Questões de Concurso
Sobre interpretação de textos em português
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Leia o texto abaixo para responder à questão.
Texto I
Felicidade Clandestina
In Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abrio, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Disponível em: https://www.professorjailton.com.br/novo/biblioteca/clarice_lispector _-_felicidade_clandestina_e_outros_contos.pdf
Leia os trechos abaixo, atentando para os conectivos em destaque:
I. “Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa (...), apareceu sua mãe. ”
II. “Mas este livro nunca saiu daqui de casa…”
Considerando o valor semântico-discursivo dos conectivos sublinhados no contexto narrativo, eles estabelecem, respectivamente, relações de:
Leia o texto abaixo para responder à questão.
Texto I
Felicidade Clandestina
In Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abrio, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Disponível em: https://www.professorjailton.com.br/novo/biblioteca/clarice_lispector _-_felicidade_clandestina_e_outros_contos.pdf
Considerando o trecho:
“Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.”
No contexto do desfecho do conto, a afirmação evidencia que a narradora:
Poltrona sete
Desci para a plataforma de embarque. Vi o ônibus. Entrei.
Tudo era fim de tarde naquele universo de sol morrendo aos poucos. Poltrona sete. Sentei. O sol queria permanecer um pouco mais. A vida inteira cabia naquele espaço tão fechado quanto o tempo em meu rosto insone.
Aventurei um riso — me frustrei. Levantei as pernas em abraço de feto na barriga de uma mãe ausente — entristeci. O sol escureceu meus olhos — angustiei. Iria para sempre. Passei a mão no rosto. Iria para sempre. A boca amarga. Iria para sempre. Enquanto me perdia em solidão e caos, olhei pela janela.
Na rodoviária, com o sol se pondo, vi o amor se materializar na figura de dois rapazes.
De frente um para o outro, como se quisessem adiar a despedida, eles se abraçaram. Um era anêmico pela própria natureza — os cabelos escuros caíam nos olhos. O outro era sério — olhava perdido para o mundo e trazia nos ombros a letargia do domingo à tarde.
O sol espalhava prenúncios de adeus.
Com o transporte às vésperas de sair, o amor se fez carne e habitou entre nós. Eles se beijaram. Tanta ternura se deu no beijo, tanto amor concretizado se fez no gesto, mas o ódio, intolerante, resolveu puni-los.
O velho ao lado dele saiu com nojo. O menino que olhava foi repreendido pela mãe. O atendente da lanchonete riu. A mulher que limpava o local, estarrecida, cessou a vassoura. A moça com Frida Kahlo na blusa fez esforço para agir naturalmente. O homem ao lado dela conferiu o relógio e virou-se. A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz.
O desconforto passeou pela rodoviária, mas o amor, indiferente, dançou no espelho dos olhares perplexos. Quando o amor dança, o ódio não consegue prendê-lo com seus grilhões enferrujados.
Depois um se arrastou para o ônibus e o outro paralisou na plataforma. Sob vigília, eles sentiram o sol se tornar áspero. Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues.
O que se foi baixou os olhos. O que ficou conteve o choro. Nuvem não segura tempestade que teima em descer. Aos poucos, o que era lágrimas se fez soerguer do corpo.
Uns riam, outros estranhavam. Uns diziam que era o fim do mundo, outros reprovavam em silêncio.
O amor tem duas margens e um rio que lhe atravessa.
Eu contemplava a cena em silêncio. Não se pode dizer muito quando o amor derrama ausências. A distância cria ciladas.
Aonde iria um? Aonde iria o outro?
A rodoviária era pequena para o amor de dois homens em estado de lágrimas. O sol vestiu ausência, a lua solidão.
Eu flagrava a cena em silêncio, mas...
Sofri pancada no rosto ou pressenti o transporte em prenúncios de partida?
Saindo da rodoviária, constatei que um dos rapazes em despedida era eu. A escuridão engoliu meu corpo. Fiquei aos gritos. Ninguém me ouviu da sepultura. Elza Soares cantou Lírio Rosa. Apaguei os olhos para não ver pela janela.
Desejei dizer que... Minha boca tentou, mas... Meu corpo queria, só que... Não pude fugir, apesar de... Na poltrona, fui afixado por milhões de pregos.
E fui embora, doendo sempre nos solavancos do ter-que-ir-para-nunca-mais.
(Cardoso, Emerson. O baile das assimetrias. “Poltrona sete”. São Paulo: OIA, 2002.)
Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues. O termo destacado é o mesmo que:
Poltrona sete
Desci para a plataforma de embarque. Vi o ônibus. Entrei.
Tudo era fim de tarde naquele universo de sol morrendo aos poucos. Poltrona sete. Sentei. O sol queria permanecer um pouco mais. A vida inteira cabia naquele espaço tão fechado quanto o tempo em meu rosto insone.
Aventurei um riso — me frustrei. Levantei as pernas em abraço de feto na barriga de uma mãe ausente — entristeci. O sol escureceu meus olhos — angustiei. Iria para sempre. Passei a mão no rosto. Iria para sempre. A boca amarga. Iria para sempre. Enquanto me perdia em solidão e caos, olhei pela janela.
Na rodoviária, com o sol se pondo, vi o amor se materializar na figura de dois rapazes.
De frente um para o outro, como se quisessem adiar a despedida, eles se abraçaram. Um era anêmico pela própria natureza — os cabelos escuros caíam nos olhos. O outro era sério — olhava perdido para o mundo e trazia nos ombros a letargia do domingo à tarde.
O sol espalhava prenúncios de adeus.
Com o transporte às vésperas de sair, o amor se fez carne e habitou entre nós. Eles se beijaram. Tanta ternura se deu no beijo, tanto amor concretizado se fez no gesto, mas o ódio, intolerante, resolveu puni-los.
O velho ao lado dele saiu com nojo. O menino que olhava foi repreendido pela mãe. O atendente da lanchonete riu. A mulher que limpava o local, estarrecida, cessou a vassoura. A moça com Frida Kahlo na blusa fez esforço para agir naturalmente. O homem ao lado dela conferiu o relógio e virou-se. A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz.
O desconforto passeou pela rodoviária, mas o amor, indiferente, dançou no espelho dos olhares perplexos. Quando o amor dança, o ódio não consegue prendê-lo com seus grilhões enferrujados.
Depois um se arrastou para o ônibus e o outro paralisou na plataforma. Sob vigília, eles sentiram o sol se tornar áspero. Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues.
O que se foi baixou os olhos. O que ficou conteve o choro. Nuvem não segura tempestade que teima em descer. Aos poucos, o que era lágrimas se fez soerguer do corpo.
Uns riam, outros estranhavam. Uns diziam que era o fim do mundo, outros reprovavam em silêncio.
O amor tem duas margens e um rio que lhe atravessa.
Eu contemplava a cena em silêncio. Não se pode dizer muito quando o amor derrama ausências. A distância cria ciladas.
Aonde iria um? Aonde iria o outro?
A rodoviária era pequena para o amor de dois homens em estado de lágrimas. O sol vestiu ausência, a lua solidão.
Eu flagrava a cena em silêncio, mas...
Sofri pancada no rosto ou pressenti o transporte em prenúncios de partida?
Saindo da rodoviária, constatei que um dos rapazes em despedida era eu. A escuridão engoliu meu corpo. Fiquei aos gritos. Ninguém me ouviu da sepultura. Elza Soares cantou Lírio Rosa. Apaguei os olhos para não ver pela janela.
Desejei dizer que... Minha boca tentou, mas... Meu corpo queria, só que... Não pude fugir, apesar de... Na poltrona, fui afixado por milhões de pregos.
E fui embora, doendo sempre nos solavancos do ter-que-ir-para-nunca-mais.
(Cardoso, Emerson. O baile das assimetrias. “Poltrona sete”. São Paulo: OIA, 2002.)
A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz. O termo em destaque pode ser traduzido, sem perder o sentido, por:
Poltrona sete
Desci para a plataforma de embarque. Vi o ônibus. Entrei.
Tudo era fim de tarde naquele universo de sol morrendo aos poucos. Poltrona sete. Sentei. O sol queria permanecer um pouco mais. A vida inteira cabia naquele espaço tão fechado quanto o tempo em meu rosto insone.
Aventurei um riso — me frustrei. Levantei as pernas em abraço de feto na barriga de uma mãe ausente — entristeci. O sol escureceu meus olhos — angustiei. Iria para sempre. Passei a mão no rosto. Iria para sempre. A boca amarga. Iria para sempre. Enquanto me perdia em solidão e caos, olhei pela janela.
Na rodoviária, com o sol se pondo, vi o amor se materializar na figura de dois rapazes.
De frente um para o outro, como se quisessem adiar a despedida, eles se abraçaram. Um era anêmico pela própria natureza — os cabelos escuros caíam nos olhos. O outro era sério — olhava perdido para o mundo e trazia nos ombros a letargia do domingo à tarde.
O sol espalhava prenúncios de adeus.
Com o transporte às vésperas de sair, o amor se fez carne e habitou entre nós. Eles se beijaram. Tanta ternura se deu no beijo, tanto amor concretizado se fez no gesto, mas o ódio, intolerante, resolveu puni-los.
O velho ao lado dele saiu com nojo. O menino que olhava foi repreendido pela mãe. O atendente da lanchonete riu. A mulher que limpava o local, estarrecida, cessou a vassoura. A moça com Frida Kahlo na blusa fez esforço para agir naturalmente. O homem ao lado dela conferiu o relógio e virou-se. A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz.
O desconforto passeou pela rodoviária, mas o amor, indiferente, dançou no espelho dos olhares perplexos. Quando o amor dança, o ódio não consegue prendê-lo com seus grilhões enferrujados.
Depois um se arrastou para o ônibus e o outro paralisou na plataforma. Sob vigília, eles sentiram o sol se tornar áspero. Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues.
O que se foi baixou os olhos. O que ficou conteve o choro. Nuvem não segura tempestade que teima em descer. Aos poucos, o que era lágrimas se fez soerguer do corpo.
Uns riam, outros estranhavam. Uns diziam que era o fim do mundo, outros reprovavam em silêncio.
O amor tem duas margens e um rio que lhe atravessa.
Eu contemplava a cena em silêncio. Não se pode dizer muito quando o amor derrama ausências. A distância cria ciladas.
Aonde iria um? Aonde iria o outro?
A rodoviária era pequena para o amor de dois homens em estado de lágrimas. O sol vestiu ausência, a lua solidão.
Eu flagrava a cena em silêncio, mas...
Sofri pancada no rosto ou pressenti o transporte em prenúncios de partida?
Saindo da rodoviária, constatei que um dos rapazes em despedida era eu. A escuridão engoliu meu corpo. Fiquei aos gritos. Ninguém me ouviu da sepultura. Elza Soares cantou Lírio Rosa. Apaguei os olhos para não ver pela janela.
Desejei dizer que... Minha boca tentou, mas... Meu corpo queria, só que... Não pude fugir, apesar de... Na poltrona, fui afixado por milhões de pregos.
E fui embora, doendo sempre nos solavancos do ter-que-ir-para-nunca-mais.
(Cardoso, Emerson. O baile das assimetrias. “Poltrona sete”. São Paulo: OIA, 2002.)
Poltrona sete
Desci para a plataforma de embarque. Vi o ônibus. Entrei.
Tudo era fim de tarde naquele universo de sol morrendo aos poucos. Poltrona sete. Sentei. O sol queria permanecer um pouco mais. A vida inteira cabia naquele espaço tão fechado quanto o tempo em meu rosto insone.
Aventurei um riso — me frustrei. Levantei as pernas em abraço de feto na barriga de uma mãe ausente — entristeci. O sol escureceu meus olhos — angustiei. Iria para sempre. Passei a mão no rosto. Iria para sempre. A boca amarga. Iria para sempre. Enquanto me perdia em solidão e caos, olhei pela janela.
Na rodoviária, com o sol se pondo, vi o amor se materializar na figura de dois rapazes.
De frente um para o outro, como se quisessem adiar a despedida, eles se abraçaram. Um era anêmico pela própria natureza — os cabelos escuros caíam nos olhos. O outro era sério — olhava perdido para o mundo e trazia nos ombros a letargia do domingo à tarde.
O sol espalhava prenúncios de adeus.
Com o transporte às vésperas de sair, o amor se fez carne e habitou entre nós. Eles se beijaram. Tanta ternura se deu no beijo, tanto amor concretizado se fez no gesto, mas o ódio, intolerante, resolveu puni-los.
O velho ao lado dele saiu com nojo. O menino que olhava foi repreendido pela mãe. O atendente da lanchonete riu. A mulher que limpava o local, estarrecida, cessou a vassoura. A moça com Frida Kahlo na blusa fez esforço para agir naturalmente. O homem ao lado dela conferiu o relógio e virou-se. A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz.
O desconforto passeou pela rodoviária, mas o amor, indiferente, dançou no espelho dos olhares perplexos. Quando o amor dança, o ódio não consegue prendê-lo com seus grilhões enferrujados.
Depois um se arrastou para o ônibus e o outro paralisou na plataforma. Sob vigília, eles sentiram o sol se tornar áspero. Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues.
O que se foi baixou os olhos. O que ficou conteve o choro. Nuvem não segura tempestade que teima em descer. Aos poucos, o que era lágrimas se fez soerguer do corpo.
Uns riam, outros estranhavam. Uns diziam que era o fim do mundo, outros reprovavam em silêncio.
O amor tem duas margens e um rio que lhe atravessa.
Eu contemplava a cena em silêncio. Não se pode dizer muito quando o amor derrama ausências. A distância cria ciladas.
Aonde iria um? Aonde iria o outro?
A rodoviária era pequena para o amor de dois homens em estado de lágrimas. O sol vestiu ausência, a lua solidão.
Eu flagrava a cena em silêncio, mas...
Sofri pancada no rosto ou pressenti o transporte em prenúncios de partida?
Saindo da rodoviária, constatei que um dos rapazes em despedida era eu. A escuridão engoliu meu corpo. Fiquei aos gritos. Ninguém me ouviu da sepultura. Elza Soares cantou Lírio Rosa. Apaguei os olhos para não ver pela janela.
Desejei dizer que... Minha boca tentou, mas... Meu corpo queria, só que... Não pude fugir, apesar de... Na poltrona, fui afixado por milhões de pregos.
E fui embora, doendo sempre nos solavancos do ter-que-ir-para-nunca-mais.
(Cardoso, Emerson. O baile das assimetrias. “Poltrona sete”. São Paulo: OIA, 2002.)
Dadas as expressões do texto, marque a que melhor representa o estado de espírito da voz narrativa:
Poltrona sete
Desci para a plataforma de embarque. Vi o ônibus. Entrei.
Tudo era fim de tarde naquele universo de sol morrendo aos poucos. Poltrona sete. Sentei. O sol queria permanecer um pouco mais. A vida inteira cabia naquele espaço tão fechado quanto o tempo em meu rosto insone.
Aventurei um riso — me frustrei. Levantei as pernas em abraço de feto na barriga de uma mãe ausente — entristeci. O sol escureceu meus olhos — angustiei. Iria para sempre. Passei a mão no rosto. Iria para sempre. A boca amarga. Iria para sempre. Enquanto me perdia em solidão e caos, olhei pela janela.
Na rodoviária, com o sol se pondo, vi o amor se materializar na figura de dois rapazes.
De frente um para o outro, como se quisessem adiar a despedida, eles se abraçaram. Um era anêmico pela própria natureza — os cabelos escuros caíam nos olhos. O outro era sério — olhava perdido para o mundo e trazia nos ombros a letargia do domingo à tarde.
O sol espalhava prenúncios de adeus.
Com o transporte às vésperas de sair, o amor se fez carne e habitou entre nós. Eles se beijaram. Tanta ternura se deu no beijo, tanto amor concretizado se fez no gesto, mas o ódio, intolerante, resolveu puni-los.
O velho ao lado dele saiu com nojo. O menino que olhava foi repreendido pela mãe. O atendente da lanchonete riu. A mulher que limpava o local, estarrecida, cessou a vassoura. A moça com Frida Kahlo na blusa fez esforço para agir naturalmente. O homem ao lado dela conferiu o relógio e virou-se. A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz.
O desconforto passeou pela rodoviária, mas o amor, indiferente, dançou no espelho dos olhares perplexos. Quando o amor dança, o ódio não consegue prendê-lo com seus grilhões enferrujados.
Depois um se arrastou para o ônibus e o outro paralisou na plataforma. Sob vigília, eles sentiram o sol se tornar áspero. Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues.
O que se foi baixou os olhos. O que ficou conteve o choro. Nuvem não segura tempestade que teima em descer. Aos poucos, o que era lágrimas se fez soerguer do corpo.
Uns riam, outros estranhavam. Uns diziam que era o fim do mundo, outros reprovavam em silêncio.
O amor tem duas margens e um rio que lhe atravessa.
Eu contemplava a cena em silêncio. Não se pode dizer muito quando o amor derrama ausências. A distância cria ciladas.
Aonde iria um? Aonde iria o outro?
A rodoviária era pequena para o amor de dois homens em estado de lágrimas. O sol vestiu ausência, a lua solidão.
Eu flagrava a cena em silêncio, mas...
Sofri pancada no rosto ou pressenti o transporte em prenúncios de partida?
Saindo da rodoviária, constatei que um dos rapazes em despedida era eu. A escuridão engoliu meu corpo. Fiquei aos gritos. Ninguém me ouviu da sepultura. Elza Soares cantou Lírio Rosa. Apaguei os olhos para não ver pela janela.
Desejei dizer que... Minha boca tentou, mas... Meu corpo queria, só que... Não pude fugir, apesar de... Na poltrona, fui afixado por milhões de pregos.
E fui embora, doendo sempre nos solavancos do ter-que-ir-para-nunca-mais.
(Cardoso, Emerson. O baile das assimetrias. “Poltrona sete”. São Paulo: OIA, 2002.)
Podemos dizer que a motivação maior do texto é:
Poltrona sete
Desci para a plataforma de embarque. Vi o ônibus. Entrei.
Tudo era fim de tarde naquele universo de sol morrendo aos poucos. Poltrona sete. Sentei. O sol queria permanecer um pouco mais. A vida inteira cabia naquele espaço tão fechado quanto o tempo em meu rosto insone.
Aventurei um riso — me frustrei. Levantei as pernas em abraço de feto na barriga de uma mãe ausente — entristeci. O sol escureceu meus olhos — angustiei. Iria para sempre. Passei a mão no rosto. Iria para sempre. A boca amarga. Iria para sempre. Enquanto me perdia em solidão e caos, olhei pela janela.
Na rodoviária, com o sol se pondo, vi o amor se materializar na figura de dois rapazes.
De frente um para o outro, como se quisessem adiar a despedida, eles se abraçaram. Um era anêmico pela própria natureza — os cabelos escuros caíam nos olhos. O outro era sério — olhava perdido para o mundo e trazia nos ombros a letargia do domingo à tarde.
O sol espalhava prenúncios de adeus.
Com o transporte às vésperas de sair, o amor se fez carne e habitou entre nós. Eles se beijaram. Tanta ternura se deu no beijo, tanto amor concretizado se fez no gesto, mas o ódio, intolerante, resolveu puni-los.
O velho ao lado dele saiu com nojo. O menino que olhava foi repreendido pela mãe. O atendente da lanchonete riu. A mulher que limpava o local, estarrecida, cessou a vassoura. A moça com Frida Kahlo na blusa fez esforço para agir naturalmente. O homem ao lado dela conferiu o relógio e virou-se. A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz.
O desconforto passeou pela rodoviária, mas o amor, indiferente, dançou no espelho dos olhares perplexos. Quando o amor dança, o ódio não consegue prendê-lo com seus grilhões enferrujados.
Depois um se arrastou para o ônibus e o outro paralisou na plataforma. Sob vigília, eles sentiram o sol se tornar áspero. Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues.
O que se foi baixou os olhos. O que ficou conteve o choro. Nuvem não segura tempestade que teima em descer. Aos poucos, o que era lágrimas se fez soerguer do corpo.
Uns riam, outros estranhavam. Uns diziam que era o fim do mundo, outros reprovavam em silêncio.
O amor tem duas margens e um rio que lhe atravessa.
Eu contemplava a cena em silêncio. Não se pode dizer muito quando o amor derrama ausências. A distância cria ciladas.
Aonde iria um? Aonde iria o outro?
A rodoviária era pequena para o amor de dois homens em estado de lágrimas. O sol vestiu ausência, a lua solidão.
Eu flagrava a cena em silêncio, mas...
Sofri pancada no rosto ou pressenti o transporte em prenúncios de partida?
Saindo da rodoviária, constatei que um dos rapazes em despedida era eu. A escuridão engoliu meu corpo. Fiquei aos gritos. Ninguém me ouviu da sepultura. Elza Soares cantou Lírio Rosa. Apaguei os olhos para não ver pela janela.
Desejei dizer que... Minha boca tentou, mas... Meu corpo queria, só que... Não pude fugir, apesar de... Na poltrona, fui afixado por milhões de pregos.
E fui embora, doendo sempre nos solavancos do ter-que-ir-para-nunca-mais.
(Cardoso, Emerson. O baile das assimetrias. “Poltrona sete”. São Paulo: OIA, 2002.)
Dadas as alternativas, marque a correta no que se refere à leitura do primeiro parágrafo do texto:
I. O parágrafo introdutório prepara o leitor para a leitura de uma densidade emocional típica de contos introspectivos e/ou passagens existenciais.
II. A viagem de ônibus pode ser vista como uma metáfora para o isolamento, a passagem do tempo e a finitude.
III. O “fim de tarde” e o “sol morrendo aos poucos” são descrições meteorológicas que apenas servem para contextualizar o leitor do tempo em que se passa a narrativa.
IV. O narrador projeta seu interior no cenário: o mundo lá fora está “morrendo”, assim como algo dentro dele parece estar se apagando ou pausando.
V. O desejo do sol de “permanecer um pouco mais” reflete a pressa do ser humano de segurar momentos que estão escapando, ou seja, medo de perder o ônibus.
O trecho destacado faz referência a:
“Talvez sorria, ou diga: — Alô, iniludível!”
Assinale o sinônimo adequado para o termo “iniludível”:
"O meu dia foi bom, pode a noite descer."
Assinale a opção que apresenta uma substituição correta da palavra destacada sem alterar o sentido do verso:
Nesse contexto, o poeta se refere à morte de forma indireta, pois há atenuação da palavra “morte”, socialmente percebida como indesejável.
O recurso de linguagem utilizado nesse verso constitui um exemplo de:
“As cerimônias de noivado organizavam a transmissão de bens, mas não havia casamento verdadeiro a não ser que tivesse havido união carnal”
Qual é a relação semântica desse trecho com a afirmação anterior?
( ) O texto afirma que a Inteligência Artificial pode substituir diversas profissões, especialmente aquelas baseadas em grandes bases de dados digitalizados.
( ) O autor defende que a IA é totalmente confiável e não apresenta falhas significativas.
( ) O texto aponta que, além do risco de aceitar como reais produções da IA, há também o perigo de considerar falsas produções humanas autênticas.
A sequência CORRETA é:
Assinale a opção que melhor apresenta a estratégia de argumentação predominante no texto.
Vaca Estrela e Boi Fubá
(Patativa do Assaré)
Ao dizer que “O sertão esturricou”, o eu lírico afirma que:
Vaca Estrela e Boi Fubá
(Patativa do Assaré)
Vaca Estrela e Boi Fubá
(Patativa do Assaré)
Vaca Estrela e Boi Fubá
(Patativa do Assaré)
Dadas as assertivas a seguir, marque a opção correta:
I. O texto em estudo reflete uma realidade do povo nordestino que, desprovido de subsistência, migra em busca de melhores salários e de uma vida digna.
II. O texto é um exemplo de um hábito tão antigo quanto a humanidade: o desejo de conhecer novos lugares, novas culturas.
III. Reflexo de êxodo rural, Vaca Estrela e Boi Fubá apresenta sequelas de questões sobre o conflito pela posse de terras.
IV. Expatriado, o eu lírico lamenta das condições climáticas que o impeliram a distanciar-se da sua essência.
V. O aboiar é manifesto de lembrança, expressão de sentimentos, espaço simbólico de pertencimento.