De acordo com Cunha e Cintra, "Nem sempre as frases se orga...

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O texto seguinte servirá de base para responder à questão. 


A vertigem do mundo: a angústia de Graciliano Ramos


O Estado Novo não havia sido instaurado, mas o ambiente político já era marcado pelo autoritarismo crescente

Danielle Romani


Angústia, publicado em 1936, é a experiência mais radical de Graciliano Ramos no mergulho no interior de um personagem. Se em Caetés e São Bernardo a primeira pessoa já havia servido à narrativa, desta vez, o leitor não acompanha simplesmente a vida de Luís da Silva: é obrigado a permanecer dentro de sua cabeça, percorrendo lembranças, humilhações, ressentimentos, fantasias, desejos, obsessões.

É justamente a linguagem obsessiva que torna o romance tão singular. Em vez de conduzir o leitor por uma sucessão ordenada de acontecimentos, o escritor constrói uma narrativa em que passado e presente se misturam continuamente. O cotidiano é povoado por decadência: no entorno de Luís, habitam frustração, desconfiança, lixo, cheiros desagradáveis, ratos, pulgas, decadência e ódio. Imagens que o leitor se questiona serem reais, ou se tratar de uma desconstrução da realidade. Uma distorção. A memória não funciona como arquivo, mas como uma força que fragmenta, confunde, atormenta.

Uma imagem do presente pode desencadear uma lembrança da infância; um ruído, um rosto, uma palavra ou um objeto podem fazer surgir acontecimentos remotos. O tempo psicológico passa a dominar o tempo cronológico. A narrativa avança menos pelos acontecimentos externos do que pelas associações da mente do protagonista. A própria estrutura do livro acompanha, assim, o estado de perturbação de Luís.

Angústia não é apenas a história de um homem ciumento que chega ao crime. É a história de uma consciência que se deteriora diante dos próprios pensamentos. O assassinato de Julião Tavares, embora embase o eixo dramático do romance, não é seu verdadeiro centro. O centro está no processo interior que leva Luís da Silva a desejar, imaginar, ensaiar e finalmente realizar o ato extremo. Muito antes de existir como ação, o crime existe como fantasia. Nesse intervalo entre pensar e agir, Graciliano encontra uma das regiões mais perturbadoras da literatura brasileira.

O romance nasceu num momento particularmente tenso da vida nacional. Graciliano o escreveu entre 1935 e 1936, durante o governo de Getúlio Vargas, quando o país atravessava um período de intensa polarização política, repressão e instabilidade. O Estado Novo ainda não havia sido instaurado, o que aconteceria em novembro de 1937, mas o ambiente político já era marcado pelo autoritarismo crescente.

Em 1936, o próprio Graciliano foi preso, sem processo formal, acusado de envolvimento com a militância comunista, e permaneceu encarcerado por quase um ano. A informação é importante porque ajuda a perceber a atmosfera de sufocamento em que o livro foi concebido. Mas seria um erro transformar Angústia em um manifesto político.

 O mundo de Luís da Silva é socialmente determinado, mas a angústia que o consome ultrapassa a circunstância histórica. Há no personagem uma experiência de inadequação que nasce de sua origem, de sua condição econômica, de sua frustração intelectual, de sua incapacidade de estabelecer vínculos afetivos e de uma percepção negativa de si mesmo.

Luís é funcionário público, jornalista ocasional, escritor que sonha com uma obra literária que nunca consegue realizar. Vive modestamente em Maceió, numa existência sem brilho, marcada pelo ressentimento e pela sensação de fracasso. Não é propriamente um homem pobre no sentido extremo, mas é alguém que experimenta a pobreza como humilhação, como posição social e sobretudo como consciência de inferioridade. Ele observa aqueles que possuem dinheiro, prestígio, mulheres, roupas elegantes e facilidade de circulação e os percebe como representantes de um mundo ao qual não consegue pertencer.

É nesse ponto que surge Julião Tavares. Rico, bem-vestido, expansivo, dono de uma segurança que Luís não possui, ele parece encarnar tudo aquilo que o protagonista detesta e, ao mesmo tempo, deseja. A rivalidade entre os dois não é apenas amorosa. Julião é o homem que ocupa o espaço que Luís gostaria de ocupar. É aquele que fala sem constrangimento, circula sem pedir licença, conquista mulheres, possui dinheiro e parece não experimentar a mesma dolorosa consciência do protagonista. O ódio, nesse caso, nasce também da comparação.

Marina aparece nesse sistema de tensões como objeto de desejo, mas sua função literária é mais complexa do que a de simples personagem disputada por dois homens. O relacionamento com ela expõe a fragilidade emocional de Luís, sua necessidade de reconhecimento e seu permanente sentimento de desvantagem. Quando Marina se aproxima de Julião Tavares, deixando Luís, a ferida narcísica do protagonista se aprofunda. O ciúme passa a contaminar sua percepção do mundo, e o rival deixa de ser apenas um indivíduo para se transformar na encarnação de tudo aquilo que Luís considera injusto em sua própria existência.

A narrativa, entretanto, permanece presa à perspectiva de Luís, e isso significa que nem mesmo os acontecimentos podem ser recebidos como verdades. O leitor precisa desconfiar do narrador, porque Luís conta não apenas aquilo que viu, mas também aquilo que imagina, supõe e reconstrói.

Luís da Silva é um narrador pouco confiável, não porque pretenda deliberadamente enganar, mas porque ele próprio já não consegue separar com nitidez o que aconteceu daquilo que desejou que acontecesse, o que viu do que imaginou, a realidade da fantasia.

Angústia está na categoria de literatura psicológica, embora Graciliano não abandone jamais a dimensão social. A interioridade de Luís não existe num vazio. Ela é produzida também pelas relações de classe, pelo trabalho burocrático, pela pobreza, pela desigualdade, pela masculinidade ferida, pelo desejo de ascensão e pela sensação de não pertencer. A genialidade do romance está em não separar artificialmente o indivíduo da sociedade. O mundo exterior entra na consciência e passa a fazer parte dela.

Por isso, Angústia ocupa um lugar particular entre os romances da chamada segunda fase do Modernismo brasileiro. A literatura dos anos 1930 voltou-se para as desigualdades sociais, para o mundo do trabalho, para a pobreza, para o Nordeste e para os conflitos históricos do país. Graciliano participa desse movimento, mas, nesse caso, desloca a perspectiva. Em Vidas Secas , a opressão social é percebida sobretudo na luta pela sobrevivência de uma família sertaneja; em São Bernardo , a violência social e econômica aparece filtrada pela consciência de Paulo Honório; em Angústia , a opressão passa pela confusão de uma mente urbana, solitária e ressentida. As três experiências revelam, de maneiras diferentes, a capacidade do escritor de transformar estruturas sociais em conflitos humanos.

A primeira edição de Angústia saiu pela José Olympio em 1936, ano em que o livro recebeu o Prêmio Lima Barreto da Revista Acadêmica.


(Disponível em: https://pernambucorevista.com.br/artigos/a-vertigem-do-mundo-a-angu stia-de-graciliano-ramos. Acesso em: 21 set. 2026. Adaptado.)
De acordo com Cunha e Cintra, "Nem sempre as frases se organizam com absoluta coesão gramatical. O empenho de maior expressividade leva-nos, com frequência, a superabundâncias, a desvios, a lacunas nas estruturas frásicas tidas por modelares. Em tais construções a coesão gramatical é substituída por uma coesão significativa, condicionada pelo contexto geral e pela situação. Os processos expressivos que provocam essas particularidades de construção denominam-se figuras de sintaxe".

Fonte: CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

No 1º e no 2º parágrafos, a autora lançou mão de figuras de sintaxe para construir a coesão. Analise o excerto e as sentenças sublinhadas.

"Angústia, publicado em 1936, é a experiência mais radical de Graciliano Ramos no mergulho no interior de um personagem. Se em Caetés e São Bernardo a primeira pessoa já havia servido à narrativa, desta vez, o leitor não acompanha simplesmente a vida de Luís da Silva: é obrigado a permanecer dentro de sua cabeça, percorrendo lembranças, humilhações, ressentimentos, fantasias, desejos, obsessões."
É justamente a linguagem obsessiva que torna o romance tão singular. Em vez de conduzir o leitor por uma sucessão ordenada de acontecimentos, o escritor constrói uma narrativa em que passado e presente se misturam continuamente. O cotidiano é povoado por decadência: no entorno de Luís, habitam frustração, desconfiança, lixo, cheiros desagradáveis, ratos, pulgas, decadência e ódio. Imagens que o leitor se questiona serem reais, ou se tratar de uma desconstrução da realidade. Uma distorção. A memória não funciona como arquivo, mas como uma força que fragmenta, confunde, atormenta."

A respeito dos trechos sublinhados, assinale a alternativa correta: 
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