Questões de Concurso Público Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE 2025 para Professor de Ensino Fundamental II - Língua Portuguesa

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Q4091810 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Assinale a alternativa CORRETA em relação ao uso da palavra ‘aliás’ no trecho: “Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original”.
Alternativas
Q4091811 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Assinale a alternativa que apresenta o significado CORRETO da palavra destacada no trecho: “logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu”.
Alternativas
Q4091812 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
No trecho “Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás”, os termos destacados são classificados, respectivamente, como:
Alternativas
Q4091813 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Assinale a alternativa que apresenta um sinônimo adequado para a palavra destacada no trecho: “O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade.”.
Alternativas
Q4091814 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Assinale a alternativa que apresenta o significado CORRETO do verbo destacado em “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’.”
Alternativas
Q4091815 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, a classificação CORRETA das formas verbais destacadas no trecho: “Embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”.
Alternativas
Q4091816 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Na oração “Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência”, o verbo destacado tem como complemento(s):
Alternativas
Q4091817 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Assinale a alternativa que classifica CORRETAMENTE o termo destacado em “Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011 [...]”. 
Alternativas
Q4091818 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Assinale a alternativa que apresenta uma palavra formada APENAS por derivação sufixal.
Alternativas
Q4091819 Português
TEXTO

HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE APRESENTOU O BRASIL À EUROPA


   Era um tempo em que o lado americano do mundo era um universo misterioso, novo e instigante para o povo europeu. Então foi publicado um livro em que o autor-protagonista não só conta sobre fauna, flora e geografia dessas terras desconhecidas como ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido prisioneiro delas por nove meses.

  Não é à toa que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão importante. “Seu livro se tornou a única fonte de informação sobre esta parte do mundo”, diz a tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann, pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

   Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras impressões portuguesas no hoje território brasileiro, seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás, torna a obra do aventureiro alemão ainda mais original. Conforme pontua o brasilianista alemão Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em 2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o Brasil é improvável”.

   A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo despertou a atenção do incipiente mercado editorial europeu.

  Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos eram os tupinambás, também chamados de tamoios, grupo indígena que acabou completamente exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de um mundo de novas e até então inimagináveis possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz.

  “As leituras feitas atualmente [da obra] procuram entendê-la a partir do contexto em que foi produzida: tratava-se de um homem do século 16, envolvido na empresa de expansão dos horizontes geográficos e do conhecimento sobre o mundo na qual o Ocidente se empenhou [na época]”, contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em formas de diferenciação, de estranhamento muito fortes.”

    É por isso que, explica ela, a narração dos “rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás […] ressoaram intensamente no mundo europeu”.

   “O livro tornou-se um best-seller. No primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando que a impressão de livros em grande escala ainda era uma novidade na época”, afirma a historiadora Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto Martius-Staden. “É preciso lembrar que as experiências vividas por Staden eram, até então, completamente desconhecidas na Europa do século 16.”

    De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736, o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com traduções para várias línguas europeias”. Em português, a primeira tradução só foi publicada no século 19. “Este relato era interessante não só para dirigentes de nações europeias que tinham interesse comercial e econômico nessa parte do mundo, mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, diz Santana-Dezmann.

   Nascido há 500 anos em Homberg, hoje Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se apenas o ano –, Staden esteve na então América portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo de um navio.

    Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.

   Staden acabou contratado pelos colonos portugueses para atuar como guarda artilheiro no Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual antropofágico.

   Durante nove meses foi prisioneiro dos nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém nunca coletou informações tão precisas sobre os hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.

    Na interpretação da pesquisadora, Staden só conseguiu escapar porque durante o período em que esteve preso demonstrou que não tinha as características desejadas pelos tupinambás – que acreditavam que a antropofagia era uma maneira de absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos episódios deu demonstrações de covardia, medo e fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os tupinambás simplesmente perderam o interesse pela carne e pelas características de Staden”, resume ela.

  Suas experiências, únicas sob a perspectiva europeia da época, acabaram dando origem ao impressionante relato. Que, segundo o professor Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no Instituto Martius-Staden, se tornou “importante referência da época” porque conta com “informações antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim como dados geográficos da região, e foram relatos pioneiros, por assim dizer”.

   Curiosamente, a ideia inicial de Staden não era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas quando ele soube que naquele ano todas as expedições para esse lugar já tinham partido, acabou embarcando na primeira oportunidade que lhe parecesse interessante o suficiente.

   “O relato de Staden não é visto em termos de verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos significados do que descreveu para o mundo no qual vivia e para o mundo no qual vivemos agora”, pondera Junghans.

   O fascínio despertado pelo livro de Staden acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como nação – Staden esteve na colônia portuguesa localizada na América, um embrião do Brasil. Além disso, suas experiências foram localizadas, não compreendendo a diversidade dos povos indígenas que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva que partia exclusivamente do ponto de vista de um homem branco europeu.

   Na avaliação de Rothfuss, a obra se popularizou justamente por falar “sobre um mundo novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da contrarreforma religiosa, também pesou o apelo protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu discurso não deixava de funcionar como uma propaganda cristã não-católica. “São descrições em primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes dos indígenas da época, feitas por um europeu eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs. indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.

   O legado está presente até hoje, o que justifica Staden ser lembrado cinco séculos após seu nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans lembra ainda que essa narrativa ecoou em movimentos como o modernismo e o tropicalismo.

   “O livro traz Brasil no nome, embora Brasil como nação ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”, analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou se tornando referência dos hábitos brasileiros.”

   Em seu doutorado, defendido em 2007 na Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora estudou justamente esse imaginário criado. Para ela, o livro acabou contribuindo para a construção “da identidade nacional brasileira” na perspectiva do europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens puros […]. Não é uma definição desejável para a sociedade dita civilizada, porque somos canibais, ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em estado infantil que não tem muita noção das coisas, que não tem muita instrução.”


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
No trecho “mas também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em saber sobre esse local então desconhecido”, o termo destacado tem valor:
Alternativas
Q4092019 Português

Considere a imagem a seguir para responder a questão:




Fonte: @filomoderna

Assinale CORRETAMENTE sobre as estratégias textuais de argumentação presentes na imagem.
Alternativas
Q4092021 Português
TEXTO 1


    A 8ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho entendeu que não se reputa ofensa aos art. 2º, 3º, 442-B e 443 da CLT decisão do Tribunal Regional do Trabalho que reconheceu a fraude na contratação de coordenadores e professores como “autônomos”.

   Segundo a corte, os trabalhadores desempenhavam atividades que estavam ligadas à dinâmica final da instituição de ensino, bem como obrigados a cumprir as diretrizes e programações pré-estabelecidas nos horários e locais, além de obedecerem às regras profissionais gerais da empresa, mormente diante da subordinação aos diretores.

  No caso analisado pelo Tribunal, os professores e coordenadores não foram considerados autônomos (em uma instituição de ensino) porque desempenhavam atividades que estavam ligadas à dinâmica final da instituição, sobretudo por força do disposto no artigo 13 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

    Além disso, in casu, os requisitos da relação de emprego ficaram evidentes (subordinação jurídica, habitualidade, pessoalidade e onerosidade), pois os trabalhadores deviam cumprir as diretrizes e programações pré-estabelecidas nos horários e locais determinados, além de obedecerem às regras profissionais gerais da instituição (sendo que existia subordinação ao diretor e à coordenadora pedagógica).


Disponível em: <https://www.fortunatogoulart.adv.br/professores-e-coordenadores-nao-podemprestar-servicos-como-autonomos-em-instituicao-de-ensino/>.
Adaptado. Acesso em: 16 de setembro de 2025.


TEXTO 2




Fonte:
<https://x.com/conversaafiada/status/1105679880061018112>.



TEXTO 3


   Você sabia que contratar professores como Pessoa Jurídica (PJ) para prestar serviços que configuram vínculo empregatício é proibido? Essa prática viola os direitos trabalhistas garantidos pela CLT, como 13° salário, férias remuneradas, FGTS e outros benefícios essenciais para a categoria.

    A Lei 13.429/2017, conhecida como Lei da Terceirização, estabelece que a contratação como PJ só é permitida quando não há relação de subordinação, pessoalidade, habitualidade e onerosidade. Ou seja, sempre que o professor precisa cumprir horários fixos, recebe salário regular e segue ordens da instituição de ensino, o vínculo deve ser registrado como CLT, não como PJ.

   Caso você seja professor e tenha sido contratado como PJ ou tenha sofrido assédio para pedir demissão e aceitar esse tipo de vínculo, denuncie ao Sindicato dos Professores. Essa prática pode ser configurada como fraude trabalhista, passível de reparação na Justiça. Entre em contato com o sindicato agora mesmo e lute pelos seus direitos! Juntos, somos mais fortes!

(Adaptado de: https://acesse.dev/WkTxa)


TEXTO 4


Os semeadores


... Eis aí saiu o que semeia a semear... (MAT., XIII, 3.)


Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,

O doce fruto e a flor, Acaso esquecereis os ásperos e amargos

Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;

Contudo, esses heróis

Souberam resistir na afanosa porfia

Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,

E a fé, e as orações

Fizeram transformar a terra pobre em rica

E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,

O frio, a descalcez,

O morrer cada dia uma morte sem nome,

O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,

Como se fora réu

Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime

De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!

Venceste-la; e podeis

Entre as dobras dormir da secular mortalha;

Vivereis, vivereis!


ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Americanas. Disponível em:
<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/poesia/maps03.
pdf>. Acesso em: 16 de setembro de 2025.
Considerando os quatro textos, analise as sentenças a seguir:

I- A exploração dos "semeadores" no poema, configurando uma alegoria da condição do trabalhador explorado em diversos contextos históricos, assemelha-se à "pejotização" na medida em que ambas desumanizam o indivíduo e o reduzem a um instrumento para fins econômicos.
II- Machado de Assis, ao construir a imagem dos "semeadores" sacrificados em prol do progresso, antecipa a crítica à "pejotização", denunciando a fragilidade dos vínculos trabalhistas e a ausência de reconhecimento ao trabalhador, aspectos inerentes a esse modelo de contratação.
III- A referência aos "Paulos do sertão" no poema, para além da alusão aos bandeirantes, evoca a figura do Apóstolo Paulo como metáfora do trabalhador "pejotizado" que, tal qual um missionário, "semeia" conhecimento e serviços sem receber o devido reconhecimento ou recompensa.

Está(ão) CORRETA(S):
Alternativas
Q4092023 Português


TEXTO 4


Os semeadores


... Eis aí saiu o que semeia a semear... (MAT., XIII, 3.)


Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,

O doce fruto e a flor, Acaso esquecereis os ásperos e amargos

Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;

Contudo, esses heróis

Souberam resistir na afanosa porfia

Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,

E a fé, e as orações

Fizeram transformar a terra pobre em rica

E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,

O frio, a descalcez,

O morrer cada dia uma morte sem nome,

O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,

Como se fora réu

Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime

De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!

Venceste-la; e podeis

Entre as dobras dormir da secular mortalha;

Vivereis, vivereis!


ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Americanas. Disponível em:
<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/poesia/maps03.
pdf>. Acesso em: 16 de setembro de 2025.
Analise o processo de gramaticalização de "morrer" no verso "O morrer cada dia uma morte sem nome" e assinale a alternativa CORRETA.
Alternativas
Q4092024 Português


TEXTO 4


Os semeadores


... Eis aí saiu o que semeia a semear... (MAT., XIII, 3.)


Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,

O doce fruto e a flor, Acaso esquecereis os ásperos e amargos

Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;

Contudo, esses heróis

Souberam resistir na afanosa porfia

Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,

E a fé, e as orações

Fizeram transformar a terra pobre em rica

E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,

O frio, a descalcez,

O morrer cada dia uma morte sem nome,

O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,

Como se fora réu

Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime

De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!

Venceste-la; e podeis

Entre as dobras dormir da secular mortalha;

Vivereis, vivereis!


ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Americanas. Disponível em:
<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/poesia/maps03.
pdf>. Acesso em: 16 de setembro de 2025.
Considerando os versos "Contudo, esses heróis / Souberam resistir na afanosa porfia / Aos temporais e aos sóis." (Machado de Assis), analise as sentenças sobre a flexão de número dos substantivos "heróis" e "sóis".

I- "Heróis" apresenta alomorfia com acréscimo da vogal temática e da desinência de número /-s/.
II- A forma "sóis" mantém o ditongo aberto /ɔj/ no plural, em conformidade com a regra que determina a manutenção do ditongo nas palavras oxítonas terminadas em /-ol/, coincidindo também com a forma plural da segunda pessoa do Indicativo presente do verbo "ser".
III- A concordância nominal se estabelece com o acréscimo da desinência de número /-s/ aos determinantes "esses" e "aos", concordando em número com os substantivos "heróis" e "sóis", respectivamente.

Estão CORRETAS:
Alternativas
Q4092025 Português


TEXTO 4


Os semeadores


... Eis aí saiu o que semeia a semear... (MAT., XIII, 3.)


Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,

O doce fruto e a flor, Acaso esquecereis os ásperos e amargos

Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;

Contudo, esses heróis

Souberam resistir na afanosa porfia

Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,

E a fé, e as orações

Fizeram transformar a terra pobre em rica

E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,

O frio, a descalcez,

O morrer cada dia uma morte sem nome,

O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,

Como se fora réu

Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime

De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!

Venceste-la; e podeis

Entre as dobras dormir da secular mortalha;

Vivereis, vivereis!


ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Americanas. Disponível em:
<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/poesia/maps03.
pdf>. Acesso em: 16 de setembro de 2025.
Assinale a alternativa que explica CORRETAMENTE a ênclise em "Venceste-la".
Alternativas
Q4092026 Português
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Portuguesa concebem a produção de textos como prática social. Assinale a alternativa que complementa essa visão de forma coerente com as diretrizes dos PCNs.
Alternativas
Q4092027 Português
Conforme Friedrich Nietzsche, só se pode alcançar um grande êxito, quando nos mantemos fiéis a nós mesmos. Nesse sentido, analisando a estruturação desse pensamento, assinale a alternativa CORRETA. 
Alternativas
Q4092028 Português
Considere a situação a seguir:

Imagine que um pai, trabalhador humilde do interior, precise levar sua filha, na cidade, à festa de quinze anos da melhor amiga dela, cuja amizade era inseparável. No portão principal da comemoração, havia um aviso que deixou o homem nervoso e preocupado.

O provável aviso dizia:
Alternativas
Q4092029 Português
Ao trocar as consoantes sonoras das palavras “bola” e “jaca” por surdas, NÃO obtém-se o par: 
Alternativas
Q4092030 Português
Tendo em vista a ocorrência da crase, assinale a alternativa inteiramente CORRETA.
Alternativas
Respostas
1: C
2: B
3: A
4: A
5: B
6: B
7: C
8: A
9: C
10: B
11: B
12: A
13: B
14: C
15: A
16: B
17: D
18: C
19: B
20: C