Considerando o texto, analise as proposições abaixo: I- O ...

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Q4111792 Literatura

Os Ombros Suportam o Mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu

Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco. 



Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos. 



Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos

edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.



 

Considerando o texto, analise as proposições abaixo:


I- O primeiro verso localiza o poema temporalmente. E na sequência, é explicado que tempo é esse: um tempo sem deus e sem amor. 


II- O tempo que se mostra ao poeta é um tempo de trabalho, de olhos que não chegam a chorar diante de todas as dores do mundo, porque estão cansados de lamentar.


III- No segundo verso, a imagem prevalecente é a da solidão. Entretanto, não há desespero, e sim um desinteresse, inclusive pelos amigos e vida social.


É ou são verdadeira (s):

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: Os versos citados no enunciado sustentam os núcleos interpretativos das três proposições; aceitas como leituras, com as ressalvas de inferência e de localização em III, levam à alternativa E.

Tema central: Condição existencial no poema
Análise das alternativas
A
Errada
Ao aceitar apenas I, exclui dois núcleos também apoiados no poema: o trabalho associado à ausência de choro, em II, e a solidão sem expectativa dos amigos, em III. As ressalvas de inferência e localização não afastam essas leituras no gabarito.
B
Errada
Exclui I, embora “Chega um tempo” e a interrupção das invocações religiosas e amorosas sustentem sua caracterização temporal e afetiva. Também exclui III, cuja leitura de solidão sem desespero se apoia em “Ficaste sozinho” e “És todo certeza”, na segunda estrofe.
C
Errada
Exclui I e II, apesar de a primeira estrofe apresentar tanto a delimitação de um tempo de esvaziamento religioso e amoroso quanto os olhos que não choram e as mãos dedicadas ao trabalho rude. Esses elementos sustentam os núcleos interpretativos das duas proposições.
E
Certa
A alternativa E reúne as três interpretações acolhidas pelo gabarito, com ressalvas de precisão. Em I, “Chega um tempo” estabelece um tempo existencial indeterminado; deixar de dizer “meu Deus” e “meu amor” indica esvaziamento dessas referências, não demonstração da inexistência de Deus. Em II, o trabalho rude e a ausência de lágrimas são explícitos; o cansaço de lamentar é uma inferência sobre esse endurecimento, reforçado pelo “coração seco”. Em III, “Ficaste sozinho”, “És todo certeza” e “nada esperas de teus amigos” sustentam a solidão sem desespero e o retraimento afetivo. Essas imagens, porém, estão na segunda estrofe, e não no segundo verso: a aceitação da proposição depende de reconhecer esse provável erro de localização.
D
Errada
Exclui II, mas o poema aproxima ausência de lágrimas, trabalho rude e coração seco. O gabarito admite o cansaço de lamentar como interpretação desse endurecimento, embora essa causa não seja expressamente declarada.
Pegadinha da questão
A imprecisão mais importante está em III: “segundo verso” não contém as imagens analisadas; elas aparecem na segunda estrofe. Além disso, II apresenta como explicação um cansaço apenas inferido, e I emprega “sem deus e sem amor” como síntese do esvaziamento dessas referências, não como afirmação literal de inexistência.
Dica para questões semelhantes
  • Separe o que o poema declara do que a proposição infere: ausência de choro é explícita; cansaço de lamentar é interpretação.
  • Confira a localização indicada na proposição: verso e estrofe não são equivalentes, mesmo quando o conteúdo interpretado encontra apoio em outra parte do texto.
  • Leia a interrupção de invocações religiosas e amorosas como esvaziamento dessas referências, sem convertê-la automaticamente em declaração de ateísmo.
  • Fundamente a leitura de solidão na postura expressa pelo sujeito poético, sem concluir que ele rompeu efetivamente todas as relações sociais.

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