Questões de Concurso Público Prefeitura de Maravilha - SC 2026 para Professor Língua Portuguesa
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Hubert Alquéres
Uma escola militar do Distrito Federal decidiu retirar de circulação A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, após reclamações de pais que enxergaram na obra referências inadequadas a questões de gênero. A notícia chama atenção por transformar um dos maiores clássicos da literatura infantil brasileira em objeto de suspeita ideológica.
Publicado em 1976, em pleno regime militar, A bolsa amarela ajudou a transformar a literatura infantil no Brasil. Lygia Bojunga pertence a uma geração de autores, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, que rompeu com a ideia de que livros destinados a crianças deveriam ser apenas moralizantes ou pedagógicos. Sua literatura introduziu densidade emocional, imaginação, medo, inadequação, desejo de liberdade e conflitos interiores como elementos legítimos da experiência infantil. Não por acaso, tornou-se a primeira autora brasileira a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante reconhecimento internacional da literatura infantil e juvenil.
É justamente aí que reside a principal contradição do episódio. O problema não parece estar no livro, mas na forma como ele passou a ser lido. Literatura não é cartilha ideológica. Personagens não são panfletos. Conflitos narrativos não equivalem automaticamente à defesa de comportamentos ou agendas políticas. Quando uma obra literária passa a ser examinada apenas como instrumento de vigilância moral, perde-se a capacidade de compreender o que distingue literatura de propaganda.
A questão ultrapassa, portanto, o debate específico sobre gênero. O que está em jogo é algo mais amplo: a dificuldade crescente de lidar com ambiguidades, metáforas, e conflitos próprios da literatura. Em vez de formar leitores capazes de interpretar criticamente textos complexos, cria-se uma cultura de leitura policialesca, na qual livros passam a ser investigados em busca de desvios ideológicos.
O paradoxo histórico é inevitável. A bolsa amarela surgiu em pleno regime militar, nunca foi censurada e logo consolidou-se como um clássico da literatura infantil brasileira. Décadas depois, passa a ser alvo de suspeita não por crítica política explícita, mas porque parte da sociedade passou a enxergar ameaças ideológicas até mesmo em narrativas voltadas à imaginação infantil.
Naturalmente, escolas e famílias têm o direito, e até o dever, de discutir adequação etária, mediação pedagógica e critérios de escolha de obras literárias. Esse debate é legítimo. O problema começa quando a reação abandona o terreno pedagógico e passa a tratar a literatura como objeto de interdição moral ou suspeita política.
Não é a primeira vez que obras literárias se transformam em objetos de suspeita. Isso quase nunca fortaleceu a educação ou a cultura. A literatura infantil séria nunca tratou apenas de histórias leves ou edificantes. Ela também aborda medos, frustrações, inadequações e descobertas.
Proteção excessiva pode produzir exatamente o oposto do que pretende: jovens menos preparados para lidar com complexidade, diferença e pensamento crítico.
Talvez o aspecto mais preocupante do episódio seja outro. Uma sociedade começa a empobrecer culturalmente quando perde a capacidade de distinguir livros de panfletos. Quando clássicos da imaginação infantil passam a ser tratados como ameaça ideológica, talvez o problema já não esteja nos livros.
Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.
(Disponível em: https://www.publishnews.com.br/materias/2026/05/27/o-dia-em-que-lygia-bojunga-virou-ameaca. Acesso em: 06 set. 2026. Adaptado.)
Após a leitura do artigo e mobilizando seus conhecimentos prévios, analise as sentenças a seguir:
I.A literatura infantil e juvenil é um agente de conhecimento, propiciando o questionamento dos valores em circulação na sociedade. Porém, por a sala de aula ser o principal reduto dessa literatura, o(a) professor(a) deve ter cautela ao escolher o que será lido, banindo das leituras e discussões obras que contrariem a vontade dos pais e de quaisquer outras pessoas externas à escola que sejam responsáveis diretas pelas crianças.
II.Com a literatura infantil e juvenil, o jovem leitor e cidadão, dentro ou fora da escola, pode ser introduzido, através da ficção e do discurso poético, à abordagem dos temas humanos da vida concreta não idealizada, portanto necessariamente relacional, diversificada e complexa.
III.Através da ficção e da linguagem poética, assuntos subjetivos, assuntos que não implicam nem são passíveis de lições, sistemas de controle e soluções unívocas, mas sim de opiniões pessoais, emoções, conflitos, discussões e controvérsias, podem vir à tona. São temas que não supõem "uma" verdade mas, sim, a pluralidade da verdade pois, diante deles, opiniões opostas e excludentes podem ser igualmente válidas.
É correto o que se afirma em:
I.Ler, escutar e produzir textos orais, escritos e multissemióticos que circulam em diferentes campos de atuação e mídias, com compreensão, autonomia, fluência e criticidade, de modo a se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos, e continuar aprendendo.
II.Analisar informações, argumentos e opiniões manifestados em interações sociais e nos meios de comunicação, posicionando-se ética e criticamente em relação a conteúdos discriminatórios que ferem direitos humanos e ambientais.
III.Selecionar textos e livros para leitura integral, de acordo com objetivos, interesses e projetos pessoais (estudo, formação pessoal, entretenimento, pesquisa, trabalho etc.).
IV.Mobilizar práticas da cultura digital, diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais para expandir as formas de produzir sentidos (nos processos de compreensão e produção), aprender e refletir sobre o mundo e realizar diferentes projetos autorais.
É correto o que se afirma em: