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Q3989867 Pedagogia
TEXTO: ESSENCIALISMO GENÉTICO


A maioria das características humanas é poligênica, depende da interação de vários genes. Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio, é um bom exemplo

Natalia Pasternak


    Imagine que você tem olhos castanhos e ambos os seus pais têm olhos claros, azuis ou verdes. Quantas vezes você já teria ouvido que não pode ser filho biológico do casal? A crença de que cor dos olhos é uma herança determinada por um único gene, com alelo dominante (castanho) e alelo recessivo (azul ou verde), vem da maneira simplificada como abordamos genética no ensino fundamental e médio. Quem não se lembra do “Aa” e das tabelas de quadradinhos?
   Alguns autores estudam o ensino da genética mendeliana e sua influência na aceitação do chamado essencialismo, ou determinismo, genético. Essa ideia baseia-se no entendimento – enganoso – de que características fisiológicas e comportamentos são produtos lineares de um único gene. Ou seja, haveria um gene para cada característica: o gene da inteligência, por exemplo. O problema é que este tipo de herança é muito raro. A maioria das características humanas é poligênica, depende da interação de vários genes. Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio, é um bom exemplo. Por isso é falso dizer que uma criança de olhos castanhos não pode ter pais de olhos claros.
     O determinismo genético também desconsidera interações com o ambiente. Duas plantas da mesma espécie com o mesmo genoma podem ter alturas diferentes, por exemplo, dependendo do tipo de solo, quantidade de luz e nutrientes.
      E por que isto é um problema? Porque pode induzir a um “fatalismo” e crenças de que características como inteligência, aptidões, comportamentos e até mesmo suscetibilidade para doenças, são inatas, fixas e imutáveis. Estudos mostraram que o entendimento correto de como funciona a herança genética reduz a crença em ideias baseadas em essencialismo genético, como racismo e eugenia. Os autores de uma pesquisa mediram conhecimento básico de genética, nível de crença em determinismo genético, crenças em dominação social, e crenças em eugenia.
      Exemplos de afirmações utilizadas para fazer essas medições incluem “alcoolismo é primariamente causado por fatores genéticos”, “criminosos não deveriam ser autorizados a se reproduzir e deixar descendentes”, e “esterilizar pessoas com características indesejadas pode melhorar gerações futuras”. Os resultados mostraram que quanto maior o entendimento de genética, menor a crença em determinismo, essencialismo, racismo e dominação social de um grupo sobre outro.
       A boa notícia é que é fácil corrigir o essencialismo. Pesquisadores conduziram uma série de experimentos controlados com crianças e adolescentes, alterando a maneira como a hereditariedade era ensinada na escola. Perceberam que nos grupos onde a genética era ensinada do modo tradicional, os alunos desenvolviam crenças deterministas, e nos grupos onde o tema era introduzido com estudos sobre diferenças e semelhanças genéticas entre populações, as crenças eram reduzidas. Os autores ainda testaram uma intervenção para corrigir as crenças deterministas, e concluíram que basta uma série de cinco aulas mostrando a baixa diversidade genética entre indivíduos, e que existe maior diversidade entre grupos do mesmo continente do que comparando continentes diferentes.
     Gregor Mendel, o monge católico do século 19 cujos experimentos com ervilhas deram origem ao modelo simplificado “Aa”, deve ser celebrado e ensinado nas escolas. Mas a genética mendeliana precisa ser ensinada como parte de um contexto maior, e não como a base de toda a genética e da hereditariedade.


Fonte: https://oglobo.globo.com/blogs/a-hora-daciencia/post/2025/07/essencialismo-genetico.ghtml. Acesso em 12/02/2026. Fragmento
Sobre a posição defendida pela autora, é correto afirmar que: 
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O ponto discriminante era verificar se a autora criticava o ensino da genética mendeliana como explicação isolada e tomada como base de toda a hereditariedade, o que no texto aparece como fator que gera crenças deterministas.

Tema central: ensino tradicional da genética mendeliana e essencialismo genético
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto afirma expressamente que Gregor Mendel deve ser celebrado e ensinado nas escolas. A crítica da autora não é à presença do modelo mendeliano no currículo, mas ao seu ensino isolado como explicação geral da hereditariedade.
B
Errada
Está errada porque contradiz diretamente o texto, que afirma que a maioria das características humanas é poligênica. Portanto, a autora rejeita a ideia de que essas características sejam determinadas por um único gene ou por um único par de alelos.
C
Certa
A alternativa C está correta porque reproduz a tese central do texto: o problema não é a genética mendeliana em si, mas seu ensino isolado, simplificado e tratado como base de toda a hereditariedade. Segundo a autora, esse modo de ensino favorece crenças deterministas, que compõem o essencialismo genético.
D
Errada
Está errada porque o texto trata o determinismo genético como um entendimento enganoso, justamente por reduzir características complexas a causalidade linear. Isso é incompatível com a poligenia defendida pela autora.
Pegadinha da questão
A confusão explorada foi trocar a crítica ao ensino isolado da genética mendeliana por uma suposta defesa de retirada de Mendel do currículo, além de tomar o determinismo genético como válido quando o texto o critica.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão de texto, identifique se o autor critica o conteúdo em si ou o modo como ele é ensinado.
  • Quando o texto afirma poligenia, elimine alternativas que reduzam a característica a um único gene ou a um único par de alelos.
  • Se o autor chama uma ideia de enganosa, ela não pode aparecer na correta como teoria plenamente compatível com a tese do texto.

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