Após a leitura atenta do texto e lançando mão de seus conhe...
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Ano: 2026
Banca:
FURB
Órgão:
Prefeitura de Blumenau - SC
Prova:
FURB - 2026 - Prefeitura de Blumenau - SC - Professor de Português |
Q4442783
Literatura
Texto associado
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
A vertigem do mundo: a angústia de Graciliano
Ramos
O Estado Novo não havia sido instaurado, mas o ambiente político já
era marcado pelo autoritarismo crescente
Danielle Romani
Angústia, publicado em 1936, é a experiência mais
radical de Graciliano Ramos no mergulho no interior de
um personagem. Se em Caetés e São Bernardo a
primeira pessoa já havia servido à narrativa, desta vez, o
leitor não acompanha simplesmente a vida de Luís da
Silva: é obrigado a permanecer dentro de sua cabeça,
percorrendo lembranças, humilhações, ressentimentos,
fantasias, desejos, obsessões.
É justamente a linguagem obsessiva que torna o romance tão singular. Em vez de conduzir o leitor por
uma sucessão ordenada de acontecimentos, o escritor
constrói uma narrativa em que passado e presente se
misturam continuamente. O cotidiano é povoado por
decadência: no entorno de Luís, habitam frustração,
desconfiança, lixo, cheiros desagradáveis, ratos, pulgas,
decadência e ódio. Imagens que o leitor se questiona
serem reais, ou se tratar de uma desconstrução da
realidade. Uma distorção. A memória não funciona como
arquivo, mas como uma força que fragmenta, confunde,
atormenta.
Uma imagem do presente pode desencadear uma
lembrança da infância; um ruído, um rosto, uma palavra
ou um objeto podem fazer surgir acontecimentos
remotos. O tempo psicológico passa a dominar o tempo
cronológico. A narrativa avança menos pelos
acontecimentos externos do que pelas associações da
mente do protagonista. A própria estrutura do livro
acompanha, assim, o estado de perturbação de Luís.
Angústia não é apenas a história de um homem
ciumento que chega ao crime. É a história de uma
consciência que se deteriora diante dos próprios
pensamentos. O assassinato de Julião Tavares, embora
embase o eixo dramático do romance, não é seu
verdadeiro centro. O centro está no processo interior que
leva Luís da Silva a desejar, imaginar, ensaiar e
finalmente realizar o ato extremo. Muito antes de existir
como ação, o crime existe como fantasia. Nesse
intervalo entre pensar e agir, Graciliano encontra uma
das regiões mais perturbadoras da literatura brasileira.
O romance nasceu num momento particularmente tenso
da vida nacional. Graciliano o escreveu entre 1935 e
1936, durante o governo de Getúlio Vargas, quando o
país atravessava um período de intensa polarização
política, repressão e instabilidade. O Estado Novo ainda
não havia sido instaurado, o que aconteceria em
novembro de 1937, mas o ambiente político já era
marcado pelo autoritarismo crescente.
Em 1936, o próprio Graciliano foi preso, sem processo
formal, acusado de envolvimento com a militância
comunista, e permaneceu encarcerado por quase um
ano. A informação é importante porque ajuda a perceber
a atmosfera de sufocamento em que o livro foi
concebido. Mas seria um erro transformar Angústia em
um manifesto político.
O mundo de Luís da Silva é socialmente determinado,
mas a angústia que o consome ultrapassa a
circunstância histórica. Há no personagem uma
experiência de inadequação que nasce de sua origem,
de sua condição econômica, de sua frustração
intelectual, de sua incapacidade de estabelecer vínculos
afetivos e de uma percepção negativa de si mesmo.
Luís é funcionário público, jornalista ocasional, escritor
que sonha com uma obra literária que nunca consegue
realizar. Vive modestamente em Maceió, numa
existência sem brilho, marcada pelo ressentimento e pela
sensação de fracasso. Não é propriamente um homem
pobre no sentido extremo, mas é alguém que
experimenta a pobreza como humilhação, como posição social e sobretudo como consciência de inferioridade. Ele
observa aqueles que possuem dinheiro, prestígio,
mulheres, roupas elegantes e facilidade de circulação e
os percebe como representantes de um mundo ao qual
não consegue pertencer.
É nesse ponto que surge Julião Tavares. Rico,
bem-vestido, expansivo, dono de uma segurança que
Luís não possui, ele parece encarnar tudo aquilo que o
protagonista detesta e, ao mesmo tempo, deseja. A
rivalidade entre os dois não é apenas amorosa. Julião é
o homem que ocupa o espaço que Luís gostaria de
ocupar. É aquele que fala sem constrangimento, circula
sem pedir licença, conquista mulheres, possui dinheiro e
parece não experimentar a mesma dolorosa consciência
do protagonista. O ódio, nesse caso, nasce também da
comparação.
Marina aparece nesse sistema de tensões como objeto
de desejo, mas sua função literária é mais complexa do
que a de simples personagem disputada por dois
homens. O relacionamento com ela expõe a fragilidade
emocional de Luís, sua necessidade de reconhecimento
e seu permanente sentimento de desvantagem. Quando
Marina se aproxima de Julião Tavares, deixando Luís, a
ferida narcísica do protagonista se aprofunda. O ciúme
passa a contaminar sua percepção do mundo, e o rival
deixa de ser apenas um indivíduo para se transformar na
encarnação de tudo aquilo que Luís considera injusto em
sua própria existência.
A narrativa, entretanto, permanece presa à perspectiva
de Luís, e isso significa que nem mesmo os
acontecimentos podem ser recebidos como verdades. O
leitor precisa desconfiar do narrador, porque Luís conta
não apenas aquilo que viu, mas também aquilo que
imagina, supõe e reconstrói.
Luís da Silva é um narrador pouco confiável, não porque
pretenda deliberadamente enganar, mas porque ele
próprio já não consegue separar com nitidez o que
aconteceu daquilo que desejou que acontecesse, o que
viu do que imaginou, a realidade da fantasia.
Angústia está na categoria de literatura psicológica,
embora Graciliano não abandone jamais a dimensão
social. A interioridade de Luís não existe num vazio. Ela
é produzida também pelas relações de classe, pelo
trabalho burocrático, pela pobreza, pela desigualdade,
pela masculinidade ferida, pelo desejo de ascensão e
pela sensação de não pertencer. A genialidade do
romance está em não separar artificialmente o indivíduo
da sociedade. O mundo exterior entra na consciência e
passa a fazer parte dela.
Por isso, Angústia ocupa um lugar particular entre os
romances da chamada segunda fase do Modernismo
brasileiro. A literatura dos anos 1930 voltou-se para as
desigualdades sociais, para o mundo do trabalho, para a
pobreza, para o Nordeste e para os conflitos históricos
do país. Graciliano participa desse movimento, mas,
nesse caso, desloca a perspectiva. Em Vidas Secas , a
opressão social é percebida sobretudo na luta pela
sobrevivência de uma família sertaneja; em São
Bernardo , a violência social e econômica aparece filtrada pela consciência de Paulo Honório; em Angústia , a
opressão passa pela confusão de uma mente urbana,
solitária e ressentida. As três experiências revelam, de
maneiras diferentes, a capacidade do escritor de
transformar estruturas sociais em conflitos humanos.
A primeira edição de Angústia saiu pela José Olympio
em 1936, ano em que o livro recebeu o Prêmio Lima
Barreto da Revista Acadêmica.
(Disponível em:
https://pernambucorevista.com.br/artigos/a-vertigem-do-mundo-a-angu
stia-de-graciliano-ramos. Acesso em: 21 set. 2026. Adaptado.)
Após a leitura atenta do texto e lançando mão de seus
conhecimentos prévios, analise as afirmativas a seguir:
I.O gênero textual do texto é resenha. Nele, a autora não apenas apresenta a obra de Graciliano Ramos, Angústia, como também expõe e defende seu ponto de vista a partir de elementos e características que ela destaca da própria composição.
II.No cerne do texto está a intenção da autora de comprovar a tese de que Angústia é um manifesto político, escrito por Graciliano Ramos em condições de encarceramento, o que refletirá na construção do personagem Luís da Silva.
III.A autora coloca o romance de Graciliano Ramos dentro do que ela considera uma literatura psicológica. Entretanto, ela localiza esse aspecto psicológico do personagem como resultado também de seu contexto social de existência, comprovando que o autor, ao construir uma obra mais psicológica, não ignora ou abandona o viés social.
É correto o que se afirma em:
I.O gênero textual do texto é resenha. Nele, a autora não apenas apresenta a obra de Graciliano Ramos, Angústia, como também expõe e defende seu ponto de vista a partir de elementos e características que ela destaca da própria composição.
II.No cerne do texto está a intenção da autora de comprovar a tese de que Angústia é um manifesto político, escrito por Graciliano Ramos em condições de encarceramento, o que refletirá na construção do personagem Luís da Silva.
III.A autora coloca o romance de Graciliano Ramos dentro do que ela considera uma literatura psicológica. Entretanto, ela localiza esse aspecto psicológico do personagem como resultado também de seu contexto social de existência, comprovando que o autor, ao construir uma obra mais psicológica, não ignora ou abandona o viés social.
É correto o que se afirma em: