Questões de Concurso
Sobre preposições em português
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Leia o trecho abaixo, retirado do texto:
“.... resposta da turma de Empreendedorismo e Linguagens Digitais veio em forma de aplicativo, elaborado para ser administrado pela prefeitura, com .... colaboração da população. Nele, há quatro opções para o usuário”.
Assinale a alternativa que apresenta, correta e respectivamente , as classes gramaticais das palavras
em negrito.
Morfologicamente ‘‘como’’ , no trecho acima, caracteriza-se por ser

(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2024/04/nem-sempre-e-amorclv6pwbnc01yh013wgm0eniiq.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
O vocábulo “em” (l. 03) é classificado como:
Complete a frase com a preposição adequada:
Concordo ____ sua opinião.
Quando a Vó me recebeu nas férias, ela me apresentou aos amigos: Este é meu neto. Ele foi estudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse que eu voltei de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de ateu. Como quem dissesse no carnaval: aquele menino está fantasiado de palhaço. Minha avó entendia de regências verbais. Ela falava de sério. Mas todo-mundo riu. Porque aquela preposição deslocada podia fazer de uma informação um chiste. E fez. E mais: eu acho que buscar a beleza nas palavras e uma solenidade de amor. E pode ser instrmento de rir. De outra feita, no meio da pelada um menino gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu não disiliminei ninguém. Mas aquele verbo novo trouxe um perfume de poesia à nossa quadra. Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aquela que não pode mudar de lugar. Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam. Por depois ouvir um vaqueiro a cantar com saudade: Ai morena, não me escreve/ que eu não sei a ler. Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro.
BARROS, M. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.
No texto “Cabeludinho” de Manuel de Barros, o autor usa elementos linguísticos para criar efeitos estilísticos e expressivos. Sobre o uso da preposição deslocada e a criação de verbos novos no texto, qual das alternativas a seguir está correta?

Visão do Correio: Lei Maria da Penha completa 18 anos sem comemoração
O país registrou alta de 0,8% no número de feminicídios em 2023, ante o total de 2022. As tentativas desse tipo de crime aumentaram em proporção ainda maior no mesmo período: 7,1%
Postado em 07/08/2024 06:00
1 Completando 18 anos de sua sanção hoje, a Lei Maria da Penha é um inquestionável marco no enfrentamento à violência doméstica contra a mulher no Brasil, seja ela física, psicológica, sexual, patrimonial e/ou moral. Logo em seu primeiro título, o texto de 2006 ressalta que "cabe à família, à sociedade e ao poder público criar as condições necessárias para o efetivo exercício dos direitos enunciados" na legislação.
2 Os 18 anos da lei, no entanto, convivem com um cenário ainda muito cruel contra a mulher. De acordo com o mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e publicado no mês passado, o país registrou alta de 0,8% no número de feminicídios em 2023, ante o total de 2022. As tentativas desse tipo de crime aumentaram em proporção ainda maior no mesmo período: 7,1%.
3 A efeméride e os números deixam claro que a Lei Maria da Penha ainda é muito recente — mesmo que reconhecida internacionalmente por sua ampla redação. Chama a atenção como um problema social tão grave da sociedade brasileira só foi alvo de prevenção por meio de uma política pública específica há menos de duas décadas. Essa morosidade até a criação da legislação evidencia uma população que ainda mata ou tenta matar uma mulher a cada duas horas, simplesmente pela questão de gênero, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
4 A mudança da cultura violenta da sociedade brasileira, sobretudo dos homens, deve passar por uma transformação drástica de comportamento e pela intensificação do debate social sobre o tema, até mesmo promovendo atualizações constantes na Maria da Penha. Desde que foi criada, a lei recebeu adendos importantes, como a medida protetiva de urgência sem a necessidade de registro de boletim de ocorrência ou abertura de inquérito e o acompanhamento psicossocial do agressor.
5 Essas atualizações, na toada do "antes tarde do que nunca", são peças-chave do complexo quebra-cabeça da violência contra a mulher no Brasil. O fato de o descumprimento de medida protetiva se tornar crime no país somente em 2018 é representativo para o cenário. A morosidade do Legislativo para discutir e aprovar as necessárias atualizações da Maria da Penha e criar novas políticas públicas sobre o tema tem como fator principal a predominância de homens no Congresso Nacional. Apesar de formarem 48,52% da população nacional, conforme o Censo de 2022, eles ocupam 85% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 81% das vagas do Senado Federal, segundo dados das próprias casas.
6 Toda jovialidade da Maria da Penha, representada por sua maioridade completada hoje, é refletida na sociedade. Parte dela ainda não entendeu que todos têm o dever, como deixa claro o primeiro título da legislação em vigor desde 2006, de combater a violência contra a mulher. É fundamental reafirmar mais uma vez que em briga de homem e mulher é preciso, sim, meter a colher.
7 Os indicadores acompanhados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública destacam a necessidade de mudança comportamental da população brasileira — especialmente dos homens — para além dos 46 artigos da Lei Maria da Penha. Entre 2022 e 2023, o total de mulheres estupradas cresceu 5,5%; as ameaças contra elas aumentaram 16,5%; e as lesões corporais se intensificaram em cerca de 10%.
8 Se há crescimento nos mais diferentes indicadores de violência contra a mulher, é preciso refletir o papel da sociedade, não só do poder público, nesse contexto. Torna-se urgente o combate a cada flagrante e a denúncia a cada suspeita, independentemente de vínculos familiares, para o Brasil poder, de fato, ter o que comemorar no enfrentamento a esse tipo de crime.
Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2024/08/6914867-visao-do-correio-lei-maria-da-penha-completa-18-anos-sem-comemoracao.html
Assinale a alternativa que apresenta termos regidos pela preposição “de”:
Açaí
Por Giullya Franco
- O açaí é um fruto brasileiro cultivado predominantemente na região amazônica. Com cor
- escura, que vai do roxo ao preto ▅ o fruto arredondado nasce em cachos e ▅ na maioria das
- vezes, em locais com solos mais úmidos ou alagados. Mesmo sendo um fruto característico da
- região Norte do país, o açaí se popularizou nacionalmente e é utilizado de diversas formas na
- culinária brasileira, já que possui muitas propriedades nutricionais.
- O açaizeiro, ou Palmeira-açaí (Euterpe oleracea), planta responsável pela produção do açaí,
- é uma monocotiledônea da família Arecaceae, nativa da região amazônica, que abran...e, além
- do Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, Guianas e Peru. No Brasil, cerca de 90% da produção
- está no estado do Pará.
- A Palmeira-açaí pode atingir mais de 20 metros de altura, e o fruto é formado em cachos.
- Cada palmeira costuma ter _____ quatro cachos por ano e cada um deles pode produzir uma
- quantidade aproximada de três a seis quilos do fruto.
- Curiosamente, cada região do Brasil tem um costume diferente para consumir o açaí. No
- Norte e Nordeste, principalmente, ele ocupa um lugar de alimentação básica e é consumido com
- outros alimentos, como arroz, feijão, carnes, camarão, farinha de tapioca e outros.
- Os nortistas e nordestinos também costumam consumir o suco do açaí. O fruto é amassado
- .... mão ou em máquinas específicas, peneirado e adicionado à água para ser consumido. Já nas
- regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, o açaí é mais considerado uma sobremesa. Sua polpa é
- utilizada para .... produção de sorvetes, vitaminas e diversas misturas geladas que recebem o
- acré...imo de frutas e guloseimas.
- Em relação .... nutrientes, o açaí é rico em proteínas, gordura vegetal, vitaminas (B1, C e
- E), minerais e fibras. A cor forte do açaí também tra... consigo uma importante característica
- que beneficia a saúde: a casca do fruto possui antocianina, substância antioxidante que ajuda a
- combater as células mortas do organismo, refletindo na melhora da pele e aparência. Pela
- quantidade de fibras, o açaí também contribui para a melhora do funcionamento intestinal, o que
- é fundamental para o bom funcionamento do organismo.
- Para finalizar, o açaí também está presente na rotina alimentar de muitos atletas, levando
- em consideração que a presença dos minerais ferro e cálcio ajuda no fortalecimento dos ossos e
- articulações, além de contribuir com as funções energéticas e cardiovasculares do corpo.
(Disponível em: www.mundoeducacao.uol.com.br/biologia/acai.htm – texto adaptado especialmente para esta prova).
Assinale a alternativa preenche, correta e respectivamente, as lacunas pontilhadas nas linhas 17, 19 e 21.
Leia a charge para responder às questões de 1 a 9.
Quino. Mafalda.
As palavras “de” e “com”, que ocorrem no terceiro quadrinho, têm o papel gramatical de:
Assinale a alternativa em que a preposição, utilizada para a união de substantivos, foi empregada de forma inadequada:
Algumas dúvidas sobre o chip implantado no cérebro
Por Aluizio Falcão Filho
- Talvez a maior notícia científica dos últimos anos foi divulgada ontem (30/01/2024) – o
- onipresente Elon Musk anunciou que uma de suas empresas, a Neuralink, realizou o implante de
- um chip em cérebro humano que permite ao usuário utilizar telefones e computadores, por
- exemplo, apenas pela ação do pensamento (nesta fase, apenas indivíduos sem membros do
- corpo, como braços e pernas, poderão experimentar a nova tecnologia).
- É importante ressaltar que outros chips já foram acoplados .... mente humana, mas com
- finalidades diferentes da “Telepathy”, o sugestivo nome criado pela empresa de Musk.
- Isso, evidentemente, é só o começo. Musk pretende estender o uso do chip para outros
- equipamentos e, mais à frente, usar essa ferramenta para aumentar a inteligência humana.
- “Imagine se Stephen Hawking pudesse se comunicar mais rápido que um datilógrafo ou leiloeiro.
- Esse é o objetivo”, afirmou Musk em rede social (leiloeiros americanos, especialmente os de
- gado, falam muito rápido quando estão anunciando os produtos .... plateias).
- Aumentar a inteligência dos seres humanos é um objetivo de vários cientistas – e
- preocupação de alguns teóricos, como o autor israelense Yuval Harari. Ele acredita que os chips
- vão criar duas castas na sociedade: aqueles que são superdotados pela tecnologia e aqueles que
- não são. Isso, para ele, terá impactos terríveis na sociedade por conta do desequilíbrio que será
- causado por essa diferença.
- Ocorre que o sistema capitalista sempre busca baratear e popularizar um determinado
- produto tecnológico – especialmente um chip com esse apelo, o de melhorar a inteligência. Dessa
- forma, se duas castas forem formadas, a tendência é a de que o chip se popularize rapidamente
- e iguale a sociedade, exatamente o que aconteceu com a disseminação dos telefones celulares.
- Mas aumentar a inteligência talvez não seja suficiente para que nos tornemos uma espécie
- mais evoluída. É possível ver pessoas inteligentes e com preconceitos pré-históricos. Um chip
- melhoraria o discernimento desses indivíduos, .... ponto de diminuir a intolerância? Ou
- simplesmente vai fornecer novos argumentos para fortalecer posições retrógradas?
- Outro ponto importante é a capacidade de analisar um processo antes de dar início a um
- trabalho. Como o próprio Musk diz, “possivelmente o erro mais comum de um engenheiro
- inteligente é otimizar algo que não deveria existir”. Para isso, no entanto, não é preciso
- inteligência – e sim bom senso.
- Tenho três dúvidas sobre o funcionamento desse chip:
- SONHOS – O chip continua funcionando durante o sono? Que comandos ele pode acionar
- se o usuário estiver, por exemplo, sonhando? A Neuralink informou que o aparelho foi instalado
- em uma área do cérebro que coordena os movimentos e, assim, não estaria sujeito aos efeitos
- do inconsciente. Mesmo assim, é bom efetuar testes neste sentido. Prevenir é melhor que
- remediar.
- ROMPANTES – Várias vezes temos o impulso de fazer alguma coisa e nos arrependemos
- segundos depois. Como vai se comportar o chip nessa hora?
- HACKERS – Nosso cérebro, uma vez abrigando um chip, pode ser acessado por alguém de
- fora? Ou seja, é possível hackear o cérebro de quem instalou um chip? Obrigar alguém a seguir
- ordens?
- Essas e outras perguntas vão surgir com o tempo. Mesmo que a ideia pareça assustadora,
- precisamos nos acostumar com ela. A alternativa ao chip é uma vida muito mais limitada e sem
- nenhuma competitividade.
(Disponível em: www.exame.com/colunistas/money-report-aluizio-falcao-filho/algumas-duvidas-sobre-o-chip-implantado-no-cerebro/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
O termo “nos” (l. 42) é classificado morfologicamente como:
“Ainda não se acostumou, mãe?”
Por Martha Medeiros
- Parece que foi ontem. Ela estava sentada à mesa conosco, nossa versão de “éramos seis”:
- eu, ela, o pai dela, a avó, a irmã e o namorado da irmã. Pedi para a Clair, minha funcionária
- ____ 32 anos, que ___________ uma lasanha inesquecível para o almoço de despedida. Depois
- de três semanas visitando a família, minha filha mais velha voltaria para sua própria casa. Menos
- de 24 horas depois, já tinha aterrissado na França, onde vive. Que invenção, o avião. Perdi a
- conta de quantas vezes os preparativos para sua estada se repetiram: fazer uma fa...ina
- capri...ada em seu antigo quarto, abastecer a despensa com feijão, doce de leite, guaraná e pão
- de queijo, buscá-la no aeroporto, levá-la ao aeroporto. Mas, recorrente mesmo, é o nosso diálogo
- antes de ela desaparecer por trás do portão de embarque. Trocamos um longo abraço e ao me
- ver meio desen...abida, sempre pergunta: “Ainda não se acostumou, mãe?”. Não sou de
- lamúrias: me acostumei, sim. Já são muitos anos de distância geográfica – e viva a tecnologia.
- Trocamos WhatsApp regulares e, através de chamadas de vídeo, percebo pelo seu olhar se está
- alegre ou preocupada. É quase como estar junto. Sou madura. Não faço drama.
- Quem dera ___________ mais beijos e abraços entre nós, mas as demandas pessoais dela
- são prioridade. Se viver fora do Brasil atende suas necessidades de expansão e conhecimento,
- vou eu fazer chantagem emocional? Quero que avance, que cresça, que se divirta e que, quando
- as tristezas surgirem (surgem em qualquer lugar do mundo), ela me ligue para a gente segurar
- a onda juntas. É possível ficar perto de quem está longe, distância não é um conceito exato.
- A conexão que importa é a da sintonia. Não posso desconsiderar seus desejos e
- menosprezar sua coragem de enfrentar a vida em outro idioma e mantendo outras relações.
- Parentes são abrigos, cais, plataformas de lançamento e recepção, mas crescemos mesmo
- através do que nos é estranho. Infelizmente, ninguém estimula pais e mães a pensarem assim.
- Aprendemos que, quanto maior o sofrimento pela ausência deles, maior é o amor. Então as
- queixas de saudade se acumulam e os filhos lá fora, coitados, que se virem com a culpa por
- terem partido.
- Se defendo minha liberdade, tenho que defender a liberdade da minha prole também – e
- apoiá-la. Não sofro, não me escabelo, sei que ela está bem, e quando está mal, não é por viver
- em um país estrangeiro, mas por questões emocionais que atingem a todos, onde quer que se
- esteja. Confio no amor que demonstro através da minha confiança e torcida. E os aviões estão
- aí para recuperar os abraços e beijos quando essa maturidade toda começa a fraquejar.
- Embarco depois de amanhã. É a vez dela de botar a mesa para mim.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/martha-medeiros/noticia/2024/02/ainda-nao-se-acostumou-mae-cls3dvasz001z012b2y6wgcvn.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Assinale a alternativa que indica a correta classe gramatical da palavra sublinhada na frase “Parece que foi ontem”.
Disponível em: <https://www.gov.br/agricultura/>. Acesso em: 3 fev. 2024, com adaptações.
Considerando os sentidos e os aspectos gramaticais do texto, assinale a alternativa correta.
O funileiro
O funileiro que se instalou à sombra de uma árvore, na minha rua, é um italiano do sul. “Nós somos quase todos italianos – diz ele. Mas tem de tudo. Tem muito cigano. Aí para Engenho de Dentro tem cigano que faz até tacho de cobre.”
– O senhor não faz?
Abana a cabeça. Trabalha entre Copacabana e Ipanema, onde ninguém quer tacho de cobre. Sinto, por um instante, a tentação de lhe encomendar um tacho de cobre. Mas percebo que é um desejo pueril, um eco da infância.
O grande e belo tacho de cobre que eu desejo, ele não poderia fazê-lo; ninguém o poderia. Não é apenas um objeto de metal, é o centro de muitas cenas perdidas, e a distância no tempo o faz quase sagrado, como se o fogo vermelho e grosso em que se faziam as goiabadas cheirosas fossem as chamas da pira de um rito esquecido. Em volta desse tacho há sombras queridas que sumiram, e vozes que se apagaram. As mãos diligentes que areavam o metal belo também já secaram, mortas.
Inútil enfeitar uma sala com vasilhame de cobre; a lembrança dos grandes tachos vermelhos da infância é incorruptível, e seria transformar uma parte da própria vida em motivo de decoração. Que emigrado da roça não sentiu uma indefinível estranheza e talvez um secreto mal-estar a primeira vez que viu, pregada na parede de um apartamento de luxo, um estribo de caçamba? É como se algo de sólido, de belo, de antigo, fosse corrompido; a caçamba sustenta, no lugar da bota viril de algum alto e rude tio da lavoura, um ramalhete de flores cor-de-rosa...
A beleza, suprema bênção das coisas e das criaturas, é também um pecado, punido pelo desvirtuamento que desliga o que é belo de sua própria função para apresentá-lo apenas em sua forma. O antique tem sempre um certo ar corrupto e vazio; é como se a sua beleza viesse de sua função e utilidade; e desligada destas assume um ar equívoco... O antique é sempre falso; é uma coisa antiga que deixa de ser coisa para ser apenas antiga. A caçamba de teu apartamento jamais é autêntica. Pode tê-lo sido, não é mais: é apenas um vaso de metal, para flores.
A tua caçamba, homem do apartamento, pode estar perfeita e brilhante; falta-lhe a lama dos humildes caminhos noturnos por onde teu cavalo não marchou; nunca terás por ela a amizade inconsciente mas profunda do homem que a usou longamente como estribo, que a teve na sua função, e não como vaso de flores.
O velho italiano conversa comigo enquanto bate, sabiamente, contra o ferro do cabeceiro, com um martelo grosso, o fundo de uma panela de alumínio. Mas são longas as conversas do funileiro; são longas como as ruas em que ele anda, longas como os caminhos da recordação.
(BRAGA, Rubem. In: 200 Crônicas Escolhidas – Círculo do Livro S.A.)
Quanto à classe gramatical das palavras sublinhadas, tem-se a correspondência INDEVIDA em:
As três bonecas
Ju morava numa rua tranquila com nome de heroína: Anita Garibaldi. Dali, das amigas da mãe, guarda boas lembranças: colos, cafunés, filhos, mimos, conselhos e broncas. Uma, ao ver Ju lavando alface como quem esfrega roupa, havia lhe ensinado a delicadeza das folhas. Outra, Marieta, lhe deixou uma lição. Numa visita, aproximou-se de Ju, que brincava de bonecas. E disse:
– Tenho uma boneca pra você!
Um forte desejo se acendeu na menina.
– Grande, como um bebê! Cabelos claros e curtos. Enroladinhos.
A menina sorriu. Mais tarde, folheando uma revista, adivinhou a boneca.
– É assim! – disse, abraçada à revista.
Deu-lhe o nome de Cecília. Chamaria as amigas, cada uma traria sua filha e fariam um lanche. Brincariam no jardim e ririam um bocado, até tarde. Cansadas, iriam cedo pra cama. Adormecer com Cecília seria melhor que mil mundos.
Foi uma espera em vão. Ainda lidava com a frustração, quando a mulher retornou. A claridade, que vinha do corredor, marcava a comprida silhueta que entrou falando:
– Tua boneca está lá guardada, esperando.
“Esperando o quê?”.
– Podia ter trazido. Comprei outra.
“Agora são duas bonecas!”, empolgou-se.
A mulher continuava:
– É moreninha, bem escura, cabelos compridos, arrumados em trança até a cintura. “Seria cor de jabuticaba?” Ju amava. Imaginou a boneca. “Será de pano? Fofa? Tem pano que tem cheiro bom, fino e macio, gostoso de pegar. Tem pano que é mais duro e pinica… Carmela!” Agora, numa só festa, apresentaria Cecília e Carmela às amigas. Já as via juntas, duas irmãs, cada uma de uma cor.
“Mas por que ela não trouxe logo as bonecas?”; “Vai ver que ela não sabia que ia passar aqui.”; “Vai ver que, outro dia, traz as duas.”; “Vai ver que…”; “vai ver…” Pensou durante a aula, em casa e antes de dormir.
Sonhou com Cecília e Carmela. Andaram de roda gigante, tão alto… Tocando as nuvens, Ju pegou um pedaço e experimentou. Azeda demais! Torceu o nariz, as outras riram. Ao acordar, procurou as bonecas e não achou. Onde estavam? Embaixo da cama? Dentro do armário? Na gaveta? Ou na casa de Marieta? Será que ela entregou para depois sequestrá-las? Se ela ia tirar, pra quê iria dar? Além de tudo, era amiga da mãe, por que faria isso? Só se a mãe não soubesse quem era a verdadeira Marieta…
Meses depois, ela chegou. A boneca não, Marieta! E falou pela terceira vez:
– Tenho outra boneca pra você. Podia ter trazido.
“Três? Sério?”
Daqui a pouco, só um reboque pra tanta promessa. Ju não se deixou enrolar. Um dia, fantasiou com Anita. Com nome de guerreira, lutaria, salvaria todas do cativeiro. A essa altura, era o que pensava: cativeiro.
Volta e meia, acontecia de sonhar com as três. Faziam estripulias, criavam brincadeiras e danças malucas e rolavam de rir. Um dia, Ju rolou pro chão mesmo. Doeu cotovelo, doeu bumbum, doeu tudo! Até a alma.
O tempo passou, tanto e mais um tico. Ju cresceu e se mudou da Rua Anita Garibaldi. De Marieta, ficou a lição: heroína mesmo era a criança que sobrevivia a certos adultos…
(Crônicas da infância: lembranças, afetos e reflexões [livro eletrônico] / organização Rosana Rios, Flávia Côrtes, Severino Rodrigues; ilustração Sandra Ronca. 1. ed. São Paulo: Edições AEILIJ: RR Literatura, 2021. PDF. Vários autores.)
Quando se tem a redução de duas ou mais sílabas a uma só, ou de duas vogais a uma, tem-se o fenômeno denominado contração, presente no texto em trechos como “Tenho uma boneca pra você!” (2º§), “Agora, numa só festa, apresentaria Cecília e Carmela às amigas.” (14º§) e “Um dia, Ju rolou pro chão mesmo.” (21º§). É correto afirmar que, nos termos sublinhados, houve a contração de: