Na situação hipotética que Sócrates apresenta a Glauco, os ...

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Q4193436 Português
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A caverna conectada

    Sócrates explicava: “Imagine que todos os homens vivam em um mundo escuro, fracamente iluminado pelos seus smartphones. Tudo o que sabem das formas vem pela luz das telas. É uma imensa caverna onde só podem contemplar seus aparelhos”.
    Glauco começava a conceber o ambiente. Pela luz dos aparelhos, passavam imagens refletidas, pequenos vídeos, dancinhas, notícias falsas e trends*. Os moradores da caverna nunca viram o mundo, apenas suas telas iluminadas. Eles foram sendo adestrados a usar o indicador e passar adiante, sem análise. Na caverna, as coisas só existem se postadas. “Que coisa terrível!”, comentava Glauco. “Que vida medonha essas pessoas levariam!” “Sim!”, disse o sábio calvo, “se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que veem, pensariam nomear seres reais?”. O discípulo consentiu.
    “Agora imagine, caro, se um deles decidisse desligar o aparelho e saísse para o mundo real. Seria um caminho árduo até lá fora. Em um primeiro instante, os olhos doeriam diante da luz real. Enfim, uma pessoa liberta veria o Sol do real e não mais mensagens com imagens (e um texto com emojis).” 
    O filósofo continuava a incentivar que Glauco navegasse na alegoria. “E se a pessoa que viu o mundo real voltasse para a caverna e começasse a dizer dos objetos concretos, mas não mais do critério do real dado por likes e seguidores? ‘Existe um mundo fora do algoritmo’, diria o ser iluminado. É possível comer sem fotografar e ver o mar sem postar. O que vemos são simulacros, representações. Há algo lá fora!”
    O jovem Glauco amou a história. Imaginou com o mestre que o ser “iluminado” pelo Sol real seria desacreditado pelos outros habitantes da funda caverna. Sofreria até violência real. Que aula Sócrates tinha dado! Ao se despedir, o rapaz foi até o orientador e pediu uma selfie. Queria publicar no horário que lhe ensinaram a ter mais visualizações. Saiu da casa feliz. “O post sobre a prisão das redes está bombando!”, comentou Glauco, impactado com a sabedoria filosófica daquela república. Melhorou a luz da foto, colocou uma música e pronto! Agora tinha esperança de viralizar nas redes!

(Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo, 8 de julho de 2022.Adaptado)

*Trends: tendências.
Na situação hipotética que Sócrates apresenta a Glauco, os moradores da caverna
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é distinguir representações nas telas de conhecimento do mundo real: “Pela luz dos aparelhos, passavam imagens refletidas, pequenos vídeos, dancinhas, notícias falsas e trends*. Os moradores da caverna nunca viram o mundo, apenas suas telas iluminadas.” A restrição expressa por “apenas” sustenta o núcleo de D: os moradores contemplavam imagens nos aparelhos, sem contato direto com o mundo.

Tema central: Representações e mundo real
Análise das alternativas
A
Errada
A afirmação de que conseguiam avaliar todas as informações contradiz o trecho “Eles foram sendo adestrados a usar o indicador e passar adiante, sem análise.” Receber e compartilhar conteúdos não significa examiná-los criticamente.
B
Errada
Há duas incompatibilidades: os moradores não tinham contato direto com o mundo real, pois “nunca viram o mundo”; além disso, o ambiente era “fracamente iluminado pelos seus smartphones”, e não completamente escuro.
C
Errada
A alternativa atribui ao consumo de conteúdos uma função de atualização sobre a realidade que o texto não estabelece. A circulação de vídeos, notícias falsas e outras imagens é apresentada como experiência restrita às telas, em oposição ao conhecimento do mundo real.
D
Certa
D é a alternativa acolhida pelo gabarito porque seu núcleo — a contemplação de imagens refletidas nas telas — está expresso no segundo parágrafo. Há, porém, uma imprecisão em “daquilo que havia na caverna”: o texto situa na caverna a experiência dos moradores, mas não afirma que as imagens reproduziam objetos fisicamente existentes ali. A sustentação da resposta está na limitação às representações das telas, não nessa suposta origem dos reflexos.
E
Errada
Glauco considera terrível a condição dos moradores, mas não lhes atribui vontade de abandoná-la. A decisão de desligar o aparelho e sair é uma hipótese individual apresentada por Sócrates, não um desejo coletivo reconhecido por Glauco.
Pegadinha da questão
Confundir acesso a imagens e notícias com conhecimento crítico do mundo real e transformar a avaliação negativa de Glauco em desejo de libertação dos moradores. Também é preciso não tomar D como reprodução integralmente precisa do texto: a origem física das imagens dentro da caverna não é explicitada.
Dica para questões semelhantes
  • Observe termos restritivos como “apenas”: eles delimitam o que o texto permite atribuir às personagens.
  • Separe acesso a conteúdos, análise crítica e contato com a realidade; o texto pode opor essas experiências.
  • Distinga a avaliação de uma personagem sobre outras pessoas das intenções efetivamente atribuídas a elas.
  • Não complete a origem ou a localização de elementos quando o texto informa apenas onde eles são contemplados.

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