CONSUMISMO JOVEM Fazer as contas e não assumir compromissos ...
Fazer as contas e não assumir compromissos superiores à renda não é caretice, é uma necessidade
Os jovens estão se endividando. Segundo pesquisa da Associação Comercial de São Paulo, 67% dos inadimplentes têm menos de 35 anos e 24% têm entre 26 e 30 anos.
Mais do que um levantamento estatístico ou curiosidade, tais números expressam uma realidade preocupante: a falta de educação para o consumo. Sem isso, o jovem compra acima de suas possibilidades e talvez prossiga nesse desequilíbrio quando for mais velho.
Além disso, essas pessoas não estão se endividando para comprar bens tecnológicos como computadores ou aparelhos que aumentem o conforto e a segurança no lar. Nada disso. Torraram dinheiro com roupas e calçados. O terceiro item da lista também é uma advertência, por si só: empréstimo pessoal.
A agiotagem é um dos negócios que mais se desenvolvem nos municípios brasileiros, com a oferta de dinheiro fácil, a juros extorsivos, para ávidos consumidores, principalmente das classes C e D.
Dever desde os primeiros anos com carteira de trabalho assinada é uma péssima tendência para o futuro. Hábitos de poupança não são estimulados nem valorizados aqui.
É evidente que todos querem consumir. Não há crime algum nisso, até porque, sem compras, não há produção nem empregos.A economia fica estagnada e o país caminha para trás. Certamente não defendo tal comportamento.
Mas o consumismo desenfreado é péssimo para as pessoas e para o ambiente e indica um descontrole que pode, sem trocadilho, custar muito caro.
Há situações que precipitam a inclusão do consumidor em listas de devedores. Desemprego e despesas inesperadas, provocadas por doenças, são totalmente compreensíveis. Planejar as compras, contudo, poderia evitar a maioria dos casos de inadimplência.
Prestações que “caibam no bolso”, sem verificação do quanto se paga a mais por essa aparente facilidade; crédito rotativo dos cartões; e empréstimos em geral, inclusive os consignados, são alguns dos caminhos mais rápidos para estourar os orçamentos pessoais e familiares.
Falta, também, uma lei que proíba a concessão de crédito sem exigência de garantias. Porque não há milagre em finanças. Se uma empresa não exige comprovação de renda e bens que garantam o empréstimo, só há uma explicação plausível: ela compensa o risco de calote cobrando juros de agiota.
Agiotagem é crime e não deveria ser permitida.
Antes de chegar à faixa etária que tem mais devedores na pesquisa da ACSp, jovens frequentam escolas e universidades. São orientados sobre os riscos do consumo de drogas, do tabagismo e do alcoolismo e para a importância de preservar o ambiente. Muitas vezes, têm aulas sobre cidadania, política e grandes desafios mundiais, como a escassez de água e as guerras religiosas. Por que não recebem mais subsídios sobre consumo consciente, não somente com foco ambiental, mas também em relação à proteção de seus bolsos e à aplicação do Código de Defesa do Consumidor?
Também nessa área é tolice imaginar que as autoridades resolvam tudo. Não solucionam nem problemas gravíssimos como filas nos corredores dos hospitais públicos e transporte coletivo superlotado...
Os pais deveriam ajudar nesse processo educativo, mas, convenhamos, nem os adultos escapam do excesso de compras. Então, não é uma surpresa saber que os mais novos não conseguem pagar suas contas em dia.
Perder o crédito é um desastre para qualquer pessoa. Fecha as portas para a aquisição até de produtos fundamentais, totalmente necessários, como alimentos e medicamentos. Carimba os consumidores como devedores e isso tem repercussões em todos os segmentos da vida, inclusive o profissional.
Isso não pode, então, ser visto como mais uma tendência ou consequência da inclusão social. O papel aceita tudo. Fazer as contas e não assumir compromissos superiores à renda não é caretice. É uma das condições para um futuro melhor, sem sobressaltos, sem cobradores e sem insônia. Não desejamos novas gerações repletas de devedores.
Maria Inês Dolci. Folha de S.Paulo. São Paulo, 17 out. 2011. Folhainvest. © Folhapress.
Das afirmações seguintes:
I. No sétimo parágrafo, a autora introduz uma ideia oposta ao que ela disse sobre o consumo no parágrafo anterior.
II. De acordo com o texto, o consumo em excesso pode prejudicar as pessoas, mas eventualmente auxiliam o ambiente.
III. Os elementos coesivos “MAIS DO QUE” (2º parágrafo) e “ALÉM DISSO” (3º parágrafo) expressam uma mesma ideia, ou seja, de inclusão.
Gabarito comentado
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Gabarito comentado – Interpretação e coesão textual
Tema central: A questão exige interpretação de texto e análise semântica dos conectivos, ou seja, é necessário identificar relações de oposição, adição e comparação entre ideias, muito comuns em provas de concursos.
Alternativa correta: Letra B (Apenas os itens I e III estão corretos)
Justificativa:
I. Correto. No sétimo parágrafo, a autora apresenta uma crítica ao consumismo desenfreado, contrastando com o parágrafo anterior, onde afirmou: “É evidente que todos querem consumir. Não há crime algum nisso...”. Ou seja, enquanto antes legitima o consumo, depois adverte contra o exagero. Segundo Koch (2016), “a coerência textual decorre também do uso consciente de oposições e ponderações argumentativas”.
II. Incorreto. O texto jamais afirma que “o consumo em excesso auxilia o ambiente”. Pelo contrário: diz que é “péssimo para as pessoas e para o ambiente”, logo, a afirmação está contrária ao texto. Estratégia: sempre que o enunciado atribuir algo benéfico ao excesso de consumo, desconfie e releia o trecho no contexto.
III. Incorreto. “Mais do que” (2º parágrafo) é de comparação; já “além disso” (3º parágrafo) é de adição/inclusão. Segundo Bechara, conectivos comparativos indicam relação de superioridade ou inferioridade, enquanto de adição apresentam valores somatórios. Portanto, não expressam a mesma ideia!
Por que as outras alternativas estão erradas?
- A) Todos os itens corretos: incorreta, pois item II é falso.
- C e D: incorretas porque somente o item I está correto dentre os três.
- E: Incorreta, pois o item III não é correto.
Resumo das estratégias:
→ Identifique conectivos e seu sentido.
→ Fique atento a afirmações opostas entre parágrafos.
→ Confira sempre a fidelidade das afirmações ao texto, especialmente quando envolvem benefícios ou prejuízos.
Referência: BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa; KOCH, Ingedore. A Coesão Textual.
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