De acordo com as reflexões do narrador, Mineirinho

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Q1655447 Português

    É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.

    Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.

    Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

    Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.

    Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.

    Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente – não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.

(Clarice Lispector, Para não esquecer. Adaptado)

De acordo com as reflexões do narrador, Mineirinho
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a inferência textual sobre a origem da violência de Mineirinho a partir da responsabilização coletiva assumida pelo narrador. O trecho obrigatório “Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. [...] Sua violência inocente – não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.” ativa essa leitura: Mineirinho não é apresentado como violento por essência, mas como alguém produzido por abandono e falha social, o que conduz à alternativa A.

Tema central: responsabilidade coletiva pela violência
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A sintetiza corretamente a reflexão do narrador: a violência de Mineirinho é lida como fruto de uma falha da coletividade. Isso se sustenta nas marcas “ele é o meu erro”, “o que em silêncio eu fiz de um homem” e na imagem “como a de um filho de quem o pai não tomou conta”, que associam sua formação ao abandono e ao meio humano-social. Não se trata de absolver seus atos, mas de reconhecer que sua violência não aparece no texto como essência natural, e sim como resultado de desamparo.
B
Errada
A alternativa erra em três pontos não autorizados pelo texto: não se diz que Mineirinho “abandonou a sociedade”, não se afirma que ele era inocente no sentido de não ter cometido crimes, e não há indicação de que quisesse justiça. Ao contrário, o narrador reconhece expressamente que “Mineirinho era perigoso e já matara demais”. A expressão “violência inocente” não autoriza essa leitura, porque o próprio texto restringe: “não nas consequências, mas em si inocente”.
C
Errada
A alternativa introduz um conteúdo inexistente no excerto: não há qualquer afirmação de que Mineirinho “deveria ter fugido”. Além disso, altera um dado objetivo do texto, que insiste em “treze tiros”, e não “catorze tiros”. Portanto, ela é excluída tanto por acréscimo indevido quanto por contradição com informação expressa.
D
Errada
A alternativa distorce o sentido de “violência inocente”. O texto não diz que, por ser matador, seria natural a inocência. O narrador separa claramente os planos ao afirmar: “não nas consequências, mas em si inocente”. Logo, a inocência mencionada não decorre do fato de matar, nem naturaliza os homicídios; refere-se à gênese dessa violência, ligada ao abandono.
E
Errada
A alternativa atribui a Mineirinho uma consciência de merecimento da morte que o texto não apresenta. Pelo contrário, a posição do narrador é de recusa da execução: “nós o queríamos vivo” e “ao homem acuado, que a esse não nos matem”. Assim, não há base textual para dizer que Mineirinho reconhecia a morte como o melhor destino.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre “violência inocente” e inocência moral ou jurídica plena. O texto não absolve Mineirinho; ele desloca a interpretação para a responsabilidade coletiva por sua formação.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a pergunta vier “de acordo com as reflexões do narrador”, responda pela perspectiva construída no texto, não por juízo externo sobre o tema.
  • Em alternativas parafrásticas, procure as expressões que concentram o sentido central do excerto; aqui, “meu erro”, “nosso erro” e “filho de quem o pai não tomou conta”.
  • Desconfie de opções que acrescentam intenções, desejos ou ações não enunciados no texto, como “querer justiça”, “deveria ter fugido” ou “reconhecia que merecia morrer”.
  • Se o texto restringe uma ideia com ressalva expressa, como “não nas consequências, mas em si inocente”, essa restrição impede leituras absolutas.

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Comentários

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entendi nada

"Sua assustada violência. Sua violência inocente – não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta."

Acredito que essa parte do texto justifica a resposta ser a alternativa A.

Assertiva A

tornou-se violento como fruto da sociedade em que vivera.

(...) Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.

    Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver.(...)

Clarisse sempre extraordinária...

Pesado!

Vá se ferrar kkk

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