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Questões de Concurso Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português

Questões Discursivas

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Q4097676 Português

O cuidado com a saúde mental na atualidade

Por FMUSP

O século XXI, junto a tantas novidades em diversos setores da sociedade, trouxe também um aumento significativo das doenças mentais – a depressão, por exemplo, é considerada o mal desse período. No Brasil, durante o primeiro ano da pandemia da covid-19, os casos de ansiedade e depressão aumentaram cerca de 25%. Dessa forma, a saúde mental se tornou tema corriqueiro na vida dos brasileiros. Se antes ela não estava entre as preocupações, hoje tem um protagonismo e é mais discutida abertamente. Em quatro anos, houve um aumento de 2,7 vezes na quantidade de pessoas que a consideram uma inquietude.

[...]

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a saúde mental não é só a ausência de doenças, mas, sim, o perfeito equilíbrio entre saúde física, mental, social e espiritual. Além de estar bem fisicamente, a pessoa precisa ter boas relações sociais e se entender como ser humano, por meio do autoconhecimento. Sendo assim, o fundamento da saúde mental se encontra em seus três pilares: o lado espiritual, físico e mental. Nesse sentido, há uma diferença entre ela e a saúde emocional, que está relacionada com o desequilíbrio momentâneo: “Você pode ser uma pessoa que não tem transtorno psiquiátrico, no entanto não está bem emocionalmente. Por exemplo, está em um processo de separação e está muito mexido e, com isso, não tem mecanismos internos para lidar no campo das emoções diante de um conflito. E aí adoece mentalmente naquele momento”, pontua o Coordenador da Pós-Graduação Multiprofissional em Saúde Mental e Psiquiatria do HCFMUSP, Dr. José Gilberto Prates, especialista em saúde mental e doutor em ciências da saúde.

[...]

Para que a saúde mental esteja sempre em dia, é preciso se conhecer e estabelecer alguns hábitos, como se alimentar bem, dormir o suficiente e ter relações sociais e afetivas de maneira saudável. Para os profissionais da saúde, que estiveram na linha de frente da covid-19 e tiveram de lidar com situações delicadas ao longo desse tempo, o cuidado é redobrado. Segundo o Dr. José Gilberto, a negligência com a saúde mental sempre existiu nessa classe, já que muitos trabalham em mais de dois ou três hospitais, o que prejudica os afazeres da vida pessoal, como praticar esportes, ler um livro e aproveitar a família. “Como cuidamos de outras pessoas, é necessário entender que precisamos cuidar da gente também. Tudo o que ajuda na qualidade de vida, ajuda na saúde mental”, afirma.

[...]

Hodiernamente, a sociedade passa por um período de vulnerabilidade no campo das emoções e no seu tempo de equilíbrio. Para que esse cenário comece a mudar, é importante que as pessoas comecem a adquirir hábitos saudáveis para uma melhor qualidade de vida. Com a quantidade de trabalho e uma vida mais frenética, não há autocuidado, nem atenção com o que está acontecendo ao redor, inclusive com a família. Resgatar a espiritualidade, até mesmo no campo religioso, faz com que a saúde mental fique protegida: “Quando eu vejo um jovem entrando em uma escola e praticando violência contra todo mundo… Eu acho que ele está muito freneticamente adoecido, e ninguém viu. Onde estamos falhando?”, pergunta Dr. José Gilberto.

É preciso se perguntar para onde a vida está caminhando e o que você está fazendo com ela. Algumas perguntas que o especialista sugere são: “Eu tenho conversado com meus amigos?”, “Eu dou atenção o suficiente?”, “Eu falo com minha família?”. O contato das relações é importante para que haja essa manutenção, de forma que você e o outro possam ser percebidos: “A professora de enfermagem Maria Júlia Paes da Silva tem um texto, que diz: ‘comunicação tem remédio’. Eu conversei com ela recentemente e falei: ‘professora, eu acho que comunicação é o remédio’”, finaliza.

[...]

Adaptado de: https://hcxfmusp.org.br/portal/online/saude-mental/. Acesso em: 19 nov. 2024.

Concernente à estrutura do texto, informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma a seguir e assinale a alternativa com a sequência correta.
( ) A menção a um doutor e à Organização Mundial da Saúde contribui, de maneira substancial, para fundamentar teoricamente a composição argumentativa do texto.
( ) O texto, entendido como uma transmissão e construção de saberes por meio de uma exposição, recorre a dados teóricos sobre o conhecimento acerca do cuidado com a saúde mental.
( ) O texto se constrói a partir de uma introdução, de um desenvolvimento e de uma conclusão, é uma composição argumentativa, por defender a ideia de que a atualidade cooperou com o aumento de doenças mentais. 
Alternativas
Q4097335 Português
A aprendizagem favorável ao conhecimento e aquisição de informações se dá por meio do ambiente em que o indivíduo está inserido, assim como a sua relação com o mediador desse conhecimento. Por meio disso, a relação professor – aluno, está CORRETAMENTE apresentada na alternativa:
Alternativas
Q4096705 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.



Histórias que o vento contou



Quando o Vento passa, o capim se encrespa como um lago e o trigal ondula como o mar. É a dança do Vento.


Não ouves o Vento contar histórias?


Sua voz é um canto, tem vários sons. Ouvido entre as árvores da floresta, tem um som; através dos buracos, das fendas e rachaduras das paredes, tem outro.


Vês, lá no alto, o Vento tangendo as nuvens como se fosse um rebanho de ovelhas? Ouves como aqui embaixo o Vento uiva através do portão aberto, como se fosse a sentinela tocando a sua corneta? Com estranho gemido entra pela chaminé da lareira. Erguem-se as labaredas, o fogo crepita, voam fagulhas, o clarão das chamas ilumina todo o aposento. Como é bom e agradável deixar-se ficar ali no aconchego da sala aquecida, e ouvir, embevecido, o Vento lá fora, a assobiar, a uivar... Ele conhece mais lendas e histórias do que todos nós juntos. A voz dele é um canto e um gemido. Deixa-o contar. (...)



ANDERSEN, Hans Christian. Histórias que o vento contou. Contos de Andersen. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. p. 119 (Coleção Leitura). 

Assinale a alternativa correta em relação à interpretação de “Histórias que o vento contou”.
Alternativas
Q4096416 Português
Um estudante questiona ao professor por que o handebol é considerado um esporte coletivo. O professor então destaca que esse tipo de esporte envolve cooperação e oposição entre equipes.

De acordo com o texto, qual é a característica central dos jogos esportivos coletivos? 
Alternativas
Q4095521 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.



A princesa e o sapo



    Era uma vez... numa terra muito distante... uma princesa linda, independente e cheia de autoestima.


    Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico...


    Então, a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.


    Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo.


    A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre...


    Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:


    - Eu, hein?... nem morta!



VERÍSSIMO, Luis Fernando. A princesa e o sapo. Disponível em <https://www.pensador.com/frase/MTM3OTAy/>.


Em relação ao texto “A princesa e o sapo”, é correto afirmar que o autor:
Alternativas
Q4095429 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


Estado de graça


    Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.

   O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Neste estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve, porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.

   E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom, porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.

   No estado de graça, vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Na verdade, o mundo é impalpável.

   Não é nem de longe o que mal imagino deva ser o estado de graça dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas o estado de graça de uma pessoa comum que, de súbito, se torna totalmente real, porque é comum e humana e reconhecível.

   As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta, silenciosa. É como numa anunciação. Não sendo, porém, precedida pelos anjos que, suponho, antecedem o estado de graça dos santos, é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.

   Depois, lentamente, se sai. Não como se estivesse estado em transe – não há nenhum transe –, sai-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este é. Também já é um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem quando quer e espontaneamente. (...)


LISPECTOR, Clarice. Estado de graça. Portal da crônica brasileira. Disponível em
<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12666/estado-de-graca-trecho>.
O texto “Estado de graça” é uma crônica que foi elaborada a partir de:
Alternativas
Q4094371 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


Um apólogo


    Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

    — Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

    — Deixe-me, senhora.

    — Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

    — Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

    — Mas você é orgulhosa.

    — Decerto que sou.

    — Mas por quê?

    — É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

    — Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

    — Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

    — Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

    — Também os batedores vão adiante do imperador.

    — Você é imperador?

    — Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto... (...)

     Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

     — Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá. (...)


ASSIS, Machado de. Um apólogo. Contos consagrados. Disponível em <https://www.biblio.com.br/conteudo/MachadodeAssis/umapologo.htm>.
Assinale a alternativa cujas características se aplicam corretamente ao texto “Um apólogo”.
Alternativas
Ano: 2025 Banca: CONSULPAM Órgão: Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE Provas: CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicólogo | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicólogo - CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - Plantonista Noturno | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - SAD | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - CAPS Geral | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - CAPS Álcool e Drogas | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - NACA | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ginecologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ortopedista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Assistente Social | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Fisioterapeuta | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário (Geral) | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Bucomaxilofacial | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Assistente Social CAPS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - CD - Radiologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário - Cirurgião | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Biomédico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário - Anestesista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Auditor | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Auditor - Regulação | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - UBS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Atendimento Noturno e Final de Semana | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Endodontista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Educador Físico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Enfermeiro | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Enfermeiro CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Farmacêutico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Orientador Ambiental (Educador Ambiental) | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Pedagogo - CRAS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicopedagogo NACA/CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Analista de Sistemas | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Engenheiro Civil | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Engenheiro Eletricista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Terapeuta Ocupacional | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Pediatra | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Neurologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ultrassonografista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Nutricionista |
Q4090579 Português
TEXTO


COMO DRONES SE TORNARAM UMA AMEAÇA ÀS COMUNIDADES RURAIS


  Os agricultores familiares de Limoeiro do Norte, no Ceará, preparavam-se para mais uma feira agroecológica mensal quando foram surpreendidos pela notícia de que o governador Elmano de Freitas (PT) havia prometido autorizar, até o fim de 2024, o uso de drones agrícolas para pulverização no estado.

   O anúncio reacendeu um medo já inexistente na cidade, palco histórico da luta contra a pulverização aérea de agrotóxicos no Brasil. Treze dias depois, a medida foi concretizada e o Ceará deixou de ser o único estado brasileiro a impedir totalmente essa modalidade de uso de pesticidas. “A história de veneno na nossa região já ultrapassa os limites. Vivemos numa situação delicada, o progresso chegando, o agronegócio dominando e a gente acuado”, lamenta Lucas Brito, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras familiares de Limoeiro.

   A reviravolta cearense não aconteceu por acaso. Os drones têm sido cada vez mais utilizados para pulverização de agrotóxicos no Brasil, vendidos como uma alternativa mais precisa e tecnológica aos aviões. Em dois anos, a quantidade de drones registrados na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para fins de pulverização aumentou em mais de dez vezes, saltando de 674 para 7.312 entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025.

   Antes, os registros se concentravam em 18 estados, agora já há presença de drones agrícolas cadastrados em 26 unidades da federação. O Ceará, que não tinha nenhum, já tem quatro cadastros. Além dele, passaram a figurar registros no Acre, Amazonas, Paraíba, Piauí, Roraima, Rio Grande do Norte e Distrito Federal. Já localidades onde há forte presença do agronegócio sofreram os aumentos mais expressivos. O Maranhão viu saltar os cadastros de um para 104, enquanto o Mato Grosso do Sul teve um aumento de dois para 103 drones.

   O avanço dos drones agrícolas no Brasil vem acompanhado da criação de normativas. Em 2021, a portaria 298/21 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) estabeleceu regras para os operadores e equipamentos. Para manejá-los, é preciso cadastrar os drones na Anac e realizar um curso, chamado de CAAR. Além disso, não é permitida a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas situadas a menos de vinte metros de povoações. Em estados como o Ceará e Maranhão, entretanto, a realidade é outra, denunciam movimentos sociais. Os drones se transformaram em uma ameaça.

  Um levantamento divulgado pela ONG Repórter Brasil no início deste mês mostra que 228 comunidades em 35 municípios do Maranhão denunciaram contaminação por pesticidas até outubro de 2024. Dessas, em 94% dos casos a pulverização foi feita por drones. “O problema dos drones no Maranhão se relaciona com a expansão do agronegócio [...] Há uma demanda excessiva pelo uso de agrotóxicos”, explica o advogado Diogo Cabral, da Federação dos Trabalhadores Rurais do Maranhão (Fetaema), uma das entidades que fez o levantamento.

  Segundo Cabral, os drones começaram a ser vistos na paisagem nos últimos quatro anos e estão relacionados à contaminação dos rios e nascentes, ao adoecimento agudo da população, que têm apresentado problemas de pele, enjoos e dificuldades respiratórias, e à perda de produção agroecológica. Alguns agricultores denunciam que os equipamentos têm sido utilizados a menos de 20 metros das residências e plantações. “Eles geralmente colocam muito cedo pela manhã ou no fim do dia. Sem contar que as famílias não têm mais privacidade. [...]

  De acordo com a Fetaema, todas as denúncias recebidas afirmam que os drones estão pulverizando diretamente o plantio das comunidades. Em São Mateus, a cerca de 200 quilômetros de São Luís, moradores de territórios quilombolas têm perdido a plantação de milho, abóbora e feijão por causa das pulverizações. “Está sem controle, e só quem perde somos nós, os pequenos”, reclama um representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de São Mateus.

   As ações são consideradas pelas entidades que defendem os agricultores como tentativas de expulsão das comunidades tradicionais. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que a contaminação por agrotóxicos nas comunidades rurais aumentou quase dez vezes no primeiro semestre de 2024. Na maioria dos casos de conflitos de terra registrados pela entidade, foi relatado uso de drones. “Eles fazem parte de um conjunto de ameaças. É uma tecnologia usada em conjunto a seguranças armados, que vigiam os caminhos, a movimentação no território”, explica Lenora Rodrigues, da coordenação da CPT Maranhão.

 “Os drones entraram como mais uma ferramenta para ajudar no processo de inviabilização da vida tradicional dessas comunidades”, afirma Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. O modelo de drone agrícola mais utilizado no país é o Agras T40, da empresa DJI, que representa 34,5% de todos os equipamentos cadastrados na Anac. De acordo com o site da fabricante, o drone pode carregar até 40 quilos de carga útil de pulverização e espalhar 1,5 tonelada de fertilizante por hora.

   Em seu último relatório anual, a DJI afirma que a indústria global de drones agrícolas está em expansão e destaca o Brasil, ao lado dos Estados Unidos e da China, como país que está na vanguarda da regulamentação desses equipamentos. No Brasil, há uma tendência em tornar os processos de registro mais fáceis. Em outubro de 2024, o Mapa anunciou uma consulta pública para desburocratizar cadastros de operadores e entidades de ensino. Em 2023, a Anac já havia simplificado as regras para cadastro dos drones agrícolas.

   “Para os pilotos de drone, as exigências são muito menores do que para os pilotos de avião, em termos de técnica e conhecimento para fazer essa atividade. Basta fazer um pequeno curso”, questiona Tygel. Na internet, é possível encontrar cursos totalmente online que prometem aulas do básico ao avançado por valores entre R$ 1 mil e R$ 4,5 mil.

   Cerca de 70% dos drones cadastrados em janeiro de 2023 para pulverização estavam em nomes de empresas. Esse percentual diminuiu para 48% em dois anos, ou seja, agora a maioria dos drones usados para pulverizar no país estão em nome de pessoas físicas. “A pessoa pode ter um certificado oficial do ministério sem nunca ter visto um drone”, afirma o deputado estadual Renato Roseno (PSOL-CE), um dos autores da lei que proibiu a pulverização aérea no Ceará em 2019.

    No começo de 2024, representantes do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Timbiras (STTR), no Maranhão, chegaram a ser procurados por representantes de empresas interessadas em ofertar cursos semelhantes. Em Açailândia, a própria prefeitura da cidade chegou a oferecer, em 2023, um curso de pilotagem de drone. “Muitos jovens têm procurado [esses cursos] porque dizem que é uma forma de ganhar dinheiro, que está em alta. Mas [as empresas] não socializam o que tem sido a questão do drone para a nossa vida, para o meio ambiente”, reclama uma agricultora local.

  De acordo com Cabral, as lojas de drones também passaram a ser vistas com mais frequência em pequenos e médios municípios onde há presença do agronegócio nos últimos dois anos. Apesar do crescimento do setor, entidades como Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a Fiocruz e a Cáritas, já se posicionaram contra a pulverização por drones.

  A Fiocruz e a Abrasco alegam que, apesar do discurso que posiciona os drones como menos contaminantes e mais precisos que aviões, faltam estudos para provar isso. “Os estudos sobre o impacto do uso de drones para a aplicação de agrotóxicos na saúde e no ambiente ainda não conseguiram acompanhar a velocidade do mercado”, diz uma nota técnica conjunta publicada em dezembro.

   A pulverização aérea é proibida na União Europeia desde 2009 e concentra críticas sobretudo pela deriva – quando a aplicação não atinge o local adequado e acerta alvos circunvizinhos. Um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que, mesmo com ventos ideais, apenas 32% dos agrotóxicos pulverizados por via aérea ficam retidos nas plantas.

   Para o pesquisador Fernando Carneiro, da Fiocruz Ceará e do grupo temático de Saúde e Ambiente da Abrasco, o avanço dos drones na agricultura está ligado à redução de custos das operações. Segundo o especialista, trocar a pulverização manual pelo drone impede que um trabalhador contaminado acione a Justiça por danos, bem como reduz o valor investido na logística de operação de aviões.

   Os parâmetros estabelecidos para a aplicação dos agrotóxicos e a capacidade dos governos de fiscalizar o cumprimento dessas regras também são alvo de críticas. “Pode-se estabelecer uma distância segura para aplicar o que chamamos de veneno? Não se pode ter controle do vento, da altura, do ângulo dos jatos”, afirma a advogada e coordenadora de projetos da ONG Esplar, Magnólia Said.


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/comodrones-se-tornaram-uma-ameaça-às-comunidadesrurais/a-71512506>. Adaptado. Acesso em: 14 de
setembro de 2025.
No trecho “O avanço dos drones agrícolas no Brasil vem acompanhado da criação de normativas”, a palavra destacada pode ser substituída, sem alteração de sentido, por: 
Alternativas
Ano: 2025 Banca: CONSULPAM Órgão: Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE Provas: CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicólogo | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicólogo - CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - Plantonista Noturno | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - SAD | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - CAPS Geral | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - CAPS Álcool e Drogas | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - NACA | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ginecologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ortopedista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Assistente Social | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Fisioterapeuta | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário (Geral) | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Bucomaxilofacial | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Assistente Social CAPS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - CD - Radiologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário - Cirurgião | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Biomédico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário - Anestesista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Auditor | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Auditor - Regulação | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - UBS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Atendimento Noturno e Final de Semana | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Endodontista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Educador Físico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Enfermeiro | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Enfermeiro CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Farmacêutico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Orientador Ambiental (Educador Ambiental) | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Pedagogo - CRAS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicopedagogo NACA/CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Analista de Sistemas | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Engenheiro Civil | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Engenheiro Eletricista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Terapeuta Ocupacional | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Pediatra | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Neurologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ultrassonografista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Nutricionista |
Q4090574 Português
TEXTO


COMO DRONES SE TORNARAM UMA AMEAÇA ÀS COMUNIDADES RURAIS


  Os agricultores familiares de Limoeiro do Norte, no Ceará, preparavam-se para mais uma feira agroecológica mensal quando foram surpreendidos pela notícia de que o governador Elmano de Freitas (PT) havia prometido autorizar, até o fim de 2024, o uso de drones agrícolas para pulverização no estado.

   O anúncio reacendeu um medo já inexistente na cidade, palco histórico da luta contra a pulverização aérea de agrotóxicos no Brasil. Treze dias depois, a medida foi concretizada e o Ceará deixou de ser o único estado brasileiro a impedir totalmente essa modalidade de uso de pesticidas. “A história de veneno na nossa região já ultrapassa os limites. Vivemos numa situação delicada, o progresso chegando, o agronegócio dominando e a gente acuado”, lamenta Lucas Brito, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras familiares de Limoeiro.

   A reviravolta cearense não aconteceu por acaso. Os drones têm sido cada vez mais utilizados para pulverização de agrotóxicos no Brasil, vendidos como uma alternativa mais precisa e tecnológica aos aviões. Em dois anos, a quantidade de drones registrados na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para fins de pulverização aumentou em mais de dez vezes, saltando de 674 para 7.312 entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025.

   Antes, os registros se concentravam em 18 estados, agora já há presença de drones agrícolas cadastrados em 26 unidades da federação. O Ceará, que não tinha nenhum, já tem quatro cadastros. Além dele, passaram a figurar registros no Acre, Amazonas, Paraíba, Piauí, Roraima, Rio Grande do Norte e Distrito Federal. Já localidades onde há forte presença do agronegócio sofreram os aumentos mais expressivos. O Maranhão viu saltar os cadastros de um para 104, enquanto o Mato Grosso do Sul teve um aumento de dois para 103 drones.

   O avanço dos drones agrícolas no Brasil vem acompanhado da criação de normativas. Em 2021, a portaria 298/21 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) estabeleceu regras para os operadores e equipamentos. Para manejá-los, é preciso cadastrar os drones na Anac e realizar um curso, chamado de CAAR. Além disso, não é permitida a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas situadas a menos de vinte metros de povoações. Em estados como o Ceará e Maranhão, entretanto, a realidade é outra, denunciam movimentos sociais. Os drones se transformaram em uma ameaça.

  Um levantamento divulgado pela ONG Repórter Brasil no início deste mês mostra que 228 comunidades em 35 municípios do Maranhão denunciaram contaminação por pesticidas até outubro de 2024. Dessas, em 94% dos casos a pulverização foi feita por drones. “O problema dos drones no Maranhão se relaciona com a expansão do agronegócio [...] Há uma demanda excessiva pelo uso de agrotóxicos”, explica o advogado Diogo Cabral, da Federação dos Trabalhadores Rurais do Maranhão (Fetaema), uma das entidades que fez o levantamento.

  Segundo Cabral, os drones começaram a ser vistos na paisagem nos últimos quatro anos e estão relacionados à contaminação dos rios e nascentes, ao adoecimento agudo da população, que têm apresentado problemas de pele, enjoos e dificuldades respiratórias, e à perda de produção agroecológica. Alguns agricultores denunciam que os equipamentos têm sido utilizados a menos de 20 metros das residências e plantações. “Eles geralmente colocam muito cedo pela manhã ou no fim do dia. Sem contar que as famílias não têm mais privacidade. [...]

  De acordo com a Fetaema, todas as denúncias recebidas afirmam que os drones estão pulverizando diretamente o plantio das comunidades. Em São Mateus, a cerca de 200 quilômetros de São Luís, moradores de territórios quilombolas têm perdido a plantação de milho, abóbora e feijão por causa das pulverizações. “Está sem controle, e só quem perde somos nós, os pequenos”, reclama um representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de São Mateus.

   As ações são consideradas pelas entidades que defendem os agricultores como tentativas de expulsão das comunidades tradicionais. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que a contaminação por agrotóxicos nas comunidades rurais aumentou quase dez vezes no primeiro semestre de 2024. Na maioria dos casos de conflitos de terra registrados pela entidade, foi relatado uso de drones. “Eles fazem parte de um conjunto de ameaças. É uma tecnologia usada em conjunto a seguranças armados, que vigiam os caminhos, a movimentação no território”, explica Lenora Rodrigues, da coordenação da CPT Maranhão.

 “Os drones entraram como mais uma ferramenta para ajudar no processo de inviabilização da vida tradicional dessas comunidades”, afirma Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. O modelo de drone agrícola mais utilizado no país é o Agras T40, da empresa DJI, que representa 34,5% de todos os equipamentos cadastrados na Anac. De acordo com o site da fabricante, o drone pode carregar até 40 quilos de carga útil de pulverização e espalhar 1,5 tonelada de fertilizante por hora.

   Em seu último relatório anual, a DJI afirma que a indústria global de drones agrícolas está em expansão e destaca o Brasil, ao lado dos Estados Unidos e da China, como país que está na vanguarda da regulamentação desses equipamentos. No Brasil, há uma tendência em tornar os processos de registro mais fáceis. Em outubro de 2024, o Mapa anunciou uma consulta pública para desburocratizar cadastros de operadores e entidades de ensino. Em 2023, a Anac já havia simplificado as regras para cadastro dos drones agrícolas.

   “Para os pilotos de drone, as exigências são muito menores do que para os pilotos de avião, em termos de técnica e conhecimento para fazer essa atividade. Basta fazer um pequeno curso”, questiona Tygel. Na internet, é possível encontrar cursos totalmente online que prometem aulas do básico ao avançado por valores entre R$ 1 mil e R$ 4,5 mil.

   Cerca de 70% dos drones cadastrados em janeiro de 2023 para pulverização estavam em nomes de empresas. Esse percentual diminuiu para 48% em dois anos, ou seja, agora a maioria dos drones usados para pulverizar no país estão em nome de pessoas físicas. “A pessoa pode ter um certificado oficial do ministério sem nunca ter visto um drone”, afirma o deputado estadual Renato Roseno (PSOL-CE), um dos autores da lei que proibiu a pulverização aérea no Ceará em 2019.

    No começo de 2024, representantes do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Timbiras (STTR), no Maranhão, chegaram a ser procurados por representantes de empresas interessadas em ofertar cursos semelhantes. Em Açailândia, a própria prefeitura da cidade chegou a oferecer, em 2023, um curso de pilotagem de drone. “Muitos jovens têm procurado [esses cursos] porque dizem que é uma forma de ganhar dinheiro, que está em alta. Mas [as empresas] não socializam o que tem sido a questão do drone para a nossa vida, para o meio ambiente”, reclama uma agricultora local.

  De acordo com Cabral, as lojas de drones também passaram a ser vistas com mais frequência em pequenos e médios municípios onde há presença do agronegócio nos últimos dois anos. Apesar do crescimento do setor, entidades como Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a Fiocruz e a Cáritas, já se posicionaram contra a pulverização por drones.

  A Fiocruz e a Abrasco alegam que, apesar do discurso que posiciona os drones como menos contaminantes e mais precisos que aviões, faltam estudos para provar isso. “Os estudos sobre o impacto do uso de drones para a aplicação de agrotóxicos na saúde e no ambiente ainda não conseguiram acompanhar a velocidade do mercado”, diz uma nota técnica conjunta publicada em dezembro.

   A pulverização aérea é proibida na União Europeia desde 2009 e concentra críticas sobretudo pela deriva – quando a aplicação não atinge o local adequado e acerta alvos circunvizinhos. Um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que, mesmo com ventos ideais, apenas 32% dos agrotóxicos pulverizados por via aérea ficam retidos nas plantas.

   Para o pesquisador Fernando Carneiro, da Fiocruz Ceará e do grupo temático de Saúde e Ambiente da Abrasco, o avanço dos drones na agricultura está ligado à redução de custos das operações. Segundo o especialista, trocar a pulverização manual pelo drone impede que um trabalhador contaminado acione a Justiça por danos, bem como reduz o valor investido na logística de operação de aviões.

   Os parâmetros estabelecidos para a aplicação dos agrotóxicos e a capacidade dos governos de fiscalizar o cumprimento dessas regras também são alvo de críticas. “Pode-se estabelecer uma distância segura para aplicar o que chamamos de veneno? Não se pode ter controle do vento, da altura, do ângulo dos jatos”, afirma a advogada e coordenadora de projetos da ONG Esplar, Magnólia Said.


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/comodrones-se-tornaram-uma-ameaça-às-comunidadesrurais/a-71512506>. Adaptado. Acesso em: 14 de
setembro de 2025.
No trecho “a indústria global de drones agrícolas está em expansão e destaca o Brasil, ao lado dos Estados Unidos e da China, como país que está na vanguarda da regulamentação desses equipamentos”, a palavra destacada significa que o Brasil está:
Alternativas
Ano: 2025 Banca: CONSULPAM Órgão: Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE Provas: CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicólogo | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicólogo - CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - Plantonista Noturno | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - SAD | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - CAPS Geral | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - CAPS Álcool e Drogas | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Psiquiatra - NACA | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ginecologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ortopedista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Assistente Social | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Fisioterapeuta | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário (Geral) | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Bucomaxilofacial | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Assistente Social CAPS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - CD - Radiologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário - Cirurgião | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Biomédico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Veterinário - Anestesista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Auditor | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Auditor - Regulação | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Clínico Geral - UBS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Atendimento Noturno e Final de Semana | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Cirurgião Dentista - Endodontista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Educador Físico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Enfermeiro | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Enfermeiro CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Farmacêutico | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Orientador Ambiental (Educador Ambiental) | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Pedagogo - CRAS | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Psicopedagogo NACA/CAPSI | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Analista de Sistemas | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Engenheiro Civil | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Engenheiro Eletricista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Terapeuta Ocupacional | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Pediatra | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Neurologista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Médico Ultrassonografista | CONSULPAM - 2025 - Prefeitura de Limoeiro do Norte - CE - Nutricionista |
Q4090573 Português
TEXTO


COMO DRONES SE TORNARAM UMA AMEAÇA ÀS COMUNIDADES RURAIS


  Os agricultores familiares de Limoeiro do Norte, no Ceará, preparavam-se para mais uma feira agroecológica mensal quando foram surpreendidos pela notícia de que o governador Elmano de Freitas (PT) havia prometido autorizar, até o fim de 2024, o uso de drones agrícolas para pulverização no estado.

   O anúncio reacendeu um medo já inexistente na cidade, palco histórico da luta contra a pulverização aérea de agrotóxicos no Brasil. Treze dias depois, a medida foi concretizada e o Ceará deixou de ser o único estado brasileiro a impedir totalmente essa modalidade de uso de pesticidas. “A história de veneno na nossa região já ultrapassa os limites. Vivemos numa situação delicada, o progresso chegando, o agronegócio dominando e a gente acuado”, lamenta Lucas Brito, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras familiares de Limoeiro.

   A reviravolta cearense não aconteceu por acaso. Os drones têm sido cada vez mais utilizados para pulverização de agrotóxicos no Brasil, vendidos como uma alternativa mais precisa e tecnológica aos aviões. Em dois anos, a quantidade de drones registrados na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para fins de pulverização aumentou em mais de dez vezes, saltando de 674 para 7.312 entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025.

   Antes, os registros se concentravam em 18 estados, agora já há presença de drones agrícolas cadastrados em 26 unidades da federação. O Ceará, que não tinha nenhum, já tem quatro cadastros. Além dele, passaram a figurar registros no Acre, Amazonas, Paraíba, Piauí, Roraima, Rio Grande do Norte e Distrito Federal. Já localidades onde há forte presença do agronegócio sofreram os aumentos mais expressivos. O Maranhão viu saltar os cadastros de um para 104, enquanto o Mato Grosso do Sul teve um aumento de dois para 103 drones.

   O avanço dos drones agrícolas no Brasil vem acompanhado da criação de normativas. Em 2021, a portaria 298/21 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) estabeleceu regras para os operadores e equipamentos. Para manejá-los, é preciso cadastrar os drones na Anac e realizar um curso, chamado de CAAR. Além disso, não é permitida a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas situadas a menos de vinte metros de povoações. Em estados como o Ceará e Maranhão, entretanto, a realidade é outra, denunciam movimentos sociais. Os drones se transformaram em uma ameaça.

  Um levantamento divulgado pela ONG Repórter Brasil no início deste mês mostra que 228 comunidades em 35 municípios do Maranhão denunciaram contaminação por pesticidas até outubro de 2024. Dessas, em 94% dos casos a pulverização foi feita por drones. “O problema dos drones no Maranhão se relaciona com a expansão do agronegócio [...] Há uma demanda excessiva pelo uso de agrotóxicos”, explica o advogado Diogo Cabral, da Federação dos Trabalhadores Rurais do Maranhão (Fetaema), uma das entidades que fez o levantamento.

  Segundo Cabral, os drones começaram a ser vistos na paisagem nos últimos quatro anos e estão relacionados à contaminação dos rios e nascentes, ao adoecimento agudo da população, que têm apresentado problemas de pele, enjoos e dificuldades respiratórias, e à perda de produção agroecológica. Alguns agricultores denunciam que os equipamentos têm sido utilizados a menos de 20 metros das residências e plantações. “Eles geralmente colocam muito cedo pela manhã ou no fim do dia. Sem contar que as famílias não têm mais privacidade. [...]

  De acordo com a Fetaema, todas as denúncias recebidas afirmam que os drones estão pulverizando diretamente o plantio das comunidades. Em São Mateus, a cerca de 200 quilômetros de São Luís, moradores de territórios quilombolas têm perdido a plantação de milho, abóbora e feijão por causa das pulverizações. “Está sem controle, e só quem perde somos nós, os pequenos”, reclama um representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de São Mateus.

   As ações são consideradas pelas entidades que defendem os agricultores como tentativas de expulsão das comunidades tradicionais. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que a contaminação por agrotóxicos nas comunidades rurais aumentou quase dez vezes no primeiro semestre de 2024. Na maioria dos casos de conflitos de terra registrados pela entidade, foi relatado uso de drones. “Eles fazem parte de um conjunto de ameaças. É uma tecnologia usada em conjunto a seguranças armados, que vigiam os caminhos, a movimentação no território”, explica Lenora Rodrigues, da coordenação da CPT Maranhão.

 “Os drones entraram como mais uma ferramenta para ajudar no processo de inviabilização da vida tradicional dessas comunidades”, afirma Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. O modelo de drone agrícola mais utilizado no país é o Agras T40, da empresa DJI, que representa 34,5% de todos os equipamentos cadastrados na Anac. De acordo com o site da fabricante, o drone pode carregar até 40 quilos de carga útil de pulverização e espalhar 1,5 tonelada de fertilizante por hora.

   Em seu último relatório anual, a DJI afirma que a indústria global de drones agrícolas está em expansão e destaca o Brasil, ao lado dos Estados Unidos e da China, como país que está na vanguarda da regulamentação desses equipamentos. No Brasil, há uma tendência em tornar os processos de registro mais fáceis. Em outubro de 2024, o Mapa anunciou uma consulta pública para desburocratizar cadastros de operadores e entidades de ensino. Em 2023, a Anac já havia simplificado as regras para cadastro dos drones agrícolas.

   “Para os pilotos de drone, as exigências são muito menores do que para os pilotos de avião, em termos de técnica e conhecimento para fazer essa atividade. Basta fazer um pequeno curso”, questiona Tygel. Na internet, é possível encontrar cursos totalmente online que prometem aulas do básico ao avançado por valores entre R$ 1 mil e R$ 4,5 mil.

   Cerca de 70% dos drones cadastrados em janeiro de 2023 para pulverização estavam em nomes de empresas. Esse percentual diminuiu para 48% em dois anos, ou seja, agora a maioria dos drones usados para pulverizar no país estão em nome de pessoas físicas. “A pessoa pode ter um certificado oficial do ministério sem nunca ter visto um drone”, afirma o deputado estadual Renato Roseno (PSOL-CE), um dos autores da lei que proibiu a pulverização aérea no Ceará em 2019.

    No começo de 2024, representantes do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Timbiras (STTR), no Maranhão, chegaram a ser procurados por representantes de empresas interessadas em ofertar cursos semelhantes. Em Açailândia, a própria prefeitura da cidade chegou a oferecer, em 2023, um curso de pilotagem de drone. “Muitos jovens têm procurado [esses cursos] porque dizem que é uma forma de ganhar dinheiro, que está em alta. Mas [as empresas] não socializam o que tem sido a questão do drone para a nossa vida, para o meio ambiente”, reclama uma agricultora local.

  De acordo com Cabral, as lojas de drones também passaram a ser vistas com mais frequência em pequenos e médios municípios onde há presença do agronegócio nos últimos dois anos. Apesar do crescimento do setor, entidades como Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a Fiocruz e a Cáritas, já se posicionaram contra a pulverização por drones.

  A Fiocruz e a Abrasco alegam que, apesar do discurso que posiciona os drones como menos contaminantes e mais precisos que aviões, faltam estudos para provar isso. “Os estudos sobre o impacto do uso de drones para a aplicação de agrotóxicos na saúde e no ambiente ainda não conseguiram acompanhar a velocidade do mercado”, diz uma nota técnica conjunta publicada em dezembro.

   A pulverização aérea é proibida na União Europeia desde 2009 e concentra críticas sobretudo pela deriva – quando a aplicação não atinge o local adequado e acerta alvos circunvizinhos. Um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que, mesmo com ventos ideais, apenas 32% dos agrotóxicos pulverizados por via aérea ficam retidos nas plantas.

   Para o pesquisador Fernando Carneiro, da Fiocruz Ceará e do grupo temático de Saúde e Ambiente da Abrasco, o avanço dos drones na agricultura está ligado à redução de custos das operações. Segundo o especialista, trocar a pulverização manual pelo drone impede que um trabalhador contaminado acione a Justiça por danos, bem como reduz o valor investido na logística de operação de aviões.

   Os parâmetros estabelecidos para a aplicação dos agrotóxicos e a capacidade dos governos de fiscalizar o cumprimento dessas regras também são alvo de críticas. “Pode-se estabelecer uma distância segura para aplicar o que chamamos de veneno? Não se pode ter controle do vento, da altura, do ângulo dos jatos”, afirma a advogada e coordenadora de projetos da ONG Esplar, Magnólia Said.


Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/comodrones-se-tornaram-uma-ameaça-às-comunidadesrurais/a-71512506>. Adaptado. Acesso em: 14 de
setembro de 2025.
No trecho “De acordo com a Fetaema, todas as denúncias recebidas afirmam que os drones estão pulverizando diretamente o plantio das comunidades”, a palavra destacada tem o sentido de:
Alternativas
Q4090067 Português
TEXTO

CORRIDA DO OURO NA AMAZÔNIA FAZ DISPARAR TRÁFICO DE MERCÚRIO


    De abril de 2019 a junho de 2025, foram traficadas aproximadamente 200 toneladas de mercúrio na América Latina, segundo a ONG internacional Agência de Investigação Ambiental (EIA). Trata-se do maior fluxo de mercúrio ilegal já reportado a nível mundial, suficiente para produzir o equivalente a 8 bilhões de dólares (cerca de R$ 43,9 bilhões) em ouro.

    O dado consta do relatório “Traffickers Leave No Stone Unturned” (“Traficantes não deixam pedra sobre pedra”, em tradução livre), que denuncia a produção de mercúrio em minas dentro da área protegida de Sierra Gorda, no estado mexicano de Querétaro. Reconhecido como reserva da biosfera pela Unesco, o local é associado pela ONG ao tráfico de ouro e ao crime organizado no México e na Colômbia.

    “O México é um dos poucos lugares no mundo que continua produzindo mercúrio. Desde as minas começamos a seguir a cadeia de produção, o transporte, o tráfico do México à Bolívia, Colômbia e Peru, o uso nesses países”, explica Julia Urrunaga, diretora da EIA no Peru.

    Os dados compilados pela ONG apontam que algumas das minas são controladas pelo cartel Jalisco Nueva Generación, e que o mercúrio extraído do México abastece garimpos de ouro controlados por cartéis na Bolívia, Colômbia e Peru. A mercadoria escoa em pequenas remessas, por rotas que chegam a incluir até mesmo os Estados Unidos; na Colômbia, parte importante dessas rotas é controlada pelos cartéis de droga.

    “Nossa investigação comprova que a cada ano toneladas de mercúrio são extraídas do México e logo traficadas para fora do país, para serem utilizadas no garimpo artesanal em toda a Amazônia”, afirma Urrunaga. “Levamos cerca de quatro anos para poder revelar o modus operandi de uma das redes transnacionais criminais que operam nesse setor.”

     Em junho de 2025, autoridades aduaneiras no Peru apreenderam aproximadamente 4 toneladas de mercúrio mexicano – a maior quantidade de que se tem notícia em um país amazônico. “O tráfico de mercúrio está associado a atores ilegais sobre os quais os países não têm o controle que deveriam ter. Esse tráfico tem muito a ver com a mineração ilegal na Bolívia, na Colômbia e no Peru, e que é abastecido ilegalmente com mercúrio”, explica Jimena Nieto, professora de tratados ambientais e ex-negociadora do governo colombiano.

    Segundo o relatório da EIA, desde maio há uma “febre do mercúrio” na região, com o insumo sendo vendido pelos traficantes a um valor recorde de 330 dólares por quilo (cerca de R$ 1,8 mil) devido ao aumento do preço do ouro. “Em média, no contexto amazônico, estima-se que sejam necessárias entre 1,5 e 2,5 gramas de mercúrio para a produção de um grama de ouro”, explica Urrunaga.

    Por esse cálculo, segundo ela, as 200 toneladas de mercúrio traficado foram usadas para produzir o equivalente a 8 bilhões de dólares (cerca de R$ 43,9 bilhões) em ouro, em valores atuais. O mercúrio é essencial para o garimpo ilegal de ouro na Amazônia, apesar de ser altamente poluente.

    “O mercúrio usado na mineração de ouro penetra nos corpos d’água quando chove – e, uma vez ali, entra facilmente no ecossistema”, afirma a Aliança Amazônica para a Redução dos Impactos de Mineração do Ouro (Aarimo). “Dado que o mercúrio se une às moléculas orgânicas, acumulando-se nos organismos e se biomagnificando (ampliando sua presença) cada vez que sobe na cadeia alimentar, esse poluente está colocando em risco a sobrevivência de centenas de povos únicos.”

    “O comércio ilegal de mercúrio na América Latina é uma prática que se acentuou nos últimos anos, particularmente desde a adoção da Convenção de Minamata sobre Mercúrio, pois este acordo internacional proíbe ou restringe o comércio entre determinadas fontes e usos de mercúrio, e estabelece rígidos protocolos sobre isso”, pontua Jordi Pon, coordenador regional de contaminação e produtos químicos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) na América Latina e no Caribe.

    O tratado internacional citado por Pon visa proteger o meio ambiente e a saúde humana das emissões e liberações do metal tóxico. Em vigor desde agosto de 2016, ele regulamenta o fornecimento, comércio, uso, emissões, liberações e armazenamento de mercúrio, bem como a gestão de resíduos e locais contaminados pelo metal pesado.

    O tratado foi ratificado pelo México em setembro de 2015 e em 2018 pela Colômbia. Ainda assim, a Aarimo afirma que o mercúrio “é traficado por nossas fronteiras sem muitas dificuldades devido aos grandes desafios de segurança territorial que a governança enfrenta, especialmente nas paisagens amazônicas”.

    “A eficácia dessas medidas depende da vontade política dos países e dos recursos que destinam para implementar suas leis nacionais em matéria de uso do mercúrio”, ressalta Nieto. A especialista é também membro do Comitê de Implementação e Cumprimento da Convenção de Minamata para o período de 2022-2025, um dos poucos existentes em tratados ambientais.

    Em março de 2025, o Pnuma lançou uma iniciativa para “acelerar o cumprimento da Convenção de Minamata” mediante “melhor compreensão e controle do comércio de mercúrio na América Latina”. A ação, segundo Pon, visa fortalecer a troca de informações e a cooperação regional entre os países mais afetados pelo comércio e uso do mercúrio.

    Entre as primeiras ações do projeto, que será realizado ao longo de três anos em Bolívia, Colômbia, Equador, Honduras, México e Peru, estão a análise das fontes de suprimento de mercúrio, principalmente no México. Mas para solucionar mesmo o problema, segundo Urrunaga, é preciso erradicar a produção contínua de mercúrio no México. “São necessárias ações urgentes para fechar essas minas e garantir uma transição justa para as comunidades mineiras, que na realidade são as primeiras vítimas desse metal tóxico”, aponta.

    Posição semelhante é adotada pela Aarimo – que, apesar de reconhecer a Convenção de Minamata com “um grande passo para agir globalmente frente às consequências do mercúrio”, reclama que “diante dos grandes impactos à saúde e à biodiversidade, as ações deveriam ser mais contundentes e rápidas, já que, devido aos preços e à crescente demanda por ouro, é mais difícil controlar o aumento do uso do mercúrio”.


Disponível em:<https://www.dw.com/pt-br/tráfico-demercúrio-dispara-em-meio-a-corrida-do-ouro-na-amazônia/a73704134>. Adaptado. Acesso em: 18 de setembro de 2025. 
Sobre as rotas do mercúrio extraído ilegalmente no México, é CORRETO afirmar que:
Alternativas
Q4090066 Português
TEXTO

CORRIDA DO OURO NA AMAZÔNIA FAZ DISPARAR TRÁFICO DE MERCÚRIO


    De abril de 2019 a junho de 2025, foram traficadas aproximadamente 200 toneladas de mercúrio na América Latina, segundo a ONG internacional Agência de Investigação Ambiental (EIA). Trata-se do maior fluxo de mercúrio ilegal já reportado a nível mundial, suficiente para produzir o equivalente a 8 bilhões de dólares (cerca de R$ 43,9 bilhões) em ouro.

    O dado consta do relatório “Traffickers Leave No Stone Unturned” (“Traficantes não deixam pedra sobre pedra”, em tradução livre), que denuncia a produção de mercúrio em minas dentro da área protegida de Sierra Gorda, no estado mexicano de Querétaro. Reconhecido como reserva da biosfera pela Unesco, o local é associado pela ONG ao tráfico de ouro e ao crime organizado no México e na Colômbia.

    “O México é um dos poucos lugares no mundo que continua produzindo mercúrio. Desde as minas começamos a seguir a cadeia de produção, o transporte, o tráfico do México à Bolívia, Colômbia e Peru, o uso nesses países”, explica Julia Urrunaga, diretora da EIA no Peru.

    Os dados compilados pela ONG apontam que algumas das minas são controladas pelo cartel Jalisco Nueva Generación, e que o mercúrio extraído do México abastece garimpos de ouro controlados por cartéis na Bolívia, Colômbia e Peru. A mercadoria escoa em pequenas remessas, por rotas que chegam a incluir até mesmo os Estados Unidos; na Colômbia, parte importante dessas rotas é controlada pelos cartéis de droga.

    “Nossa investigação comprova que a cada ano toneladas de mercúrio são extraídas do México e logo traficadas para fora do país, para serem utilizadas no garimpo artesanal em toda a Amazônia”, afirma Urrunaga. “Levamos cerca de quatro anos para poder revelar o modus operandi de uma das redes transnacionais criminais que operam nesse setor.”

     Em junho de 2025, autoridades aduaneiras no Peru apreenderam aproximadamente 4 toneladas de mercúrio mexicano – a maior quantidade de que se tem notícia em um país amazônico. “O tráfico de mercúrio está associado a atores ilegais sobre os quais os países não têm o controle que deveriam ter. Esse tráfico tem muito a ver com a mineração ilegal na Bolívia, na Colômbia e no Peru, e que é abastecido ilegalmente com mercúrio”, explica Jimena Nieto, professora de tratados ambientais e ex-negociadora do governo colombiano.

    Segundo o relatório da EIA, desde maio há uma “febre do mercúrio” na região, com o insumo sendo vendido pelos traficantes a um valor recorde de 330 dólares por quilo (cerca de R$ 1,8 mil) devido ao aumento do preço do ouro. “Em média, no contexto amazônico, estima-se que sejam necessárias entre 1,5 e 2,5 gramas de mercúrio para a produção de um grama de ouro”, explica Urrunaga.

    Por esse cálculo, segundo ela, as 200 toneladas de mercúrio traficado foram usadas para produzir o equivalente a 8 bilhões de dólares (cerca de R$ 43,9 bilhões) em ouro, em valores atuais. O mercúrio é essencial para o garimpo ilegal de ouro na Amazônia, apesar de ser altamente poluente.

    “O mercúrio usado na mineração de ouro penetra nos corpos d’água quando chove – e, uma vez ali, entra facilmente no ecossistema”, afirma a Aliança Amazônica para a Redução dos Impactos de Mineração do Ouro (Aarimo). “Dado que o mercúrio se une às moléculas orgânicas, acumulando-se nos organismos e se biomagnificando (ampliando sua presença) cada vez que sobe na cadeia alimentar, esse poluente está colocando em risco a sobrevivência de centenas de povos únicos.”

    “O comércio ilegal de mercúrio na América Latina é uma prática que se acentuou nos últimos anos, particularmente desde a adoção da Convenção de Minamata sobre Mercúrio, pois este acordo internacional proíbe ou restringe o comércio entre determinadas fontes e usos de mercúrio, e estabelece rígidos protocolos sobre isso”, pontua Jordi Pon, coordenador regional de contaminação e produtos químicos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) na América Latina e no Caribe.

    O tratado internacional citado por Pon visa proteger o meio ambiente e a saúde humana das emissões e liberações do metal tóxico. Em vigor desde agosto de 2016, ele regulamenta o fornecimento, comércio, uso, emissões, liberações e armazenamento de mercúrio, bem como a gestão de resíduos e locais contaminados pelo metal pesado.

    O tratado foi ratificado pelo México em setembro de 2015 e em 2018 pela Colômbia. Ainda assim, a Aarimo afirma que o mercúrio “é traficado por nossas fronteiras sem muitas dificuldades devido aos grandes desafios de segurança territorial que a governança enfrenta, especialmente nas paisagens amazônicas”.

    “A eficácia dessas medidas depende da vontade política dos países e dos recursos que destinam para implementar suas leis nacionais em matéria de uso do mercúrio”, ressalta Nieto. A especialista é também membro do Comitê de Implementação e Cumprimento da Convenção de Minamata para o período de 2022-2025, um dos poucos existentes em tratados ambientais.

    Em março de 2025, o Pnuma lançou uma iniciativa para “acelerar o cumprimento da Convenção de Minamata” mediante “melhor compreensão e controle do comércio de mercúrio na América Latina”. A ação, segundo Pon, visa fortalecer a troca de informações e a cooperação regional entre os países mais afetados pelo comércio e uso do mercúrio.

    Entre as primeiras ações do projeto, que será realizado ao longo de três anos em Bolívia, Colômbia, Equador, Honduras, México e Peru, estão a análise das fontes de suprimento de mercúrio, principalmente no México. Mas para solucionar mesmo o problema, segundo Urrunaga, é preciso erradicar a produção contínua de mercúrio no México. “São necessárias ações urgentes para fechar essas minas e garantir uma transição justa para as comunidades mineiras, que na realidade são as primeiras vítimas desse metal tóxico”, aponta.

    Posição semelhante é adotada pela Aarimo – que, apesar de reconhecer a Convenção de Minamata com “um grande passo para agir globalmente frente às consequências do mercúrio”, reclama que “diante dos grandes impactos à saúde e à biodiversidade, as ações deveriam ser mais contundentes e rápidas, já que, devido aos preços e à crescente demanda por ouro, é mais difícil controlar o aumento do uso do mercúrio”.


Disponível em:<https://www.dw.com/pt-br/tráfico-demercúrio-dispara-em-meio-a-corrida-do-ouro-na-amazônia/a73704134>. Adaptado. Acesso em: 18 de setembro de 2025. 
De acordo com as informações da EIA, o papel do México no comércio ilegal de mercúrio se explica porque:
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Q4090065 Português
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CORRIDA DO OURO NA AMAZÔNIA FAZ DISPARAR TRÁFICO DE MERCÚRIO


    De abril de 2019 a junho de 2025, foram traficadas aproximadamente 200 toneladas de mercúrio na América Latina, segundo a ONG internacional Agência de Investigação Ambiental (EIA). Trata-se do maior fluxo de mercúrio ilegal já reportado a nível mundial, suficiente para produzir o equivalente a 8 bilhões de dólares (cerca de R$ 43,9 bilhões) em ouro.

    O dado consta do relatório “Traffickers Leave No Stone Unturned” (“Traficantes não deixam pedra sobre pedra”, em tradução livre), que denuncia a produção de mercúrio em minas dentro da área protegida de Sierra Gorda, no estado mexicano de Querétaro. Reconhecido como reserva da biosfera pela Unesco, o local é associado pela ONG ao tráfico de ouro e ao crime organizado no México e na Colômbia.

    “O México é um dos poucos lugares no mundo que continua produzindo mercúrio. Desde as minas começamos a seguir a cadeia de produção, o transporte, o tráfico do México à Bolívia, Colômbia e Peru, o uso nesses países”, explica Julia Urrunaga, diretora da EIA no Peru.

    Os dados compilados pela ONG apontam que algumas das minas são controladas pelo cartel Jalisco Nueva Generación, e que o mercúrio extraído do México abastece garimpos de ouro controlados por cartéis na Bolívia, Colômbia e Peru. A mercadoria escoa em pequenas remessas, por rotas que chegam a incluir até mesmo os Estados Unidos; na Colômbia, parte importante dessas rotas é controlada pelos cartéis de droga.

    “Nossa investigação comprova que a cada ano toneladas de mercúrio são extraídas do México e logo traficadas para fora do país, para serem utilizadas no garimpo artesanal em toda a Amazônia”, afirma Urrunaga. “Levamos cerca de quatro anos para poder revelar o modus operandi de uma das redes transnacionais criminais que operam nesse setor.”

     Em junho de 2025, autoridades aduaneiras no Peru apreenderam aproximadamente 4 toneladas de mercúrio mexicano – a maior quantidade de que se tem notícia em um país amazônico. “O tráfico de mercúrio está associado a atores ilegais sobre os quais os países não têm o controle que deveriam ter. Esse tráfico tem muito a ver com a mineração ilegal na Bolívia, na Colômbia e no Peru, e que é abastecido ilegalmente com mercúrio”, explica Jimena Nieto, professora de tratados ambientais e ex-negociadora do governo colombiano.

    Segundo o relatório da EIA, desde maio há uma “febre do mercúrio” na região, com o insumo sendo vendido pelos traficantes a um valor recorde de 330 dólares por quilo (cerca de R$ 1,8 mil) devido ao aumento do preço do ouro. “Em média, no contexto amazônico, estima-se que sejam necessárias entre 1,5 e 2,5 gramas de mercúrio para a produção de um grama de ouro”, explica Urrunaga.

    Por esse cálculo, segundo ela, as 200 toneladas de mercúrio traficado foram usadas para produzir o equivalente a 8 bilhões de dólares (cerca de R$ 43,9 bilhões) em ouro, em valores atuais. O mercúrio é essencial para o garimpo ilegal de ouro na Amazônia, apesar de ser altamente poluente.

    “O mercúrio usado na mineração de ouro penetra nos corpos d’água quando chove – e, uma vez ali, entra facilmente no ecossistema”, afirma a Aliança Amazônica para a Redução dos Impactos de Mineração do Ouro (Aarimo). “Dado que o mercúrio se une às moléculas orgânicas, acumulando-se nos organismos e se biomagnificando (ampliando sua presença) cada vez que sobe na cadeia alimentar, esse poluente está colocando em risco a sobrevivência de centenas de povos únicos.”

    “O comércio ilegal de mercúrio na América Latina é uma prática que se acentuou nos últimos anos, particularmente desde a adoção da Convenção de Minamata sobre Mercúrio, pois este acordo internacional proíbe ou restringe o comércio entre determinadas fontes e usos de mercúrio, e estabelece rígidos protocolos sobre isso”, pontua Jordi Pon, coordenador regional de contaminação e produtos químicos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) na América Latina e no Caribe.

    O tratado internacional citado por Pon visa proteger o meio ambiente e a saúde humana das emissões e liberações do metal tóxico. Em vigor desde agosto de 2016, ele regulamenta o fornecimento, comércio, uso, emissões, liberações e armazenamento de mercúrio, bem como a gestão de resíduos e locais contaminados pelo metal pesado.

    O tratado foi ratificado pelo México em setembro de 2015 e em 2018 pela Colômbia. Ainda assim, a Aarimo afirma que o mercúrio “é traficado por nossas fronteiras sem muitas dificuldades devido aos grandes desafios de segurança territorial que a governança enfrenta, especialmente nas paisagens amazônicas”.

    “A eficácia dessas medidas depende da vontade política dos países e dos recursos que destinam para implementar suas leis nacionais em matéria de uso do mercúrio”, ressalta Nieto. A especialista é também membro do Comitê de Implementação e Cumprimento da Convenção de Minamata para o período de 2022-2025, um dos poucos existentes em tratados ambientais.

    Em março de 2025, o Pnuma lançou uma iniciativa para “acelerar o cumprimento da Convenção de Minamata” mediante “melhor compreensão e controle do comércio de mercúrio na América Latina”. A ação, segundo Pon, visa fortalecer a troca de informações e a cooperação regional entre os países mais afetados pelo comércio e uso do mercúrio.

    Entre as primeiras ações do projeto, que será realizado ao longo de três anos em Bolívia, Colômbia, Equador, Honduras, México e Peru, estão a análise das fontes de suprimento de mercúrio, principalmente no México. Mas para solucionar mesmo o problema, segundo Urrunaga, é preciso erradicar a produção contínua de mercúrio no México. “São necessárias ações urgentes para fechar essas minas e garantir uma transição justa para as comunidades mineiras, que na realidade são as primeiras vítimas desse metal tóxico”, aponta.

    Posição semelhante é adotada pela Aarimo – que, apesar de reconhecer a Convenção de Minamata com “um grande passo para agir globalmente frente às consequências do mercúrio”, reclama que “diante dos grandes impactos à saúde e à biodiversidade, as ações deveriam ser mais contundentes e rápidas, já que, devido aos preços e à crescente demanda por ouro, é mais difícil controlar o aumento do uso do mercúrio”.


Disponível em:<https://www.dw.com/pt-br/tráfico-demercúrio-dispara-em-meio-a-corrida-do-ouro-na-amazônia/a73704134>. Adaptado. Acesso em: 18 de setembro de 2025. 
O relatório da ONG EIA revela que o tráfico de mercúrio na América Latina entre 2019 e 2025:
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Q4089687 Português
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COMO O BRASIL CONSEGUE TRAZER FÓSSEIS NO EXTERIOR DE VOLTA

    A paleontóloga brasileira Taissa Rodrigues, professora na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), dedicava-se à sua principal pesquisa dos últimos 20 anos quando se deparou com anúncios suspeitos na internet. Especialista em pterossauros que viveram onde hoje é o Brasil, ela percebeu que os fósseis que estavam à venda em determinado site internacional de leilões muito provavelmente eram fruto de contrabando.

    Entre os exemplares, um réptil alado da espécie Anhanguera santanae, que viveu há cerca de 110 milhões de anos e estava com lance inicial de quase R$ 1 milhão. Rodrigues apresentou uma denúncia ao Ministério Público Federal (MPF).

     A questão se arrastou, entre investigações, perícias e tratativas entre autoridades. Em dezembro de 2023, nove anos depois da descoberta da professora, 998 fósseis brasileiros que estavam na França foram repatriados. Oriundas da bacia que corta a Chapada do Araripe, no Ceará, as peças foram incorporadas ao acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, da Universidade Regional do Cariri, na mesma região. São fósseis de pterossauros, peixes, plantas, insetos e outras espécies que viveram há mais de 90 milhões de anos.

    O Anhanguera e outros 45 fósseis, contudo, ainda não têm o veredito para retornarem ao Brasil. Em 2019, a Justiça francesa entendeu que cabe a repatriação. Contudo, a empresa que tentava comercializar esse conjunto de fósseis entrou com recurso e o caso ainda não foi concluído.

    “Muitos fósseis do Araripe estão em coleções particulares do mundo todo. Isso é um problema muito bem conhecido”, diz a cientista. O caso do Anhanguera não é isolado, mas não se sabe ao certo quantos fósseis foram retirados do país. Especialistas argumentam que isso é algo difícil de quantificar.

    Fósseis foram declarados patrimônio da União num decreto-lei de 1942. São, portanto, patrimônio público, do povo brasileiro e, por isso, segundo especialistas, não podem ser vendidos.

     “Assim, há mais de 80 anos, qualquer fóssil brasileiro só pode ser extraído, guardado, transportado e exportado com autorização expressa do governo federal”, esclarece o procurador da República Rafael Rayol, que atua desde 2009 no MPF pela repatriação de fósseis do Ceará e já conseguiu trazer de volta milhares deles, tanto da Europa quanto da América do Norte.

    Rayol diz que o caso dos 998 fósseis foi o mais emblemático no qual ele trabalhou. “Eles foram contrabandeados dentro de um carregamento de quartzo com destino à França e a carga, adquirida por uma empresa francesa especializada na comercialização de fósseis”, conta ele, lembrando que foram vários anos de discussão na Justiça francesa e reuniões com autoridades.

     Segundo a Agência Nacional de Mineração, autarquia federal que faz a gestão dos recursos minerais brasileiros, há 39 sítios paleontológicos no país. O levantamento é feito por uma comissão, fundamentado por artigos científicos elaborados por especialistas, e pode ser consultado.

    De acordo com Rodrigues, os fósseis do Ceará são os mais cobiçados no mercado internacional. “Existem muitas outras regiões no Brasil com fósseis. Essencialmente, o país quase todo é muito rico em fósseis. Mas existem alguns locais em que há uma convergência de fatores que contribuíram para a ilegalidade: abundância de fósseis, facilidade de coleta e transporte, e valor comercial nesse tráfico”, afirma. “Os do Araripe atingem preços maiores nesse mercado ilegal, porque são bem preservados. Alguns fósseis são de espécies mais raras... E eles são fáceis de transportar”, completa.

     Os cientistas argumentam que há várias razões para lutar pela repatriação dos fósseis brasileiros. Rodrigues atenta para o fato de que pesquisadores precisam ter acesso ao material para avançar nas pesquisas. “Se estão em coleções privadas, é praticamente impossível para qualquer cientista”, comenta. “Se estão em instituições estrangeiras, o acesso se torna muito caro para pesquisadores brasileiros.”

     Ghilardi ressalta que iniciativas assim estão dentro do que se chama de “decolonialismo científico” – ou seja, uma reparação histórica, sob o debate internacional acerca da manutenção, em coleções estrangeiras, de artefatos levados de outros países em circunstâncias morais ou eticamente questionáveis. Um marco dessa luta ocorreu no ano passado, quando um museu dinamarquês devolveu ao Brasil um manto tupinambá do século 17 que estava lá há 300 anos.

    Repatriar fósseis exige uma articulação entre cientistas e autoridades. Mas, em tempos de redes sociais, um empurrãozinho da opinião pública também parece ajudar. Foi o que aconteceu com um fóssil que até ganhou apelido: Bira.

    Trata-se de um exemplar de Ubirajara jubatus, fóssil descoberto no Brasil e que foi levado, em condições desconhecidas, para a Alemanha no início dos anos 1990. Estava no Museu de História Natural de Karlsruhe. Em 2020, a paleontóloga Aline Ghilardi, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), encabeçou uma campanha para trazê-lo de volta. “Além de professora e pesquisadora, eu trabalho há 15 anos com divulgação científica nas redes, por meio de um blog, um canal no YouTube, minhas redes pessoais, etc.”, conta ela.

    A mobilização transcendeu o meio acadêmico e acabou pressionando o Ministério da Ciência, Pesquisa e Artes do estado de Baden-Württemberg. Depois de uma longa queda de braço, em 2023, o fóssil retornou ao Brasil. Ghilardi explica que fósseis como esse são importantes porque, além de raro, é um holótipo — ou seja, o exemplar definido como o primeiro para a descrição de uma nova espécie.

     “Tenho me envolvido em ações para o levantamento de fósseis holótipos brasileiros que estão fora do Brasil e trabalhado para sua repatriação de diferentes maneiras”, conta Ghilardi. Ela integra um grupo, chamado de Observatório de Repatriações, que une pesquisadores de diversas instituições. “A repatriação do Ubirajara foi um marco importante sob diferentes pontos de vista. A campanha teve forte contribuição para o seu retorno, mas principalmente para a popularização do tema e sensibilização da população e de autoridades com poder para tomadas de decisão”, avalia a cientista. [...]


VEIGA, Edison. Como o Brasil está conseguindo trazer fósseis no exterior de volta. Artigo publicado na página da Deutsche Welle Brasil. Disponível em: <https://www.dw.com/ptbr/como-o-brasil-está-conseguindo-trazer-fósseis-no-exteriorde-volta/a-73540395. Acesso em: 18 de agosto de 2025. (Texto adaptado) 
Acerca do trecho “há uma convergência de fatores que contribuíram para a ilegalidade: abundância de fósseis, facilidade de coleta e transporte, e valor comercial nesse tráfico”, é CORRETO afirmar que: 
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Q4089686 Português
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COMO O BRASIL CONSEGUE TRAZER FÓSSEIS NO EXTERIOR DE VOLTA

    A paleontóloga brasileira Taissa Rodrigues, professora na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), dedicava-se à sua principal pesquisa dos últimos 20 anos quando se deparou com anúncios suspeitos na internet. Especialista em pterossauros que viveram onde hoje é o Brasil, ela percebeu que os fósseis que estavam à venda em determinado site internacional de leilões muito provavelmente eram fruto de contrabando.

    Entre os exemplares, um réptil alado da espécie Anhanguera santanae, que viveu há cerca de 110 milhões de anos e estava com lance inicial de quase R$ 1 milhão. Rodrigues apresentou uma denúncia ao Ministério Público Federal (MPF).

     A questão se arrastou, entre investigações, perícias e tratativas entre autoridades. Em dezembro de 2023, nove anos depois da descoberta da professora, 998 fósseis brasileiros que estavam na França foram repatriados. Oriundas da bacia que corta a Chapada do Araripe, no Ceará, as peças foram incorporadas ao acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, da Universidade Regional do Cariri, na mesma região. São fósseis de pterossauros, peixes, plantas, insetos e outras espécies que viveram há mais de 90 milhões de anos.

    O Anhanguera e outros 45 fósseis, contudo, ainda não têm o veredito para retornarem ao Brasil. Em 2019, a Justiça francesa entendeu que cabe a repatriação. Contudo, a empresa que tentava comercializar esse conjunto de fósseis entrou com recurso e o caso ainda não foi concluído.

    “Muitos fósseis do Araripe estão em coleções particulares do mundo todo. Isso é um problema muito bem conhecido”, diz a cientista. O caso do Anhanguera não é isolado, mas não se sabe ao certo quantos fósseis foram retirados do país. Especialistas argumentam que isso é algo difícil de quantificar.

    Fósseis foram declarados patrimônio da União num decreto-lei de 1942. São, portanto, patrimônio público, do povo brasileiro e, por isso, segundo especialistas, não podem ser vendidos.

     “Assim, há mais de 80 anos, qualquer fóssil brasileiro só pode ser extraído, guardado, transportado e exportado com autorização expressa do governo federal”, esclarece o procurador da República Rafael Rayol, que atua desde 2009 no MPF pela repatriação de fósseis do Ceará e já conseguiu trazer de volta milhares deles, tanto da Europa quanto da América do Norte.

    Rayol diz que o caso dos 998 fósseis foi o mais emblemático no qual ele trabalhou. “Eles foram contrabandeados dentro de um carregamento de quartzo com destino à França e a carga, adquirida por uma empresa francesa especializada na comercialização de fósseis”, conta ele, lembrando que foram vários anos de discussão na Justiça francesa e reuniões com autoridades.

     Segundo a Agência Nacional de Mineração, autarquia federal que faz a gestão dos recursos minerais brasileiros, há 39 sítios paleontológicos no país. O levantamento é feito por uma comissão, fundamentado por artigos científicos elaborados por especialistas, e pode ser consultado.

    De acordo com Rodrigues, os fósseis do Ceará são os mais cobiçados no mercado internacional. “Existem muitas outras regiões no Brasil com fósseis. Essencialmente, o país quase todo é muito rico em fósseis. Mas existem alguns locais em que há uma convergência de fatores que contribuíram para a ilegalidade: abundância de fósseis, facilidade de coleta e transporte, e valor comercial nesse tráfico”, afirma. “Os do Araripe atingem preços maiores nesse mercado ilegal, porque são bem preservados. Alguns fósseis são de espécies mais raras... E eles são fáceis de transportar”, completa.

     Os cientistas argumentam que há várias razões para lutar pela repatriação dos fósseis brasileiros. Rodrigues atenta para o fato de que pesquisadores precisam ter acesso ao material para avançar nas pesquisas. “Se estão em coleções privadas, é praticamente impossível para qualquer cientista”, comenta. “Se estão em instituições estrangeiras, o acesso se torna muito caro para pesquisadores brasileiros.”

     Ghilardi ressalta que iniciativas assim estão dentro do que se chama de “decolonialismo científico” – ou seja, uma reparação histórica, sob o debate internacional acerca da manutenção, em coleções estrangeiras, de artefatos levados de outros países em circunstâncias morais ou eticamente questionáveis. Um marco dessa luta ocorreu no ano passado, quando um museu dinamarquês devolveu ao Brasil um manto tupinambá do século 17 que estava lá há 300 anos.

    Repatriar fósseis exige uma articulação entre cientistas e autoridades. Mas, em tempos de redes sociais, um empurrãozinho da opinião pública também parece ajudar. Foi o que aconteceu com um fóssil que até ganhou apelido: Bira.

    Trata-se de um exemplar de Ubirajara jubatus, fóssil descoberto no Brasil e que foi levado, em condições desconhecidas, para a Alemanha no início dos anos 1990. Estava no Museu de História Natural de Karlsruhe. Em 2020, a paleontóloga Aline Ghilardi, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), encabeçou uma campanha para trazê-lo de volta. “Além de professora e pesquisadora, eu trabalho há 15 anos com divulgação científica nas redes, por meio de um blog, um canal no YouTube, minhas redes pessoais, etc.”, conta ela.

    A mobilização transcendeu o meio acadêmico e acabou pressionando o Ministério da Ciência, Pesquisa e Artes do estado de Baden-Württemberg. Depois de uma longa queda de braço, em 2023, o fóssil retornou ao Brasil. Ghilardi explica que fósseis como esse são importantes porque, além de raro, é um holótipo — ou seja, o exemplar definido como o primeiro para a descrição de uma nova espécie.

     “Tenho me envolvido em ações para o levantamento de fósseis holótipos brasileiros que estão fora do Brasil e trabalhado para sua repatriação de diferentes maneiras”, conta Ghilardi. Ela integra um grupo, chamado de Observatório de Repatriações, que une pesquisadores de diversas instituições. “A repatriação do Ubirajara foi um marco importante sob diferentes pontos de vista. A campanha teve forte contribuição para o seu retorno, mas principalmente para a popularização do tema e sensibilização da população e de autoridades com poder para tomadas de decisão”, avalia a cientista. [...]


VEIGA, Edison. Como o Brasil está conseguindo trazer fósseis no exterior de volta. Artigo publicado na página da Deutsche Welle Brasil. Disponível em: <https://www.dw.com/ptbr/como-o-brasil-está-conseguindo-trazer-fósseis-no-exteriorde-volta/a-73540395. Acesso em: 18 de agosto de 2025. (Texto adaptado) 
No trecho “Fósseis foram declarados patrimônio da União num decreto-lei de 1942”, o termo destacado expressa:
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Q4089685 Português
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COMO O BRASIL CONSEGUE TRAZER FÓSSEIS NO EXTERIOR DE VOLTA

    A paleontóloga brasileira Taissa Rodrigues, professora na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), dedicava-se à sua principal pesquisa dos últimos 20 anos quando se deparou com anúncios suspeitos na internet. Especialista em pterossauros que viveram onde hoje é o Brasil, ela percebeu que os fósseis que estavam à venda em determinado site internacional de leilões muito provavelmente eram fruto de contrabando.

    Entre os exemplares, um réptil alado da espécie Anhanguera santanae, que viveu há cerca de 110 milhões de anos e estava com lance inicial de quase R$ 1 milhão. Rodrigues apresentou uma denúncia ao Ministério Público Federal (MPF).

     A questão se arrastou, entre investigações, perícias e tratativas entre autoridades. Em dezembro de 2023, nove anos depois da descoberta da professora, 998 fósseis brasileiros que estavam na França foram repatriados. Oriundas da bacia que corta a Chapada do Araripe, no Ceará, as peças foram incorporadas ao acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, da Universidade Regional do Cariri, na mesma região. São fósseis de pterossauros, peixes, plantas, insetos e outras espécies que viveram há mais de 90 milhões de anos.

    O Anhanguera e outros 45 fósseis, contudo, ainda não têm o veredito para retornarem ao Brasil. Em 2019, a Justiça francesa entendeu que cabe a repatriação. Contudo, a empresa que tentava comercializar esse conjunto de fósseis entrou com recurso e o caso ainda não foi concluído.

    “Muitos fósseis do Araripe estão em coleções particulares do mundo todo. Isso é um problema muito bem conhecido”, diz a cientista. O caso do Anhanguera não é isolado, mas não se sabe ao certo quantos fósseis foram retirados do país. Especialistas argumentam que isso é algo difícil de quantificar.

    Fósseis foram declarados patrimônio da União num decreto-lei de 1942. São, portanto, patrimônio público, do povo brasileiro e, por isso, segundo especialistas, não podem ser vendidos.

     “Assim, há mais de 80 anos, qualquer fóssil brasileiro só pode ser extraído, guardado, transportado e exportado com autorização expressa do governo federal”, esclarece o procurador da República Rafael Rayol, que atua desde 2009 no MPF pela repatriação de fósseis do Ceará e já conseguiu trazer de volta milhares deles, tanto da Europa quanto da América do Norte.

    Rayol diz que o caso dos 998 fósseis foi o mais emblemático no qual ele trabalhou. “Eles foram contrabandeados dentro de um carregamento de quartzo com destino à França e a carga, adquirida por uma empresa francesa especializada na comercialização de fósseis”, conta ele, lembrando que foram vários anos de discussão na Justiça francesa e reuniões com autoridades.

     Segundo a Agência Nacional de Mineração, autarquia federal que faz a gestão dos recursos minerais brasileiros, há 39 sítios paleontológicos no país. O levantamento é feito por uma comissão, fundamentado por artigos científicos elaborados por especialistas, e pode ser consultado.

    De acordo com Rodrigues, os fósseis do Ceará são os mais cobiçados no mercado internacional. “Existem muitas outras regiões no Brasil com fósseis. Essencialmente, o país quase todo é muito rico em fósseis. Mas existem alguns locais em que há uma convergência de fatores que contribuíram para a ilegalidade: abundância de fósseis, facilidade de coleta e transporte, e valor comercial nesse tráfico”, afirma. “Os do Araripe atingem preços maiores nesse mercado ilegal, porque são bem preservados. Alguns fósseis são de espécies mais raras... E eles são fáceis de transportar”, completa.

     Os cientistas argumentam que há várias razões para lutar pela repatriação dos fósseis brasileiros. Rodrigues atenta para o fato de que pesquisadores precisam ter acesso ao material para avançar nas pesquisas. “Se estão em coleções privadas, é praticamente impossível para qualquer cientista”, comenta. “Se estão em instituições estrangeiras, o acesso se torna muito caro para pesquisadores brasileiros.”

     Ghilardi ressalta que iniciativas assim estão dentro do que se chama de “decolonialismo científico” – ou seja, uma reparação histórica, sob o debate internacional acerca da manutenção, em coleções estrangeiras, de artefatos levados de outros países em circunstâncias morais ou eticamente questionáveis. Um marco dessa luta ocorreu no ano passado, quando um museu dinamarquês devolveu ao Brasil um manto tupinambá do século 17 que estava lá há 300 anos.

    Repatriar fósseis exige uma articulação entre cientistas e autoridades. Mas, em tempos de redes sociais, um empurrãozinho da opinião pública também parece ajudar. Foi o que aconteceu com um fóssil que até ganhou apelido: Bira.

    Trata-se de um exemplar de Ubirajara jubatus, fóssil descoberto no Brasil e que foi levado, em condições desconhecidas, para a Alemanha no início dos anos 1990. Estava no Museu de História Natural de Karlsruhe. Em 2020, a paleontóloga Aline Ghilardi, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), encabeçou uma campanha para trazê-lo de volta. “Além de professora e pesquisadora, eu trabalho há 15 anos com divulgação científica nas redes, por meio de um blog, um canal no YouTube, minhas redes pessoais, etc.”, conta ela.

    A mobilização transcendeu o meio acadêmico e acabou pressionando o Ministério da Ciência, Pesquisa e Artes do estado de Baden-Württemberg. Depois de uma longa queda de braço, em 2023, o fóssil retornou ao Brasil. Ghilardi explica que fósseis como esse são importantes porque, além de raro, é um holótipo — ou seja, o exemplar definido como o primeiro para a descrição de uma nova espécie.

     “Tenho me envolvido em ações para o levantamento de fósseis holótipos brasileiros que estão fora do Brasil e trabalhado para sua repatriação de diferentes maneiras”, conta Ghilardi. Ela integra um grupo, chamado de Observatório de Repatriações, que une pesquisadores de diversas instituições. “A repatriação do Ubirajara foi um marco importante sob diferentes pontos de vista. A campanha teve forte contribuição para o seu retorno, mas principalmente para a popularização do tema e sensibilização da população e de autoridades com poder para tomadas de decisão”, avalia a cientista. [...]


VEIGA, Edison. Como o Brasil está conseguindo trazer fósseis no exterior de volta. Artigo publicado na página da Deutsche Welle Brasil. Disponível em: <https://www.dw.com/ptbr/como-o-brasil-está-conseguindo-trazer-fósseis-no-exteriorde-volta/a-73540395. Acesso em: 18 de agosto de 2025. (Texto adaptado) 
Assinale a alternativa CORRETA de acordo com o texto.
Alternativas
Q4089527 Português
TEXTO

VITAIS PARA O ECOSSISTEMA, FUNGOS ESTÃO SOB AMEAÇA



    O reino Fungi – segundo maior reino de seres vivos, depois dos animais – está em um momento de destaque. Não porque sirva como espinha dorsal de ecossistemas saudáveis, mas porque está em risco. Pela primeira vez na história, mais de mil espécies de fungos foram adicionadas à Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), frequentemente chamada de “Barômetro da Vida”.

    Como muitos organismos, essas espécies de fungos – que representam apenas uma pequena fração daquelas que se acredita existirem – estão em risco devido a uma combinação de fatores, incluindo desmatamento, desenvolvimento urbano e toxinas. “Os fungos são especialmente vulneráveis à poluição, principalmente por fertilizantes e emissões de combustíveis fósseis”, disse Lynne Boddy, especialista em ecologia fúngica da Universidade de Cardiff, no Reino Unido.

     Ela afirma que protegê-los exige ações direcionadas, porque eles têm “necessidades específicas e devem ser considerados de acordo com suas próprias características nos esforços de conservação, e não apenas agrupados com outros organismos”. Mas nem sempre é fácil conscientizar as pessoas sobre os fungos – que muitas vezes são vistos como ingrediente de pizza, na forma de cogumelos, ou um complemento indesejado para uma parede úmida, em se tratando de mofo.

     “Muitos se importam com os animais, principalmente se forem organismos fofinhos e amigáveis com os quais as pessoas têm alguma afinidade, como os pandas”, disse Boddy, acrescentando que a maioria dos fungos não tem esse efeito emotivo. “Talvez os humanos não consigam se apegar a eles”, acrescenta.

    Os fungos podem não ganhar concursos de fofura, mas desempenham um papel importante na manutenção da coesão de toda a teia da vida. Dependendo do tipo, os fungos são encontrados em diversos ambientes: do solo e florestas a lagos de água doce, ecossistemas marinhos e até mesmo na pele humana.

     Os fungos micorrízicos sustentam ecossistemas florestais, ajudando as plantas a trocar nutrientes, água e até mesmo informações, formam relações simbióticas com as raízes da maioria da flora e são essenciais para o crescimento de até 90% das espécies de plantas.

      Em outras palavras: “A vida na Terra depende de fungos”, disse Gregory M. Mueller, cientista-chefe do Jardim Botânico de Chicago, nos EUA. Eles também são essenciais para a morte na Terra. Conhecidos como recicladores da natureza, eles desfazem madeira morta ou em decomposição, folhas e outras matérias vegetais. “Sem eles, estaríamos soterrados sob montes de lixo orgânico”, disse Mueller, que lidera os programas de fungos da IUCN e contribuiu para a recente Lista Vermelha.

      Embora florestas e pastagens sejam geralmente consideradas reservas de carbono, são os fungos que ajudam a capturar o carbono no solo. Mueller afirmou que os fungos são “essenciais para o sequestro de carbono a longo prazo”, o processo de retenção de carbono para que não contribua para o aquecimento global. “Sem eles, a mudança climática seria muito pior”, afirmou o especialista.

      Os fungos micorrízicos são responsáveis por armazenar até um terço das emissões globais anuais de combustíveis fósseis no solo. O que os torna a “instalação” de armazenamento de carbono mais eficiente do mundo.

      Ao mesmo tempo, os fungos são afetados pelas mudanças climáticas, em grande parte por meio de alterações nos níveis de hidratação. Mueller cita o exemplo do Brasil, onde as florestas nubladas em montanhas dependem de certos níveis de umidade, que vêm diminuindo paralelamente às mudanças nos padrões de precipitação.

    Ele afirma que isso não apenas altera o habitat, mas “afeta as plantas das quais os fungos dependem; elas secam e impedem que os fungos completem seu ciclo de vida”. Um mundo sem fungos não só se tornaria menos propício à vida humana devido ao aumento das temperaturas globais e aos eventos climáticos extremos relacionados, como também as árvores e as plantações cresceriam mais fracas, mais lentamente e se tornariam mais vulneráveis a doenças e à seca.

    E isso impactaria a disponibilidade de alimentos e medicamentos. Cerca de 40% dos medicamentos modernos no mundo ocidental são derivados de plantas. Entre eles, por exemplo, a galantamina, derivada de Galanthus nivalis para tratar a doença de Alzheimer, ou a apomorfina, um composto semissintético extraído da morfina, Papaver somniferum, usada para tratar a doença de Parkinson.

    Os fungos são uma parte tão integral da teia da vida que, se desaparecessem, a maioria das formas de vida, incluindo os humanos, não sobreviveria. [...]


CHAIKA, Anna. Vitais para o ecossistema, fungos estão sob ameaça. Artigo publicado na página da Deutsche Welle Brasil. Adaptado. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/vitais-para-o-ecossistemafungos-estão-sob-ameaça-72277284. Acesso em: 18 de abril de 2025.
No texto, o papel dos fungos no “sequestro de carbono” é descrito como:
Alternativas
Q4089526 Português
TEXTO

VITAIS PARA O ECOSSISTEMA, FUNGOS ESTÃO SOB AMEAÇA



    O reino Fungi – segundo maior reino de seres vivos, depois dos animais – está em um momento de destaque. Não porque sirva como espinha dorsal de ecossistemas saudáveis, mas porque está em risco. Pela primeira vez na história, mais de mil espécies de fungos foram adicionadas à Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), frequentemente chamada de “Barômetro da Vida”.

    Como muitos organismos, essas espécies de fungos – que representam apenas uma pequena fração daquelas que se acredita existirem – estão em risco devido a uma combinação de fatores, incluindo desmatamento, desenvolvimento urbano e toxinas. “Os fungos são especialmente vulneráveis à poluição, principalmente por fertilizantes e emissões de combustíveis fósseis”, disse Lynne Boddy, especialista em ecologia fúngica da Universidade de Cardiff, no Reino Unido.

     Ela afirma que protegê-los exige ações direcionadas, porque eles têm “necessidades específicas e devem ser considerados de acordo com suas próprias características nos esforços de conservação, e não apenas agrupados com outros organismos”. Mas nem sempre é fácil conscientizar as pessoas sobre os fungos – que muitas vezes são vistos como ingrediente de pizza, na forma de cogumelos, ou um complemento indesejado para uma parede úmida, em se tratando de mofo.

     “Muitos se importam com os animais, principalmente se forem organismos fofinhos e amigáveis com os quais as pessoas têm alguma afinidade, como os pandas”, disse Boddy, acrescentando que a maioria dos fungos não tem esse efeito emotivo. “Talvez os humanos não consigam se apegar a eles”, acrescenta.

    Os fungos podem não ganhar concursos de fofura, mas desempenham um papel importante na manutenção da coesão de toda a teia da vida. Dependendo do tipo, os fungos são encontrados em diversos ambientes: do solo e florestas a lagos de água doce, ecossistemas marinhos e até mesmo na pele humana.

     Os fungos micorrízicos sustentam ecossistemas florestais, ajudando as plantas a trocar nutrientes, água e até mesmo informações, formam relações simbióticas com as raízes da maioria da flora e são essenciais para o crescimento de até 90% das espécies de plantas.

      Em outras palavras: “A vida na Terra depende de fungos”, disse Gregory M. Mueller, cientista-chefe do Jardim Botânico de Chicago, nos EUA. Eles também são essenciais para a morte na Terra. Conhecidos como recicladores da natureza, eles desfazem madeira morta ou em decomposição, folhas e outras matérias vegetais. “Sem eles, estaríamos soterrados sob montes de lixo orgânico”, disse Mueller, que lidera os programas de fungos da IUCN e contribuiu para a recente Lista Vermelha.

      Embora florestas e pastagens sejam geralmente consideradas reservas de carbono, são os fungos que ajudam a capturar o carbono no solo. Mueller afirmou que os fungos são “essenciais para o sequestro de carbono a longo prazo”, o processo de retenção de carbono para que não contribua para o aquecimento global. “Sem eles, a mudança climática seria muito pior”, afirmou o especialista.

      Os fungos micorrízicos são responsáveis por armazenar até um terço das emissões globais anuais de combustíveis fósseis no solo. O que os torna a “instalação” de armazenamento de carbono mais eficiente do mundo.

      Ao mesmo tempo, os fungos são afetados pelas mudanças climáticas, em grande parte por meio de alterações nos níveis de hidratação. Mueller cita o exemplo do Brasil, onde as florestas nubladas em montanhas dependem de certos níveis de umidade, que vêm diminuindo paralelamente às mudanças nos padrões de precipitação.

    Ele afirma que isso não apenas altera o habitat, mas “afeta as plantas das quais os fungos dependem; elas secam e impedem que os fungos completem seu ciclo de vida”. Um mundo sem fungos não só se tornaria menos propício à vida humana devido ao aumento das temperaturas globais e aos eventos climáticos extremos relacionados, como também as árvores e as plantações cresceriam mais fracas, mais lentamente e se tornariam mais vulneráveis a doenças e à seca.

    E isso impactaria a disponibilidade de alimentos e medicamentos. Cerca de 40% dos medicamentos modernos no mundo ocidental são derivados de plantas. Entre eles, por exemplo, a galantamina, derivada de Galanthus nivalis para tratar a doença de Alzheimer, ou a apomorfina, um composto semissintético extraído da morfina, Papaver somniferum, usada para tratar a doença de Parkinson.

    Os fungos são uma parte tão integral da teia da vida que, se desaparecessem, a maioria das formas de vida, incluindo os humanos, não sobreviveria. [...]


CHAIKA, Anna. Vitais para o ecossistema, fungos estão sob ameaça. Artigo publicado na página da Deutsche Welle Brasil. Adaptado. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/vitais-para-o-ecossistemafungos-estão-sob-ameaça-72277284. Acesso em: 18 de abril de 2025.
Segundo o texto, assinale a alternativa que expressa CORRETAMENTE a contradição central envolvendo a percepção pública e a importância ecológica dos fungos.
Alternativas
Q4089343 Português

Opine... não detone!


O direito de se expressar é uma conquista da

humanidade, o de se defender também



Ivone Zeger



    “A rua e a internet são os espaços dos embates democráticos”, disse a filha, e o pai rebate: “A internet é terra de ninguém. A rua também”. Diálogo que expressa certo conflito geracional, flagrei-o no elevador. 


   Sim, os jovens ocupam as ruas para expressar a insatisfação; eles flagram contradições e alavancam debates. Cidadãos de todas as idades têm se utilizado das redes sociais para expressar opiniões. Todos parecem conscientes da liberdade de expressão preconizada pela Constituição Federal. Mas, se nas ruas há os limites concretos – como as necessidades de mobilização envolvendo as distâncias, de coerência nas pautas reivindicatórias, de cartazes, das estratégias e eventual enfrentamento com a polícia se a ação é de desobediência civil –, na rede social o que separa a opinião pessoal do espaço público é um apertar de botão. Daí, provavelmente, a ideia do pai acerca da internet: “terra de ninguém”. 


   A ideia de liberdade de expressão trafega em bytes e bate lá onde garotos e garotas, boa parte deles ainda menor de idade, se sentem totalmente à vontade para postar opiniões pessoais, um exercício interessante não fosse a falta de limites, especialmente quando o tema das postagens são os outros. Fotos de garotas são tiradas às escondidas e postadas, expondo colegiais a situações constrangedoras. O bullying virtual se soma ao real, nas escolas, e provoca tragédias pessoais pouco difundidas pela imprensa. Afinal, será que os pais sabem até onde seus filhos podem ir nessa “terra de ninguém” ou, mais apropriadamente, no espaço virtual? 


   Encarar as estripulias virtuais como “coisas da idade” pode ser um equívoco. Se a liberdade de expressão está garantida pela Constituição, a moral e a honra das pessoas também estão. Discussões acirradas entre adultos nas redes sociais nem sempre oferecem parâmetros para os mais jovens, e até por isso, cabe o conhecimento da lei para prevenir que a falta de limites resulte em dores de cabeça para os pais. […]


   Existem leis estaduais e municipais que também caracterizam o bullying e preconizam atitudes preventivas nas escolas. Descobrir se na sua cidade ou estado há uma lei assim, conhecê-la e discuti-la com os filhos é uma atitude preventiva e necessária. […] 


   Vale lembrar, ainda, que o mercado de trabalho é exigente e, atualmente, textos e opiniões postados nas redes sociais são averiguados pelos empregadores. Não adianta enviar um currículo sóbrio e bem escrito e ter uma “persona” virtual que deixa má impressão. […]


   Já o artigo 932, em seu inciso II, aponta que “os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia” são os responsáveis pela reparação civil, que significa o pagamento de determinada importância como indenização por dano resultante de delito ou ato ilícito. Os delitos de injúria, difamação e calúnia estão descritos no Código Penal, bem como as respectivas punições, que incluem detenção. 


   Pode parecer exagero, mas os artigos citados provam que “liberdade de expressão” é um daqueles direitos que exige muita autocrítica e discernimento. Nunca será demais ensiná-los. Afinal, em um contexto civilizatório, não se pode falar em “terra de ninguém”.


Adaptado de: https://www.estadao.com.br/politica/blog-do-fausto-

macedo/opine-nao-detone/?srsltid=AfmBOoqf-

6Xj3oEgllsv49HuXhUHnnLPxwa2SgzQWetkUxk7dyfspDJj.

Com base na leitura do texto de apoio, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Q4089039 Português
IA e meio ambiente em Elias Canetti
José Roberto Castilho Piqueira 

    Quando chega o recesso de meio de ano das atividades didáticas, sou atraído para leituras que, preferencialmente, afastem-se do pensar profissional diário que aguçam meu gosto pela tentativa de posicionar a engenharia na vida do planeta, não como mera realizadora de obras, mas como agente colaborador na sua preservação. Fico folheando os jornais e olhando estantes de livrarias, hábitos considerados antiquados, em busca de possíveis leituras agradáveis. Sigo conselhos de amigos, desde que não indiquem livros de autoajuda, e gosto de ouvilos comentando e debatendo as ideias.

    Nessa lida, encontrei “A consciência das palavras”, coleção de escritos de Elias Canetti (1905-1994), romancista e ensaísta búlgaro-britânico, Prêmio Nobel de Literatura em 1981. Fui atraído pelo título, pois uma de minhas preocupações é sobre a influência da inteligência artificial (IA) na produção intelectual contemporânea. Não tenho dúvidas sobre a boa ajuda que esses métodos podem dar na produção de textos, aulas e planos de trabalho. Entretanto, acredito nisso como atividade auxiliar e colaborativa, uma vez que as palavras e ideias que provêm da atividade consciente carregam criatividade e sensibilidade, atributos aparentemente subjetivos, talvez não atingíveis in silico.

    A obra, datada de 1974, traz no preâmbulo a ideia da interpenetração entre o público e o privado, com algumas consequências sociais preocupantes. Hoje, 50 anos depois, vivenciamos a proliferação de redes sociais, dotadas de algoritmos, com grande risco à integridade e à privacidade dos indivíduos. Os benefícios do grande desenvolvimento tecnológico e computacional são inegáveis. O lado ruim, como adverte Canetti, é a conquista rápida desses meios por inimigos do planeta com propagação de boatos e de ideias deletérias de grande alcance.
 
    Ao longo do livro, Canetti apresenta uma sequência de ensaios sobre importantes figuras da história, entre elas Kafka, Confúcio, Tolstói e Büchner, começando pelo escritor austríaco Hermann Broch (1886-1951), considerado um dos principais modernistas de todos os tempos. Canetti identifica em Broch o que denomina memória respiratória, enaltecendo que a vida diária é feita de uma mistura de respirações em um ar que é nosso último bem comum, que cabe a todos indistintamente. Essa reflexão parece fundamental para a sociedade, convidando-a a uma importante discussão sobre os problemas ambientais que nos cercam. Até o momento, não havia me dado conta do fato de que quem polui invade e prejudica um bem público, isto é, aquilo que pertence a todos.

    Em capítulo seguinte, o dramaturgo Karl Kraus (1874-1936), considerado satirista e panfletário, é evocado. Fundador e único redator da revista Die Fackel (A Tocha), Kraus era crítico ferrenho da moral burguesa da época. Canetti descreve uma palestra de Kraus realizada em Viena, em 1924, ressaltando o espírito arrebatador do orador, levando a audiência ao êxtase por meio de uma impiedosa perseguição aos desafetos expressa nos discursos. Considerado como o mago furioso, ao combinar literalidade e indignação, Kraus criava importante sinergia entre suas emoções e as da plateia. Fico imaginando como os algoritmos e redes sociais de hoje criaram e multiplicaram esse estilo de oratória, para o bem e para o mal.

    Passando por uma análise bastante aguda e interessante da obra de Franz Kafka (1883-1924), chego ao capítulo sobre Confúcio (552 a.C.-489 a.C.) e aprendo que hesitação e reflexão precedem e acompanham boas respostas a questões relevantes, divergindo da busca por rapidez e de terceirização de raciocínio para as máquinas. Para Confúcio, a felicidade sem fim está na busca pelo conhecimento, não admitindo o ser humano como ferramenta, ressaltando a memória dos mortos para a consolidação de caminhos para o entendimento da natureza. 

    Em capítulo seguinte, Canetti apresenta aspectos da vida privada do autor de “Guerra e paz”, o consagrado escritor russo Leon Tolstói (1828-1910). Ressaltando que Tolstói jamais despreza um pensamento, uma experiência ou uma observação, Canetti relata ser ele proprietário de terras que, contra a vontade da família, divide-as para evitar conflitos e desejos que eventualmente pudessem causar. 

    Segue-se uma descrição dos diários do médico japonês Michihiko Hachiya (1903-1980), sobrevivente do bombardeio atômico de Hiroshima em agosto de 1945, publicados como “Diário de Hiroshima”, em 1955. Canetti escreve que não há nesse diário qualquer traço falso ou de vaidade e sim uma busca de explicar aquilo que, naquele momento, era inexplicável. Em meio aos mortos e feridos, Michihiko procura coletar peça por peça do ocorrido, transformando hipóteses em teorias a serem comprovadas. 

    Vou parar minha viagem por aqui. Pensando se nós, profissionais das áreas tecnológicas, estamos preocupados com a qualidade das palavras e dos pensamentos provenientes dos programas de IA e dos grupos hegemônicos que a manipulam. Além disso, se o ar respirável vai continuar a ser atacado e se a indústria da guerra continuará desprezando a vida, indiscriminadamente.

Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/jose-roberto-castilhopiqueira/ia-e-meio-ambiente-em-elias-c anetti/. Acesso em: 03 out. de 2025.
Considerando os elementos linguísticos presentes em excertos do texto, assinale a alternativa INCORRETA. 
Alternativas
Respostas
1621: E
1622: A
1623: A
1624: A
1625: B
1626: B
1627: C
1628: D
1629: D
1630: A
1631: D
1632: B
1633: B
1634: C
1635: B
1636: B
1637: C
1638: B
1639: E
1640: C