No terceiro parágrafo, os segmentos que corria obediente pel...

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Q39997 Português
O pequeno engenheiro

Ou muito me engano, ou era esse mesmo o nome de um brinquedo do meu tempo de criança. Terá conseguido sobreviver à onda das engenhocas eletrônicas de hoje? Lembrome bem dele: uma caixa de madeira, bonita, com tampa de encaixe corrediça; dentro, um grande número de pecinhas também de madeira, coloridas, de diferentes formas e dimensões. Em algumas delas estavam desenhados um relógio, uma janela, tijolinhos... O conjunto possibilitava (e mesmo inspirava) diversos tipos de edificação: castelos, torres, pontes, edifícios, estações etc.
Não se tratava exatamente de uma prova de habilidade motora: não era grande a dificuldade de erguer um pequeno muro ou de dar sustentação a uma torre. Tratava-se, antes, de usar a imaginação, construir e preencher espaços, compor cenários, como quem arma a ambientação de um palco onde se desenvolverá uma história. Havia, implícita, a par da necessidade de tudo ter que parar em pé, a preocupação estética: insistir no critério da simetria ou permitir variações de padrão? Fantasiar formas ou ater-se à imitação das já bastante conhecidas? Não exagero ao dizer que tudo isso fazia de cada um de nós, para além de um pequeno engenheiro, um pequeno arquiteto, um escultor mirim, um precoce cenógrafo, um artista plástico pesquisando linguagem...
De qualquer modo, esse brinquedo não me levou, na idade adulta, à engenharia, nem ao ramo de construções, nem me fez artista plástico. Ficou na memória, perdido entre outros brinquedos que dispensavam baterias, tomadas elétricas, manuais de instrução e termo de garantia. Sem dúvida havia algum encanto no trenzinho elétrico, que corria obediente pelos trilhos. A meninada ficava olhando, olhando, a princípio interessada, mas logo alguém perguntava: ? Vamos brincar? Ser espectador era pouco: o corpo precisava entrar no jogo. Nem que fosse para habitar, imaginariamente, a torre de um castelo colorido, erguido há pouco com as mãos de um pequeno engenheiro que se entretinha facilmente com suas peças de madeira.


(Oduvaldo Monteiro, inédito)
No terceiro parágrafo, os segmentos que corria obediente pelos trilhos e Ser espectador
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o valor semântico-contextual dos segmentos destacados no terceiro parágrafo, especialmente em "Sem dúvida havia algum encanto no trenzinho elétrico, que corria obediente pelos trilhos" e "Ser espectador era pouco: o corpo precisava entrar no jogo". No contexto, o primeiro segmento sugere funcionamento automático e previsível, e o segundo explicita que a postura de mero observador é passiva e insuficiente; por isso, a alternativa correta é a que reconhece essa conotação de passividade.

Tema central: passividade diante do brinquedo
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A reconhece exatamente o sentido produzido pelos dois segmentos destacados. No primeiro, o trenzinho "corria obediente pelos trilhos", ou seja, seguia um percurso já dado, com pouca intervenção criativa da criança. No segundo, "Ser espectador era pouco" explicita que apenas assistir não satisfazia a necessidade infantil de brincar. A progressão do parágrafo mostra encanto inicial, mas também a insuficiência dessa relação contemplativa; por isso, a ideia central é a de passividade.
B
Errada
A alternativa erra por extrapolação. O texto não afirma que brinquedos "mais toscos e mais primitivos" estavam desaparecendo nem sugere que estavam com os dias contados. Ao contrário, valoriza brinquedos ligados à imaginação e à participação corporal, além de mencionar com tom positivo os que "dispensavam baterias, tomadas elétricas, manuais de instrução e termo de garantia".
C
Errada
A eliminação decorre do sentido dos dois segmentos na ordem em que aparecem. O primeiro não funciona como índice de atividade criativa: em "corria obediente pelos trilhos", o movimento é automático, regular e previsível. O segundo, de fato, marca passividade. Portanto, não há oposição entre criatividade ativa e resignação passiva; os dois segmentos pertencem ao mesmo campo de sentido da passividade.
D
Errada
A alternativa contraria a progressão argumentativa do parágrafo. O texto admite encanto inicial pelo trenzinho, mas o conector em "mas logo" introduz correção dessa impressão: a observação não bastava, porque "Ser espectador era pouco". Não existe, portanto, "crescente encantamento"; há fascínio momentâneo seguido da necessidade de brincar ativamente.
E
Errada
A alternativa introduz um conteúdo que o texto não sustenta. Não há "reação contrariada" dos meninos nem estímulo à fantasia como causa de incômodo. O que o parágrafo mostra é a insuficiência da posição de espectador diante do trenzinho elétrico: as crianças queriam participação corporal e efetiva na brincadeira.
Pegadinha da questão
A banca explora a leitura apressada de "corria" como sinal de dinamismo positivo; no contexto, porém, o decisivo é "obediente pelos trilhos", que transforma esse movimento em automatismo e aproxima o segmento de "Ser espectador", ambos ligados à passividade.
Dica para questões semelhantes
  • Não isole um verbo de movimento do restante do segmento: em contexto, o qualificativo pode inverter o efeito esperado, como em "obediente pelos trilhos".
  • Observe conectores de mudança argumentativa, como "mas logo": eles mostram quando o texto relativiza uma impressão inicial.
  • Quando a questão destaca dois segmentos, verifique se eles convergem para o mesmo sentido ou se realmente se opõem; aqui, os dois apontam para a contemplação passiva.

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