Na história das civilizações, quando um sistema entra em
colapso, a dor imediata frequentemente atua como o mais
poderoso catalisador para a inovação. É exatamente sob
essa lente histórica que o atual estrangulamento do Estreito
de Ormuz, causado ora pelo Irã, ora pelos EUA, deve ser
interpretado. A situação é a prova incontestável da dependência da humanidade em petróleo e escancara a urgência
da transição energética.
A asfixia imediata da economia global, causada pelo
bloqueio militar da rota por onde passa um quarto do óleo
consumido no planeta, deveria servir como o ultimato perfeito
para forçar a transição definitiva rumo às matrizes limpas. Em
vez de tratar o caos no Golfo Pérsico apenas como uma emergência bélica a ser contornada, a humanidade tem diante de si
a oportunidade histórica para decretar, de uma vez por todas,
o fim da era dos combustíveis fósseis.
Em um mundo governado pela racionalidade e pelo
instinto de sobrevivência, o bloqueio de Ormuz soaria como o
alarme definitivo. Seria o momento em que governos e mercados decidiriam direcionar a fortuna gasta para proteger e
subsidiar rotas petroleiras rumo à transição energética sustentável e definitiva.
Ocorre que a governança global tem se mostrado míope
para os perigos da crise climática e apegada a soluções de
curto prazo. Longe de enxergar o gargalo no Golfo Pérsico
como um ultimato para a descarbonização, a reação instintiva
das superpotências ilustra o tamanho do problema.
A prioridade absoluta nos países ocidentais e nas suas
periferias — incluindo o Brasil — não é libertar a economia
da dependência do petróleo, mas garantir que as bombas de
combustível continuem cheias a qualquer custo. Em vez de
injetar capital massivo na infraestrutura de matrizes limpas
com senso de urgência, a energia política do mundo se esvai
em manobras navais e manobras artificiais para conter a fúria
inflacionária do eleitorado.
O fechamento de Ormuz funciona hoje como um rascunho sombrio do futuro. A escassez de energia fóssil que a
guerra impõe agora pela força bélica será provocada, logo
mais, pelo próprio esgotamento climático e ambiental do
planeta. A crise que virá pela escassez do petróleo deveria
ser o empurrão que nos faltava para pular do barco antes que
ele afunde por completo.
Contudo, tudo indica que a humanidade deixará mais
essa janela histórica se fechar. Quando a tensão militar eventualmente ceder, os acordos provisórios forem assinados e
os superpetroleiros voltarem a cruzar o estreito, as bolsas de
valores e as lideranças globais celebrarão com alívio o fim
da crise. Mas, na prática, estaremos apenas comemorando
o direito de voltar à exata mesma armadilha fóssil da qual,
por um breve e doloroso momento, a humanidade teve a
chance de escapar para criar um futuro mais sustentável e
limpo — e que parece cada vez mais distante e impossível,
para a tragédia das futuras gerações.