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Q3736621 Português
A visita do casal

    Um casal de amigos vem me visitar. Vejo-os que sobem lentamente a rua. Certamente ainda não me viram, pois a luz do meu quarto está apagada.
    É uma quarta-feira de abril. Com certeza acabaram de jantar, ficaram à toa, e depois disseram: Vamos passar pela casa do Rubem? É, podemos dar uma passadinha lá. Talvez venham apenas fazer hora para a última sessão de cinema. De qualquer modo, vieram. E me agrada que tenham vindo. E dá-me prazer vê-los assim subindo a rua vazia e saber que vêm me visitar.
   Penso um instante nos dois; refaço a imagem um pouco distraída que faço de cada um. Sei há quantos anos são casados, e como vivem. A gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina. Como toda gente, já fui amigo de casais que se separaram. É tão triste. É penoso e incômodo, porque então a gente tem de passar a considerar cada um em separado – e cada um fica sem uma parte de sua própria realidade. A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos. Havia um casal; quando deixa de haver, passamos a considerar cada um, secretamente, como se estivesse com uma espécie de luto. Preferimos que vivam mal, porém juntos; é mais cômodo para nós. Que briguem e não se compreendam, e não mais se amem e se traiam, mas não deixem de ser um casal, pois é assim que eles existem para nós. Ficam ligeiramente absurdos sendo duas pessoas.
    Como quase todo casal, esse que vem me visitar já andou querendo se separar. Pois ali estão os dois juntos. Ele com seu passo largo e um pouco melancólico, a pensar suas coisas; ela com aquele vestido branco tão conhecido que “me engorda um pouco, chi, meu Deus, estou vendo a hora que preciso comprar esse livro Coma e Emagreça, meu marido vive me chamando de bola de sebo, você acha, Rubem?”.
    Eu gosto do vestido. Quanto a ela própria, eu já a conheço tanto, nesta longa amizade, em seus encantos e em seus defeitos, que não me lembro de considerar se em conjunto é bonita ou não, e tenho uma leve surpresa sempre que ouço alguma opinião de uma pessoa estranha; não posso imaginar qual seria minha impressão se a visse agora pela primeira vez. “Ele diz que eu tenho corpo de mulata, você acha Rubem? Diz que quando eu engordo minha gordura vem toda para aqui” – e passa as mãos nas ancas, rindo. “Nesse negócio de corpo de mulata você deve mesmo consultar o Rubem, mulher.” Um gosta de mexer com o outro falando comigo. “Você já reparou nessa camisa dele? Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?”
    Penso essas bobagens em um segundo, enquanto eles se aproximam de minha casa. Na tarde que vai anoitecendo tem alguma coisa tocante esse casal que anda em silêncio na rua vazia; e eu sou grato a ambos por virem me visitar. Estou meio comovido.
    A campainha bate. Acendo a luz e vou lhes abrir a porta e também discretamente, o coração. “Quase que não batemos, vimos a luz apagada. O que é que você faz aí no escuro?”
    Digo que nada, às vezes gosto de ficar no escuro. “Eu não disse que ele era um morcegão?”
    Sou um morcegão cordial; trago um conhaque para ele e um vinho do Porto para ela. 


(BRAGA, Rubem. 1913-1990. 100 Crônicas Escolhidas – 31ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.)
As crônicas de Rubem Braga apresentam reflexões sobre acontecimentos cotidianos e tratam de temas de caráter universal, com uma linguagem objetiva. Levando-se em consideração que o emprego de recursos próprios da linguagem subjetiva caracteriza o texto literário, expressa a visão pessoal do autor a respeito da temática referida: 
Alternativas

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Gabarito: D

Tema central: Interpretação de texto e identificação de linguagem literária/subjetiva. A questão avalia sua capacidade de reconhecer um trecho marcado pela subjetividade e pela manifestação da visão pessoal do autor, características fundamentais da linguagem literária segundo a norma-padrão e gramáticas como as de Bechara e Cunha & Cintra.

Justificativa da alternativa correta (D): "Havia um casal; quando deixa de haver, passamos a considerar cada um, secretamente, como se estivesse com uma espécie de luto." Esse trecho expressa um sentimento íntimo e uma reflexão pessoal do autor sobre a dissolução de casais. O uso da metáfora “luto” torna clara a linguagem conotativa e subjetiva, ou seja, não se trata de luto literal, mas de um sentimento de perda subjetivo, caracterizando a expressão literária, como define a literatura de referência (cf. Massaud Moisés).

Além disso, a frase expõe opinião individual do narrador sobre as relações humanas, indo além da mera descrição de fatos, o que é próprio da linguagem literária e da crônica reflexiva conforme o Manual de Redação oficial orienta para distingui-las de textos objetivos ou oficiais.

Análise das alternativas incorretas:

A) “Um casal de amigos vem me visitar.”
Frase puramente objetiva e denotativa, apenas narra um fato sem exposição de sentimento ou reflexão.

B) “Um gosta de mexer com o outro falando comigo.”
Relata um comportamento, também em linguagem mais objetiva, sem opinião ou sensação subjetiva do narrador.

C) “A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos.”
Aqui já aparece reflexão, mas sem a mesma carga emocional e metafórica da alternativa D. Ressalta um pensamento coletivo, menos subjetivo.

Estratégias e dicas: Em provas, busque palavras e construções não literais, figuras de linguagem (como a metáfora no “luto”), e frases que traduzam um sentimento do próprio autor. Atenção: expressões objetivas ou narrativas não cumprem esse papel.

Resumo da regra: A linguística literária explora emoções e sensações pessoais, muitas vezes usando linguagem figurada ou metafórica, diferentemente da linguagem objetiva, voltada a fatos e descrições.

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