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Q3736622 Português
A visita do casal

    Um casal de amigos vem me visitar. Vejo-os que sobem lentamente a rua. Certamente ainda não me viram, pois a luz do meu quarto está apagada.
    É uma quarta-feira de abril. Com certeza acabaram de jantar, ficaram à toa, e depois disseram: Vamos passar pela casa do Rubem? É, podemos dar uma passadinha lá. Talvez venham apenas fazer hora para a última sessão de cinema. De qualquer modo, vieram. E me agrada que tenham vindo. E dá-me prazer vê-los assim subindo a rua vazia e saber que vêm me visitar.
   Penso um instante nos dois; refaço a imagem um pouco distraída que faço de cada um. Sei há quantos anos são casados, e como vivem. A gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina. Como toda gente, já fui amigo de casais que se separaram. É tão triste. É penoso e incômodo, porque então a gente tem de passar a considerar cada um em separado – e cada um fica sem uma parte de sua própria realidade. A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos. Havia um casal; quando deixa de haver, passamos a considerar cada um, secretamente, como se estivesse com uma espécie de luto. Preferimos que vivam mal, porém juntos; é mais cômodo para nós. Que briguem e não se compreendam, e não mais se amem e se traiam, mas não deixem de ser um casal, pois é assim que eles existem para nós. Ficam ligeiramente absurdos sendo duas pessoas.
    Como quase todo casal, esse que vem me visitar já andou querendo se separar. Pois ali estão os dois juntos. Ele com seu passo largo e um pouco melancólico, a pensar suas coisas; ela com aquele vestido branco tão conhecido que “me engorda um pouco, chi, meu Deus, estou vendo a hora que preciso comprar esse livro Coma e Emagreça, meu marido vive me chamando de bola de sebo, você acha, Rubem?”.
    Eu gosto do vestido. Quanto a ela própria, eu já a conheço tanto, nesta longa amizade, em seus encantos e em seus defeitos, que não me lembro de considerar se em conjunto é bonita ou não, e tenho uma leve surpresa sempre que ouço alguma opinião de uma pessoa estranha; não posso imaginar qual seria minha impressão se a visse agora pela primeira vez. “Ele diz que eu tenho corpo de mulata, você acha Rubem? Diz que quando eu engordo minha gordura vem toda para aqui” – e passa as mãos nas ancas, rindo. “Nesse negócio de corpo de mulata você deve mesmo consultar o Rubem, mulher.” Um gosta de mexer com o outro falando comigo. “Você já reparou nessa camisa dele? Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?”
    Penso essas bobagens em um segundo, enquanto eles se aproximam de minha casa. Na tarde que vai anoitecendo tem alguma coisa tocante esse casal que anda em silêncio na rua vazia; e eu sou grato a ambos por virem me visitar. Estou meio comovido.
    A campainha bate. Acendo a luz e vou lhes abrir a porta e também discretamente, o coração. “Quase que não batemos, vimos a luz apagada. O que é que você faz aí no escuro?”
    Digo que nada, às vezes gosto de ficar no escuro. “Eu não disse que ele era um morcegão?”
    Sou um morcegão cordial; trago um conhaque para ele e um vinho do Porto para ela. 


(BRAGA, Rubem. 1913-1990. 100 Crônicas Escolhidas – 31ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.)
Levando-se em consideração as relações sintáticas estabelecidas entre os termos das orações, é possível afirmar que, dentre os destacados em: “Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?” (5º§), ocorrem circunstâncias de, respectivamente:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: A questão aborda a identificação das circunstâncias sintáticas expressas por adjuntos adverbiais em um trecho da crônica de Rubem Braga. O conteúdo principal é a classificação de adjuntos adverbiais, tema fundamental em provas de Sintaxe para concursos.

Justificativa da alternativa correta:

Na frase “Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?”, temos duas palavras destacadas:

  • "francamente": Advérbio de modo, pois indica como deve ser realizado o ato de falar (ou seja, de maneira franca). Segundo Bechara: “adjunto adverbial de modo é o termo que exprime a maneira como se processa a ação verbal”.
  • "na rua": Locução adverbial de lugar, mostrando onde ocorre o ato de sair.
    Exemplo comparativo: “Saio em casa” (lugar).

Logo, a alternativa correta é A) Modo e lugar.

Análise das alternativas incorretas:

  • B) Afirmação e tempo:
    “Francamente” não exprime afirmação, mas modo; “na rua” não se refere a tempo.
  • C) Dúvida e inferioridade:
    “Francamente” não indica dúvida (como “talvez”), nem “na rua” sugere inferioridade.
  • D) Comparação e intensidade:
    Nenhum dos termos expressa comparação (como “como”, “mais que”), nem intensidade (“muito”, “demais”).

Dicas para provas:
Fique atento à função semântica dos advérbios. O advérbio de modo responde “como?”, enquanto o de lugar responde “onde?”. Sempre leia com atenção o contexto: muitos advérbios mudam de classificação conforme o uso! Não se deixe enganar por termos com sufixo -mente (podem indicar modo, tempo ou intensidade).

Referências: Cunha & Cintra (2013) e Bechara (2009) confirmam essas classificações de adjuntos adverbiais. A análise correta dos termos garante pontos importantes para quem almeja êxito em concursos.

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Comentários

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Só tem uma palavra destacada ‍

francamente = modo franco

na rua = lugar

Na frase apresentada — “Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?” — temos dois termos destacados que funcionam como adjuntos adverbiais:

  • “Francamente” → indica o modo como se deve falar.

  • “Na rua” → indica o lugar onde se sairia com a camisa.

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