HANS STADEN, O AVENTUREIRO QUE
APRESENTOU O BRASIL À EUROPA
Era um tempo em que o lado americano do
mundo era um universo misterioso, novo e instigante
para o povo europeu. Então foi publicado um livro em
que o autor-protagonista não só conta sobre fauna,
flora e geografia dessas terras desconhecidas como
ainda descreve o dia a dia, os costumes e as tradições
de pessoas canibais, relatando ele próprio ter sido
prisioneiro delas por nove meses.
Não é à toa que o aventureiro mercenário
alemão Hans Staden (1525-1576) se tornou tão
importante. “Seu livro se tornou a única fonte de
informação sobre esta parte do mundo”, diz a
tradutora e editora Vanete Santana-Dezmann,
pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos
Avançados da Universidade de São Paulo.
Isto porque, embora o escrivão Pero Vaz de
Caminha (1450-1500) tenha registrado as primeiras
impressões portuguesas no hoje território brasileiro,
seus escritos ficaram por muito tempo restritos, sem
terem sido publicados ao público em geral. Isso, aliás,
torna a obra do aventureiro alemão ainda mais
original. Conforme pontua o brasilianista alemão
Franz Obermeier, em artigo acadêmico publicado em
2011, “o acesso de Staden a manuscritos sobre o
Brasil é improvável”.
A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e
Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no
Novo Mundo, a América – também conhecida como
Duas Viagens Ao Brasil – foi publicada em 1557 na
antiga versão da Feira do Livro de Frankfurt e logo
despertou a atenção do incipiente mercado editorial
europeu.
Esses “selvagens, nus e ferozes” antropófagos
eram os tupinambás, também chamados de tamoios,
grupo indígena que acabou completamente
exterminado pelos colonizadores. Assim como a carta
de Caminha, o relato de Staden traz a “marca de um
relato inaugural, de notícia primeira, de abertura de
um mundo de novas e até então inimagináveis
possibilidades”, define a historiadora Miriam Elvira
Junghans, doutora pela Casa de Oswaldo Cruz da
Fundação Oswaldo Cruz.
“As leituras feitas atualmente [da obra]
procuram entendê-la a partir do contexto em que foi
produzida: tratava-se de um homem do século 16,
envolvido na empresa de expansão dos horizontes
geográficos e do conhecimento sobre o mundo na
qual o Ocidente se empenhou [na época]”,
contextualiza a pesquisadora. “As expectativas sobre
esse ‘novo mundo’ se traduziam, em especial, em
formas de diferenciação, de estranhamento muito
fortes.”
É por isso que, explica ela, a narração dos
“rituais de canibalismo praticados pelos tupinambás
[…] ressoaram intensamente no mundo europeu”.
“O livro tornou-se um best-seller. No
primeiro ano já teve uma segunda edição, lembrando
que a impressão de livros em grande escala ainda era
uma novidade na época”, afirma a historiadora
Daniela Rothfuss, coordenadora cultural do Instituto
Martius-Staden. “É preciso lembrar que as
experiências vividas por Staden eram, até então,
completamente desconhecidas na Europa do século
16.”
De acordo com Rothfuss, entre 1625 e 1736,
o relato do aventureiro foi publicado 16 vezes, “com
traduções para várias línguas europeias”. Em
português, a primeira tradução só foi publicada no
século 19. “Este relato era interessante não só para
dirigentes de nações europeias que tinham interesse
comercial e econômico nessa parte do mundo, mas
também a qualquer pessoa que tivesse curiosidade em
saber sobre esse local então desconhecido”, diz
Santana-Dezmann.
Nascido há 500 anos em Homberg, hoje
Alemanha – a data exata é desconhecida; sabe-se
apenas o ano –, Staden esteve na então América
portuguesa duas vezes entre 1548 e 1555. Na
primeira, lutou junto a portugueses contra indígenas
no Nordeste e, em seguida, contra franceses a bordo
de um navio.
Na outra viagem, o plano era chegar ao Rio da
Prata, mas dois naufrágios sucessivos alteraram o
destino. O primeiro fez com que Staden e o grupo
ficassem por dois anos no atual litoral catarinense. De
lá, embarcou com destino a São Vicente – um novo
naufrágio ocorreu na região de Itanhaém.
Staden acabou contratado pelos colonos
portugueses para atuar como guarda artilheiro no
Forte de São Filipe da Bertioga. “Ele manobrava
canhão”, conta a pesquisadora Santana-Dezmann. Foi
por conta desse trabalho de defesa que o aventureiro acabou capturado e aprisionado por indígenas
tupinambás, que pretendiam devorá-lo em um ritual
antropofágico.
Durante nove meses foi prisioneiro dos
nativos, que o preparavam para o ato canibal. Depois
de diversas tentativas infrutíferas ao longo de mais de
nove meses, conseguiu escapar: foi resgatado por um
navio pirata francês. “Além de Hans Staden, ninguém
nunca coletou informações tão precisas sobre os
hábitos de uma tribo canibal”, afirma Santana-Dezmann.
Na interpretação da pesquisadora, Staden só
conseguiu escapar porque durante o período em que
esteve preso demonstrou que não tinha as
características desejadas pelos tupinambás – que
acreditavam que a antropofagia era uma maneira de
absorver qualidades do inimigo. Ele chorava quando
rezava pedindo ajuda de Deus e em diversos
episódios deu demonstrações de covardia, medo e
fraquezas morais como o exercício da mentira. “Os
tupinambás simplesmente perderam o interesse pela
carne e pelas características de Staden”, resume ela.
Suas experiências, únicas sob a perspectiva
europeia da época, acabaram dando origem ao
impressionante relato. Que, segundo o professor
Augusto Rodrigues, arquivista e pesquisador no
Instituto Martius-Staden, se tornou “importante
referência da época” porque conta com “informações
antropológicas, sociológicas, linguísticas, culturais e
biológicas sobre indígenas da costa do Brasil, assim
como dados geográficos da região, e foram relatos
pioneiros, por assim dizer”.
Curiosamente, a ideia inicial de Staden não
era vir para o Brasil colonial. “Foi completamente por
acaso. Ele queria aventura, mas estava pensando nas
Índias Orientais, encantado pelas histórias daquela
civilização milenar”, conta Santana-Dezmann. Mas
quando ele soube que naquele ano todas as
expedições para esse lugar já tinham partido, acabou
embarcando na primeira oportunidade que lhe
parecesse interessante o suficiente.
“O relato de Staden não é visto em termos de
verdadeiro ou falso, mas sim de significados. Dos
significados do que descreveu para o mundo no qual
vivia e para o mundo no qual vivemos agora”,
pondera Junghans.
O fascínio despertado pelo livro de Staden
acabou criando no imaginário uma ideia de Brasil. O
que precisa ser entendido com muitas ressalvas, é
verdade. Primeiro porque o Brasil nem existia como
nação – Staden esteve na colônia portuguesa
localizada na América, um embrião do Brasil. Além
disso, suas experiências foram localizadas, não
compreendendo a diversidade dos povos indígenas
que viviam no território. Por fim, era uma perspectiva
que partia exclusivamente do ponto de vista de um
homem branco europeu.
Na avaliação de Rothfuss, a obra se
popularizou justamente por falar “sobre um mundo
novo e desconhecido para eles [europeus], tão exótico
e primitivo, por isso fascinante”. No contexto da
contrarreforma religiosa, também pesou o apelo
protestante da obra – Staden atribui à ajuda de Deus a
sua sobrevivência e, sendo ele um luterano, seu
discurso não deixava de funcionar como uma
propaganda cristã não-católica. “São descrições em
primeira mão sobre a vida, as crenças e os costumes
dos indígenas da época, feitas por um europeu
eurocentrista. Isto, entre outras coisas, suscita uma
análise crítica do discurso ‘europeu civilizado vs.
indígena selvagem’”, comenta Rodrigues.
O legado está presente até hoje, o que justifica
Staden ser lembrado cinco séculos após seu
nascimento. Além de diversos estudos acadêmicos, a
obra foi adaptada para o público infanto-juvenil pelo
escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Junghans
lembra ainda que essa narrativa ecoou em
movimentos como o modernismo e o tropicalismo.
“O livro traz Brasil no nome, embora Brasil
como nação ainda não existisse. Mas ficou a
impressão, no mundo inteiro, de que aquilo que o
Hans Staden narrava se referia aos hábitos do Brasil”,
analisa Santana-Dezmann. “Historicamente, acabou
se tornando referência dos hábitos brasileiros.”
Em seu doutorado, defendido em 2007 na
Universidade Estadual de Campinas, a pesquisadora
estudou justamente esse imaginário criado. Para ela,
o livro acabou contribuindo para a construção “da
identidade nacional brasileira” na perspectiva do
europeu. “Até hoje somos vistos como selvagens
puros […]. Não é uma definição desejável para a
sociedade dita civilizada, porque somos canibais,
ainda que hoje só metaforicamente. O brasileiro ainda
é visto na Europa como essa coisa carnavalesca, cheia
de plumas coloridas na cabeça […], esse ser meio em
estado infantil que não tem muita noção das coisas,
que não tem muita instrução.”
Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/hans-stadeno-aventureiro-que-apresentou-o-brasil-à-europa/a71617647>. Adaptado. Acesso em: 08 de setembro de
2025.
Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente,
a classificação CORRETA das formas verbais
destacadas no trecho: “Embora Brasil como nação
ainda não existisse. Mas ficou a impressão, no mundo
inteiro, de que aquilo que o Hans Staden narrava se
referia aos hábitos do Brasil”.