COMO DRONES SE TORNARAM UMA
AMEAÇA ÀS COMUNIDADES RURAIS
Os agricultores familiares de Limoeiro do
Norte, no Ceará, preparavam-se para mais uma feira
agroecológica mensal quando foram surpreendidos
pela notícia de que o governador Elmano de Freitas
(PT) havia prometido autorizar, até o fim de 2024, o
uso de drones agrícolas para pulverização no estado.
O anúncio reacendeu um medo já inexistente
na cidade, palco histórico da luta contra a
pulverização aérea de agrotóxicos no Brasil. Treze
dias depois, a medida foi concretizada e o Ceará
deixou de ser o único estado brasileiro a impedir
totalmente essa modalidade de uso de pesticidas. “A
história de veneno na nossa região já ultrapassa os
limites. Vivemos numa situação delicada, o progresso
chegando, o agronegócio dominando e a gente
acuado”, lamenta Lucas Brito, presidente do
Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e
Agricultoras familiares de Limoeiro.
A reviravolta cearense não aconteceu por
acaso. Os drones têm sido cada vez mais utilizados
para pulverização de agrotóxicos no Brasil, vendidos
como uma alternativa mais precisa e tecnológica aos
aviões. Em dois anos, a quantidade de drones
registrados na Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac) para fins de pulverização aumentou em mais
de dez vezes, saltando de 674 para 7.312 entre janeiro
de 2023 e janeiro de 2025.
Antes, os registros se concentravam em 18
estados, agora já há presença de drones agrícolas
cadastrados em 26 unidades da federação. O Ceará,
que não tinha nenhum, já tem quatro cadastros. Além
dele, passaram a figurar registros no Acre, Amazonas,
Paraíba, Piauí, Roraima, Rio Grande do Norte e
Distrito Federal. Já localidades onde há forte presença
do agronegócio sofreram os aumentos mais
expressivos. O Maranhão viu saltar os cadastros de
um para 104, enquanto o Mato Grosso do Sul teve um
aumento de dois para 103 drones.
O avanço dos drones agrícolas no Brasil vem
acompanhado da criação de normativas. Em 2021, a
portaria 298/21 do Ministério da Agricultura e
Pecuária (Mapa) estabeleceu regras para os
operadores e equipamentos. Para manejá-los, é
preciso cadastrar os drones na Anac e realizar um
curso, chamado de CAAR. Além disso, não é
permitida a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas
situadas a menos de vinte metros de povoações. Em
estados como o Ceará e Maranhão, entretanto, a
realidade é outra, denunciam movimentos sociais. Os
drones se transformaram em uma ameaça.
Um levantamento divulgado pela ONG
Repórter Brasil no início deste mês mostra que 228
comunidades em 35 municípios do Maranhão
denunciaram contaminação por pesticidas até outubro
de 2024. Dessas, em 94% dos casos a pulverização foi
feita por drones. “O problema dos drones no
Maranhão se relaciona com a expansão do
agronegócio [...] Há uma demanda excessiva pelo uso
de agrotóxicos”, explica o advogado Diogo Cabral, da
Federação dos Trabalhadores Rurais do Maranhão
(Fetaema), uma das entidades que fez o levantamento.
Segundo Cabral, os drones começaram a ser
vistos na paisagem nos últimos quatro anos e estão
relacionados à contaminação dos rios e nascentes, ao
adoecimento agudo da população, que têm
apresentado problemas de pele, enjoos e dificuldades
respiratórias, e à perda de produção agroecológica.
Alguns agricultores denunciam que os equipamentos
têm sido utilizados a menos de 20 metros das
residências e plantações. “Eles geralmente colocam
muito cedo pela manhã ou no fim do dia. Sem contar
que as famílias não têm mais privacidade. [...]
De acordo com a Fetaema, todas as denúncias
recebidas afirmam que os drones estão pulverizando
diretamente o plantio das comunidades. Em São
Mateus, a cerca de 200 quilômetros de São Luís,
moradores de territórios quilombolas têm perdido a
plantação de milho, abóbora e feijão por causa das
pulverizações. “Está sem controle, e só quem perde
somos nós, os pequenos”, reclama um representante
do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores
e Agricultoras Familiares de São Mateus.
As ações são consideradas pelas entidades que
defendem os agricultores como tentativas de expulsão
das comunidades tradicionais. Dados da Comissão
Pastoral da Terra (CPT) mostram que a contaminação
por agrotóxicos nas comunidades rurais aumentou
quase dez vezes no primeiro semestre de 2024. Na
maioria dos casos de conflitos de terra registrados
pela entidade, foi relatado uso de drones. “Eles fazem
parte de um conjunto de ameaças. É uma tecnologia
usada em conjunto a seguranças armados, que vigiam
os caminhos, a movimentação no território”, explica Lenora Rodrigues, da coordenação da CPT
Maranhão.
“Os drones entraram como mais uma
ferramenta para ajudar no processo de inviabilização
da vida tradicional dessas comunidades”, afirma Alan
Tygel, da Campanha Permanente Contra os
Agrotóxicos e Pela Vida. O modelo de drone agrícola
mais utilizado no país é o Agras T40, da empresa DJI,
que representa 34,5% de todos os equipamentos
cadastrados na Anac. De acordo com o site da
fabricante, o drone pode carregar até 40 quilos de
carga útil de pulverização e espalhar 1,5 tonelada de
fertilizante por hora.
Em seu último relatório anual, a DJI afirma
que a indústria global de drones agrícolas está em
expansão e destaca o Brasil, ao lado dos Estados
Unidos e da China, como país que está na vanguarda
da regulamentação desses equipamentos. No Brasil,
há uma tendência em tornar os processos de registro
mais fáceis. Em outubro de 2024, o Mapa anunciou
uma consulta pública para desburocratizar cadastros
de operadores e entidades de ensino. Em 2023, a Anac
já havia simplificado as regras para cadastro dos
drones agrícolas.
“Para os pilotos de drone, as exigências são
muito menores do que para os pilotos de avião, em
termos de técnica e conhecimento para fazer essa
atividade. Basta fazer um pequeno curso”, questiona
Tygel. Na internet, é possível encontrar cursos
totalmente online que prometem aulas do básico ao
avançado por valores entre R$ 1 mil e R$ 4,5 mil.
Cerca de 70% dos drones cadastrados em
janeiro de 2023 para pulverização estavam em nomes
de empresas. Esse percentual diminuiu para 48% em
dois anos, ou seja, agora a maioria dos drones usados
para pulverizar no país estão em nome de pessoas
físicas. “A pessoa pode ter um certificado oficial do
ministério sem nunca ter visto um drone”, afirma o
deputado estadual Renato Roseno (PSOL-CE), um
dos autores da lei que proibiu a pulverização aérea no
Ceará em 2019.
No começo de 2024, representantes do
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
de Timbiras (STTR), no Maranhão, chegaram a ser
procurados por representantes de empresas
interessadas em ofertar cursos semelhantes. Em
Açailândia, a própria prefeitura da cidade chegou a
oferecer, em 2023, um curso de pilotagem de drone.
“Muitos jovens têm procurado [esses cursos] porque
dizem que é uma forma de ganhar dinheiro, que está
em alta. Mas [as empresas] não socializam o que tem
sido a questão do drone para a nossa vida, para o meio
ambiente”, reclama uma agricultora local.
De acordo com Cabral, as lojas de drones
também passaram a ser vistas com mais frequência
em pequenos e médios municípios onde há presença
do agronegócio nos últimos dois anos. Apesar do
crescimento do setor, entidades como Associação
Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a Fiocruz e a
Cáritas, já se posicionaram contra a pulverização por
drones.
A Fiocruz e a Abrasco alegam que, apesar do
discurso que posiciona os drones como menos
contaminantes e mais precisos que aviões, faltam
estudos para provar isso. “Os estudos sobre o impacto
do uso de drones para a aplicação de agrotóxicos na
saúde e no ambiente ainda não conseguiram
acompanhar a velocidade do mercado”, diz uma nota
técnica conjunta publicada em dezembro.
A pulverização aérea é proibida na União
Europeia desde 2009 e concentra críticas sobretudo
pela deriva – quando a aplicação não atinge o local
adequado e acerta alvos circunvizinhos. Um estudo
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa) mostra que, mesmo com ventos ideais,
apenas 32% dos agrotóxicos pulverizados por via
aérea ficam retidos nas plantas.
Para o pesquisador Fernando Carneiro, da
Fiocruz Ceará e do grupo temático de Saúde e
Ambiente da Abrasco, o avanço dos drones na
agricultura está ligado à redução de custos das
operações. Segundo o especialista, trocar a
pulverização manual pelo drone impede que um
trabalhador contaminado acione a Justiça por danos,
bem como reduz o valor investido na logística de
operação de aviões.
Os parâmetros estabelecidos para a aplicação
dos agrotóxicos e a capacidade dos governos de
fiscalizar o cumprimento dessas regras também são
alvo de críticas. “Pode-se estabelecer uma distância
segura para aplicar o que chamamos de veneno? Não
se pode ter controle do vento, da altura, do ângulo dos
jatos”, afirma a advogada e coordenadora de projetos
da ONG Esplar, Magnólia Said.
Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/comodrones-se-tornaram-uma-ameaça-às-comunidadesrurais/a-71512506>. Adaptado. Acesso em: 14 de
setembro de 2025.
No trecho “O avanço dos drones agrícolas no Brasil
vem acompanhado da criação de normativas”, a
palavra destacada pode ser substituída, sem alteração
de sentido, por:
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