No terceiro parágrafo, os segmentos que corria obediente pel...
Ou muito me engano, ou era esse mesmo o nome de um brinquedo do meu tempo de criança. Terá conseguido sobreviver à onda das engenhocas eletrônicas de hoje? Lembrome bem dele: uma caixa de madeira, bonita, com tampa de encaixe corrediça; dentro, um grande número de pecinhas também de madeira, coloridas, de diferentes formas e dimensões. Em algumas delas estavam desenhados um relógio, uma janela, tijolinhos... O conjunto possibilitava (e mesmo inspirava) diversos tipos de edificação: castelos, torres, pontes, edifícios, estações etc.
Não se tratava exatamente de uma prova de habilidade motora: não era grande a dificuldade de erguer um pequeno muro ou de dar sustentação a uma torre. Tratava-se, antes, de usar a imaginação, construir e preencher espaços, compor cenários, como quem arma a ambientação de um palco onde se desenvolverá uma história. Havia, implícita, a par da necessidade de tudo ter que parar em pé, a preocupação estética: insistir no critério da simetria ou permitir variações de padrão? Fantasiar formas ou ater-se à imitação das já bastante conhecidas? Não exagero ao dizer que tudo isso fazia de cada um de nós, para além de um pequeno engenheiro, um pequeno arquiteto, um escultor mirim, um precoce cenógrafo, um artista plástico pesquisando linguagem...
De qualquer modo, esse brinquedo não me levou, na idade adulta, à engenharia, nem ao ramo de construções, nem me fez artista plástico. Ficou na memória, perdido entre outros brinquedos que dispensavam baterias, tomadas elétricas, manuais de instrução e termo de garantia. Sem dúvida havia algum encanto no trenzinho elétrico, que corria obediente pelos trilhos. A meninada ficava olhando, olhando, a princípio interessada, mas logo alguém perguntava: ? Vamos brincar? Ser espectador era pouco: o corpo precisava entrar no jogo. Nem que fosse para habitar, imaginariamente, a torre de um castelo colorido, erguido há pouco com as mãos de um pequeno engenheiro que se entretinha facilmente com suas peças de madeira.
(Oduvaldo Monteiro, inédito)
Gabarito comentado
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Gabarito: A
Fundamento decisivo: O critério decisivo é o valor semântico-contextual dos segmentos destacados no terceiro parágrafo, especialmente em "Sem dúvida havia algum encanto no trenzinho elétrico, que corria obediente pelos trilhos" e "Ser espectador era pouco: o corpo precisava entrar no jogo". No contexto, o primeiro segmento sugere funcionamento automático e previsível, e o segundo explicita que a postura de mero observador é passiva e insuficiente; por isso, a alternativa correta é a que reconhece essa conotação de passividade.
- Não isole um verbo de movimento do restante do segmento: em contexto, o qualificativo pode inverter o efeito esperado, como em "obediente pelos trilhos".
- Observe conectores de mudança argumentativa, como "mas logo": eles mostram quando o texto relativiza uma impressão inicial.
- Quando a questão destaca dois segmentos, verifique se eles convergem para o mesmo sentido ou se realmente se opõem; aqui, os dois apontam para a contemplação passiva.
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