Questões de Concurso Sobre interpretação de textos em português

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Q3374682 Português
Teimosia e volta por cima aprende-se com as embaúbas
(Lara Norberto Renzeti)

01     Na altura da minha varanda, no quarto andar do prédio, está o topo de uma embaúba. Nas raízes da árvore, emaranhadas entre a terra e as pedras, encontrase um pedaço azul de lona, lixo esquecido ali há alguns anos. Para além das embaúbas, que se ajeitam em grupo nos limites do terreno vizinho, há uma estrada de tijolos cinzas e vermelhos, que passa por entre as casas e vai até o portão. As casas estão ocas, inacabadas, mas não lhes falta vida, já que plantas se ancoram em seus muros e crescem sem pretensões decorativas no que poderiam ter sido tanto jardins quanto garagens. Atrás das ruínas, há restos de floresta.

02     Nem sempre foi assim. Quando vim morar neste prédio, em 2006, o terreno dos fundos era mato. Remanescente do sítio de alguma família dos primórdios de Jacarepaguá, um tímido pedacinho de Mata Atlântica preenchia quase todo o espaço, com exceção do antigo casarão em ruínas. Foi, na verdade, este o motivo pelo qual me mudei: meus pais queriam um apartamento mais tranquilo, de onde se pudesse ver um pouco de natureza. Onde hoje há uma embaúba, naquela época, havia uma árvore de folhas e frutos pequenos, que, de verão a verão, abrigava os mais diversos passarinhos.

03     O que mais chamava a minha atenção eram os saís-azuis. Eles sempre apareciam na árvore, para fazer um banquete de frutinhos. O macho era azul e preto, e a fêmea era verde. Aquelas cores vivas me fascinavam, e eu, com oito anos de idade, ficava feliz por saber que seres tão belos moravam perto por causa da árvore. Ela crescia e frutificava, e eu contava com ela para me mostrar os pássaros. 

04     A vista da varanda era o maior orgulho de nosso apartamento. Por anos, todos os convidados que visitaram minha casa atravessaram meu quarto para conhecer o terreno dos fundos, olhar suas cores, escutar seus sons. Mas, quando menos esperávamos, ouvimos vozes humanas vindas de lá. Vários homens conversavam, apontavam para as coisas e iam adentrando o pequeno fragmento de floresta. Eles continuaram por alguns dias conversando e apontando para as coisas, até que penduraram uma placa com logomarca de imobiliária no portão. A floresta ia virar condomínio.

05     Na época, não entendia bem como as coisas funcionavam, mas me lembro dos meus pais e dos vizinhos de prédio comentando que a obra era irregular. Que a empresa dava golpes nos compradores. Que não podiam cortar árvores. Que íamos embargar a obra. Mas já havia marcações em vermelho em algumas árvores. O que era aquilo? Sentença de morte? Todo dia, eu procurava aquela tinta, vermelha como sangue, no tronco da minha estimada árvore especial, que resistia como se não fosse vista, no cantinho do terreno. Em pouco tempo, o som de motosserra se misturou com o canto das cigarras. De vez em quando, eu sentia a falta de alguma coisa na paisagem: a pequena floresta ia ficando cada vez mais esburacada.

06     Tudo isso foi muito aos poucos. Não percebi quando começaram a construir. Sei que aterraram a antiga piscina, foram derrubando árvore atrás de árvore, até que surgiu espaço suficiente para mais de dez casas, e eu parei de olhar. Parei de ir à minha própria varanda porque tudo que eu via era aridez e destruição. Eu tinha medo de um dia encontrar a minha árvore cortada, caída no chão, morta. Ela resistiu bravamente. Foi a última. Nunca foi diretamente assassinada, mas se cansou e foi morrendo aos poucos, lentamente, consumida por um solo capinado e sem vida. Nunca descobri seu nome. Nunca mais vi saí-azul.

07     Ao longo do tempo, a obra foi embargada e retomada. Pelo visto, os avisos dos meus vizinhos eram bem fundamentados: a imobiliária nunca entregou as casas prontas. A floresta foi destruída em vão.

08     Imóveis inacabados podem ter três principais destinos. O primeiro deles é o esquecimento, quando, ao longo do tempo e da desvalorização econômica, a natureza toma conta, transformando-os em substrato e abrigo de seres não-humanos. O segundo é o descobrimento, caracterizado pelo abandono inicial e posteriores ocupações, resultantes de uma sociedade que não garante abrigo a todos os humanos. O terceiro é o acabamento, que precisa que as obras continuem.

09     Os compradores das casas, que sofreram o golpe da imobiliária, provavelmente sabiam dessas possibilidades. Pensando em manter um pouco do que se tornou deles por contrato, não abandonaram o terreno por completo e resolveram, por conta própria, tocar a obra. De vez em quando, aparecem trabalhadores: pintam uma parede, instalam luz elétrica, terminam um telhado. Por vezes, os próprios donos aparecem para cortar a grama. Isso acontece há uns dez anos, e as casas continuam inacabadas. No fundo, queria que essa obra nunca terminasse, presenciar o esquecimento, porque sei que a natureza nunca esquece. Num olhar de relance, o muro das casas estava coberto de plantas trepadeiras.

10     Arrisquei voltar à varanda. Agora que a minha árvore já estava morta mesmo, já não tinha muito a perder, certo? Errado. Como se cortinas se abrissem para o segundo ato do terreno, percebi que havia muito mais nele do que aquela única árvore que por tanto tempo amei. Mais uma vez, surgiu vida que era possível ser avistada da varanda e da janela. Ainda há ao fundo árvores grandes, que estavam lá desde o começo. Outras mais jovens vi crescer, como um coqueiro que se posiciona estrategicamente na “garagem” de uma das casas de cimento. Resistem insetos, lagartos, aves e, certamente, uma variedade de animais bem escondidos. Das manhãs e tardes de admiração e das noites de atenção ao não-silêncio, aprendi os nomes de alguns desses vizinhos.

11     Todos os dias, em especial no fim da tarde, as andorinhas se exibem a voar em círculos. Assisto às suas coreografias como se fosse um filme que passa na janela do meu quarto. Algumas vezes, na calmaria aparente da noite, sem luzes, ouço bacuraus e corujas. Vejo sanhaços, bem-te-vis, sabiás, tucanos, papagaios, urubus, gaviões, gralhas-do-campo e uma porção de aves cujo nome ainda não sei. Aliás, em certa ocasião, um bem-te-vi expulsou uma gralha. Ele voou para cima dela e bicou suas penas até que ela fosse para bem longe de uma árvore. Acabei rindo da falta de sorte da gralha, que é bem maior do que o bem-te-vi, mas perdeu. Já vi três bem-te-vis fazendo o mesmo com um tucano de bico amarelo, que também é muito maior do que eles. E assisto tudo da minha janela.

12     Apesar da admiração por seres carismáticos e voadores, o que mais me fascina nesse espetáculo vivo são as embaúbas. Essas árvores de troncos finos e folhas largas e que quase não são raras. Ao contrário, árvores do gênero Cecropia, que engloba todas as embaúbas, estão entre as mais abundantes espécies das florestas dos neotrópicos. Podem ser encontradas nas encostas da Grajaú-Jacarepaguá, no meio da Floresta da Tijuca ou do Parque Estadual da Pedra Branca. Se você estiver em um avião, sobrevoando algum fragmento de Mata Atlântica, vai vê-las facilmente lá do alto, porque elas são os pequenos pontos prateados que se destacam dos tons de verde da floresta.

13     Embaúbas não são muito exigentes. Quando há um distúrbio na floresta, quando o vento ou as pessoas derrubam árvores, formando clareiras, as sementes de Cecropia, que estavam no solo em dormência, germinam com a luz do sol. Nesses ambientes abertos, degradados, inóspitos, as embaúbas se instalam e crescem avidamente. Até parece que têm pressa. Logo ficam altas, suas folhas se desenvolvem, mas duram pouco e morrem rápido, caindo enrugadas e marrons no chão, decompondo-se e devolvendo nutrientes para a terra. Despertadas pelos vazios de vida na paisagem, embaúbas são espécies pioneiras que, aos poucos, alteram seus arredores e facilitam que novas espécies vegetais prosperem em seu entorno.

14     Não satisfeitas, elas ainda são atraentes para animais. Suas flores, apesar de polinizadas pelo vento, também podem ser polinizadas por insetos como besouros. Suas infrutescências alongadas servem como fonte de alimento para uma diversidade de frugívoros, como aves, gambás, macacos e até peixes, que se alimentam dos frutos que caem em rios. Depois que comem os frutos e se deslocam para longe, esses animais dispersam as sementes de embaúba. E assim elas chegam a quase todos os lugares. Preguiças e bugios também são grandes apreciadores de suas folhas, passam horas abraçados a seus galhos, comendo e descansando, enquanto tomam sol. Claro, também há desvantagens em ser o grande restaurante florestal. Embaúbas sofrem com o consumo de suas folhas, mas subornam com alimento e proteção formigas do gênero Azteca para torná-las suas fiéis escudeiras. Essas formigas agressivas vivem em colônias dentro do tronco oco da embaúba. Para defender sua casa, atacam os herbívoros que vêm para comer as folhas.

15     Embaúbas são acervos de interações e símbolos de resistência da natureza. É por isso que elas tomaram o terreno vizinho. Elas estão lá contando uma história. Mais do que a história de um terreno específico e especial para poucas pessoas atentas, essa é a história de muitos dos remanescentes florestais em centros urbanos. Em uma cidade como o Rio de Janeiro, onde novos prédios sobem às custas da retirada das árvores, há um valor inestimável nos seres que insistem em existir. A persistência desses pontos verdes no meio da selva de concreto é um grito de guerra. É a memória do que se perdeu e a esperança de que nem tudo está perdido. Ainda há vida para preservar e proteger, para ver renascer dos escombros.

16     Hoje, existem ações de reflorestamento acontecendo em áreas urbanas, como o projeto Revive Jacarepaguá, na minha vizinhança, cujo objetivo é repovoar as margens do rio Anil com espécies vegetais nativas da Mata Atlântica. Iniciativas como essa podem estar em seus primórdios, mas são um exemplo de que é possível escrever uma história melhor para a natureza em escala local. Humanos têm a capacidade de entender o que significam os retalhos de verde no cotidiano urbano. Apesar do nosso potencial arrebatador de destruição, também somos a voz da nossa própria consciência e podemos frear os nossos erros. Tudo começa quando prestamos atenção na vida que ainda se exibe aos nossos olhos, quando queremos ser as embaúbas na frente da minha varanda, teimosas, que insistem em fincar raízes e crescer na terra marcada por uma história de devastação.

Adaptado de <https://oeco.org.br/analises/teimosia-evolta-por-cima-aprende-se-com-as-embaubas/>. Publicado em 18 de outubro de 2019. Acessado em 22/09/2024.
Assinale a alternativa INCORRETA sobre as embaúbas. 
Alternativas
Q3374681 Português
Teimosia e volta por cima aprende-se com as embaúbas
(Lara Norberto Renzeti)

01     Na altura da minha varanda, no quarto andar do prédio, está o topo de uma embaúba. Nas raízes da árvore, emaranhadas entre a terra e as pedras, encontrase um pedaço azul de lona, lixo esquecido ali há alguns anos. Para além das embaúbas, que se ajeitam em grupo nos limites do terreno vizinho, há uma estrada de tijolos cinzas e vermelhos, que passa por entre as casas e vai até o portão. As casas estão ocas, inacabadas, mas não lhes falta vida, já que plantas se ancoram em seus muros e crescem sem pretensões decorativas no que poderiam ter sido tanto jardins quanto garagens. Atrás das ruínas, há restos de floresta.

02     Nem sempre foi assim. Quando vim morar neste prédio, em 2006, o terreno dos fundos era mato. Remanescente do sítio de alguma família dos primórdios de Jacarepaguá, um tímido pedacinho de Mata Atlântica preenchia quase todo o espaço, com exceção do antigo casarão em ruínas. Foi, na verdade, este o motivo pelo qual me mudei: meus pais queriam um apartamento mais tranquilo, de onde se pudesse ver um pouco de natureza. Onde hoje há uma embaúba, naquela época, havia uma árvore de folhas e frutos pequenos, que, de verão a verão, abrigava os mais diversos passarinhos.

03     O que mais chamava a minha atenção eram os saís-azuis. Eles sempre apareciam na árvore, para fazer um banquete de frutinhos. O macho era azul e preto, e a fêmea era verde. Aquelas cores vivas me fascinavam, e eu, com oito anos de idade, ficava feliz por saber que seres tão belos moravam perto por causa da árvore. Ela crescia e frutificava, e eu contava com ela para me mostrar os pássaros. 

04     A vista da varanda era o maior orgulho de nosso apartamento. Por anos, todos os convidados que visitaram minha casa atravessaram meu quarto para conhecer o terreno dos fundos, olhar suas cores, escutar seus sons. Mas, quando menos esperávamos, ouvimos vozes humanas vindas de lá. Vários homens conversavam, apontavam para as coisas e iam adentrando o pequeno fragmento de floresta. Eles continuaram por alguns dias conversando e apontando para as coisas, até que penduraram uma placa com logomarca de imobiliária no portão. A floresta ia virar condomínio.

05     Na época, não entendia bem como as coisas funcionavam, mas me lembro dos meus pais e dos vizinhos de prédio comentando que a obra era irregular. Que a empresa dava golpes nos compradores. Que não podiam cortar árvores. Que íamos embargar a obra. Mas já havia marcações em vermelho em algumas árvores. O que era aquilo? Sentença de morte? Todo dia, eu procurava aquela tinta, vermelha como sangue, no tronco da minha estimada árvore especial, que resistia como se não fosse vista, no cantinho do terreno. Em pouco tempo, o som de motosserra se misturou com o canto das cigarras. De vez em quando, eu sentia a falta de alguma coisa na paisagem: a pequena floresta ia ficando cada vez mais esburacada.

06     Tudo isso foi muito aos poucos. Não percebi quando começaram a construir. Sei que aterraram a antiga piscina, foram derrubando árvore atrás de árvore, até que surgiu espaço suficiente para mais de dez casas, e eu parei de olhar. Parei de ir à minha própria varanda porque tudo que eu via era aridez e destruição. Eu tinha medo de um dia encontrar a minha árvore cortada, caída no chão, morta. Ela resistiu bravamente. Foi a última. Nunca foi diretamente assassinada, mas se cansou e foi morrendo aos poucos, lentamente, consumida por um solo capinado e sem vida. Nunca descobri seu nome. Nunca mais vi saí-azul.

07     Ao longo do tempo, a obra foi embargada e retomada. Pelo visto, os avisos dos meus vizinhos eram bem fundamentados: a imobiliária nunca entregou as casas prontas. A floresta foi destruída em vão.

08     Imóveis inacabados podem ter três principais destinos. O primeiro deles é o esquecimento, quando, ao longo do tempo e da desvalorização econômica, a natureza toma conta, transformando-os em substrato e abrigo de seres não-humanos. O segundo é o descobrimento, caracterizado pelo abandono inicial e posteriores ocupações, resultantes de uma sociedade que não garante abrigo a todos os humanos. O terceiro é o acabamento, que precisa que as obras continuem.

09     Os compradores das casas, que sofreram o golpe da imobiliária, provavelmente sabiam dessas possibilidades. Pensando em manter um pouco do que se tornou deles por contrato, não abandonaram o terreno por completo e resolveram, por conta própria, tocar a obra. De vez em quando, aparecem trabalhadores: pintam uma parede, instalam luz elétrica, terminam um telhado. Por vezes, os próprios donos aparecem para cortar a grama. Isso acontece há uns dez anos, e as casas continuam inacabadas. No fundo, queria que essa obra nunca terminasse, presenciar o esquecimento, porque sei que a natureza nunca esquece. Num olhar de relance, o muro das casas estava coberto de plantas trepadeiras.

10     Arrisquei voltar à varanda. Agora que a minha árvore já estava morta mesmo, já não tinha muito a perder, certo? Errado. Como se cortinas se abrissem para o segundo ato do terreno, percebi que havia muito mais nele do que aquela única árvore que por tanto tempo amei. Mais uma vez, surgiu vida que era possível ser avistada da varanda e da janela. Ainda há ao fundo árvores grandes, que estavam lá desde o começo. Outras mais jovens vi crescer, como um coqueiro que se posiciona estrategicamente na “garagem” de uma das casas de cimento. Resistem insetos, lagartos, aves e, certamente, uma variedade de animais bem escondidos. Das manhãs e tardes de admiração e das noites de atenção ao não-silêncio, aprendi os nomes de alguns desses vizinhos.

11     Todos os dias, em especial no fim da tarde, as andorinhas se exibem a voar em círculos. Assisto às suas coreografias como se fosse um filme que passa na janela do meu quarto. Algumas vezes, na calmaria aparente da noite, sem luzes, ouço bacuraus e corujas. Vejo sanhaços, bem-te-vis, sabiás, tucanos, papagaios, urubus, gaviões, gralhas-do-campo e uma porção de aves cujo nome ainda não sei. Aliás, em certa ocasião, um bem-te-vi expulsou uma gralha. Ele voou para cima dela e bicou suas penas até que ela fosse para bem longe de uma árvore. Acabei rindo da falta de sorte da gralha, que é bem maior do que o bem-te-vi, mas perdeu. Já vi três bem-te-vis fazendo o mesmo com um tucano de bico amarelo, que também é muito maior do que eles. E assisto tudo da minha janela.

12     Apesar da admiração por seres carismáticos e voadores, o que mais me fascina nesse espetáculo vivo são as embaúbas. Essas árvores de troncos finos e folhas largas e que quase não são raras. Ao contrário, árvores do gênero Cecropia, que engloba todas as embaúbas, estão entre as mais abundantes espécies das florestas dos neotrópicos. Podem ser encontradas nas encostas da Grajaú-Jacarepaguá, no meio da Floresta da Tijuca ou do Parque Estadual da Pedra Branca. Se você estiver em um avião, sobrevoando algum fragmento de Mata Atlântica, vai vê-las facilmente lá do alto, porque elas são os pequenos pontos prateados que se destacam dos tons de verde da floresta.

13     Embaúbas não são muito exigentes. Quando há um distúrbio na floresta, quando o vento ou as pessoas derrubam árvores, formando clareiras, as sementes de Cecropia, que estavam no solo em dormência, germinam com a luz do sol. Nesses ambientes abertos, degradados, inóspitos, as embaúbas se instalam e crescem avidamente. Até parece que têm pressa. Logo ficam altas, suas folhas se desenvolvem, mas duram pouco e morrem rápido, caindo enrugadas e marrons no chão, decompondo-se e devolvendo nutrientes para a terra. Despertadas pelos vazios de vida na paisagem, embaúbas são espécies pioneiras que, aos poucos, alteram seus arredores e facilitam que novas espécies vegetais prosperem em seu entorno.

14     Não satisfeitas, elas ainda são atraentes para animais. Suas flores, apesar de polinizadas pelo vento, também podem ser polinizadas por insetos como besouros. Suas infrutescências alongadas servem como fonte de alimento para uma diversidade de frugívoros, como aves, gambás, macacos e até peixes, que se alimentam dos frutos que caem em rios. Depois que comem os frutos e se deslocam para longe, esses animais dispersam as sementes de embaúba. E assim elas chegam a quase todos os lugares. Preguiças e bugios também são grandes apreciadores de suas folhas, passam horas abraçados a seus galhos, comendo e descansando, enquanto tomam sol. Claro, também há desvantagens em ser o grande restaurante florestal. Embaúbas sofrem com o consumo de suas folhas, mas subornam com alimento e proteção formigas do gênero Azteca para torná-las suas fiéis escudeiras. Essas formigas agressivas vivem em colônias dentro do tronco oco da embaúba. Para defender sua casa, atacam os herbívoros que vêm para comer as folhas.

15     Embaúbas são acervos de interações e símbolos de resistência da natureza. É por isso que elas tomaram o terreno vizinho. Elas estão lá contando uma história. Mais do que a história de um terreno específico e especial para poucas pessoas atentas, essa é a história de muitos dos remanescentes florestais em centros urbanos. Em uma cidade como o Rio de Janeiro, onde novos prédios sobem às custas da retirada das árvores, há um valor inestimável nos seres que insistem em existir. A persistência desses pontos verdes no meio da selva de concreto é um grito de guerra. É a memória do que se perdeu e a esperança de que nem tudo está perdido. Ainda há vida para preservar e proteger, para ver renascer dos escombros.

16     Hoje, existem ações de reflorestamento acontecendo em áreas urbanas, como o projeto Revive Jacarepaguá, na minha vizinhança, cujo objetivo é repovoar as margens do rio Anil com espécies vegetais nativas da Mata Atlântica. Iniciativas como essa podem estar em seus primórdios, mas são um exemplo de que é possível escrever uma história melhor para a natureza em escala local. Humanos têm a capacidade de entender o que significam os retalhos de verde no cotidiano urbano. Apesar do nosso potencial arrebatador de destruição, também somos a voz da nossa própria consciência e podemos frear os nossos erros. Tudo começa quando prestamos atenção na vida que ainda se exibe aos nossos olhos, quando queremos ser as embaúbas na frente da minha varanda, teimosas, que insistem em fincar raízes e crescer na terra marcada por uma história de devastação.

Adaptado de <https://oeco.org.br/analises/teimosia-evolta-por-cima-aprende-se-com-as-embaubas/>. Publicado em 18 de outubro de 2019. Acessado em 22/09/2024.
De acordo com o texto, assinale a alternativa CORRETA. 
Alternativas
Q3374680 Português
Teimosia e volta por cima aprende-se com as embaúbas
(Lara Norberto Renzeti)

01     Na altura da minha varanda, no quarto andar do prédio, está o topo de uma embaúba. Nas raízes da árvore, emaranhadas entre a terra e as pedras, encontrase um pedaço azul de lona, lixo esquecido ali há alguns anos. Para além das embaúbas, que se ajeitam em grupo nos limites do terreno vizinho, há uma estrada de tijolos cinzas e vermelhos, que passa por entre as casas e vai até o portão. As casas estão ocas, inacabadas, mas não lhes falta vida, já que plantas se ancoram em seus muros e crescem sem pretensões decorativas no que poderiam ter sido tanto jardins quanto garagens. Atrás das ruínas, há restos de floresta.

02     Nem sempre foi assim. Quando vim morar neste prédio, em 2006, o terreno dos fundos era mato. Remanescente do sítio de alguma família dos primórdios de Jacarepaguá, um tímido pedacinho de Mata Atlântica preenchia quase todo o espaço, com exceção do antigo casarão em ruínas. Foi, na verdade, este o motivo pelo qual me mudei: meus pais queriam um apartamento mais tranquilo, de onde se pudesse ver um pouco de natureza. Onde hoje há uma embaúba, naquela época, havia uma árvore de folhas e frutos pequenos, que, de verão a verão, abrigava os mais diversos passarinhos.

03     O que mais chamava a minha atenção eram os saís-azuis. Eles sempre apareciam na árvore, para fazer um banquete de frutinhos. O macho era azul e preto, e a fêmea era verde. Aquelas cores vivas me fascinavam, e eu, com oito anos de idade, ficava feliz por saber que seres tão belos moravam perto por causa da árvore. Ela crescia e frutificava, e eu contava com ela para me mostrar os pássaros. 

04     A vista da varanda era o maior orgulho de nosso apartamento. Por anos, todos os convidados que visitaram minha casa atravessaram meu quarto para conhecer o terreno dos fundos, olhar suas cores, escutar seus sons. Mas, quando menos esperávamos, ouvimos vozes humanas vindas de lá. Vários homens conversavam, apontavam para as coisas e iam adentrando o pequeno fragmento de floresta. Eles continuaram por alguns dias conversando e apontando para as coisas, até que penduraram uma placa com logomarca de imobiliária no portão. A floresta ia virar condomínio.

05     Na época, não entendia bem como as coisas funcionavam, mas me lembro dos meus pais e dos vizinhos de prédio comentando que a obra era irregular. Que a empresa dava golpes nos compradores. Que não podiam cortar árvores. Que íamos embargar a obra. Mas já havia marcações em vermelho em algumas árvores. O que era aquilo? Sentença de morte? Todo dia, eu procurava aquela tinta, vermelha como sangue, no tronco da minha estimada árvore especial, que resistia como se não fosse vista, no cantinho do terreno. Em pouco tempo, o som de motosserra se misturou com o canto das cigarras. De vez em quando, eu sentia a falta de alguma coisa na paisagem: a pequena floresta ia ficando cada vez mais esburacada.

06     Tudo isso foi muito aos poucos. Não percebi quando começaram a construir. Sei que aterraram a antiga piscina, foram derrubando árvore atrás de árvore, até que surgiu espaço suficiente para mais de dez casas, e eu parei de olhar. Parei de ir à minha própria varanda porque tudo que eu via era aridez e destruição. Eu tinha medo de um dia encontrar a minha árvore cortada, caída no chão, morta. Ela resistiu bravamente. Foi a última. Nunca foi diretamente assassinada, mas se cansou e foi morrendo aos poucos, lentamente, consumida por um solo capinado e sem vida. Nunca descobri seu nome. Nunca mais vi saí-azul.

07     Ao longo do tempo, a obra foi embargada e retomada. Pelo visto, os avisos dos meus vizinhos eram bem fundamentados: a imobiliária nunca entregou as casas prontas. A floresta foi destruída em vão.

08     Imóveis inacabados podem ter três principais destinos. O primeiro deles é o esquecimento, quando, ao longo do tempo e da desvalorização econômica, a natureza toma conta, transformando-os em substrato e abrigo de seres não-humanos. O segundo é o descobrimento, caracterizado pelo abandono inicial e posteriores ocupações, resultantes de uma sociedade que não garante abrigo a todos os humanos. O terceiro é o acabamento, que precisa que as obras continuem.

09     Os compradores das casas, que sofreram o golpe da imobiliária, provavelmente sabiam dessas possibilidades. Pensando em manter um pouco do que se tornou deles por contrato, não abandonaram o terreno por completo e resolveram, por conta própria, tocar a obra. De vez em quando, aparecem trabalhadores: pintam uma parede, instalam luz elétrica, terminam um telhado. Por vezes, os próprios donos aparecem para cortar a grama. Isso acontece há uns dez anos, e as casas continuam inacabadas. No fundo, queria que essa obra nunca terminasse, presenciar o esquecimento, porque sei que a natureza nunca esquece. Num olhar de relance, o muro das casas estava coberto de plantas trepadeiras.

10     Arrisquei voltar à varanda. Agora que a minha árvore já estava morta mesmo, já não tinha muito a perder, certo? Errado. Como se cortinas se abrissem para o segundo ato do terreno, percebi que havia muito mais nele do que aquela única árvore que por tanto tempo amei. Mais uma vez, surgiu vida que era possível ser avistada da varanda e da janela. Ainda há ao fundo árvores grandes, que estavam lá desde o começo. Outras mais jovens vi crescer, como um coqueiro que se posiciona estrategicamente na “garagem” de uma das casas de cimento. Resistem insetos, lagartos, aves e, certamente, uma variedade de animais bem escondidos. Das manhãs e tardes de admiração e das noites de atenção ao não-silêncio, aprendi os nomes de alguns desses vizinhos.

11     Todos os dias, em especial no fim da tarde, as andorinhas se exibem a voar em círculos. Assisto às suas coreografias como se fosse um filme que passa na janela do meu quarto. Algumas vezes, na calmaria aparente da noite, sem luzes, ouço bacuraus e corujas. Vejo sanhaços, bem-te-vis, sabiás, tucanos, papagaios, urubus, gaviões, gralhas-do-campo e uma porção de aves cujo nome ainda não sei. Aliás, em certa ocasião, um bem-te-vi expulsou uma gralha. Ele voou para cima dela e bicou suas penas até que ela fosse para bem longe de uma árvore. Acabei rindo da falta de sorte da gralha, que é bem maior do que o bem-te-vi, mas perdeu. Já vi três bem-te-vis fazendo o mesmo com um tucano de bico amarelo, que também é muito maior do que eles. E assisto tudo da minha janela.

12     Apesar da admiração por seres carismáticos e voadores, o que mais me fascina nesse espetáculo vivo são as embaúbas. Essas árvores de troncos finos e folhas largas e que quase não são raras. Ao contrário, árvores do gênero Cecropia, que engloba todas as embaúbas, estão entre as mais abundantes espécies das florestas dos neotrópicos. Podem ser encontradas nas encostas da Grajaú-Jacarepaguá, no meio da Floresta da Tijuca ou do Parque Estadual da Pedra Branca. Se você estiver em um avião, sobrevoando algum fragmento de Mata Atlântica, vai vê-las facilmente lá do alto, porque elas são os pequenos pontos prateados que se destacam dos tons de verde da floresta.

13     Embaúbas não são muito exigentes. Quando há um distúrbio na floresta, quando o vento ou as pessoas derrubam árvores, formando clareiras, as sementes de Cecropia, que estavam no solo em dormência, germinam com a luz do sol. Nesses ambientes abertos, degradados, inóspitos, as embaúbas se instalam e crescem avidamente. Até parece que têm pressa. Logo ficam altas, suas folhas se desenvolvem, mas duram pouco e morrem rápido, caindo enrugadas e marrons no chão, decompondo-se e devolvendo nutrientes para a terra. Despertadas pelos vazios de vida na paisagem, embaúbas são espécies pioneiras que, aos poucos, alteram seus arredores e facilitam que novas espécies vegetais prosperem em seu entorno.

14     Não satisfeitas, elas ainda são atraentes para animais. Suas flores, apesar de polinizadas pelo vento, também podem ser polinizadas por insetos como besouros. Suas infrutescências alongadas servem como fonte de alimento para uma diversidade de frugívoros, como aves, gambás, macacos e até peixes, que se alimentam dos frutos que caem em rios. Depois que comem os frutos e se deslocam para longe, esses animais dispersam as sementes de embaúba. E assim elas chegam a quase todos os lugares. Preguiças e bugios também são grandes apreciadores de suas folhas, passam horas abraçados a seus galhos, comendo e descansando, enquanto tomam sol. Claro, também há desvantagens em ser o grande restaurante florestal. Embaúbas sofrem com o consumo de suas folhas, mas subornam com alimento e proteção formigas do gênero Azteca para torná-las suas fiéis escudeiras. Essas formigas agressivas vivem em colônias dentro do tronco oco da embaúba. Para defender sua casa, atacam os herbívoros que vêm para comer as folhas.

15     Embaúbas são acervos de interações e símbolos de resistência da natureza. É por isso que elas tomaram o terreno vizinho. Elas estão lá contando uma história. Mais do que a história de um terreno específico e especial para poucas pessoas atentas, essa é a história de muitos dos remanescentes florestais em centros urbanos. Em uma cidade como o Rio de Janeiro, onde novos prédios sobem às custas da retirada das árvores, há um valor inestimável nos seres que insistem em existir. A persistência desses pontos verdes no meio da selva de concreto é um grito de guerra. É a memória do que se perdeu e a esperança de que nem tudo está perdido. Ainda há vida para preservar e proteger, para ver renascer dos escombros.

16     Hoje, existem ações de reflorestamento acontecendo em áreas urbanas, como o projeto Revive Jacarepaguá, na minha vizinhança, cujo objetivo é repovoar as margens do rio Anil com espécies vegetais nativas da Mata Atlântica. Iniciativas como essa podem estar em seus primórdios, mas são um exemplo de que é possível escrever uma história melhor para a natureza em escala local. Humanos têm a capacidade de entender o que significam os retalhos de verde no cotidiano urbano. Apesar do nosso potencial arrebatador de destruição, também somos a voz da nossa própria consciência e podemos frear os nossos erros. Tudo começa quando prestamos atenção na vida que ainda se exibe aos nossos olhos, quando queremos ser as embaúbas na frente da minha varanda, teimosas, que insistem em fincar raízes e crescer na terra marcada por uma história de devastação.

Adaptado de <https://oeco.org.br/analises/teimosia-evolta-por-cima-aprende-se-com-as-embaubas/>. Publicado em 18 de outubro de 2019. Acessado em 22/09/2024.
De acordo com o texto, assinale a alternativa INCORRETA. 
Alternativas
Q3374580 Português

Leia o texto e responda a questão.


Em 2022, cabe-nos uma pergunta lúcida. Quais mitos oriundos dessa jornada campbeliana permanecem como contos significativos que orientam nosso espírito nacional e quais se tornaram distrações nocivas para problemas que, como uma bomba-relógio, ameaçam a cada tique-taque dinamitar o principal setor econômico brasileiro?

O primeiro desses mitos que persiste em nos retardar é que o mundo sempre dependerá do Brasil e de sua capacidade ímpar de alimentar a classe média crescente global. Esse é um caso típico de falácia em que parte dos dados é verídica, mas limitada para entender a complexidade do contexto emergente. É verdade que a classe média global está crescendo e que a demanda por proteína vai escalar a picos quase inatingíveis perante as capacidades produtivas globais.

Por sorte, o mundo tem o Brasil e suas vastas extensões territoriais com uma produção altamente tecnificada para suprir com grãos e carne uma população que continuará crescendo até 2050, não é mesmo? Esse mito de redentor da fome global obscurece, no entanto, que o consumo de proteínas não necessariamente se dará pelas fontes em que o Brasil se especializou: proteína animal mantida por uma conversão ineficiente de sacas de grãos em arrobas de carne. (...) O mundo aumentará seu consumo de proteína, mas não devemos apostar que a proteína será originalmente quadrúpede e ruminante. O custo ambiental é muito elevado e geopoliticamente o setor de proteína animal fragiliza as nações consumidoras não produtoras. A ascensão das proteínas alternativas, seja plant-based ou cell-based, vai mudar de forma definitiva a forma que pensamos proteínas.

Com a covid e a quebra das cadeias internacionais de suprimento, a autonomia alimentar se tornou imperiosa. Inclusive da China, próximo mito que trataremos: a dependência da China. Uma vez confrontados com a perda de mercados, recorremos sempre ao argumento que sempre teremos a China. Enquanto o primeiro mito da dependência global em relação ao Brasil se deteriorará aos poucos, esse segundo já não se sustenta para aqueles de olhos mais atentos. No ano passado, fomos surpreendidos com a interrupção inédita de compra de carne brasileira pelos chineses de 04 de setembro a 15 de dezembro.

Os grupos de WhatsApp falavam que aquela pirraça ia prejudicar mais a China que o Brasil. Passado o segundo mês, o luto passou da negação para barganha e aceitação. Aos que entendem as sutilezas do mercado internacional, ficou claro que não podemos depender de nossos primos ricos do oriente para sustentar a nossa resistência contra as mudanças geopolíticas globais que nos retiram a competitividade.

E vamos ao último e mais controverso dos mitos: o Código Florestal Brasileiro é o mais robusto do mundo, portanto qualquer questionamento à nossa política ambiental é uma conspiração. (...)Para começarmos a análise dessa falácia, vou tomar emprestada uma frase de uma objetividade nórdica cruel, pronunciada por um dos executivos da gigante norueguesa Storebrand: investidores e consumidores não querem saber da legalidade ou ilegalidade do desmatamento, mas sim da inexistência do desmatamento.

O debate internacional é na defesa da erradicação de qualquer tipo de subtração vegetal e biodiversidade nos biomas brasileiros. E estariam eles errados? Somos uma geração sortuda de brasileiros. Finalmente, conseguimos usar da nossa riqueza ambiental ímpar como lastro para o crescimento econômico e reconhecimento internacional como protagonistas globais da economia verde. No entanto, em mais um dos momentos de triste ironia que marcou o desenvolvimento econômico brasileiro, negamos o fato e achamos que venceremos pelas antigas regras ainda que as novas nos sejam infinitamente mais favoráveis.


[Adaptado]. PUGAS, José. Opinião: Precisamos falar sobre o agro brasileiro. Disponível em: <https://exame.com/agro/opiniao-precisamos-falar-sobre-o-agro-brasileiro/>. 


Acesso em 20 nov. 2023 

Acerca dos recursos de linguagem utilizados pelo autor, observa-se, no último parágrafo, uma menção a ironia, um recurso estilístico pautado pela manifestação contrária em relação ao que o enunciador está pensando ou experienciando. Desse modo, qual é a ironia destacada no texto em relação ao desenvolvimento econômico brasileiro?
Alternativas
Q3374579 Português

Leia o texto e responda a questão.


Em 2022, cabe-nos uma pergunta lúcida. Quais mitos oriundos dessa jornada campbeliana permanecem como contos significativos que orientam nosso espírito nacional e quais se tornaram distrações nocivas para problemas que, como uma bomba-relógio, ameaçam a cada tique-taque dinamitar o principal setor econômico brasileiro?

O primeiro desses mitos que persiste em nos retardar é que o mundo sempre dependerá do Brasil e de sua capacidade ímpar de alimentar a classe média crescente global. Esse é um caso típico de falácia em que parte dos dados é verídica, mas limitada para entender a complexidade do contexto emergente. É verdade que a classe média global está crescendo e que a demanda por proteína vai escalar a picos quase inatingíveis perante as capacidades produtivas globais.

Por sorte, o mundo tem o Brasil e suas vastas extensões territoriais com uma produção altamente tecnificada para suprir com grãos e carne uma população que continuará crescendo até 2050, não é mesmo? Esse mito de redentor da fome global obscurece, no entanto, que o consumo de proteínas não necessariamente se dará pelas fontes em que o Brasil se especializou: proteína animal mantida por uma conversão ineficiente de sacas de grãos em arrobas de carne. (...) O mundo aumentará seu consumo de proteína, mas não devemos apostar que a proteína será originalmente quadrúpede e ruminante. O custo ambiental é muito elevado e geopoliticamente o setor de proteína animal fragiliza as nações consumidoras não produtoras. A ascensão das proteínas alternativas, seja plant-based ou cell-based, vai mudar de forma definitiva a forma que pensamos proteínas.

Com a covid e a quebra das cadeias internacionais de suprimento, a autonomia alimentar se tornou imperiosa. Inclusive da China, próximo mito que trataremos: a dependência da China. Uma vez confrontados com a perda de mercados, recorremos sempre ao argumento que sempre teremos a China. Enquanto o primeiro mito da dependência global em relação ao Brasil se deteriorará aos poucos, esse segundo já não se sustenta para aqueles de olhos mais atentos. No ano passado, fomos surpreendidos com a interrupção inédita de compra de carne brasileira pelos chineses de 04 de setembro a 15 de dezembro.

Os grupos de WhatsApp falavam que aquela pirraça ia prejudicar mais a China que o Brasil. Passado o segundo mês, o luto passou da negação para barganha e aceitação. Aos que entendem as sutilezas do mercado internacional, ficou claro que não podemos depender de nossos primos ricos do oriente para sustentar a nossa resistência contra as mudanças geopolíticas globais que nos retiram a competitividade.

E vamos ao último e mais controverso dos mitos: o Código Florestal Brasileiro é o mais robusto do mundo, portanto qualquer questionamento à nossa política ambiental é uma conspiração. (...)Para começarmos a análise dessa falácia, vou tomar emprestada uma frase de uma objetividade nórdica cruel, pronunciada por um dos executivos da gigante norueguesa Storebrand: investidores e consumidores não querem saber da legalidade ou ilegalidade do desmatamento, mas sim da inexistência do desmatamento.

O debate internacional é na defesa da erradicação de qualquer tipo de subtração vegetal e biodiversidade nos biomas brasileiros. E estariam eles errados? Somos uma geração sortuda de brasileiros. Finalmente, conseguimos usar da nossa riqueza ambiental ímpar como lastro para o crescimento econômico e reconhecimento internacional como protagonistas globais da economia verde. No entanto, em mais um dos momentos de triste ironia que marcou o desenvolvimento econômico brasileiro, negamos o fato e achamos que venceremos pelas antigas regras ainda que as novas nos sejam infinitamente mais favoráveis.


[Adaptado]. PUGAS, José. Opinião: Precisamos falar sobre o agro brasileiro. Disponível em: <https://exame.com/agro/opiniao-precisamos-falar-sobre-o-agro-brasileiro/>. 


Acesso em 20 nov. 2023 

O artigo de opinião é construído por uma estrutura argumentativa que pode ser enriquecida por argumentos de autoridade. Nesse sentido, qual é a mensagem que o autor pretende transmitir ao citar a frase de um executivo norueguês sobre investidores e consumidores? 
Alternativas
Q3374578 Português

Leia o texto e responda a questão.


Em 2022, cabe-nos uma pergunta lúcida. Quais mitos oriundos dessa jornada campbeliana permanecem como contos significativos que orientam nosso espírito nacional e quais se tornaram distrações nocivas para problemas que, como uma bomba-relógio, ameaçam a cada tique-taque dinamitar o principal setor econômico brasileiro?

O primeiro desses mitos que persiste em nos retardar é que o mundo sempre dependerá do Brasil e de sua capacidade ímpar de alimentar a classe média crescente global. Esse é um caso típico de falácia em que parte dos dados é verídica, mas limitada para entender a complexidade do contexto emergente. É verdade que a classe média global está crescendo e que a demanda por proteína vai escalar a picos quase inatingíveis perante as capacidades produtivas globais.

Por sorte, o mundo tem o Brasil e suas vastas extensões territoriais com uma produção altamente tecnificada para suprir com grãos e carne uma população que continuará crescendo até 2050, não é mesmo? Esse mito de redentor da fome global obscurece, no entanto, que o consumo de proteínas não necessariamente se dará pelas fontes em que o Brasil se especializou: proteína animal mantida por uma conversão ineficiente de sacas de grãos em arrobas de carne. (...) O mundo aumentará seu consumo de proteína, mas não devemos apostar que a proteína será originalmente quadrúpede e ruminante. O custo ambiental é muito elevado e geopoliticamente o setor de proteína animal fragiliza as nações consumidoras não produtoras. A ascensão das proteínas alternativas, seja plant-based ou cell-based, vai mudar de forma definitiva a forma que pensamos proteínas.

Com a covid e a quebra das cadeias internacionais de suprimento, a autonomia alimentar se tornou imperiosa. Inclusive da China, próximo mito que trataremos: a dependência da China. Uma vez confrontados com a perda de mercados, recorremos sempre ao argumento que sempre teremos a China. Enquanto o primeiro mito da dependência global em relação ao Brasil se deteriorará aos poucos, esse segundo já não se sustenta para aqueles de olhos mais atentos. No ano passado, fomos surpreendidos com a interrupção inédita de compra de carne brasileira pelos chineses de 04 de setembro a 15 de dezembro.

Os grupos de WhatsApp falavam que aquela pirraça ia prejudicar mais a China que o Brasil. Passado o segundo mês, o luto passou da negação para barganha e aceitação. Aos que entendem as sutilezas do mercado internacional, ficou claro que não podemos depender de nossos primos ricos do oriente para sustentar a nossa resistência contra as mudanças geopolíticas globais que nos retiram a competitividade.

E vamos ao último e mais controverso dos mitos: o Código Florestal Brasileiro é o mais robusto do mundo, portanto qualquer questionamento à nossa política ambiental é uma conspiração. (...)Para começarmos a análise dessa falácia, vou tomar emprestada uma frase de uma objetividade nórdica cruel, pronunciada por um dos executivos da gigante norueguesa Storebrand: investidores e consumidores não querem saber da legalidade ou ilegalidade do desmatamento, mas sim da inexistência do desmatamento.

O debate internacional é na defesa da erradicação de qualquer tipo de subtração vegetal e biodiversidade nos biomas brasileiros. E estariam eles errados? Somos uma geração sortuda de brasileiros. Finalmente, conseguimos usar da nossa riqueza ambiental ímpar como lastro para o crescimento econômico e reconhecimento internacional como protagonistas globais da economia verde. No entanto, em mais um dos momentos de triste ironia que marcou o desenvolvimento econômico brasileiro, negamos o fato e achamos que venceremos pelas antigas regras ainda que as novas nos sejam infinitamente mais favoráveis.


[Adaptado]. PUGAS, José. Opinião: Precisamos falar sobre o agro brasileiro. Disponível em: <https://exame.com/agro/opiniao-precisamos-falar-sobre-o-agro-brasileiro/>. 


Acesso em 20 nov. 2023 

Um dos recursos de coesão é a retomada pronominal. No trecho "Os grupos de WhatsApp falavam que aquela pirraça ia prejudicar mais a China que o Brasil.", a expressão "aquela pirraça" retoma: 
Alternativas
Q3374577 Português

Leia o texto e responda a questão.


Em 2022, cabe-nos uma pergunta lúcida. Quais mitos oriundos dessa jornada campbeliana permanecem como contos significativos que orientam nosso espírito nacional e quais se tornaram distrações nocivas para problemas que, como uma bomba-relógio, ameaçam a cada tique-taque dinamitar o principal setor econômico brasileiro?

O primeiro desses mitos que persiste em nos retardar é que o mundo sempre dependerá do Brasil e de sua capacidade ímpar de alimentar a classe média crescente global. Esse é um caso típico de falácia em que parte dos dados é verídica, mas limitada para entender a complexidade do contexto emergente. É verdade que a classe média global está crescendo e que a demanda por proteína vai escalar a picos quase inatingíveis perante as capacidades produtivas globais.

Por sorte, o mundo tem o Brasil e suas vastas extensões territoriais com uma produção altamente tecnificada para suprir com grãos e carne uma população que continuará crescendo até 2050, não é mesmo? Esse mito de redentor da fome global obscurece, no entanto, que o consumo de proteínas não necessariamente se dará pelas fontes em que o Brasil se especializou: proteína animal mantida por uma conversão ineficiente de sacas de grãos em arrobas de carne. (...) O mundo aumentará seu consumo de proteína, mas não devemos apostar que a proteína será originalmente quadrúpede e ruminante. O custo ambiental é muito elevado e geopoliticamente o setor de proteína animal fragiliza as nações consumidoras não produtoras. A ascensão das proteínas alternativas, seja plant-based ou cell-based, vai mudar de forma definitiva a forma que pensamos proteínas.

Com a covid e a quebra das cadeias internacionais de suprimento, a autonomia alimentar se tornou imperiosa. Inclusive da China, próximo mito que trataremos: a dependência da China. Uma vez confrontados com a perda de mercados, recorremos sempre ao argumento que sempre teremos a China. Enquanto o primeiro mito da dependência global em relação ao Brasil se deteriorará aos poucos, esse segundo já não se sustenta para aqueles de olhos mais atentos. No ano passado, fomos surpreendidos com a interrupção inédita de compra de carne brasileira pelos chineses de 04 de setembro a 15 de dezembro.

Os grupos de WhatsApp falavam que aquela pirraça ia prejudicar mais a China que o Brasil. Passado o segundo mês, o luto passou da negação para barganha e aceitação. Aos que entendem as sutilezas do mercado internacional, ficou claro que não podemos depender de nossos primos ricos do oriente para sustentar a nossa resistência contra as mudanças geopolíticas globais que nos retiram a competitividade.

E vamos ao último e mais controverso dos mitos: o Código Florestal Brasileiro é o mais robusto do mundo, portanto qualquer questionamento à nossa política ambiental é uma conspiração. (...)Para começarmos a análise dessa falácia, vou tomar emprestada uma frase de uma objetividade nórdica cruel, pronunciada por um dos executivos da gigante norueguesa Storebrand: investidores e consumidores não querem saber da legalidade ou ilegalidade do desmatamento, mas sim da inexistência do desmatamento.

O debate internacional é na defesa da erradicação de qualquer tipo de subtração vegetal e biodiversidade nos biomas brasileiros. E estariam eles errados? Somos uma geração sortuda de brasileiros. Finalmente, conseguimos usar da nossa riqueza ambiental ímpar como lastro para o crescimento econômico e reconhecimento internacional como protagonistas globais da economia verde. No entanto, em mais um dos momentos de triste ironia que marcou o desenvolvimento econômico brasileiro, negamos o fato e achamos que venceremos pelas antigas regras ainda que as novas nos sejam infinitamente mais favoráveis.


[Adaptado]. PUGAS, José. Opinião: Precisamos falar sobre o agro brasileiro. Disponível em: <https://exame.com/agro/opiniao-precisamos-falar-sobre-o-agro-brasileiro/>. 


Acesso em 20 nov. 2023 

O texto apresenta três mitos em relação ao agronegócio brasileiro: 1) Mito da dependência global do Brasil, 2) Mito da dependência da China e 3) Mito do Código Florestal Brasileiro. Qual é a tese central defendida pelo autor no que diz respeito ao primeiro mito?
Alternativas
Q3374575 Português
Leia o texto e responda a questão.


Precisamos falar sobre o agro brasileiro

Em artigo exclusivo, José Pugas, da gestora JGP, discute os mitos que retardam o crescimento do agronegócio e colocam em risco o protagonismo do campo brasileiro em escala global
[José Pugas. Publicado em 10 de março de 2022 às, 12h00.]

Mitos são essenciais para a construção de nossas identidades individuais e de grupo. Joseph Campbell afirmava que os mitos tinham como função principal guiar o espírito humano e, por que não, nos conferir um propósito de existência. No entanto, mitos podem ser enganosos quando compreendidos literalmente e insensíveis às mudanças dos tempos. Mitos que se transformam em mentiras convenientes perdem suas funções de guiar o espírito humano à grandeza heroica e passam a ser evidências falsas para fantasias coletivas.
O agronegócio brasileiro tem todos os predicados míticos de uma história heroica. A partir de tecnologias disruptivas, conquistamos áreas até então impossíveis de produzir e saímos da desagradável condição de importadores de alimentos para uma potência agrícola em uma geração. Como Gilgamesh, domamos a natureza em nome da civilização.
Hoje, é impossível pensarmos qualquer outro setor brasileiro que tenha tamanho vigor e que deposite tanto a fé dos economistas e governantes como o agronegócio. De patinho feio e representante do atraso nacional, como as atividades primárias foram vistas por muitas décadas, o agro virou tech, o agro virou pop, o agro virou tudo.

[Adaptado]. PUGAS, José. Opinião: Precisamos falar sobre o agro brasileiro. Disponível em: <https://exame.com/agro/opiniao-precisamos-falar-sobre-o-agro-brasileiro/>.
Acesso em 20 nov. 2023 
A referenciação é um elemento importante para construção argumentativa. No texto, o autor utiliza a referência a Gilgamesh para ilustrar o papel do agronegócio brasileiro. Assinale a alternativa que melhor explicita essa informação.
Alternativas
Q3374574 Português
Leia o texto e responda a questão.


Precisamos falar sobre o agro brasileiro

Em artigo exclusivo, José Pugas, da gestora JGP, discute os mitos que retardam o crescimento do agronegócio e colocam em risco o protagonismo do campo brasileiro em escala global
[José Pugas. Publicado em 10 de março de 2022 às, 12h00.]

Mitos são essenciais para a construção de nossas identidades individuais e de grupo. Joseph Campbell afirmava que os mitos tinham como função principal guiar o espírito humano e, por que não, nos conferir um propósito de existência. No entanto, mitos podem ser enganosos quando compreendidos literalmente e insensíveis às mudanças dos tempos. Mitos que se transformam em mentiras convenientes perdem suas funções de guiar o espírito humano à grandeza heroica e passam a ser evidências falsas para fantasias coletivas.
O agronegócio brasileiro tem todos os predicados míticos de uma história heroica. A partir de tecnologias disruptivas, conquistamos áreas até então impossíveis de produzir e saímos da desagradável condição de importadores de alimentos para uma potência agrícola em uma geração. Como Gilgamesh, domamos a natureza em nome da civilização.
Hoje, é impossível pensarmos qualquer outro setor brasileiro que tenha tamanho vigor e que deposite tanto a fé dos economistas e governantes como o agronegócio. De patinho feio e representante do atraso nacional, como as atividades primárias foram vistas por muitas décadas, o agro virou tech, o agro virou pop, o agro virou tudo.

[Adaptado]. PUGAS, José. Opinião: Precisamos falar sobre o agro brasileiro. Disponível em: <https://exame.com/agro/opiniao-precisamos-falar-sobre-o-agro-brasileiro/>.
Acesso em 20 nov. 2023 
De acordo com as ideias e informações apresentadas pelos elementos de sentido textual, é possível inferir na leitura do texto que o agronegócio brasileiro passou por transformações, ao longo do tempo, as quais podem ser caracterizadas de:
Alternativas
Q3374573 Português
Leia o texto e responda a questão.


Precisamos falar sobre o agro brasileiro

Em artigo exclusivo, José Pugas, da gestora JGP, discute os mitos que retardam o crescimento do agronegócio e colocam em risco o protagonismo do campo brasileiro em escala global
[José Pugas. Publicado em 10 de março de 2022 às, 12h00.]

Mitos são essenciais para a construção de nossas identidades individuais e de grupo. Joseph Campbell afirmava que os mitos tinham como função principal guiar o espírito humano e, por que não, nos conferir um propósito de existência. No entanto, mitos podem ser enganosos quando compreendidos literalmente e insensíveis às mudanças dos tempos. Mitos que se transformam em mentiras convenientes perdem suas funções de guiar o espírito humano à grandeza heroica e passam a ser evidências falsas para fantasias coletivas.
O agronegócio brasileiro tem todos os predicados míticos de uma história heroica. A partir de tecnologias disruptivas, conquistamos áreas até então impossíveis de produzir e saímos da desagradável condição de importadores de alimentos para uma potência agrícola em uma geração. Como Gilgamesh, domamos a natureza em nome da civilização.
Hoje, é impossível pensarmos qualquer outro setor brasileiro que tenha tamanho vigor e que deposite tanto a fé dos economistas e governantes como o agronegócio. De patinho feio e representante do atraso nacional, como as atividades primárias foram vistas por muitas décadas, o agro virou tech, o agro virou pop, o agro virou tudo.

[Adaptado]. PUGAS, José. Opinião: Precisamos falar sobre o agro brasileiro. Disponível em: <https://exame.com/agro/opiniao-precisamos-falar-sobre-o-agro-brasileiro/>.
Acesso em 20 nov. 2023 
Para a progressão semântica do texto, o autor se vale da estratégia comparativa para trazer inferência sobre o sentido do agronegócio. Desse modo, a que o agronegócio brasileiro é comparado no texto? 
Alternativas
Q3374572 Português
Leia o texto e responda a questão.


Precisamos falar sobre o agro brasileiro

Em artigo exclusivo, José Pugas, da gestora JGP, discute os mitos que retardam o crescimento do agronegócio e colocam em risco o protagonismo do campo brasileiro em escala global
[José Pugas. Publicado em 10 de março de 2022 às, 12h00.]

Mitos são essenciais para a construção de nossas identidades individuais e de grupo. Joseph Campbell afirmava que os mitos tinham como função principal guiar o espírito humano e, por que não, nos conferir um propósito de existência. No entanto, mitos podem ser enganosos quando compreendidos literalmente e insensíveis às mudanças dos tempos. Mitos que se transformam em mentiras convenientes perdem suas funções de guiar o espírito humano à grandeza heroica e passam a ser evidências falsas para fantasias coletivas.
O agronegócio brasileiro tem todos os predicados míticos de uma história heroica. A partir de tecnologias disruptivas, conquistamos áreas até então impossíveis de produzir e saímos da desagradável condição de importadores de alimentos para uma potência agrícola em uma geração. Como Gilgamesh, domamos a natureza em nome da civilização.
Hoje, é impossível pensarmos qualquer outro setor brasileiro que tenha tamanho vigor e que deposite tanto a fé dos economistas e governantes como o agronegócio. De patinho feio e representante do atraso nacional, como as atividades primárias foram vistas por muitas décadas, o agro virou tech, o agro virou pop, o agro virou tudo.

[Adaptado]. PUGAS, José. Opinião: Precisamos falar sobre o agro brasileiro. Disponível em: <https://exame.com/agro/opiniao-precisamos-falar-sobre-o-agro-brasileiro/>.
Acesso em 20 nov. 2023 
O autor do texto estabelece uma relação contextual com Joseph Campbell para explicitar a noção de mito. Com base no primeiro parágrafo, que alternativa melhor expressa a funcionalidade social de criação dos mitos?
Alternativas
Q3374387 Português

Leia o poema abaixo, “Oficina irritada”, de Carlos Drummond de Andrade:



“Eu quero compor um soneto duro

como poeta algum ousara escrever.

Eu quero pintar um soneto escuro,

seco, abafado, difícil de ler.


Quero que meu soneto, no futuro,

não desperte em ninguém nenhum prazer.

E que, no seu maligno ar imaturo,

ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro

há de pungir, há de fazer sofrer,

tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,

cão mijando no caos, enquanto Arcturo,

claro enigma, se deixa surpreender.”



Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia/Carlos Drummond de Andrade.

1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015


Com base na leitura do poema, analise as afirmações abaixo:



I. É possível identificar duas funções da linguagem no poema: metalinguística e poética.


II. A repetição do verbo “querer” na terceira e quinta estrofe serve como exemplo de redundância.


III. O poema é representativo da literatura romântica brasileira do século XIX.


IV. A função metalinguística está presente desde a primeira estrofe “Eu quero compor um soneto duro”.



Nesse sentido, a alternativa que contém as assertivas corretas é: 

Alternativas
Q3374170 Português




Publicado em VEJA de 2 de março de 2022, edição nº 2778. Disponível em:

<https://veja.abril.com.br/comportamento/idade-nao-e-documento-movimento-contra-etarismo-esta-em-evidencia>. Acesso

em: 18 out. 2023

Com base no texto, o termo “público com mais de 50 anos”, poderia ser substituído sem prejuízo de sentido por:
Alternativas
Q3374168 Português




Publicado em VEJA de 2 de março de 2022, edição nº 2778. Disponível em:

<https://veja.abril.com.br/comportamento/idade-nao-e-documento-movimento-contra-etarismo-esta-em-evidencia>. Acesso

em: 18 out. 2023

Defendendo a ideia de “valorização do público experiente”, o autor utiliza na argumentação a:
Alternativas
Q3374166 Português
Os idosos correspondem a quase 15% da população brasileira. Apesar das estatísticas de aumento da longevidade nos últimos tempos, eles ainda sofrem preconceito. Em meio às limitações no mercado de trabalho e estereótipos que ditam os locais, roupas e estilo de vida que devem ser adotados, essa parcela da população tem se mostrado cada vez mais ativa, revelando como a longevidade pode ser positiva. “A gente já vivenciou tanta coisa, que muitas delas se tornaram assim: o depois é agora, tem que ser agora. E para a gente decidir isso, realmente temos que ter coragem e segurança, porque os medos e as inseguranças, nós já tivemos. Agora, o nosso pensamento está mais estável e seguro”, contou a modelo Rosa Saito em entrevista à CNN. Embora seja positiva para Rosa, a velhice pode chegar junto a apontamentos que definem a forma como pessoas com mais de 60 anos devem agir. Conforme descrito no Relatório Mundial sobre Idadismo, da Organização Mundial de Saúde (OMS), o etarismo se refere a “estereótipos (como pensamos), preconceitos (como nos sentimos) e discriminação (como agimos) direcionadas às pessoas com base na idade que têm”.


[Adaptado] GARCIA, A.; AMARAL, T.; RACIUNAS, C. O que é etarismo e como a discriminação por idade impacta a vida de idosos. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/o-que-e-etarismo-e-como-a-discriminacao-por-idade-impacta-a-vida-deidosos/. Acesso em: 18 out. 2023 
“Os idosos correspondem a quase 15% da população brasileira.” O autor inicia o texto fazendo uso de um recurso argumentativo de:
Alternativas
Q3374165 Português
Os idosos correspondem a quase 15% da população brasileira. Apesar das estatísticas de aumento da longevidade nos últimos tempos, eles ainda sofrem preconceito. Em meio às limitações no mercado de trabalho e estereótipos que ditam os locais, roupas e estilo de vida que devem ser adotados, essa parcela da população tem se mostrado cada vez mais ativa, revelando como a longevidade pode ser positiva. “A gente já vivenciou tanta coisa, que muitas delas se tornaram assim: o depois é agora, tem que ser agora. E para a gente decidir isso, realmente temos que ter coragem e segurança, porque os medos e as inseguranças, nós já tivemos. Agora, o nosso pensamento está mais estável e seguro”, contou a modelo Rosa Saito em entrevista à CNN. Embora seja positiva para Rosa, a velhice pode chegar junto a apontamentos que definem a forma como pessoas com mais de 60 anos devem agir. Conforme descrito no Relatório Mundial sobre Idadismo, da Organização Mundial de Saúde (OMS), o etarismo se refere a “estereótipos (como pensamos), preconceitos (como nos sentimos) e discriminação (como agimos) direcionadas às pessoas com base na idade que têm”.


[Adaptado] GARCIA, A.; AMARAL, T.; RACIUNAS, C. O que é etarismo e como a discriminação por idade impacta a vida de idosos. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/o-que-e-etarismo-e-como-a-discriminacao-por-idade-impacta-a-vida-deidosos/. Acesso em: 18 out. 2023 
Discurso é a situação comunicativa que envolve quem fala, para quem e sobre o que se fala. Considerando a caracterização dos diferentes tipos de discursos, no trecho “A gente já vivenciou tanta coisa, que muitas delas se tornaram assim: o depois é agora, tem que ser agora. E para a gente decidir isso, realmente temos que ter coragem e segurança, porque os medos e as inseguranças, nós já tivemos. Agora, o nosso pensamento está mais estável e seguro”, contou a modelo Rosa Saito”, é possível identificar um exemplo de:
Alternativas
Q3374162 Português
Os idosos correspondem a quase 15% da população brasileira. Apesar das estatísticas de aumento da longevidade nos últimos tempos, eles ainda sofrem preconceito. Em meio às limitações no mercado de trabalho e estereótipos que ditam os locais, roupas e estilo de vida que devem ser adotados, essa parcela da população tem se mostrado cada vez mais ativa, revelando como a longevidade pode ser positiva. “A gente já vivenciou tanta coisa, que muitas delas se tornaram assim: o depois é agora, tem que ser agora. E para a gente decidir isso, realmente temos que ter coragem e segurança, porque os medos e as inseguranças, nós já tivemos. Agora, o nosso pensamento está mais estável e seguro”, contou a modelo Rosa Saito em entrevista à CNN. Embora seja positiva para Rosa, a velhice pode chegar junto a apontamentos que definem a forma como pessoas com mais de 60 anos devem agir. Conforme descrito no Relatório Mundial sobre Idadismo, da Organização Mundial de Saúde (OMS), o etarismo se refere a “estereótipos (como pensamos), preconceitos (como nos sentimos) e discriminação (como agimos) direcionadas às pessoas com base na idade que têm”.


[Adaptado] GARCIA, A.; AMARAL, T.; RACIUNAS, C. O que é etarismo e como a discriminação por idade impacta a vida de idosos. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/o-que-e-etarismo-e-como-a-discriminacao-por-idade-impacta-a-vida-deidosos/. Acesso em: 18 out. 2023 
A palavra que melhor expressa a ideia central do texto é:
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Q3374062 Português
Conduzindo equipes em uma crise humanitária: o papel da liderança humanizada


   Antes mesmo da tragédia climática que assola o Rio Grande do Sul, já vivíamos uma epidemia de pessoas adoecidas nas organizações, reflexo de uma sociedade consumida pelo trabalho e amortecida pelo individualismo. Porém, a chegada de uma crise humanitária como a que se instalou no Estado gaúcho ampliou ainda mais esses efeitos. As enchentes e impactos consequentes não apenas deixam marcas visíveis nas cidades gaúchas, mas também traumas que poderão levar anos e até décadas para serem reparados.

   Mudanças abruptas na rotina, estresse incessante, carência de contato afetivo, perda de segurança financeira e de senso de identidade são apenas alguns dos fatores que agravam uma situação já desafiadora. Ainda não existem dados disponíveis para entender a dimensão do ocorrido na saúde mental das pessoas, mas gosto de lembrar alguns números já existentes e que podem servir de base para as empresas e lideranças agirem neste momento.

   O relatório “Saúde Mental e Bem-Estar”, do centro de pesquisas Opinion Box, que ouviu 2.119 pessoas em agosto de 2023, demonstra que 65% acreditam que o trabalho pode contribuir positivamente para melhorar a saúde mental das pessoas, ainda mais se for feito de forma equilibrada. As organizações precisam entender e reconhecer a importância dessa relação, assim como a necessidade de implementar estratégias que promovam um ambiente psicologicamente seguro para que essas pessoas tentem retomar suas vidas.

   Não existem respostas simplistas nem soluções únicas, e a forma como abordamos esses desafios será determinante para o futuro dos negócios e para o tecido social em geral.

   A magnitude do problema torna-se ainda mais clara quando consideramos que uma em cada três cidades está localizada em áreas de risco recorrente para desastres climáticos, conforme estimativas da Secretaria Especial de Articulação e Monitoramento, órgão vinculado à Casa Civil. Embora este cenário seja assustador, ele não é desconhecido. Há muito tempo se fala dos efeitos do aquecimento global, e todos precisam fazer a sua parte para uma transformação radical de como lidamos com a questão. Afinal, não existe plano B para o planeta.

   É crucial que a liderança aja com rapidez e empatia quando tragédias ocorrem, para atender às demandas individuais e coletivas. Isso inclui garantir a segurança material e emocional, oferecer suporte contínuo identificando as novas necessidades de cada colaborador, conectar as pessoas a recursos profissionais e permitir ajustes nas cargas de trabalho. Assim, urge a necessidade de se criar uma cultura organizacional que promova confiança, empatia e resiliência, de modo que as pessoas sintam-se seguras em seu ambiente de trabalho e em suas vidas cotidianas. Carine Roos. Publicado em 25/06/2024.


(Disponível em:< https://www.hojeemdia.com.br/opiniao/opiniao/conduzindo-equipes-em-uma-crise-humanitaria-o-papel-da-lideranca-humanizada1.1018911. Adaptado.)
Pode-se afirmar acerca do trecho destacado “Afinal, não existe plano B para o planeta.” (5º§) que:
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Conduzindo equipes em uma crise humanitária: o papel da liderança humanizada


   Antes mesmo da tragédia climática que assola o Rio Grande do Sul, já vivíamos uma epidemia de pessoas adoecidas nas organizações, reflexo de uma sociedade consumida pelo trabalho e amortecida pelo individualismo. Porém, a chegada de uma crise humanitária como a que se instalou no Estado gaúcho ampliou ainda mais esses efeitos. As enchentes e impactos consequentes não apenas deixam marcas visíveis nas cidades gaúchas, mas também traumas que poderão levar anos e até décadas para serem reparados.

   Mudanças abruptas na rotina, estresse incessante, carência de contato afetivo, perda de segurança financeira e de senso de identidade são apenas alguns dos fatores que agravam uma situação já desafiadora. Ainda não existem dados disponíveis para entender a dimensão do ocorrido na saúde mental das pessoas, mas gosto de lembrar alguns números já existentes e que podem servir de base para as empresas e lideranças agirem neste momento.

   O relatório “Saúde Mental e Bem-Estar”, do centro de pesquisas Opinion Box, que ouviu 2.119 pessoas em agosto de 2023, demonstra que 65% acreditam que o trabalho pode contribuir positivamente para melhorar a saúde mental das pessoas, ainda mais se for feito de forma equilibrada. As organizações precisam entender e reconhecer a importância dessa relação, assim como a necessidade de implementar estratégias que promovam um ambiente psicologicamente seguro para que essas pessoas tentem retomar suas vidas.

   Não existem respostas simplistas nem soluções únicas, e a forma como abordamos esses desafios será determinante para o futuro dos negócios e para o tecido social em geral.

   A magnitude do problema torna-se ainda mais clara quando consideramos que uma em cada três cidades está localizada em áreas de risco recorrente para desastres climáticos, conforme estimativas da Secretaria Especial de Articulação e Monitoramento, órgão vinculado à Casa Civil. Embora este cenário seja assustador, ele não é desconhecido. Há muito tempo se fala dos efeitos do aquecimento global, e todos precisam fazer a sua parte para uma transformação radical de como lidamos com a questão. Afinal, não existe plano B para o planeta.

   É crucial que a liderança aja com rapidez e empatia quando tragédias ocorrem, para atender às demandas individuais e coletivas. Isso inclui garantir a segurança material e emocional, oferecer suporte contínuo identificando as novas necessidades de cada colaborador, conectar as pessoas a recursos profissionais e permitir ajustes nas cargas de trabalho. Assim, urge a necessidade de se criar uma cultura organizacional que promova confiança, empatia e resiliência, de modo que as pessoas sintam-se seguras em seu ambiente de trabalho e em suas vidas cotidianas. Carine Roos. Publicado em 25/06/2024.


(Disponível em:< https://www.hojeemdia.com.br/opiniao/opiniao/conduzindo-equipes-em-uma-crise-humanitaria-o-papel-da-lideranca-humanizada1.1018911. Adaptado.)
Pode-se afirmar que a perspectiva da autora na identificação da temática principal apresentada pode ser reconhecida de forma explícita
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Conduzindo equipes em uma crise humanitária: o papel da liderança humanizada


   Antes mesmo da tragédia climática que assola o Rio Grande do Sul, já vivíamos uma epidemia de pessoas adoecidas nas organizações, reflexo de uma sociedade consumida pelo trabalho e amortecida pelo individualismo. Porém, a chegada de uma crise humanitária como a que se instalou no Estado gaúcho ampliou ainda mais esses efeitos. As enchentes e impactos consequentes não apenas deixam marcas visíveis nas cidades gaúchas, mas também traumas que poderão levar anos e até décadas para serem reparados.

   Mudanças abruptas na rotina, estresse incessante, carência de contato afetivo, perda de segurança financeira e de senso de identidade são apenas alguns dos fatores que agravam uma situação já desafiadora. Ainda não existem dados disponíveis para entender a dimensão do ocorrido na saúde mental das pessoas, mas gosto de lembrar alguns números já existentes e que podem servir de base para as empresas e lideranças agirem neste momento.

   O relatório “Saúde Mental e Bem-Estar”, do centro de pesquisas Opinion Box, que ouviu 2.119 pessoas em agosto de 2023, demonstra que 65% acreditam que o trabalho pode contribuir positivamente para melhorar a saúde mental das pessoas, ainda mais se for feito de forma equilibrada. As organizações precisam entender e reconhecer a importância dessa relação, assim como a necessidade de implementar estratégias que promovam um ambiente psicologicamente seguro para que essas pessoas tentem retomar suas vidas.

   Não existem respostas simplistas nem soluções únicas, e a forma como abordamos esses desafios será determinante para o futuro dos negócios e para o tecido social em geral.

   A magnitude do problema torna-se ainda mais clara quando consideramos que uma em cada três cidades está localizada em áreas de risco recorrente para desastres climáticos, conforme estimativas da Secretaria Especial de Articulação e Monitoramento, órgão vinculado à Casa Civil. Embora este cenário seja assustador, ele não é desconhecido. Há muito tempo se fala dos efeitos do aquecimento global, e todos precisam fazer a sua parte para uma transformação radical de como lidamos com a questão. Afinal, não existe plano B para o planeta.

   É crucial que a liderança aja com rapidez e empatia quando tragédias ocorrem, para atender às demandas individuais e coletivas. Isso inclui garantir a segurança material e emocional, oferecer suporte contínuo identificando as novas necessidades de cada colaborador, conectar as pessoas a recursos profissionais e permitir ajustes nas cargas de trabalho. Assim, urge a necessidade de se criar uma cultura organizacional que promova confiança, empatia e resiliência, de modo que as pessoas sintam-se seguras em seu ambiente de trabalho e em suas vidas cotidianas. Carine Roos. Publicado em 25/06/2024.


(Disponível em:< https://www.hojeemdia.com.br/opiniao/opiniao/conduzindo-equipes-em-uma-crise-humanitaria-o-papel-da-lideranca-humanizada1.1018911. Adaptado.)
Antes mesmo da tragédia climática que assola o Rio Grande do Sul, vivíamos uma epidemia de pessoas adoecidas nas organizações, reflexo de uma sociedade consumida pelo trabalho e amortecida pelo individualismo.” (1º§) Acerca dos marcadores temporais identificados, considerando-se o contexto, podemos afirmar que:
Alternativas
Respostas
27521: D
27522: C
27523: B
27524: D
27525: B
27526: D
27527: C
27528: C
27529: B
27530: C
27531: D
27532: C
27533: C
27534: A
27535: C
27536: B
27537: B
27538: D
27539: A
27540: A