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Q2349385 Português
No lugar do outro

   Estamos vivendo uma crise intensa: a das relações humanas. Todos os dias testemunhamos ou protagonizamos, tanto na vida presencial quanto na virtual, comportamentos e atitudes que vão do ódio declarado ou sutil ao desdém em relação ao outro. As relações humanas, sempre tão complexas, exigem, no entanto, delicadeza, atenção e compromisso social. Tem sido difícil manter a saúde mental e a qualidade de vida no contexto atual.

   Crianças e adolescentes já dão sinais claros de que têm aprendido muito com nossa dificuldade em conviver com as diferenças e de respeitá-las, de tentar colocar-se no lugar do outro para compreender suas posições e atitudes; de ter compaixão; de conflitar em vez de confrontar, de agir com doçura, por exemplo. Conseguir fazer isso é ter empatia com o outro.

  Pais e professores têm reclamado de comportamentos provocativos desrespeitosos, desafiadores e desobedientes dos mais novos. Entretanto, se pudéssemos nos dedicar por alguns momentos à auto-observação, constataríamos essas características também em nós, adultos. 

  Mas são os mais novos que levam a pior nessa história: Crianças e adolescentes que desobedecem, desafiam e têm comportamentos considerados agressivos, como os nossos, podem receber diagnósticos e orientação para tratamento. Conheço famílias com filhos diagnosticados com “Transtorno Desafiador Opositivo”, porque têm comportamentos típicos da idade. Há uma grande preocupação global com a nossa atual falta de empatia. Um sinal disso foi a inauguração, em Londres, do primeiro Museu da Empatia.

  Nele, os visitantes são convocados a experimentar/enxergar o mundo pelo olhar de um outro – não próximo ou conhecido, mas um outro com quem eles não têm qualquer relação. A expressão que deu sentido ao museu é a expressão inglesa “in your shoes” (em seus sapatos), que em língua portuguesa significa “em seu lugar”. Os visitantes se deparam, na entrada, com uma caixa com diferentes pares de sapatos usados. Escolhem um de seu número para calçar e recebem um áudio que conta uma parte da história da pessoa que foi dona daquele par.

   Desenvolver a empatia é uma condição absolutamente necessária para ensiná-la aos mais novos.

   Aliás, eles podem tê-la mais facilmente do que nós. Um pai me contou, comovido, que conversava com um amigo a respeito da situação de muitos refugiados de países em guerra e que comentou que não adiantava a busca por outro local, já que a crise de empregos era mundial. Seu filho, de sete anos, que estava por perto, perguntou de imediato: “Pai, se tivesse guerra aqui, você preferiria que eu morresse?”. Ele mudou de ideia.

   Estacionar o carro em vaga de idosos, grávidas e portadores de deficiência é mais do que contravenção: é falta de empatia. Reclamar da lentidão dos velhos é mais do que desrespeito: é falta de empatia. Agredir ostensivamente o outro por suas posições é mais do que dificuldade em lidar com as diferenças: é falta de empatia. Do mesmo modo, reclamar do comportamento dos mais novos é falta de empatia.

   A empatia pode provocar uma grande mudança social, diz Roman Krznari, estudioso do tema. Vamos desenvolvê-la para ensiná-la? 

(SAYÃO, Rosely. Folha de S. Paulo. Em: 22 de setembro de 2015.) 

No texto apresentado, pode-se observar a exposição de posicionamentos cuja subjetividade pode ser reconhecida como uma das características desse tipo textual. Indique, a seguir, o trecho que comprova a afirmativa anterior.
Alternativas

Gabarito comentado

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Questão de interpretação de texto: subjetividade e tipos textuais

Tema central: A questão propõe que o candidato identifique um trecho no qual se evidencia a subjetividade, isto é, a manifestação das opiniões e pontos de vista pessoais do autor. Isso está diretamente relacionado ao tipo dissertativo-argumentativo, comum em textos opinativos, no qual há predomínio da presença do eu no discurso, seja por juízos de valor, impressões ou avaliações.

Alternativa correta: B“As relações humanas, sempre tão complexas, exigem, no entanto, delicadeza, atenção e compromisso social.”

Justificativa: Trata-se de um juízo pessoal da autora, que qualifica as relações como “sempre tão complexas” e sugere o que “exigem”. Há aqui uso claro de subjetividade: o adjetivo “tão complexas” exprime avaliação, e a enumeração do que as relações “exigem” mostra recomendação/opinião. Segundo Bechara, essa característica indica a marca argumentativa das dissertações (Moderna Gramática Portuguesa).

Análise das alternativas incorretas:

A)“Há uma grande preocupação global com a nossa atual falta de empatia.”
Este trecho se apresenta como constatação de um sentimento coletivo (“preocupação global”) e não uma opinião do autor, o que reduz seu grau de subjetividade.

C)“Pais e professores têm reclamado...”
A frase relata posicionamentos alheios, sendo um comentário de terceiros e não a expressão direta da opinião da autora. Assim, predomina aqui a objetividade.

D)“Crianças e adolescentes que desobedecem...”
Aborda um fato possível (receber diagnóstico e tratamento), caracterizando-se mais pela exposição do fenômeno do que pelo juízo ou emoção do autor.

Estratégia para provas: Sempre localize palavras que expressem avaliação subjetiva (adjetivos, verbos como “achar”, “precisar”, “exigir”) e fique atento a construções do tipo “na minha opinião”, “considero que”, mesmo que implícitas. Elas sinalizam subjetividade.

Resumo da regra: Subjetividade nas dissertações manifesta opinião ou avaliação do autor; relatos de terceiros ou constatações gerais são mais objetivos. (Bechara; Cunha & Cintra).

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Comentários

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Gab:B

“As relações humanas, sempre tão complexas, exigem, no entanto, delicadeza, atenção e compromisso social.” 

Entende-se por subjetivo aquele texto que expressa a visão pessoal do autor a respeito de algum assunto.

O texto subjetivo expressa a visão pessoal do autor (marcadores: interferência emocional, adjetivos, substantivos abstratos, linguagem poética, sentido conotativo).

"sempre tão complexas" marca de subjetividade.

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