquecidas e deixada de lado pelas novas gerações. Isso, ao contrário, não acontece com as obras filosóficas, pois, como diz o texto: "elas conseguem de algum modo driblar o tempo e falar diretamente aos espíritos vivos das novas gerações. A filosofia, como a arte, não enterra o seu passado."

"Com a filosofia é diferente. Os clássicos da literatura filosófica, como os diálogos platônicos, as Meditações de Descartes ou o Leviatã de Hobbes, são obras que parecem dotadas do dom da eterna juventude. Embora também se prestem à lupa antiquária do historiador de ideias, elas conseguem de algum modo driblar o tempo e falar diretamente aos espíritos vivos das novas gerações. A filosofia, como a arte, não enterra o seu passado."

Destaquei os termos correspondentes:

 Com a filosofia é diferente. Os clássicos da literatura filosófica, como os diálogos platônicos, as Meditações de Descartes ou o Leviatã de Hobbes, são obras que parecem dotadas do dom da eterna juventude. Embora também se prestem à lupa antiquária do historiador de ideias, elas conseguem de algum modo driblar o tempo e falar diretamente aos espíritos vivos das novas gerações. A filosofia, como a arte, não enterra o seu passado.

   A diferença, é certo, resulta em parte da ausência de um critério bem definido de progresso na história da filosofia. Mas não é só. A consciência da nossa ignorância cresce de mãos dadas com o avanço do saber científico.

B - a ausência de uma concepção rigorosa de progressividade no âmbito da filosofia é uma razão pela qual obras filosóficas parecem resistir à passagem do tempo.

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