Questões de Concurso
Comentadas sobre coesão e coerência em português
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I.Entre os recursos coesivos, está o paralelismo, que consiste na repetição sucessiva da mesma estrutura sintática, preenchida por elementos lexicais diferentes. É o que acontece no 1º parágrafo: "Antes, as crianças chegavam com os bolsos cheios de pedras, brinquedos e bugigangas coletadas durante aventuras ao ar livre. Agora, elas chegam com os olhos grudados nas telas dos celulares ou dos tablets".
II.A repetição ou recorrência de termos pode possibilitar a progressão textual, provocando um efeito argumentativo ao reforçar determinado termo. Nesse caso, a repetição não é um problema na construção do texto, mas um recurso coesivo. É o que acontece com a palavra "tempo" em: "O tempo passado diante das telas — sejam celulares, tablets, eBooks ou TV — é tempo que as crianças não se dedicam a atividades manuais, como brincar com blocos, bonecos, artesanato, desenho e construção".
III.A progressão referencial é importante na construção do texto, remetendo a referentes que já foram apresentados ao leitor, introduzindo informações novas e evitando repetições desnecessárias. Assim, garante a continuidade do texto. É o que acontece em: "E isso é evidente em outras tarefas do dia a dia das crianças: elas não conseguem fechar o zíper dos casacos, virar as páginas de um livro ou até mesmo segurar uma colher corretamente", com o uso dos pronomes demonstrativo (isso) e pessoal (elas).
É correto o que se afirma em:
Literatura interativa para jovens leitores
"Outras versões de nós", da escritora espanhola Esperanza Luque, é um livro dedicado a reafirmar as possibilidades diversas do amor
Partindo das questões que cercam o "final feliz" das histórias de amor, a escritora espanhola Esperanza Luque convida o público jovem a embarcar em uma narrativa colaborativa pelo passado, presente e futuro de Charlotte, personagem principal de Outras versões de nós, sua obra mais recente.
Publicado no Brasil pela Mood, selo de literatura jovem do grupo Ciranda Cultural, o livro de Luque se apossa do gênero livro-jogo através do conceito de "escolha sua própria aventura". Popularizado nos Estados Unidos durante as décadas de 1980 e 1990, esse tipo de livro permite que os próprios leitores participem ativamente da construção da história através de escolhas que mudam o decorrer da narrativa.
De maneira geral, é bem simples. Após algumas páginas de leitura, o livro lhe dá diferentes escolhas sobre como a trama deve seguir e indica a página que deve ser lida em seguida, com base na sua escolha. Seguindo assim pelas diversas situações, o leitor pode escolher as versões da história de sua preferência, até chegar ao final. Depois, caso deseje, pode ler o livro tomando novas decisões e assim descobrir versões diferentes da anterior.
Em Outras versões de nós, a protagonista é Charlotte, uma artista de coração partido que encontra uma misteriosa vidente que lhe permite mudar decisões tomadas no passado. A partir desse cenário, os leitores podem percorrer até seis diferentes tramas que variam entre comédia romântica, história natalina e enredo escolar. Para somar ainda mais à experiência, fica na mão dos leitores se tudo isso vai se passar na Era Vitoriana, durante a Segunda Guerra Mundial ou outro período temporal.
Através de cada escolha é possível questionar definições e conceitos próprios, permitindo que o livro funcione como um espelho e assim, propor reflexões íntimas. Ao escrever uma obra interativa, Esperanza Luque passa aos seus leitores a mensagem de que não existe apenas um final feliz e sim, diversos caminhos a serem percorridos e vivenciados com autenticidade.
(Disponível em: https://www.pernambucorevista.com.br/secoes/noticias/literatura-interat iva-para-jovens-leitores. Acesso em: 30 out. 2025.)
Os fatores de coesão textual são aqueles que dão conta da estruturação da sequência superficial do texto, não se tratando de princípios meramente sintáticos, mas de uma espécie de semântica da sintaxe textual, ou seja, dos mecanismos formais de uma língua que permitem estabelecer entre os elementos linguísticos do texto, relações de sentido. A coesão não constitui condição necessária nem suficiente para que um texto seja um texto, porém, o uso de elementos coesivos dão ao texto maior legibilidade.
Tendo essa definição como referência, analise as sentenças a seguir e registre V, para verdadeiras, e F, para falsas:
(__)Um dos recursos coesivos mais eficientes na construção de um texto é a progressão realizada por meio de expressões nominais. Um exemplo disso está nas expressões "literatura interativa" (no título), "narrativa colaborativa" (1º parágrafo), "esse tipo de livro" (2º parágrafo), "o livro" (3º parágrafo). Eles retomam o mesmo macro assunto (o gênero literário) e possibilitam, além da articulação das ideias, a progressão delas, apresentando ao leitor informações novas, mas retomando o que já fora tratado.
(__)No 5º parágrafo, a expressão "Ao escrever uma obra interativa" retoma não o gênero literário livro-jogo, mas a obra específica de Esperanza Luque, Outras versões de nós. Desse modo, é possível ao leitor saber quando o texto trata do gênero e quando trata da obra em si.
(__)No 3º parágrafo, a expressão "De maneira geral, é bem simples" tem papel importante no texto: estabelecer uma progressão sequencial, usando o recurso do parafraseamento, isto é, o autor do texto explica ou esclarece para o leitor algo que foi dito anteriormente. Nesse caso, o autor amplia o conceito ou a explicação do que seja gênero livro-jogo, tratado introdutoriamente no parágrafo anterior.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
A respeito da definição apresentada no excerto, ela se refere a:
Entenda as diferenças entre alergia e intolerância alimentar
Mesmo tendo sintomas parecidos, a intolerância alimentar e a alergia alimentar são problemas diferentes, com causas e tratamentos distintos. Ambas têm efeitos negativos na rotina das pessoas, que precisam retirar certos alimentos de suas dietas.
A intolerância alimentar é caracterizada pela má digestão de determinados alimentos. A pessoa com intolerância alimentar absorve parcialmente esses nutrientes, que passam a fermentar, ocasionando sintomas como inchaço abdominal, flatulência e cólicas, podendo ainda causar diarreia. A severidade das manifestações depende de cada pessoa. Apesar de ser incômoda para os pacientes, pode ser controlada por simples ajustes na dieta.
Na alergia alimentar, ocorre reação do organismo logo após a exposição ao alimento causador da alergia. Essa reação pode envolver a pele (urticária, inchaço, coceira) e o aparelho gastrintestinal (diarreia, dor abdominal, vômitos), assim como manifestações mais graves, como respiratórias (anafilaxia).
Fonte: Ministério da Saúde. Adaptado.
As crianças brincavam nas ruas depois que terminavam suas tarefas. Todas gostavam de pular corda, menos Catarina e Raquel. Elas gostavam de bonecas.
(__)A coesão anafórica ocorre quando um termo (pronome, advérbio) retoma um elemento já mencionado anteriormente no texto, como em: "João comprou um carro novo; ele é azul".
(__)A coesão catafórica se manifesta quando um termo remete a um elemento que ainda será enunciado no texto, estabelecendo uma antecipação, como em: "Só desejo isto: que todos sejam aprovados".
(__)No enunciado "O problema é este: falta de recursos para a educação", o pronome "este" funciona como um elemento de coesão referencial catafórica, antecipando a informação que o especifica.
(__)Em "Maria conversou com o diretor. Depois, foi falar com o mesmo", o termo "o mesmo" constitui um mecanismo de coesão por elipse, pois omite o nome da pessoa.
Após análise, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta dos itens acima, de cima para baixo:
Identifique o trecho em que essa estratégia foi identificada corretamente.
Saúde do homem: Romper tabus e educar desde cedo salva vidas.
Todos os anos, em outubro, o mundo se veste de rosa. Campanhas, eventos, alertas e informações sobre prevenção do câncer de mama dominam as manchetes. Celebridades, profissionais de saúde e redes sociais reforçam a mensagem: "cuidar da saúde é vital". Mas quando o assunto é saúde masculina, o cenário muda drasticamente. Homens também adoecem.
Homens também têm câncer de próstata, doenças cardiovasculares, diabetes, depressão e ansiedade. Porém, ao contrário da saúde feminina, poucas campanhas destacam a prevenção masculina. Poucos profissionais são chamados para orientar, e a mídia raramente reforça a importância de exames periódicos. Resultado: silêncio, invisibilidade e negligência.
A negligência não se limita à saúde mental embora o preconceito sobre vulnerabilidade emocional já seja devastador, mas se estende à saúde física. Muitos homens ignoram sintomas, adiam consultas е confundem cuidado com fraqueza. A sociedade reforça a ideia de que "homem não reclama" ou "homem forte não precisa de médico". E quando se fala em exame de próstata, a situação se agrava: muitos homens viram alvo de piadas, até entre amigos. Enquanto mulheres fazem exames preventivos e ninguém as zomba, homens são ridicularizados por cuidar de si. É nesse ponto que o preconceito começa e ele mata.
Romper esse tabu não é apenas necessário: é urgente. Campanhas como o Novembro Azul existem, mas muitas vezes não têm a mesma força, abrangência e presença que o Outubro Rosa. O câncer de próstata e outras doenças que atingem homens também matam muitas vezes por falta de prevenção.
Precisamos de campanhas consistentes, informação clara sobre sinais de alerta, exames periódicos e os benefícios do cuidado precoсе.
Mais do que tratar doenças, é fundamental educar desde cedo. Assim como ensinamos meninas a cuidar do corpo, a fazer exames preventivos e a valorizar a saúde, precisamos ensinar os meninos a procurar médicos, a prestar atenção aos sinais do corpo e a não ter vergonha de falar sobre saúde.
Romper o tabu deve começar na infância, integrando a educação à cultura familiar e escolar, reforçando que cuidado não é fraqueza, é responsabilidade.
Mostrar que a masculinidade não se perde ao buscar ajuda médica, ao fazer exames de rotina ou ao falar sobre saúde mental é essencial. O cuidado com a saúde deve ser visto como um ato de força, consciência e amor-próprio. A diferença entre a saúde do homem e da mulher não está no corpo, mas na cultura que molda comportamentos. E essa cultura pode e deve ser transformada.
Cuidar da saúde masculina é responsabilidade de todos: sociedade, mídia, empresas, instituições de saúde e cada indivíduo. Campanhas como o Novembro Azul precisam ganhar a mesma relevância que o Outubro Rosa, abordando prevenção, autocuidado, educação desde cedo e respeito porque piadas e preconceito não salvam vidas. Romper tabus salva vidas e transforma a sociedade.
(Autora: Bruna Gayoso)
Partindo dessas relações coesivas, verifique qual alternativa abaixo (assinalada no texto) se refere a algo que vai ser dito no texto.
Com base nisso, marque com (V) as afirmativas verdadeiras ou com (F) as falsas.
(__)Coesão e coerência são elementos distintos, porém essenciais na produção de textos. É possível que um texto seja coeso e, ao mesmo tempo, incoerente.
(__)A coesão é a ligação, a união entre partes de um texto; coerência é o sentido lógico, o nexo.
(__)Na coesão lexical são utilizados recursos coesivos que possibilitam a manutenção do assunto sem repetir palavras.
(__)Na frase 'Rastejamos que nem serpentes', o uso da expressão 'que nem' marca o uso coloquial, que deve ser evitado na linguagem formal.
(__)Na coesão por elipse é feita a omissão de elementos já mencionados no texto, desde que facilmente identificáveis, como no exemplo: 'Minha irmã está no mercado. Foi comprar arroz e feijão.'
A sequência que preenche corretamente os itens acima, de cima para baixo, é:
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
"A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias. Cada coisa é o que é. E difícil é explicar a alguém quanto isso me alegra, e quanto isso me basta. Basta existir para se ser completo. Fernando Pessoa"
Nota: Trecho do poema "Poemas Inconjuntos" em Poemas de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa).
https://www.pensador.com/mensagens_de_reflexao/
No trecho "E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, e quanto isso me basta", o pronome "isso" exerce papel essencial para o sentido do texto. Sobre o uso desse termo, é correto afirmar que:
Texto para a questão.
RAIZ DA INTOLERÂNCIA
Ninguém representa maior ameaça à liberdade do outro do que quem se considera dono da verdade. E a lógica que conduz da certeza inquestionável ao linchamento do discordante é simples: “se eu estou com a verdade e ele discorda de mim é que ele está com a mentira, e não se pode deixar que a mentira prospere”. Logo, calar o mentiroso (ou o traidor da verdade) é um bem que se faz à pátria ou à humanidade ou a Deus ou ao partido.
Existem verdades de diferentes pesos e, conforme o peso, mais grave ou menos grave será o erro praticado pelo discordante. Por exemplo, se minha verdade consiste em afirmar que o futebol-arte é melhor que o futebol-força, o máximo que pode resultar disso serão algumas tiradas irônicas mas, se estou convencido de que minha seita é a única que incorpora a verdade do Cristo Salvador, aí o discordante está do lado do Diabo, a encarnação do Mal. (…)
Já escrevi aqui, mais de uma vez, que quem aceita a complexidade do real – do mundo, da vida – não pode ser sectário, não pode ser radical em suas convicções. Noutras palavras, só é sectário quem simplifica as coisas, ignora que todo problema contém diversos lados e contradições. Lidar com essa complexidade é, indubitavelmente, difícil e desconfortável; muito mais cômodo é afirmar: “aquele sujeito é um imbecil” — em lugar de tentar entender as suas razões. Isto se vê a todo momento, especialmente nas discussões políticas. É a tática de desqualificação do outro. Em lugar de responder a seus argumentos, afirmo que ele é safado, desonesto, mau-caráter.
Veja bem, quando digo que se deve ser tolerante e que não existem verdades absolutas, não estou pregando o abandono das convicções firmes e das atitudes éticas. Umas e outras devem ser fruto do conhecimento e da reflexão, os quais nos conduzirão inevitavelmente a reconhecer que a realidade excede nossa capacidade de abrangê-la integralmente. O conhecimento e a reflexão nos conduzem à modéstia e à tolerância. Quando perguntaram a Marx qual a virtude intelectual que mais admirava, ele respondeu: a dúvida.
Raiz da intolerância. Ferreira Gullar. Melhores Crônicas. Adaptado.
“Quando perguntaram a Marx qual a virtude intelectual1 que mais admirava, ele respondeu: a dúvida2.”
No contexto discursivo apresentado, a relação coesiva, respectivamente, entre os trechos 1 e 2, no período evidenciado, é do tipo:
Texto para a questão.
RAIZ DA INTOLERÂNCIA
Ninguém representa maior ameaça à liberdade do outro do que quem se considera dono da verdade. E a lógica que conduz da certeza inquestionável ao linchamento do discordante é simples: “se eu estou com a verdade e ele discorda de mim é que ele está com a mentira, e não se pode deixar que a mentira prospere”. Logo, calar o mentiroso (ou o traidor da verdade) é um bem que se faz à pátria ou à humanidade ou a Deus ou ao partido.
Existem verdades de diferentes pesos e, conforme o peso, mais grave ou menos grave será o erro praticado pelo discordante. Por exemplo, se minha verdade consiste em afirmar que o futebol-arte é melhor que o futebol-força, o máximo que pode resultar disso serão algumas tiradas irônicas mas, se estou convencido de que minha seita é a única que incorpora a verdade do Cristo Salvador, aí o discordante está do lado do Diabo, a encarnação do Mal. (…)
Já escrevi aqui, mais de uma vez, que quem aceita a complexidade do real – do mundo, da vida – não pode ser sectário, não pode ser radical em suas convicções. Noutras palavras, só é sectário quem simplifica as coisas, ignora que todo problema contém diversos lados e contradições. Lidar com essa complexidade é, indubitavelmente, difícil e desconfortável; muito mais cômodo é afirmar: “aquele sujeito é um imbecil” — em lugar de tentar entender as suas razões. Isto se vê a todo momento, especialmente nas discussões políticas. É a tática de desqualificação do outro. Em lugar de responder a seus argumentos, afirmo que ele é safado, desonesto, mau-caráter.
Veja bem, quando digo que se deve ser tolerante e que não existem verdades absolutas, não estou pregando o abandono das convicções firmes e das atitudes éticas. Umas e outras devem ser fruto do conhecimento e da reflexão, os quais nos conduzirão inevitavelmente a reconhecer que a realidade excede nossa capacidade de abrangê-la integralmente. O conhecimento e a reflexão nos conduzem à modéstia e à tolerância. Quando perguntaram a Marx qual a virtude intelectual que mais admirava, ele respondeu: a dúvida.
Raiz da intolerância. Ferreira Gullar. Melhores Crônicas. Adaptado.
Conforme a intencionalidade discursiva defendida no texto em evidência, a raiz da ignorância está relacionada intrinsecamente a uma ideia reducionista sobre ideologias contrárias. Assim sendo, à manutenção dessa temática, por meio dos termos ressaltados nos trechos I e II, dá-se o nome de:
I. “[...] calar o mentiroso (ou o traidor da verdade)”.
II. “Em lugar de responder a seus argumentos, afirmo que ele é safado, desonesto, mau-caráter.”
Texto para o item.
Autobiografia sem fatos
A maioria dos homens vive com espontaneidade uma vida fictícia e alheia. “A maioria da gente é outra gente”, disse Oscar Wilde, e disse bem. Uns gastam a vida na busca de qualquer coisa que não querem; outros empregam-se na busca do que querem e lhes não serve; outros, ainda, se perdem.
Mas a maioria é feliz e goza a vida sem isso valer. Em geral, o homem chora pouco, e, quando se queixa, é a sua literatura. O pessimismo tem pouca viabilidade como fórmula democrática. Os que choram o mal do mundo são isolados — e se choram, é pelo próprio mal. Um Leopardi, um Antero não têm amado ou amante? O universo é um mal. Um Vigny é mal ou pouco amado? O mundo é um cárcere. Um Chateaubriand sonha mais que o possível? A vida humana é tédio. Um Jó é coberto de bolhas? A terra está coberta de bolhas. Pisam os calos do triste? Ai dos pés dos sóis e das estrelas.
Alheia a isto, e chorando só o preciso e no menos tempo que pode — quando lhe morre o filho que esquecerá pelos anos fora, salvo nos aniversários; quando perde dinheiro, e chora enquanto não arranja outro, ou se não adapta ao estado de perda —, a humanidade continua digerindo e amando. A vitalidade recupera e reanima. Os mortos ficam enterrados. As perdas ficam perdidas.
Quando vejo um gato ao sol lembra-me sempre do homem ao sol.
Fernando Pessoa. Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia de Bolso, 2023 (com adaptações).
Para responder à questão, leia o texto a seguir:
Variação e mudança
Sírio Possenti
A maioria absoluta dos brasileiros ̶ talvez não só os brasileiros ̶ alfabetizados ou letrados tem uma ideia completamente equivocada do que seja uma língua. Para eles, língua é a que a escola ensina, ou o que está nos manuais do tipo "não erre mais". O resto é erro. Todos consideram que as variantes são erros.
Ocorre que o que a escola ensina também é mais ou menos variado. E depende muito também do desempenho linguístico dos professores. Como eles são membros da sociedade, são afetados pelas mudanças que a língua sofre com o correr do tempo, de forma que seu "português" é, de alguma forma, o português de seu tempo. O que não é necessariamente ruim.
Isto quer dizer que o português que os professores falam e mesmo o que escrevem não é necessariamente o português dos livros adotados nas escolas. O que vale para professores de português vale também para os das outras disciplinas, claro. E vale também para os jornalistas e para as personalidades que eles entrevistam, tenham elas a formação que tiverem (em geral, são especialistas em alguma coisa, sempre especialistas). É só ouvir os debates ou os programas de entrevistas para verificar isso.
Dou dois exemplos banais. Duvido que haja 10% de professores ou falantes letrados que profiram o dito futuro (aplicarei minha poupança em ações da empresa X). Todos dizem "vou aplicar". Outro exemplo? Quase ninguém diz "nós". Diz-se "a gente". Como pouco se diz "tu", exceto em algumas regiões, a conjugação verbal do futuro é
Eu vou aplicar
Você vai aplicar
Ele/ela vai aplicar
A gente vai aplicar
Vocês vão aplicar
Eles/elas vão aplicar.
Ou não é? Quem não fala assim que atire a primeira pedra. Não vou dizer (!!) que todos falam sempre assim porque sei que uma língua sempre apresenta variação. Alguns entrevistados, ou jornalistas, dirão (!!), talvez, de vez em quando, no meio da conversa, "falaremos disso na próxima entrevista", claro, sendo mais formais. Em compensação, alguns também dirão "vamo falá disso na próxima veiz", sendo bem mais informais. E ninguém nota que falou errado durante a entrevista. Por quê? Porque ninguém fala errado mesmo! Isso não é erro. Esse é o português falado culto do Brasil hoje. É um fato. Só isso.
Numa certa ocasião, fui entrevistado por uma emissora de TV (eu no estúdio e um folclorista em outra cidade). Argumentava que a linguagem popular não tinha nada de errado, era só diferente, e era enfrentado pela apresentadora que "defendia nossa língua". Para dobrá-la, só me restou um recurso: ficar atento ao que ela dizia e citar os "erros" que ela ia cometendo, segundo os próprios critérios dela. Ficou meio sem jeito, e eu tive que insistir que ela falava corretamente... o português real (e que aquele que ela defendia não existe mais, pelo menos na fala).
O que muita gente não entende ̶ ou não quer entender, porque significaria perder uma boa teta! ̶ é que a variação tem tudo a ver com a mudança. Todos acham normal que aquila tenha derivado para águia, que asinus tenha derivado para asno (tem muita coisa mudada aí, mas o básico é que a palavra latina proparoxítona se torna paroxítona), mas acham ridículas formas como fosfro (para fósforo), corgo (para córrego), xicra e chacra (para xícara e chácara), embora a regra antiga que explica a mudança e a atual que explica a variação sejam a rigor a mesma (os falantes seguem regras, não erram!!!), sem contar que dizem, numa boa, sem se dar conta do que fazem, xicrinha e chacrinha. Quá!
Variação tem tudo a ver com mudança. Mas, se entendêssemos isso, muita gente perderia uma grana preta!!
Fonte: http://www.cataphora.com.br/2010/03/variacao-e-mudanca-sirio-possenti_8437.html (Acesso em: 25 set. 2024).
Leia este excerto:
“Denomina-se referenciação as diversas formas de introdução, no texto, de novas entidades ou referentes. Quando tais referentes são retomados mais adiante ou servem de base para introdução de novos referentes, tem-se o que se denomina progressão referencial”.
Fonte: KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2013, p. 123.
Atentando-se para a retomada do referente, assinale o único trecho em que a palavra ou expressão sublinhada NÃO FUNCIONA anaforicamente: