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Q3993757 Português

A PALAVRA COMO LIMITE DO MUNDO



Dizer é delimitar. Sempre que nomeamos algo, traçamos contornos, selecionamos sentidos e, inevitavelmente, excluímos possibilidades. A linguagem, longe de ser um espelho fiel da realidade, funciona como um filtro: organiza o caos do mundo em categorias compreensíveis, ainda que imperfeitas. 


Nesse processo, não apenas comunicamos, mas também construímos aquilo que julgamos compreender. Uma mesma situação pode ser descrita de múltiplas formas, e cada escolha lexical carrega uma perspectiva implícita. Não é por acaso que debates acalorados muitas vezes não decorrem de fatos distintos, mas de palavras diferentes para nomear o mesmo fenômeno.


Há, portanto, uma dimensão de poder na linguagem. Quem nomeia, define; quem define, orienta o olhar. Expressões aparentemente neutras podem carregar juízos de valor, e termos técnicos podem conferir uma aura de legitimidade a ideias que, em essência, não são menos controversas.


Isso não significa que a linguagem deva ser abandonada ou desacreditada, mas compreendida em sua complexidade. Ao tomar consciência de seus mecanismos, o falante torna se menos refém das palavras e mais capaz de utilizá-las com precisão e responsabilidade. 


Entretanto, em um cenário marcado pela pressa e pela simplificação, tende-se a ignorar essa dimensão crítica. Palavras são repetidas sem reflexão, conceitos são utilizados de maneira imprecisa e, pouco a pouco, o discurso perde densidade. Não se trata apenas de falar menos, mas de dizer pior.


Tal empobrecimento não é apenas estilístico. Ele compromete a própria capacidade de pensar, uma vez que o raciocínio se estrutura linguisticamente. Quando o vocabulário se estreita, o pensamento também se contrai, e o mundo, antes múltiplo, parece reduzir-se a versões simplificadas de si mesmo.


Talvez, por isso, o desafio contemporâneo não seja apenas falar, mas reaprender a dizer.

 

No período “Uma mesma situação pode ser descrita de múltiplas formas”, a forma verbal “pode ser descrita” encontra-se na:
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Gabarito: A

Fundamento decisivo: Em "Uma mesma situação pode ser descrita de múltiplas formas", a classificação correta é voz passiva analítica, porque a locução se organiza com auxiliar + particípio e o sujeito é paciente. O verbo modal "pode" apenas acrescenta possibilidade, sem alterar a voz verbal; por isso, a alternativa A é a correta.

Tema central: voz passiva analítica
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque a construção apresenta sujeito paciente e núcleo passivo. "Uma mesma situação" não pratica a ação; ela é o elemento descrito. Na locução "pode ser descrita", o segmento "ser descrita" constitui a passiva analítica, e o verbo modal "pode" apenas acrescenta ideia de possibilidade, sem mudar a voz da oração.
B
Errada
Está errada porque, na voz ativa, o sujeito exerce a ação verbal. No trecho, "Uma mesma situação" não descreve nada; ela recebe a ação de ser descrita. O erro é tratar o sujeito sintático como agente, quando ele é paciente.
C
Errada
Está errada porque a voz reflexiva exige que o sujeito pratique e receba a ação, em geral com pronome reflexivo. Em "pode ser descrita", não há reflexividade nem pronome reflexivo; há apenas um sujeito paciente em construção passiva.
D
Errada
Está errada porque a voz passiva sintética exige verbo com partícula apassivadora "se", como em estrutura do tipo "Descreve-se...". No trecho dado, não há "se"; a passiva é formada por "ser descrita", o que caracteriza passiva analítica.
Pegadinha da questão
A banca explora a presença de "pode", que pode levar a uma leitura apressada de voz ativa. Mas o verbo modal só indica possibilidade; a voz continua passiva por causa de "ser descrita" e do sujeito paciente.
Dica para questões semelhantes
  • Não analise só o primeiro verbo da locução: verifique se há estrutura passiva com "ser" + particípio.
  • Antes de marcar a voz verbal, identifique se o sujeito pratica a ação ou a recebe.
  • Só há passiva sintética quando aparece a partícula apassivadora "se".
  • Verbo modal, como "pode", acrescenta sentido, mas não muda sozinho a voz da oração.

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voz passiva -> O sujeito sofre a ação

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