Questões de Concurso Comentadas sobre sintaxe em português

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Q3811484 Português
Índio eu não sou

-

Não me chame de "índio" porque
Esse nome nunca me pertenceu
Nem como apelido quero levar
Um erro que Colombo cometeu.

-

Por um erro de rota
Colombo em meu solo desembarcou
E no desejo de às Índias chegar
Com o nome de "índio" me apelidou.

-

Esse nome me traz muita dor
Uma bala em meu peito transpassou
Meu grito na mata ecoou
Meu sangue na terra jorrou.

-

Chegou tarde, eu já estava aqui
Caravela aportou bem ali
Eu vi "homem branco" subir
Na minha Uka me escondi.

-

Ele veio sem permissão
Com a cruz e a espada na mão
Nos seus olhos, uma missão
Dizimar para a civilização.

-

"Índio" eu não sou.
Sou Kambeba, sou Tembé
Sou kokama, sou Sataré
Sou Guarani, sou Arawaté
Sou tikuna, sou Suruí
Sou Tupinambá, sou Pataxó
Sou Terena, sou Tukano
Resisto com raça e fé.

No trecho "Por um erro de rota / Colombo em meu solo desembarcou", observa-se que o eu poético atribui à chegada do colonizador um motivo equivocado. Considerando o valor semântico do segmento "Por um erro de rota", identifique o tipo de relação que ele estabelece com o restante do enunciado.
Alternativas
Q3811483 Português
Índio eu não sou

-

Não me chame de "índio" porque
Esse nome nunca me pertenceu
Nem como apelido quero levar
Um erro que Colombo cometeu.

-

Por um erro de rota
Colombo em meu solo desembarcou
E no desejo de às Índias chegar
Com o nome de "índio" me apelidou.

-

Esse nome me traz muita dor
Uma bala em meu peito transpassou
Meu grito na mata ecoou
Meu sangue na terra jorrou.

-

Chegou tarde, eu já estava aqui
Caravela aportou bem ali
Eu vi "homem branco" subir
Na minha Uka me escondi.

-

Ele veio sem permissão
Com a cruz e a espada na mão
Nos seus olhos, uma missão
Dizimar para a civilização.

-

"Índio" eu não sou.
Sou Kambeba, sou Tembé
Sou kokama, sou Sataré
Sou Guarani, sou Arawaté
Sou tikuna, sou Suruí
Sou Tupinambá, sou Pataxó
Sou Terena, sou Tukano
Resisto com raça e fé.

No verso "E no desejo de às Índias chegar", observe o emprego do verbo "chegar". Considerando a regência verbal e a natureza do verbo quanto à sua transitividade, assinale a alternativa que apresenta CORRETAMENTE a classificação do verbo "chegar" nesse contexto. 
Alternativas
Q3811482 Português
Índio eu não sou

-

Não me chame de "índio" porque
Esse nome nunca me pertenceu
Nem como apelido quero levar
Um erro que Colombo cometeu.

-

Por um erro de rota
Colombo em meu solo desembarcou
E no desejo de às Índias chegar
Com o nome de "índio" me apelidou.

-

Esse nome me traz muita dor
Uma bala em meu peito transpassou
Meu grito na mata ecoou
Meu sangue na terra jorrou.

-

Chegou tarde, eu já estava aqui
Caravela aportou bem ali
Eu vi "homem branco" subir
Na minha Uka me escondi.

-

Ele veio sem permissão
Com a cruz e a espada na mão
Nos seus olhos, uma missão
Dizimar para a civilização.

-

"Índio" eu não sou.
Sou Kambeba, sou Tembé
Sou kokama, sou Sataré
Sou Guarani, sou Arawaté
Sou tikuna, sou Suruí
Sou Tupinambá, sou Pataxó
Sou Terena, sou Tukano
Resisto com raça e fé.

Em "E no desejo de às Índias chegar / Com o nome de 'índio' me apelidou", o uso do craseado 'às' se justifica por:
Alternativas
Q3811481 Português
Índio eu não sou

-

Não me chame de "índio" porque
Esse nome nunca me pertenceu
Nem como apelido quero levar
Um erro que Colombo cometeu.

-

Por um erro de rota
Colombo em meu solo desembarcou
E no desejo de às Índias chegar
Com o nome de "índio" me apelidou.

-

Esse nome me traz muita dor
Uma bala em meu peito transpassou
Meu grito na mata ecoou
Meu sangue na terra jorrou.

-

Chegou tarde, eu já estava aqui
Caravela aportou bem ali
Eu vi "homem branco" subir
Na minha Uka me escondi.

-

Ele veio sem permissão
Com a cruz e a espada na mão
Nos seus olhos, uma missão
Dizimar para a civilização.

-

"Índio" eu não sou.
Sou Kambeba, sou Tembé
Sou kokama, sou Sataré
Sou Guarani, sou Arawaté
Sou tikuna, sou Suruí
Sou Tupinambá, sou Pataxó
Sou Terena, sou Tukano
Resisto com raça e fé.

No verso "Chegou tarde, eu já estava aqui", observa-se o uso da vírgula separando dois enunciados de sentido completo, ambos com verbos e sujeitos próprios. Considerando a estrutura sintática do período e o valor da pontuação nesse contexto, assinale a alternativa que justifica CORRETAMENTE o emprego da vírgula. 
Alternativas
Q3811363 Português

Analise a concordância das palavras destacadas nas sentenças:


I.Vinha todo vestido em azul: azuis o chapéu, a vestimenta e a alma.


II.Elas próprias divulgaram o festival, estavam só naquele projeto.


III.Enviei anexa a primeira parte do livro.


Está correta a concordância nominal em:

Alternativas
Q3811293 Português
Os filhos das águas dos Solimões
-
A água é a mãe que sustenta
A vida que nasce como flor
Alimenta a planta e o ser vivente
É estrada onde anda o pescador.
-
Na enchente, vem veloz e furiosa
Derrubando ribanceiras e plantações
Afeta a vida do indígena e ribeirinho
É um ciclo, que se renova a cada estação.
-
Na vazante o rio quase some
E a praia começa a surgir
A água, agora bem calminha
Não tem forças para a roça destruir.
-
Nas margens de um rio em formação
Vive um povo que a água fez nascer
Em um parto de dor e emoção
Na várzea o Kambeba escolheu viver.
-

Mas em um contato fatal
Com um povo mais socializado
Fez dos herdeiros das águas
Um povo desaldeado.
-
Tomando seu solo sagrado
Sem dor, piedade ou compaixão
Os Kambebas foram escravizados
Apresentados a "civilização"
Exploraram a sua força
Forjando uma falsa proteção.
No verso "Exploraram a sua força, forjando uma falsa proteção", o termo "a sua força" desempenha a função de:
Alternativas
Q3811291 Português
Os filhos das águas dos Solimões
-
A água é a mãe que sustenta
A vida que nasce como flor
Alimenta a planta e o ser vivente
É estrada onde anda o pescador.
-
Na enchente, vem veloz e furiosa
Derrubando ribanceiras e plantações
Afeta a vida do indígena e ribeirinho
É um ciclo, que se renova a cada estação.
-
Na vazante o rio quase some
E a praia começa a surgir
A água, agora bem calminha
Não tem forças para a roça destruir.
-
Nas margens de um rio em formação
Vive um povo que a água fez nascer
Em um parto de dor e emoção
Na várzea o Kambeba escolheu viver.
-

Mas em um contato fatal
Com um povo mais socializado
Fez dos herdeiros das águas
Um povo desaldeado.
-
Tomando seu solo sagrado
Sem dor, piedade ou compaixão
Os Kambebas foram escravizados
Apresentados a "civilização"
Exploraram a sua força
Forjando uma falsa proteção.
No verso "A água é a mãe que sustenta/A vida que nasce como flor", as orações "que sustenta" e "que nasce" são classificadas sintaticamente como:
Alternativas
Q3811290 Português
Os filhos das águas dos Solimões
-
A água é a mãe que sustenta
A vida que nasce como flor
Alimenta a planta e o ser vivente
É estrada onde anda o pescador.
-
Na enchente, vem veloz e furiosa
Derrubando ribanceiras e plantações
Afeta a vida do indígena e ribeirinho
É um ciclo, que se renova a cada estação.
-
Na vazante o rio quase some
E a praia começa a surgir
A água, agora bem calminha
Não tem forças para a roça destruir.
-
Nas margens de um rio em formação
Vive um povo que a água fez nascer
Em um parto de dor e emoção
Na várzea o Kambeba escolheu viver.
-

Mas em um contato fatal
Com um povo mais socializado
Fez dos herdeiros das águas
Um povo desaldeado.
-
Tomando seu solo sagrado
Sem dor, piedade ou compaixão
Os Kambebas foram escravizados
Apresentados a "civilização"
Exploraram a sua força
Forjando uma falsa proteção.
No trecho "A água é a mãe", a expressão "a mãe" exerce a função sintática:
Alternativas
Q3811289 Português
Os filhos das águas dos Solimões
-
A água é a mãe que sustenta
A vida que nasce como flor
Alimenta a planta e o ser vivente
É estrada onde anda o pescador.
-
Na enchente, vem veloz e furiosa
Derrubando ribanceiras e plantações
Afeta a vida do indígena e ribeirinho
É um ciclo, que se renova a cada estação.
-
Na vazante o rio quase some
E a praia começa a surgir
A água, agora bem calminha
Não tem forças para a roça destruir.
-
Nas margens de um rio em formação
Vive um povo que a água fez nascer
Em um parto de dor e emoção
Na várzea o Kambeba escolheu viver.
-

Mas em um contato fatal
Com um povo mais socializado
Fez dos herdeiros das águas
Um povo desaldeado.
-
Tomando seu solo sagrado
Sem dor, piedade ou compaixão
Os Kambebas foram escravizados
Apresentados a "civilização"
Exploraram a sua força
Forjando uma falsa proteção.

No trecho "É um ciclo, que se renova a cada estação", a oração iniciada por "que" é:

Alternativas
Q3811287 Português
Os filhos das águas dos Solimões
-
A água é a mãe que sustenta
A vida que nasce como flor
Alimenta a planta e o ser vivente
É estrada onde anda o pescador.
-
Na enchente, vem veloz e furiosa
Derrubando ribanceiras e plantações
Afeta a vida do indígena e ribeirinho
É um ciclo, que se renova a cada estação.
-
Na vazante o rio quase some
E a praia começa a surgir
A água, agora bem calminha
Não tem forças para a roça destruir.
-
Nas margens de um rio em formação
Vive um povo que a água fez nascer
Em um parto de dor e emoção
Na várzea o Kambeba escolheu viver.
-

Mas em um contato fatal
Com um povo mais socializado
Fez dos herdeiros das águas
Um povo desaldeado.
-
Tomando seu solo sagrado
Sem dor, piedade ou compaixão
Os Kambebas foram escravizados
Apresentados a "civilização"
Exploraram a sua força
Forjando uma falsa proteção.
No verso "[...] Mas em um contato fatal / Com um povo mais socializado / Fez dos herdeiros das águas / Um povo desaldeado", o uso do conectivo "Mas" estabelece uma relação de:
Alternativas
Q3811201 Português

Analise a concordância das palavras destacadas nas sentenças:


I.Vinha todo vestido em azul: azuis o chapéu, a vestimenta e a alma.


II.Elas próprias divulgaram o festival, estavam só naquele projeto.


III.Enviei anexa a primeira parte do livro.


Está correta a concordância nominal em:

Alternativas
Q3811171 Português

Analise a concordância das palavras destacadas nas sentenças:



I. Vinha todo vestido em azul: azuis o chapéu, a vestimenta e a alma.


II. Elas próprias divulgaram o festival, estavam naquele projeto.


III. Enviei anexa a primeira parte do livro.



Está correta a concordância nominal em:

Alternativas
Q3811093 Português
Novo modelo clínico propõe cinco etapas para a prevenção do suicídio

Com base na psicoterapia existencial e em pesquisas empíricas recentes, método foca em fazer o paciente redescobrir o sentido e o propósito

Jean Silya

10/09/2025

Interessado, desde o início da pós-graduação, no tema-tabu do suicídio, o psicólogo Élison Santos propôs um novo modelo clínico de cinco etapas para a prevenção. Em seu doutorado em Psicologia Clínica, no Instituto de Psicologia (IP) da USP, Santos modelou uma estratégia integrada de princípios contemporâneos baseados em evidências, na psicoterapia existencial, logoterapia e pesquisas empíricas. Pela complexidade da ideação suicida, esses cinco passos foram elencados em detalhes em artigo publicado pela revista Journal Contemporary Psychotherapy.

Sem hierarquias entre as etapas, ele apresenta como primeiro passo a recepção diferenciada; em seguida, a conexão dos indivíduos com seus valores fundamentais e responsabilidades; depois, a expansão das perspectivas e possibilidades. Os últimos dois passos consistem em navegar por tensões existenciais, encorajando a ambivalência da vida, e auxiliar na redescoberta do propósito e agência.

Para o psicólogo, não há uma etapa mais importante que outra: "Precisa de muito cuidado para ajudar [um indivíduo em ideação suicida] de forma delicada e assertiva, para ele perceber que existe um sentido, ou ajudá-lo a encontrar um", destad

A busca humana por direção como uma força motivacional primária da psicologia existencial é o cerne dessa formulação. Conforme o autor, integrar conceitos e abordagens diferentes permite compreender não apenas as preocupações imediatas com a segurança, mas também o sofrimento existencial subjacente que contribui para os pensamentos suicidas. "O objetivo é propor um framework que possa ser utilizado por terapeutas de qualquer abordagem para lidar com a ideação suicida. Busca-se entender o fenômeno da ideação suicida e desenvolver um modelo para diferentes contextos", afirma Santos.

Da conexão humana à redescoberta

Na primeira etapa, de recepção diferenciada, o pesquisador ressalta a importância de fornecer conexão humana que reafirme a dignidade e o valor do paciente, devido ao profundo isolamento social, autopercepção como fardo e pertencimento frustrado - conforme alguns modelos teóricos do suicídio. A terapêutica é caracterizada pelo entendimento e validação para conter esses sentimentos, promovendo segurança, pertencimento e a sensação de ser verdadeiramente enxergado. "Esse é um passo comum para todas as terapias, a questão da acolhida", indica o pesquisador.

Em seguida, entram os valores e responsabilidades. Para isso, o terapeuta precisa guiar a pessoa paciente a identificar ou se reconectar a valores pessoais, sentidos de vida e seu senso de responsabilidade. Conforme Santos, a ideação suicida pode ser entendida, em parte, como um desvio decorrente de uma desconexão com esse senso interno de propósito. "É abrir um pouco essa ideia. Por exemplo, ajudar a pessoa a perceber que ela se importa com as pessoas pode despertar o senso de responsabilidade", continua.

Então, no terceiro e no quarto passo, busca-se expandir perspectivas e possibilidades, e navegar por tensões existenciais encorajando a ambivalência da vida. Estes são passos posteriores, mas mantêm-se importantes. "Se a ideação suicida tem a ver com um beco sem saída, então eu preciso falar: 'Olha, está vendo essa esquina, você entrou nesse beco sem saída, mas se der uns três passos atrás vai ver que existe um monte de outros caminhos aqui' ", explica sobre a expansão de horizontes do passo três. Já no passo quatro, ele ressalta a importância dessas pessoas "entenderem que a tensão que temos na vida faz parte dessa ambivalência comum a todos, e ajudar o paciente a se conectar com essas capacidades que temos de lidar com ela".

"Se a ideação suicida tem a ver com um beco sem saída, então eu preciso falar: 'Olha, tá vendo essa esquina, você entrou nesse beco sem saída, mas se der uns três passos atrás vai ver que tem um monte de outros caminhos aqui'"

Por último, na etapa final, de redescoberta do propósito e agência, a proposta é orientar essas pessoas a reconhecerem sua dor, de sentimentos de derrota e aprisionamento, ou falta de conquistas percebidas, direcionando-as a observá-los como percepções distorcidas da realidade. Para isso, os terapeutas auxiliam o paciente a acessar forças internas e a relembrar valores e objetivos mantidos antes da crise. A implementação bem-sucedida exige que os psicólogos clínicos desenvolvam competências em trabalho existencial centrado no direcionamento, com sensibilidade à diversidade de sistemas de crenças que possam ser apresentados.

Futuro da pesquisa

Essa modelagem preocupada mutuamente com a segurança e o sofrimento existencial precisa ainda ser consolidada por mais pesquisas. São necessários testes empíricos por meio de ensaios clínicos randomizados em larga escala para estabelecer sua eficácia e qualquer intervenção deve ser adaptada às necessidades individuais. Ainda assim, as contribuições da teoria de Análise Existencial de Viktor Frankl e a logoterapia dessa, que destaca a "vontade de sentido" como a motivação fundamental, permitiram ao estudo destacar a capacidade humana de superar situações extremas, mesmo diante de limitações sociais e sofrimento.

Em meio a um cenário global de extremismos, desigualdades e ansiedade climática, sentimentos que assolam os jovens com medo das mudanças climáticas, o suicídio ganha outras faces como sintoma dos problemas da sociedade. Ainda assim, apesar de o professor reconhecer que as psicoterapias podem não ter um alcance social massivo, elas podem ser capazes de "ajudar uma pessoa, o que pode curar simbolicamente a sociedade", afirma. "Às vezes, basta alguém mostrar interesse e preocupação para mudar o destino de uma pessoa. A área da saúde mental é complexa, e a combinação de estudos humanizadores e evidências científicas [na psicologia] pode ser produtiva", conclui o professor. 
Em "Busca-se entender o fenômeno da ideação suicida e desenvolver um modelo para diferentes contextos", ambas as orações, introduzidas por "entender" e "desenvolver", são orações subordinadas substantivas reduzidas de infinitivo que exercem função de: 
Alternativas
Q3811092 Português
Novo modelo clínico propõe cinco etapas para a prevenção do suicídio

Com base na psicoterapia existencial e em pesquisas empíricas recentes, método foca em fazer o paciente redescobrir o sentido e o propósito

Jean Silya

10/09/2025

Interessado, desde o início da pós-graduação, no tema-tabu do suicídio, o psicólogo Élison Santos propôs um novo modelo clínico de cinco etapas para a prevenção. Em seu doutorado em Psicologia Clínica, no Instituto de Psicologia (IP) da USP, Santos modelou uma estratégia integrada de princípios contemporâneos baseados em evidências, na psicoterapia existencial, logoterapia e pesquisas empíricas. Pela complexidade da ideação suicida, esses cinco passos foram elencados em detalhes em artigo publicado pela revista Journal Contemporary Psychotherapy.

Sem hierarquias entre as etapas, ele apresenta como primeiro passo a recepção diferenciada; em seguida, a conexão dos indivíduos com seus valores fundamentais e responsabilidades; depois, a expansão das perspectivas e possibilidades. Os últimos dois passos consistem em navegar por tensões existenciais, encorajando a ambivalência da vida, e auxiliar na redescoberta do propósito e agência.

Para o psicólogo, não há uma etapa mais importante que outra: "Precisa de muito cuidado para ajudar [um indivíduo em ideação suicida] de forma delicada e assertiva, para ele perceber que existe um sentido, ou ajudá-lo a encontrar um", destad

A busca humana por direção como uma força motivacional primária da psicologia existencial é o cerne dessa formulação. Conforme o autor, integrar conceitos e abordagens diferentes permite compreender não apenas as preocupações imediatas com a segurança, mas também o sofrimento existencial subjacente que contribui para os pensamentos suicidas. "O objetivo é propor um framework que possa ser utilizado por terapeutas de qualquer abordagem para lidar com a ideação suicida. Busca-se entender o fenômeno da ideação suicida e desenvolver um modelo para diferentes contextos", afirma Santos.

Da conexão humana à redescoberta

Na primeira etapa, de recepção diferenciada, o pesquisador ressalta a importância de fornecer conexão humana que reafirme a dignidade e o valor do paciente, devido ao profundo isolamento social, autopercepção como fardo e pertencimento frustrado - conforme alguns modelos teóricos do suicídio. A terapêutica é caracterizada pelo entendimento e validação para conter esses sentimentos, promovendo segurança, pertencimento e a sensação de ser verdadeiramente enxergado. "Esse é um passo comum para todas as terapias, a questão da acolhida", indica o pesquisador.

Em seguida, entram os valores e responsabilidades. Para isso, o terapeuta precisa guiar a pessoa paciente a identificar ou se reconectar a valores pessoais, sentidos de vida e seu senso de responsabilidade. Conforme Santos, a ideação suicida pode ser entendida, em parte, como um desvio decorrente de uma desconexão com esse senso interno de propósito. "É abrir um pouco essa ideia. Por exemplo, ajudar a pessoa a perceber que ela se importa com as pessoas pode despertar o senso de responsabilidade", continua.

Então, no terceiro e no quarto passo, busca-se expandir perspectivas e possibilidades, e navegar por tensões existenciais encorajando a ambivalência da vida. Estes são passos posteriores, mas mantêm-se importantes. "Se a ideação suicida tem a ver com um beco sem saída, então eu preciso falar: 'Olha, está vendo essa esquina, você entrou nesse beco sem saída, mas se der uns três passos atrás vai ver que existe um monte de outros caminhos aqui' ", explica sobre a expansão de horizontes do passo três. Já no passo quatro, ele ressalta a importância dessas pessoas "entenderem que a tensão que temos na vida faz parte dessa ambivalência comum a todos, e ajudar o paciente a se conectar com essas capacidades que temos de lidar com ela".

"Se a ideação suicida tem a ver com um beco sem saída, então eu preciso falar: 'Olha, tá vendo essa esquina, você entrou nesse beco sem saída, mas se der uns três passos atrás vai ver que tem um monte de outros caminhos aqui'"

Por último, na etapa final, de redescoberta do propósito e agência, a proposta é orientar essas pessoas a reconhecerem sua dor, de sentimentos de derrota e aprisionamento, ou falta de conquistas percebidas, direcionando-as a observá-los como percepções distorcidas da realidade. Para isso, os terapeutas auxiliam o paciente a acessar forças internas e a relembrar valores e objetivos mantidos antes da crise. A implementação bem-sucedida exige que os psicólogos clínicos desenvolvam competências em trabalho existencial centrado no direcionamento, com sensibilidade à diversidade de sistemas de crenças que possam ser apresentados.

Futuro da pesquisa

Essa modelagem preocupada mutuamente com a segurança e o sofrimento existencial precisa ainda ser consolidada por mais pesquisas. São necessários testes empíricos por meio de ensaios clínicos randomizados em larga escala para estabelecer sua eficácia e qualquer intervenção deve ser adaptada às necessidades individuais. Ainda assim, as contribuições da teoria de Análise Existencial de Viktor Frankl e a logoterapia dessa, que destaca a "vontade de sentido" como a motivação fundamental, permitiram ao estudo destacar a capacidade humana de superar situações extremas, mesmo diante de limitações sociais e sofrimento.

Em meio a um cenário global de extremismos, desigualdades e ansiedade climática, sentimentos que assolam os jovens com medo das mudanças climáticas, o suicídio ganha outras faces como sintoma dos problemas da sociedade. Ainda assim, apesar de o professor reconhecer que as psicoterapias podem não ter um alcance social massivo, elas podem ser capazes de "ajudar uma pessoa, o que pode curar simbolicamente a sociedade", afirma. "Às vezes, basta alguém mostrar interesse e preocupação para mudar o destino de uma pessoa. A área da saúde mental é complexa, e a combinação de estudos humanizadores e evidências científicas [na psicologia] pode ser produtiva", conclui o professor. 
Em "O objetivo é propor um framework que possa ser utilizado por terapeutas de qualquer abordagem para lidar com a ideação suicida.", o termo "que" funciona como: 
Alternativas
Q3811090 Português
Novo modelo clínico propõe cinco etapas para a prevenção do suicídio

Com base na psicoterapia existencial e em pesquisas empíricas recentes, método foca em fazer o paciente redescobrir o sentido e o propósito

Jean Silya

10/09/2025

Interessado, desde o início da pós-graduação, no tema-tabu do suicídio, o psicólogo Élison Santos propôs um novo modelo clínico de cinco etapas para a prevenção. Em seu doutorado em Psicologia Clínica, no Instituto de Psicologia (IP) da USP, Santos modelou uma estratégia integrada de princípios contemporâneos baseados em evidências, na psicoterapia existencial, logoterapia e pesquisas empíricas. Pela complexidade da ideação suicida, esses cinco passos foram elencados em detalhes em artigo publicado pela revista Journal Contemporary Psychotherapy.

Sem hierarquias entre as etapas, ele apresenta como primeiro passo a recepção diferenciada; em seguida, a conexão dos indivíduos com seus valores fundamentais e responsabilidades; depois, a expansão das perspectivas e possibilidades. Os últimos dois passos consistem em navegar por tensões existenciais, encorajando a ambivalência da vida, e auxiliar na redescoberta do propósito e agência.

Para o psicólogo, não há uma etapa mais importante que outra: "Precisa de muito cuidado para ajudar [um indivíduo em ideação suicida] de forma delicada e assertiva, para ele perceber que existe um sentido, ou ajudá-lo a encontrar um", destad

A busca humana por direção como uma força motivacional primária da psicologia existencial é o cerne dessa formulação. Conforme o autor, integrar conceitos e abordagens diferentes permite compreender não apenas as preocupações imediatas com a segurança, mas também o sofrimento existencial subjacente que contribui para os pensamentos suicidas. "O objetivo é propor um framework que possa ser utilizado por terapeutas de qualquer abordagem para lidar com a ideação suicida. Busca-se entender o fenômeno da ideação suicida e desenvolver um modelo para diferentes contextos", afirma Santos.

Da conexão humana à redescoberta

Na primeira etapa, de recepção diferenciada, o pesquisador ressalta a importância de fornecer conexão humana que reafirme a dignidade e o valor do paciente, devido ao profundo isolamento social, autopercepção como fardo e pertencimento frustrado - conforme alguns modelos teóricos do suicídio. A terapêutica é caracterizada pelo entendimento e validação para conter esses sentimentos, promovendo segurança, pertencimento e a sensação de ser verdadeiramente enxergado. "Esse é um passo comum para todas as terapias, a questão da acolhida", indica o pesquisador.

Em seguida, entram os valores e responsabilidades. Para isso, o terapeuta precisa guiar a pessoa paciente a identificar ou se reconectar a valores pessoais, sentidos de vida e seu senso de responsabilidade. Conforme Santos, a ideação suicida pode ser entendida, em parte, como um desvio decorrente de uma desconexão com esse senso interno de propósito. "É abrir um pouco essa ideia. Por exemplo, ajudar a pessoa a perceber que ela se importa com as pessoas pode despertar o senso de responsabilidade", continua.

Então, no terceiro e no quarto passo, busca-se expandir perspectivas e possibilidades, e navegar por tensões existenciais encorajando a ambivalência da vida. Estes são passos posteriores, mas mantêm-se importantes. "Se a ideação suicida tem a ver com um beco sem saída, então eu preciso falar: 'Olha, está vendo essa esquina, você entrou nesse beco sem saída, mas se der uns três passos atrás vai ver que existe um monte de outros caminhos aqui' ", explica sobre a expansão de horizontes do passo três. Já no passo quatro, ele ressalta a importância dessas pessoas "entenderem que a tensão que temos na vida faz parte dessa ambivalência comum a todos, e ajudar o paciente a se conectar com essas capacidades que temos de lidar com ela".

"Se a ideação suicida tem a ver com um beco sem saída, então eu preciso falar: 'Olha, tá vendo essa esquina, você entrou nesse beco sem saída, mas se der uns três passos atrás vai ver que tem um monte de outros caminhos aqui'"

Por último, na etapa final, de redescoberta do propósito e agência, a proposta é orientar essas pessoas a reconhecerem sua dor, de sentimentos de derrota e aprisionamento, ou falta de conquistas percebidas, direcionando-as a observá-los como percepções distorcidas da realidade. Para isso, os terapeutas auxiliam o paciente a acessar forças internas e a relembrar valores e objetivos mantidos antes da crise. A implementação bem-sucedida exige que os psicólogos clínicos desenvolvam competências em trabalho existencial centrado no direcionamento, com sensibilidade à diversidade de sistemas de crenças que possam ser apresentados.

Futuro da pesquisa

Essa modelagem preocupada mutuamente com a segurança e o sofrimento existencial precisa ainda ser consolidada por mais pesquisas. São necessários testes empíricos por meio de ensaios clínicos randomizados em larga escala para estabelecer sua eficácia e qualquer intervenção deve ser adaptada às necessidades individuais. Ainda assim, as contribuições da teoria de Análise Existencial de Viktor Frankl e a logoterapia dessa, que destaca a "vontade de sentido" como a motivação fundamental, permitiram ao estudo destacar a capacidade humana de superar situações extremas, mesmo diante de limitações sociais e sofrimento.

Em meio a um cenário global de extremismos, desigualdades e ansiedade climática, sentimentos que assolam os jovens com medo das mudanças climáticas, o suicídio ganha outras faces como sintoma dos problemas da sociedade. Ainda assim, apesar de o professor reconhecer que as psicoterapias podem não ter um alcance social massivo, elas podem ser capazes de "ajudar uma pessoa, o que pode curar simbolicamente a sociedade", afirma. "Às vezes, basta alguém mostrar interesse e preocupação para mudar o destino de uma pessoa. A área da saúde mental é complexa, e a combinação de estudos humanizadores e evidências científicas [na psicologia] pode ser produtiva", conclui o professor. 
A concordância do verbo "é" ocorre em relação a qual termo da oração: "A busca humana por direção como uma força motivacional primária da psicologia existencial é o cerne dessa formulação."?
Alternativas
Q3810957 Português
Analise a concordância das palavras destacadas nas sentenças:

I. Vinha todo vestido em azul: azuis o chapéu, a vestimenta e a alma.
II. Elas próprias divulgaram o festival, estavam naquele projeto.
III. Enviei anexa a primeira parte do livro.

Está correta a concordância nominal em:
Alternativas
Q3810683 Português
O passado que não passou


        Virou museu, livro, festival. Só não virou passado. Barbacena, entre uma ladeira e outra de Minas, dificilmente é separada do seu passado como casa da loucura brasileira. Foi abrigo de vários hospitais psiquiátricos, como o famoso Colônia, palco de mais de 60 mil mortes numa época em que ser triste era loucura. As fortes cenas de internos dormindo no chão, já que entre cama e concreto não havia diferença, indigentes num lugar que deveria ser o caminho para a recuperação e que foi, no melhor dos casos, o caminho mais curto para o fim de tantas vidas são, agora, história, literatura, reflexão e debate na sociedade local. Porém, a cada 4 anos, temos uma dose de insanidade para nos lembrar da nossa dolorosa alcunha.

         O jornalista Hiram Firmino comenta, no livro Nos porões da loucura, sobre os alicerces dos centros psiquiátricos — plataformas de deputados, prefeitos, secretários e diretores. As diretrizes dos tratamentos em Barbacena eram formadas a partir de interesses econômicos e eleitorais, dificilmente tendo em vista o real avanço da saúde pública e da humanização dos pacientes. Milhares de corpos eramvendidos para os cursos demedicina, já que cadáveres não faltavamnos hospícios,mas simmédico, apoio, investimento. Faltava boa vontade dos governantes. Homens, mulheres e crianças eram internados porque bebiam demais, namoravam demais, choravam demais e as instituições aceitavam, porque políticos e diretores lucravam demais. E os barbacenenses, de berço ou de coração, não estamos muito longe dos protagonistas deste drama.

         Num trecho do livro O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino, o herói Viramundo é questionado por ummorador de Barbacena se é biista ou bonifacista. Seria alheio ao enredo da loucura não fosse o fato de Viramundo ter sido internado como louco, não fosse o fato de que biista é quem vota na família Bias Fortes e bonifacista é quem vota na família Bonifácio Andrada. O ponto aqui é que as famílias Bias Fortes e Bonifácio Andrada ainda são as duas grandes vertentes da política local. Não subo, porém, no palanque da oposição contra as duas famílias; o que exponho é que não somos capazes de sair do script já tão bem conhecido de alternância de poder, em que até as divergências começam a convergir.

         De que a psiquiatria viveu maus momentos aqui não há dúvidas, mas Barbacena não é só o porão da loucura brasileira. A cidade também é das rosas, do povo mineiro que acolhe todos os anos mais de 150 jovens, meninos ainda, de todo o Brasil que vêm para cá em busca do sonho de se tornarem oficiais aviadores e encontram aqui os seus novos lares. Não sou mineiro, mas sou filho adotivo de Barbacena — que de madrasta não tem nada. Não só o Hospital Colônia, não só o Holocausto Brasileiro: Barbacena é seu povo e a história de cada um que aqui vive ou viveu, loucos ou sãos, esta é BQ, a Barbacena Querida. É por isso que o nosso dever é o de sermos lúcidos, o passado já mostrou que não existe riqueza neste mundo que pague o preço do descaso. É este descaso que precisamos analisar, já que o que aconteceu não foi só fruto de uma medicina precária, mas de uma política de má-fé que temo perdurar até hoje por aqui.

      Seja Andrada, Bias, ou Viramundo, o que Barbacena precisa é de um povo que, cansado da loucura a nós imposta, vote com a consciência dos que se recusam a aceitar a senilidade como cultura. Observemos o que Saramago expõe em seu romance Ensaio sobre a lucidez: a ideia de uma conscientização autônoma da população frente ao poder político. Uma comoção sem arma, sem luta, sem loucura. Uma comoção sã, de fazer da urna a extensão da força de um povo guerreiro. E quando me perguntarem, ao descobrirem que vivi na Cidade dos Loucos, se sou biista ou bonifacista, se sou louco ou são, responderei sem sombra de dúvidas: sou filho adotivo de Barbacena, cidade de subidas intermináveis e de pessoas memoráveis. Sou filho da cidade das rosas, do céu mais bonito que já vi. Louco eu seria se não visse beleza no “trem” de Minas, como no “meu” do meu berço paulista. Talvez sejamos todos um pouco loucos, mas é uma loucura de querer sorrir — a tristeza já morou por muito tempo em nossa cidade e está convidada a se retirar.



Disponível em: https://medium.com/medium-brasil/o-passado-que-nao-passou-caa48be90f15. Acesso em: 04.mai.2025. Adaptado.
 Analise a regência do verbo demarcado, no contexto discursivo a seguir, para identificar a alternativa correta.

“E quando me perguntarem, ao descobrirem que vivi na Cidade dos Loucos, se sou biista ou bonifacista [...]”
Alternativas
Q3810682 Português
O passado que não passou


        Virou museu, livro, festival. Só não virou passado. Barbacena, entre uma ladeira e outra de Minas, dificilmente é separada do seu passado como casa da loucura brasileira. Foi abrigo de vários hospitais psiquiátricos, como o famoso Colônia, palco de mais de 60 mil mortes numa época em que ser triste era loucura. As fortes cenas de internos dormindo no chão, já que entre cama e concreto não havia diferença, indigentes num lugar que deveria ser o caminho para a recuperação e que foi, no melhor dos casos, o caminho mais curto para o fim de tantas vidas são, agora, história, literatura, reflexão e debate na sociedade local. Porém, a cada 4 anos, temos uma dose de insanidade para nos lembrar da nossa dolorosa alcunha.

         O jornalista Hiram Firmino comenta, no livro Nos porões da loucura, sobre os alicerces dos centros psiquiátricos — plataformas de deputados, prefeitos, secretários e diretores. As diretrizes dos tratamentos em Barbacena eram formadas a partir de interesses econômicos e eleitorais, dificilmente tendo em vista o real avanço da saúde pública e da humanização dos pacientes. Milhares de corpos eramvendidos para os cursos demedicina, já que cadáveres não faltavamnos hospícios,mas simmédico, apoio, investimento. Faltava boa vontade dos governantes. Homens, mulheres e crianças eram internados porque bebiam demais, namoravam demais, choravam demais e as instituições aceitavam, porque políticos e diretores lucravam demais. E os barbacenenses, de berço ou de coração, não estamos muito longe dos protagonistas deste drama.

         Num trecho do livro O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino, o herói Viramundo é questionado por ummorador de Barbacena se é biista ou bonifacista. Seria alheio ao enredo da loucura não fosse o fato de Viramundo ter sido internado como louco, não fosse o fato de que biista é quem vota na família Bias Fortes e bonifacista é quem vota na família Bonifácio Andrada. O ponto aqui é que as famílias Bias Fortes e Bonifácio Andrada ainda são as duas grandes vertentes da política local. Não subo, porém, no palanque da oposição contra as duas famílias; o que exponho é que não somos capazes de sair do script já tão bem conhecido de alternância de poder, em que até as divergências começam a convergir.

         De que a psiquiatria viveu maus momentos aqui não há dúvidas, mas Barbacena não é só o porão da loucura brasileira. A cidade também é das rosas, do povo mineiro que acolhe todos os anos mais de 150 jovens, meninos ainda, de todo o Brasil que vêm para cá em busca do sonho de se tornarem oficiais aviadores e encontram aqui os seus novos lares. Não sou mineiro, mas sou filho adotivo de Barbacena — que de madrasta não tem nada. Não só o Hospital Colônia, não só o Holocausto Brasileiro: Barbacena é seu povo e a história de cada um que aqui vive ou viveu, loucos ou sãos, esta é BQ, a Barbacena Querida. É por isso que o nosso dever é o de sermos lúcidos, o passado já mostrou que não existe riqueza neste mundo que pague o preço do descaso. É este descaso que precisamos analisar, já que o que aconteceu não foi só fruto de uma medicina precária, mas de uma política de má-fé que temo perdurar até hoje por aqui.

      Seja Andrada, Bias, ou Viramundo, o que Barbacena precisa é de um povo que, cansado da loucura a nós imposta, vote com a consciência dos que se recusam a aceitar a senilidade como cultura. Observemos o que Saramago expõe em seu romance Ensaio sobre a lucidez: a ideia de uma conscientização autônoma da população frente ao poder político. Uma comoção sem arma, sem luta, sem loucura. Uma comoção sã, de fazer da urna a extensão da força de um povo guerreiro. E quando me perguntarem, ao descobrirem que vivi na Cidade dos Loucos, se sou biista ou bonifacista, se sou louco ou são, responderei sem sombra de dúvidas: sou filho adotivo de Barbacena, cidade de subidas intermináveis e de pessoas memoráveis. Sou filho da cidade das rosas, do céu mais bonito que já vi. Louco eu seria se não visse beleza no “trem” de Minas, como no “meu” do meu berço paulista. Talvez sejamos todos um pouco loucos, mas é uma loucura de querer sorrir — a tristeza já morou por muito tempo em nossa cidade e está convidada a se retirar.



Disponível em: https://medium.com/medium-brasil/o-passado-que-nao-passou-caa48be90f15. Acesso em: 04.mai.2025. Adaptado.
As orações introduzidas pelos elementos linguísticos, em I e em II, são respectivamente

“Observemos o que Saramago expõe em seu romance Ensaio sobre a lucidez [...]”
“[...] O ponto aqui é que as famílias Bias Fortes e Bonifácio Andrada ainda são as duas grandes vertentes da política local [...]”
Alternativas
Q3810680 Português
O passado que não passou


        Virou museu, livro, festival. Só não virou passado. Barbacena, entre uma ladeira e outra de Minas, dificilmente é separada do seu passado como casa da loucura brasileira. Foi abrigo de vários hospitais psiquiátricos, como o famoso Colônia, palco de mais de 60 mil mortes numa época em que ser triste era loucura. As fortes cenas de internos dormindo no chão, já que entre cama e concreto não havia diferença, indigentes num lugar que deveria ser o caminho para a recuperação e que foi, no melhor dos casos, o caminho mais curto para o fim de tantas vidas são, agora, história, literatura, reflexão e debate na sociedade local. Porém, a cada 4 anos, temos uma dose de insanidade para nos lembrar da nossa dolorosa alcunha.

         O jornalista Hiram Firmino comenta, no livro Nos porões da loucura, sobre os alicerces dos centros psiquiátricos — plataformas de deputados, prefeitos, secretários e diretores. As diretrizes dos tratamentos em Barbacena eram formadas a partir de interesses econômicos e eleitorais, dificilmente tendo em vista o real avanço da saúde pública e da humanização dos pacientes. Milhares de corpos eramvendidos para os cursos demedicina, já que cadáveres não faltavamnos hospícios,mas simmédico, apoio, investimento. Faltava boa vontade dos governantes. Homens, mulheres e crianças eram internados porque bebiam demais, namoravam demais, choravam demais e as instituições aceitavam, porque políticos e diretores lucravam demais. E os barbacenenses, de berço ou de coração, não estamos muito longe dos protagonistas deste drama.

         Num trecho do livro O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino, o herói Viramundo é questionado por ummorador de Barbacena se é biista ou bonifacista. Seria alheio ao enredo da loucura não fosse o fato de Viramundo ter sido internado como louco, não fosse o fato de que biista é quem vota na família Bias Fortes e bonifacista é quem vota na família Bonifácio Andrada. O ponto aqui é que as famílias Bias Fortes e Bonifácio Andrada ainda são as duas grandes vertentes da política local. Não subo, porém, no palanque da oposição contra as duas famílias; o que exponho é que não somos capazes de sair do script já tão bem conhecido de alternância de poder, em que até as divergências começam a convergir.

         De que a psiquiatria viveu maus momentos aqui não há dúvidas, mas Barbacena não é só o porão da loucura brasileira. A cidade também é das rosas, do povo mineiro que acolhe todos os anos mais de 150 jovens, meninos ainda, de todo o Brasil que vêm para cá em busca do sonho de se tornarem oficiais aviadores e encontram aqui os seus novos lares. Não sou mineiro, mas sou filho adotivo de Barbacena — que de madrasta não tem nada. Não só o Hospital Colônia, não só o Holocausto Brasileiro: Barbacena é seu povo e a história de cada um que aqui vive ou viveu, loucos ou sãos, esta é BQ, a Barbacena Querida. É por isso que o nosso dever é o de sermos lúcidos, o passado já mostrou que não existe riqueza neste mundo que pague o preço do descaso. É este descaso que precisamos analisar, já que o que aconteceu não foi só fruto de uma medicina precária, mas de uma política de má-fé que temo perdurar até hoje por aqui.

      Seja Andrada, Bias, ou Viramundo, o que Barbacena precisa é de um povo que, cansado da loucura a nós imposta, vote com a consciência dos que se recusam a aceitar a senilidade como cultura. Observemos o que Saramago expõe em seu romance Ensaio sobre a lucidez: a ideia de uma conscientização autônoma da população frente ao poder político. Uma comoção sem arma, sem luta, sem loucura. Uma comoção sã, de fazer da urna a extensão da força de um povo guerreiro. E quando me perguntarem, ao descobrirem que vivi na Cidade dos Loucos, se sou biista ou bonifacista, se sou louco ou são, responderei sem sombra de dúvidas: sou filho adotivo de Barbacena, cidade de subidas intermináveis e de pessoas memoráveis. Sou filho da cidade das rosas, do céu mais bonito que já vi. Louco eu seria se não visse beleza no “trem” de Minas, como no “meu” do meu berço paulista. Talvez sejamos todos um pouco loucos, mas é uma loucura de querer sorrir — a tristeza já morou por muito tempo em nossa cidade e está convidada a se retirar.



Disponível em: https://medium.com/medium-brasil/o-passado-que-nao-passou-caa48be90f15. Acesso em: 04.mai.2025. Adaptado.
De que a psiquiatria viveu maus momentos aqui não há dúvidas”
A função sintática da oração subordinada substantiva ressaltada, no período antecedente, é de
Alternativas
Q3810676 Português
O passado que não passou


        Virou museu, livro, festival. Só não virou passado. Barbacena, entre uma ladeira e outra de Minas, dificilmente é separada do seu passado como casa da loucura brasileira. Foi abrigo de vários hospitais psiquiátricos, como o famoso Colônia, palco de mais de 60 mil mortes numa época em que ser triste era loucura. As fortes cenas de internos dormindo no chão, já que entre cama e concreto não havia diferença, indigentes num lugar que deveria ser o caminho para a recuperação e que foi, no melhor dos casos, o caminho mais curto para o fim de tantas vidas são, agora, história, literatura, reflexão e debate na sociedade local. Porém, a cada 4 anos, temos uma dose de insanidade para nos lembrar da nossa dolorosa alcunha.

         O jornalista Hiram Firmino comenta, no livro Nos porões da loucura, sobre os alicerces dos centros psiquiátricos — plataformas de deputados, prefeitos, secretários e diretores. As diretrizes dos tratamentos em Barbacena eram formadas a partir de interesses econômicos e eleitorais, dificilmente tendo em vista o real avanço da saúde pública e da humanização dos pacientes. Milhares de corpos eramvendidos para os cursos demedicina, já que cadáveres não faltavamnos hospícios,mas simmédico, apoio, investimento. Faltava boa vontade dos governantes. Homens, mulheres e crianças eram internados porque bebiam demais, namoravam demais, choravam demais e as instituições aceitavam, porque políticos e diretores lucravam demais. E os barbacenenses, de berço ou de coração, não estamos muito longe dos protagonistas deste drama.

         Num trecho do livro O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino, o herói Viramundo é questionado por ummorador de Barbacena se é biista ou bonifacista. Seria alheio ao enredo da loucura não fosse o fato de Viramundo ter sido internado como louco, não fosse o fato de que biista é quem vota na família Bias Fortes e bonifacista é quem vota na família Bonifácio Andrada. O ponto aqui é que as famílias Bias Fortes e Bonifácio Andrada ainda são as duas grandes vertentes da política local. Não subo, porém, no palanque da oposição contra as duas famílias; o que exponho é que não somos capazes de sair do script já tão bem conhecido de alternância de poder, em que até as divergências começam a convergir.

         De que a psiquiatria viveu maus momentos aqui não há dúvidas, mas Barbacena não é só o porão da loucura brasileira. A cidade também é das rosas, do povo mineiro que acolhe todos os anos mais de 150 jovens, meninos ainda, de todo o Brasil que vêm para cá em busca do sonho de se tornarem oficiais aviadores e encontram aqui os seus novos lares. Não sou mineiro, mas sou filho adotivo de Barbacena — que de madrasta não tem nada. Não só o Hospital Colônia, não só o Holocausto Brasileiro: Barbacena é seu povo e a história de cada um que aqui vive ou viveu, loucos ou sãos, esta é BQ, a Barbacena Querida. É por isso que o nosso dever é o de sermos lúcidos, o passado já mostrou que não existe riqueza neste mundo que pague o preço do descaso. É este descaso que precisamos analisar, já que o que aconteceu não foi só fruto de uma medicina precária, mas de uma política de má-fé que temo perdurar até hoje por aqui.

      Seja Andrada, Bias, ou Viramundo, o que Barbacena precisa é de um povo que, cansado da loucura a nós imposta, vote com a consciência dos que se recusam a aceitar a senilidade como cultura. Observemos o que Saramago expõe em seu romance Ensaio sobre a lucidez: a ideia de uma conscientização autônoma da população frente ao poder político. Uma comoção sem arma, sem luta, sem loucura. Uma comoção sã, de fazer da urna a extensão da força de um povo guerreiro. E quando me perguntarem, ao descobrirem que vivi na Cidade dos Loucos, se sou biista ou bonifacista, se sou louco ou são, responderei sem sombra de dúvidas: sou filho adotivo de Barbacena, cidade de subidas intermináveis e de pessoas memoráveis. Sou filho da cidade das rosas, do céu mais bonito que já vi. Louco eu seria se não visse beleza no “trem” de Minas, como no “meu” do meu berço paulista. Talvez sejamos todos um pouco loucos, mas é uma loucura de querer sorrir — a tristeza já morou por muito tempo em nossa cidade e está convidada a se retirar.



Disponível em: https://medium.com/medium-brasil/o-passado-que-nao-passou-caa48be90f15. Acesso em: 04.mai.2025. Adaptado.
Atente-se aos vocábulos enumerados a seguir, de modo a assinalar a alternativa descrita corretamente.

“[...] o que¹ exponho é que² não somos capazes de sair do script já tão bem conhecido de alternância de poder [...]”
Alternativas
Respostas
4721: A
4722: C
4723: B
4724: D
4725: C
4726: B
4727: B
4728: B
4729: D
4730: D
4731: A
4732: A
4733: D
4734: E
4735: D
4736: E
4737: D
4738: C
4739: A
4740: E