Questões de Concurso Comentadas sobre fundamentos da linguística em linguística

Foram encontradas 602 questões

Q3840542 Linguística
A aquisição da linguagem na primeira infância envolve diversas etapas, uma delas é o balbucio, observado ao redor dos 6 meses de vida. Com base nos estudos sobre o desenvolvimento da linguagem, assinale a alternativa correta:
Alternativas
Q3827157 Linguística
O estudo da língua inglesa não pode ser encarado de forma singular. O desafio é entender a complexidade da língua nas diversas manifestações culturais. Portanto, deve-se visualizá-la de forma:
Alternativas
Q3823949 Linguística
De acordo com a perspectiva de Ellis (2008), acerca da aquisição de segunda língua (L2), as unidades básicas da representação mental são chamadas de "construções". Nesse modelo, construções são entendidas como relações estáveis entre forma e significado, nas quais aspectos morfológicos, sintáticos e lexicais se vinculam a funções semânticas, pragmáticas e discursivas específicas. Para Ellis, a competência linguística em L2 emerge a partir da exposição comunicativa e da identificação de padrões recorrentes. Com base nessas informações, assinale a alternativa que apresenta corretamente os dois fatores que, segundo Ellis, explicam o desenvolvimento da competência linguística em L2. 
Alternativas
Q3823947 Linguística
A comunidade escolar de determinado município apresenta diversidade linguística significativa, incluindo famílias de imigrantes, comunidades indígenas e falantes de línguas de herança. O Professor Bilíngue é convidado a assessorar a Secretaria de Educação na elaboração de políticas linguísticas que reconheçam e valorizem essa pluralidade. Considerando os conceitos contemporâneos de bilinguismo e multilinguismo, registre V, para verdadeiras, e F, para falsas:

(__)O conceito de bilinguismo equilibrado, que pressupõe competência idêntica em ambas as línguas e em todos os domínios de uso, é considerado atualmente um ideal teórico raramente alcançado, sendo mais adequado compreender o bilinguismo como um continuum de competências.
(__)A perspectiva do translinguismo (translanguaging) reconhece que falantes bilíngues e multilíngues possuem um repertório linguístico integrado e fluido, utilizando estrategicamente recursos de diferentes línguas conforme o contexto comunicativo.
(__)O bilinguismo simultâneo, caracterizado pela exposição a duas línguas desde o nascimento, e o bilinguismo sequencial, com introdução da L2 após estabelecimento da L1, produzem resultados idênticos em termos de proficiência e organização cerebral das línguas.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
Alternativas
Q3822719 Linguística
The English language is composed of a few different components regarding language structure and its use. These components are gathered under the term systemic linguistic knowledge, and they include areas such as morphology, syntax, semantics, pragmatics, and vocabulary. Being able to master these areas can enable a learner to comprehend and produce context-appropriate language with adequate intended meaning and precision. Regarding the systemic linguistic knowledge, read the statements below:

I.Morphology refers to the arrangement of words in a sentence, and it is closely tied to pragmatic meaning.
II.Semantics is concerned with the meaning of words, phrases and sentences.
III.Syntax focuses on word meanings and how their meaning is tied to cultural context.
IV.Vocabulary and semantics are very similar areas, as both refer to the structural rules of discourse.
V.Pragmatics involves the study of language in relation to context, speaker intention and social interaction.

Select the correct alternative:
Alternativas
Q3813942 Linguística
 In order to teach English in an effective manner, it is key that educators understand the main components of language structure and use. These components, often assembled under the term systemic linguistic knowledge, include areas such as morphology, syntax, semantics, pragmatics, and vocabulary. Mastering these domains enables teachers to support learners in both decoding and producing accurate, meaningful, and context-appropriate language.
Regarding the systemic linguistic knowledge, which of the following statements is correct?
Alternativas
Q3795475 Linguística
A linguagem é um sistema simbólico usado para representar os significados dentro de uma cultura e compõe-se por determinados sistemas. Qual é a denominação para o sistema que se refere às “relações que regem a maneira pela qual a linguagem é usada nas diferentes culturas – sua função”?
Alternativas
Q3794836 Linguística
A textualidade, como propriedade intrínseca do texto, implica uma articulação interdependente entre fatores linguísticos e cognitivos que sustentam a inteligibilidade, a progressão temática e a estabilidade interpretativa. Nesse sentido, os conceitos de coesão e coerência se distinguem sem se dissociarem, compondo dimensões complementares da construção do sentido textual. Com base nas teorias da Linguística Textual e da Análise do Discurso, assinale a alternativa que apresenta CORRETAMENTE uma formulação conceitual adequada a essa relação.
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Q3794833 Linguística
No âmbito dos estudos discursivos e da linguística contemporânea, os conceitos de linguagem oral, oralização e oralidade não se confundem nem se subordinam entre si, mas organizam-se em torno de práticas comunicativas distintas, embora inter-relacionadas. Nesse contexto, examine as asserções abaixo e a relação proposta entre elas:

I. A oralidade, enquanto instância discursiva, não se define pela modalidade fonológica do enunciado, mas pela presença de marcas interacionais situadas, que podem manifestar-se tanto em registros falados quanto escritos.
PORQUE
II. A oralização do discurso implica a conversão de estruturas tipicamente escritas em performances enunciativas marcadas pela linearidade acústica e pela gestualidade expressiva, resultando na diluição das fronteiras entre suportes comunicacionais distintos.

A respeito dessas asserções, assinale a opção correta:
Alternativas
Q3793500 Linguística
Na BNCC de Língua Portuguesa, o campo Análise Linguística/Semiótica prevê que as crianças analisem a língua a partir de textos reais, compreendendo progressivamente as:
Alternativas
Q3791613 Linguística
From a socio-interactionist perspective, language is viewed not as a static code, but as a dynamic tool for social action. Analyze the statements below:
I.Language learning occurs through interaction with others, where meaning is negotiated in specific social and historical contexts.
II.The concept of "dialogism" (Bakhtin) suggests that every utterance is a response to previous utterances and anticipates future responses.
III.In this perspective, the student is a passive recipient of knowledge, and the teacher is the sole holder of authority and correct language usage.
The correct statement(s) is/are: 
Alternativas
Q3791444 Linguística
A análise linguística constitui um eixo fundamental no ensino da Língua Portuguesa, pois promove a reflexão consciente sobre o funcionamento da linguagem em diferentes contextos de uso. Mais do que identificar regras, ela busca compreender como os elementos linguísticos se articulam para produzir sentidos, considerando aspectos gramaticais, semânticos e discursivos. Inerente a estes fundamentos, assinale a alternativa CORRETA.
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Q3779724 Linguística

Em um artigo sobre a construção da frase, o gramático Sílvio Elia escreveu:


“No tocante à construção da frase, é necessário ter em mente a já clássica distinção saussuriana entre significante (imagem mental da forma exterior, oral) e o significado (a ideia, o conceito, o conteúdo mental). Para nos restringirmos ao léxico, podemos exemplificar com a palavra casa. A significação dessa palavra se encontra nos dicionários da língua: eis o seu conceito ou significado. Mas sua expressão oral (significante) geralmente varia de uma língua para outra: casa (port., esp., it.), maison (fr.), house (ingl.), domus (lat.), oikos (gr.) e muitos outros exemplos.”


A afirmação correta sobre o que é lido nesse trecho é que

Alternativas
Q3779713 Linguística
A afirmação teórica inadequada sobre o signo linguístico é que
Alternativas
Q3774366 Linguística
Considerando a perspectiva enunciativa da linguagem proposta pelos estudos do Círculo de Bakhtin e suas implicações para a constituição do discurso, analise as proposições a seguir.

Assinale a alternativa que apresenta uma concepção teoricamente consistente com os fundamentos do dialogismo e da polifonia.
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Q3774232 Linguística
Cohesion refers to the linguistic links in a text, while coherence refers to the logical flow of ideas. Mark T, (True), or F, (False) for the statements regarding cohesive devices.


(__)Reference uses pronouns like "he", "she", or "they" to refer back to a noun mentioned earlier, maintaining continuity.


(__)Conjunctions like "however" and "therefore" establish logical relationships between sentences or clauses.


(__)Ellipsis involves repeating the same sentence multiple times to ensure the reader understands the point.


(__)Lexical cohesion can be achieved through the use of synonyms or related words to avoid unnecessary repetition.


Select the alternative that presents the correct sequence, from top to bottom.  
Alternativas
Q3773968 Linguística

ESCOLA, ENSINO DE LÍNGUA, LETRAMENTO E CONHECIMENTO


    A língua não é um hábito que se exercita, nem um jogo em que se entra e sai, nem tampouco uma roupa que se veste conforme a ocasião, apropriada ou inapropriada. É uma totalidade que, constituída na história humana, constitui os sujeitos, é marca de identidade, condição de pensamento, forma fundamental de relacionamento e de intervenção no mundo. Independentemente de qual seja a base biológica em que se sustenta a linguagem humana, seja admitindo-se um fundamento genético específico, seja reconhecendo a capacidade simbólica humana consequente do desenvolvimento cerebral, o fato é que a língua é um fenômeno de ordem histórica e, como tal, realiza-se e produz-se em função da ação humana, do trabalho humano.

    Devemos sempre considerar, ao refletir sobre as formas de ser e os usos da língua, que ela é, acima de tudo, expressão de identidades: identidades de grupos, de nações, países ou regiões (de onde surge o conceito de língua ou línguas nacionais), de países, de comunidades de países, de localidades e, também e de forma muito significativa, de indivíduos. Evidentemente, não se postula nenhum processo “natural”, mas sim um movimento histórico, que se submete a múltiplas funções e é objeto de constante disputa. As identidades são produções histórico-sociais e pertencem ao humano genérico.

    Daí as limitações das percepções dicotômicas da língua que se constituíram na tradição dos estudos linguísticos e dos modelos pedagógicos de ensino de língua materna. Assim é que se estabeleceram, sempre em pares excludentes, paradigmas avaliativos ou descritivos dos usos e definições linguísticas, tais como próprio e impróprio, adequado e inadequado, forma culta e popular, registro formal e informal, língua padrão e não padrão, falar (ou escrever) certo e errado, modalidade escrita e oral, entre tantas outras oposições simplificadoras. Não se trata de afirmar que tais formas de apreensão do fenômeno linguístico são ilegítimas ou mero equívoco teórico. Pelo contrário, é preciso considerá-las como resultado dos focos de interesse que se manifestam nas formas como se realiza a luta pelo poder.

    Por isso faz todo sentido afirmar que língua é poder. O domínio sobre a linguagem, mais exatamente sobre seus usos, produzindo e legitimando determinadas formas como ela se realiza, pelo estabelecimento de uma legislação linguística (gramáticas, normas, gêneros, regras) e de valores arbitrários por meio da publicidade deste ou daquele registro é uma forma de poder. E um poder particularmente relevante na medida em que tanto o conhecimento formal como as formas de normatização da vida e de produção se concretizam na linguagem, em particular nas formas de escrita. Bourdieu (1998) captou com precisão essa ideia quando formulou o conceito de língua legítima, isto é, aquela que, para um determinado Estado, aparece como a única língua que expressa o poder e que é (e assim deve ser) muito mais reconhecida do que conhecida.

    O preconceito linguístico sustenta-se no reconhecimento desta língua legítima e na reprodução contínua de estereótipos de cultura e de incultura e na divulgação sistemática de um modelo regulador e corretivo, de caráter basicamente estilístico, cuja finalidade, mesmo que não afirmada e até negada, está em fazer crer que o suposto domínio deste modo de usar a língua (o que é praticamente impossível, não estando o sujeito inserido no lugar social em que este falar se realiza) traz sucesso social. Mais que isso, se naturaliza um estilo como original e se marcam os demais como desvios ou atrasos e, neste sentido, ameaça à integridade social. Deste fato (porque tal imagem se constitui como fato social, mesmo que se fundamente numa crença) se aproveitam pretensos especialistas que mantêm espaços didáticos regulares em jornais, revistas e programas de tevê; mas também, infelizmente, tendo interiorizado esta lógica e reconhecendo-a como verdade insuspeita, atuam nesta direção educadores sérios e dedicados. Esta forma de compreender a questão da linguagem é motivo de intenso debate pedagógico em que se indaga não apenas como a escola deve ensinar a língua materna, mas também o que tem a ensinar. Infelizmente, este debate raramente abandona o referencial normativo e, preso às concepções dicotômicas, desconsidera a questão central, a saber, aquela que diz respeito ao conhecimento [...]

    A posição que cabe sustentar não é a de que o ensino da língua legítima é democrático (visão monolítica de cunho autoritário) nem a de que cada um sabe do seu jeito e que não há o que aprender no que tange à linguagem (conceito que só se sustenta por um culturalismo idealista). Assumiremos por enquanto que “o papel da escola deve ser o de garantir ao aluno o acesso à escrita e aos discursos que se organizam a partir dela” (Britto, 1997). Isto porque a aprendizagem da escrita e dos conteúdos que se veiculam por ela é central na formação dos sujeitos e não se realiza senão através do exercício sistemático e reflexivo.

    De fato, a escrita é um instrumento poderoso, cuja principal característica – mas certamente não a única – é a de permitir a expansão da memória, que passa a situar-se fora dos indivíduos, o que, por sua vez, permite a produção de formas de pensamento descontextualizado e a monitoração continuada de ações e atividades intelectuais. Durante muito tempo, ela foi o único recurso desta natureza (hoje existem vários, como a gravação em áudio e vídeo, a fotografia, os arquivos eletrônicos). A expansão da memória oferece aos indivíduos e aos grupos sociais maior capacidade de pensamento, porque permite esquecer sem esquecer, uma vez que não é preciso guardar na mente todas as informações, mensagens, ideias, raciocínios. Armazenando e registrando a informação fora do corpo físico, mas ao alcance dos interessados, a escrita teve papel fundamental no desenvolvimento da ciência, da filosofia, das leis, das artes etc.

    Contrariamente ao que costuma repercutir o senso comum, a escrita não tem, nem teve em sua origem, como função primordial a comunicação. De fato, ela foi produzida principalmente em função da necessidade do registro da propriedade e do controle do fluxo de mercadorias e se desenvolveu na medida em que a sociedade de classes, centrada na apropriação da riqueza por uma das classes e pelo poder que esta classe exercia sobre o conjunto da sociedade, se expandiu. Há, portanto, um vínculo estrito entre a escrita e as formas de poder e de apropriação dos bens simbólicos produzidos na própria cultura escrita. E isto não é de se estranhar quando se considera uma ordem social em que a apropriação desigual da produção é essencial. Como ocorre com qualquer outra técnica, a posse da escrita, na sociedade de classes, está desigualmente distribuída.

    Até este momento da exposição, considerei a língua e a escrita como objetos em si, descolados de outras dimensões do conhecimento e das práticas humanas, conforme se costuma fazer nas reflexões oriundas na área da linguagem. Contudo, e esta é a tese fundamental que sustenta meu posicionamento atual, tal separação tem trazido significativos malentendidos e prejuízos, senão para os estudos da linguagem, pelos menos para a educação em sentido amplo.

    Para dar segmento a este raciocínio, tomo em consideração o conceito de letramento, que se vulgarizou dos anos noventa cara cá nos estudos de escrita, educação linguística e propostas de educação escolar. Para tanto, retomo aqui a defesa de Kato (1986), a primeira autora a usar o termo no Brasil, sobre a função da escola: “A função da escola é introduzir a criança no mundo da escrita, tornando um cidadão funcionalmente letrado, isto é, um sujeito capaz de fazer uso da linguagem escrita para sua necessidade individual de crescer cognitivamente e para atender às várias demandas de uma sociedade que prestigia esse tipo de linguagem como um dos instrumentos de comunicação. A chamada norma-padrão, ou língua falada culta, é consequência do letramento, motivo por que, indiretamente, é função da escola desenvolver no aluno o domínio da linguagem falada institucionalmente aceita.”

    A ideia de um mundo da escrita apareceu em função das análises dos gêneros da escrita e da relação que se estabelece entre eles e o conhecimento. Nos textos escritos, as frases podem ser mais longas e complexas e apresentar maior diversidade de palavras. As formas de organizar o enunciado se definem com outros critérios, diferentes das formas próprias da fala. Na fala são elementos essenciais o tempo e o ritmo, a repetição e a ênfase sonora como recursos para organizar o que dizemos. O ouvinte serve de orientação para que a falante se explique, se corrija, tome um novo ritmo, fale com maior ou menor intensidade. Ao escrever, organiza-se o texto em períodos, parágrafos, capítulos, partes.

    Além disso, a escrita favorece maior percepção da língua e a fixação de suas formas. Por permanecer presente diante daquele que a vê, permite que um texto possa ser revisto tantas vezes quantas o autor quiser e que o leitor possa retomar qualquer ponto do texto. Graças a essa possibilidade se estabeleceram conceitos, como o de palavra e de fonema, desenvolveram-se teorias para explicar a língua, seu funcionamento e sua relação com o pensamento, produziram-se dicionários e gramáticas. Outro aspecto relevante da escrita é a bidimensionalidade, em oposição ao caráter linear da fala, o que permite a construção de quadros, tabelas, esquemas e mapas, que, por sua vez, permitem outras formas de apreensão e representação do real. Também se associam à escrita diversas atividades intelectuais e sociais (literatura, filosofia, ciência, direito), além de produtos culturais materiais. A tais atividades e produtos se vinculam muitas profissões (a de escrever, a de ensinar, o jornalismo, o trabalho de edição e revisão de textos, a indústria gráfica e, mais recentemente, a eletrônica).

    Como vemos, a ideia de um mundo da escrita diz respeito às formas de organização da sociedade e do desenvolvimento do conhecimento. É certo que a língua ganhou novas conformações e estruturas neste processo, mas não há como imaginar que seja possível aprender esta escrita sem conhecer os conteúdos que a ela se associam e, portanto, entrar neste mundo da escrita é, de fato, entrar no mundo do conhecimento.

    Equivoca-se a autora quando estabelece a equivalência entre “introduzir a criança no mundo da escrita” e “torná-la um cidadão funcionalmente letrado”, porque a ideia de alfabetismo funcional implica não o domínio das formas superiores de conhecimento, mas a possibilidade de usar a escrita para as tarefas de cotidiano, as quais se relacionam com situações próprias do contexto imediato [...]

    Kato também deriva norma-padrão do conceito de letramento. Se é fato que a atividade normativa no âmbito da linguagem se desenvolveu enormemente com a escrita, isto não significa que haja correspondência estrita entre o conhecimento dos conteúdos veiculados pela escrita e o domínio de regras de uso e de um determinado estilo. Menos ainda se pode dizer que a norma-padrão (que seria uma espécie de cânone estabelecido pelos mecanismos de controle linguísticos) se equivalha à língua falada culta, que é a manifestação de oralidade de um segmento social. Tais confusões decorrem de uma percepção acrítica das questões políticosociais no plano da linguagem e fortalecem o preconceito e o normativismo. Esta postura fica evidente quando a autora sustenta que tal forma de linguagem é “a institucionalmente aceita”, como se isso fosse da natureza humana e não da história. A defesa do que se chama norma culta, como expressão de uma linguagem elaborada e “correta”, está diretamente relacionada com a reprodução da língua legítima e das relações de poderes em que ela se encerra, pouco se relacionando com o desenvolvimento intelectual e com o conhecimento formal (ver, a respeito, BRITTO, 1977; 2003).


Referências

BOURDIEU, P. A economia das trocas linguísticas. São Paulo: Edusp., 1998.

BRITTO, L. P. L. Contra o consenso: cultura escrita, educação e participação. Campinas: Mercado de Letras, 2003

BRITTO, L. P. L. A sombra do caos: ensino de língua x tradição gramatical. Campinas: Mercado de Letras / ALB, 1997.

KATO, M. A. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. São Paulo, Ática, 1986.

LUIZ PERCIVAL LEME BRITTO

Adaptado de Calidoscópio, Porto Alegre, vol. 5, nº 1, jan./abr, 2007 [excerto adaptado].

Ainda no 1º parágrafo, é possível reconhecer a referência a estudos gerativistas de compreensão da linguagem humana, com o uso da seguinte expressão na última frase: 
Alternativas
Q3773967 Linguística

ESCOLA, ENSINO DE LÍNGUA, LETRAMENTO E CONHECIMENTO


    A língua não é um hábito que se exercita, nem um jogo em que se entra e sai, nem tampouco uma roupa que se veste conforme a ocasião, apropriada ou inapropriada. É uma totalidade que, constituída na história humana, constitui os sujeitos, é marca de identidade, condição de pensamento, forma fundamental de relacionamento e de intervenção no mundo. Independentemente de qual seja a base biológica em que se sustenta a linguagem humana, seja admitindo-se um fundamento genético específico, seja reconhecendo a capacidade simbólica humana consequente do desenvolvimento cerebral, o fato é que a língua é um fenômeno de ordem histórica e, como tal, realiza-se e produz-se em função da ação humana, do trabalho humano.

    Devemos sempre considerar, ao refletir sobre as formas de ser e os usos da língua, que ela é, acima de tudo, expressão de identidades: identidades de grupos, de nações, países ou regiões (de onde surge o conceito de língua ou línguas nacionais), de países, de comunidades de países, de localidades e, também e de forma muito significativa, de indivíduos. Evidentemente, não se postula nenhum processo “natural”, mas sim um movimento histórico, que se submete a múltiplas funções e é objeto de constante disputa. As identidades são produções histórico-sociais e pertencem ao humano genérico.

    Daí as limitações das percepções dicotômicas da língua que se constituíram na tradição dos estudos linguísticos e dos modelos pedagógicos de ensino de língua materna. Assim é que se estabeleceram, sempre em pares excludentes, paradigmas avaliativos ou descritivos dos usos e definições linguísticas, tais como próprio e impróprio, adequado e inadequado, forma culta e popular, registro formal e informal, língua padrão e não padrão, falar (ou escrever) certo e errado, modalidade escrita e oral, entre tantas outras oposições simplificadoras. Não se trata de afirmar que tais formas de apreensão do fenômeno linguístico são ilegítimas ou mero equívoco teórico. Pelo contrário, é preciso considerá-las como resultado dos focos de interesse que se manifestam nas formas como se realiza a luta pelo poder.

    Por isso faz todo sentido afirmar que língua é poder. O domínio sobre a linguagem, mais exatamente sobre seus usos, produzindo e legitimando determinadas formas como ela se realiza, pelo estabelecimento de uma legislação linguística (gramáticas, normas, gêneros, regras) e de valores arbitrários por meio da publicidade deste ou daquele registro é uma forma de poder. E um poder particularmente relevante na medida em que tanto o conhecimento formal como as formas de normatização da vida e de produção se concretizam na linguagem, em particular nas formas de escrita. Bourdieu (1998) captou com precisão essa ideia quando formulou o conceito de língua legítima, isto é, aquela que, para um determinado Estado, aparece como a única língua que expressa o poder e que é (e assim deve ser) muito mais reconhecida do que conhecida.

    O preconceito linguístico sustenta-se no reconhecimento desta língua legítima e na reprodução contínua de estereótipos de cultura e de incultura e na divulgação sistemática de um modelo regulador e corretivo, de caráter basicamente estilístico, cuja finalidade, mesmo que não afirmada e até negada, está em fazer crer que o suposto domínio deste modo de usar a língua (o que é praticamente impossível, não estando o sujeito inserido no lugar social em que este falar se realiza) traz sucesso social. Mais que isso, se naturaliza um estilo como original e se marcam os demais como desvios ou atrasos e, neste sentido, ameaça à integridade social. Deste fato (porque tal imagem se constitui como fato social, mesmo que se fundamente numa crença) se aproveitam pretensos especialistas que mantêm espaços didáticos regulares em jornais, revistas e programas de tevê; mas também, infelizmente, tendo interiorizado esta lógica e reconhecendo-a como verdade insuspeita, atuam nesta direção educadores sérios e dedicados. Esta forma de compreender a questão da linguagem é motivo de intenso debate pedagógico em que se indaga não apenas como a escola deve ensinar a língua materna, mas também o que tem a ensinar. Infelizmente, este debate raramente abandona o referencial normativo e, preso às concepções dicotômicas, desconsidera a questão central, a saber, aquela que diz respeito ao conhecimento [...]

    A posição que cabe sustentar não é a de que o ensino da língua legítima é democrático (visão monolítica de cunho autoritário) nem a de que cada um sabe do seu jeito e que não há o que aprender no que tange à linguagem (conceito que só se sustenta por um culturalismo idealista). Assumiremos por enquanto que “o papel da escola deve ser o de garantir ao aluno o acesso à escrita e aos discursos que se organizam a partir dela” (Britto, 1997). Isto porque a aprendizagem da escrita e dos conteúdos que se veiculam por ela é central na formação dos sujeitos e não se realiza senão através do exercício sistemático e reflexivo.

    De fato, a escrita é um instrumento poderoso, cuja principal característica – mas certamente não a única – é a de permitir a expansão da memória, que passa a situar-se fora dos indivíduos, o que, por sua vez, permite a produção de formas de pensamento descontextualizado e a monitoração continuada de ações e atividades intelectuais. Durante muito tempo, ela foi o único recurso desta natureza (hoje existem vários, como a gravação em áudio e vídeo, a fotografia, os arquivos eletrônicos). A expansão da memória oferece aos indivíduos e aos grupos sociais maior capacidade de pensamento, porque permite esquecer sem esquecer, uma vez que não é preciso guardar na mente todas as informações, mensagens, ideias, raciocínios. Armazenando e registrando a informação fora do corpo físico, mas ao alcance dos interessados, a escrita teve papel fundamental no desenvolvimento da ciência, da filosofia, das leis, das artes etc.

    Contrariamente ao que costuma repercutir o senso comum, a escrita não tem, nem teve em sua origem, como função primordial a comunicação. De fato, ela foi produzida principalmente em função da necessidade do registro da propriedade e do controle do fluxo de mercadorias e se desenvolveu na medida em que a sociedade de classes, centrada na apropriação da riqueza por uma das classes e pelo poder que esta classe exercia sobre o conjunto da sociedade, se expandiu. Há, portanto, um vínculo estrito entre a escrita e as formas de poder e de apropriação dos bens simbólicos produzidos na própria cultura escrita. E isto não é de se estranhar quando se considera uma ordem social em que a apropriação desigual da produção é essencial. Como ocorre com qualquer outra técnica, a posse da escrita, na sociedade de classes, está desigualmente distribuída.

    Até este momento da exposição, considerei a língua e a escrita como objetos em si, descolados de outras dimensões do conhecimento e das práticas humanas, conforme se costuma fazer nas reflexões oriundas na área da linguagem. Contudo, e esta é a tese fundamental que sustenta meu posicionamento atual, tal separação tem trazido significativos malentendidos e prejuízos, senão para os estudos da linguagem, pelos menos para a educação em sentido amplo.

    Para dar segmento a este raciocínio, tomo em consideração o conceito de letramento, que se vulgarizou dos anos noventa cara cá nos estudos de escrita, educação linguística e propostas de educação escolar. Para tanto, retomo aqui a defesa de Kato (1986), a primeira autora a usar o termo no Brasil, sobre a função da escola: “A função da escola é introduzir a criança no mundo da escrita, tornando um cidadão funcionalmente letrado, isto é, um sujeito capaz de fazer uso da linguagem escrita para sua necessidade individual de crescer cognitivamente e para atender às várias demandas de uma sociedade que prestigia esse tipo de linguagem como um dos instrumentos de comunicação. A chamada norma-padrão, ou língua falada culta, é consequência do letramento, motivo por que, indiretamente, é função da escola desenvolver no aluno o domínio da linguagem falada institucionalmente aceita.”

    A ideia de um mundo da escrita apareceu em função das análises dos gêneros da escrita e da relação que se estabelece entre eles e o conhecimento. Nos textos escritos, as frases podem ser mais longas e complexas e apresentar maior diversidade de palavras. As formas de organizar o enunciado se definem com outros critérios, diferentes das formas próprias da fala. Na fala são elementos essenciais o tempo e o ritmo, a repetição e a ênfase sonora como recursos para organizar o que dizemos. O ouvinte serve de orientação para que a falante se explique, se corrija, tome um novo ritmo, fale com maior ou menor intensidade. Ao escrever, organiza-se o texto em períodos, parágrafos, capítulos, partes.

    Além disso, a escrita favorece maior percepção da língua e a fixação de suas formas. Por permanecer presente diante daquele que a vê, permite que um texto possa ser revisto tantas vezes quantas o autor quiser e que o leitor possa retomar qualquer ponto do texto. Graças a essa possibilidade se estabeleceram conceitos, como o de palavra e de fonema, desenvolveram-se teorias para explicar a língua, seu funcionamento e sua relação com o pensamento, produziram-se dicionários e gramáticas. Outro aspecto relevante da escrita é a bidimensionalidade, em oposição ao caráter linear da fala, o que permite a construção de quadros, tabelas, esquemas e mapas, que, por sua vez, permitem outras formas de apreensão e representação do real. Também se associam à escrita diversas atividades intelectuais e sociais (literatura, filosofia, ciência, direito), além de produtos culturais materiais. A tais atividades e produtos se vinculam muitas profissões (a de escrever, a de ensinar, o jornalismo, o trabalho de edição e revisão de textos, a indústria gráfica e, mais recentemente, a eletrônica).

    Como vemos, a ideia de um mundo da escrita diz respeito às formas de organização da sociedade e do desenvolvimento do conhecimento. É certo que a língua ganhou novas conformações e estruturas neste processo, mas não há como imaginar que seja possível aprender esta escrita sem conhecer os conteúdos que a ela se associam e, portanto, entrar neste mundo da escrita é, de fato, entrar no mundo do conhecimento.

    Equivoca-se a autora quando estabelece a equivalência entre “introduzir a criança no mundo da escrita” e “torná-la um cidadão funcionalmente letrado”, porque a ideia de alfabetismo funcional implica não o domínio das formas superiores de conhecimento, mas a possibilidade de usar a escrita para as tarefas de cotidiano, as quais se relacionam com situações próprias do contexto imediato [...]

    Kato também deriva norma-padrão do conceito de letramento. Se é fato que a atividade normativa no âmbito da linguagem se desenvolveu enormemente com a escrita, isto não significa que haja correspondência estrita entre o conhecimento dos conteúdos veiculados pela escrita e o domínio de regras de uso e de um determinado estilo. Menos ainda se pode dizer que a norma-padrão (que seria uma espécie de cânone estabelecido pelos mecanismos de controle linguísticos) se equivalha à língua falada culta, que é a manifestação de oralidade de um segmento social. Tais confusões decorrem de uma percepção acrítica das questões políticosociais no plano da linguagem e fortalecem o preconceito e o normativismo. Esta postura fica evidente quando a autora sustenta que tal forma de linguagem é “a institucionalmente aceita”, como se isso fosse da natureza humana e não da história. A defesa do que se chama norma culta, como expressão de uma linguagem elaborada e “correta”, está diretamente relacionada com a reprodução da língua legítima e das relações de poderes em que ela se encerra, pouco se relacionando com o desenvolvimento intelectual e com o conhecimento formal (ver, a respeito, BRITTO, 1977; 2003).


Referências

BOURDIEU, P. A economia das trocas linguísticas. São Paulo: Edusp., 1998.

BRITTO, L. P. L. Contra o consenso: cultura escrita, educação e participação. Campinas: Mercado de Letras, 2003

BRITTO, L. P. L. A sombra do caos: ensino de língua x tradição gramatical. Campinas: Mercado de Letras / ALB, 1997.

KATO, M. A. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. São Paulo, Ática, 1986.

LUIZ PERCIVAL LEME BRITTO

Adaptado de Calidoscópio, Porto Alegre, vol. 5, nº 1, jan./abr, 2007 [excerto adaptado].

Nas duas primeiras frases do 1º parágrafo, observam-se concepções de língua que se apoiam, sobretudo, nos seguintes referenciais teóricos, respectivamente:
Alternativas
Q3773446 Linguística
Pragmatics deals with how language is used in context to achieve communicative goals. Mark T (True) or F (False) for the statements regarding semantic and pragmatic concepts.


(__)Speech acts, such as requesting, apologizing, or commanding, depend on the context and the relationship between speakers to be understood correctly.


(__)Idiomatic expressions like "break a leg" have a literal meaning that can be easily deduced from the individual words.


(__)Cohesion refers to the grammatical and lexical links that hold a text together, while coherence refers to the logical flow of ideas.


(__)Register refers to the variation in language use according to the situation, such as the difference between formal and informal language.


Select the alternative that presents the correct sequence, from top to bottom.
Alternativas
Q3771453 Linguística

À luz dos fundamentos teóricos que orientam os estudos sobre linguagem, especialmente no que tange às práticas de leitura, oralidade e escrita como fenômenos discursivos e pedagógicos, examine criticamente as proposições a seguir:


I.A leitura deve ser compreendida como um processo intersubjetivo no qual o leitor, situado historicamente, atribui sentidos que decorrem tanto da materialidade linguística quanto das condições discursivas de produção e recepção do texto.


II.A escrita, enquanto processo de significação, demanda do produtor textual o domínio das formas linguísticas, mas não condiciona sua eficácia à adequação a um regime de intencionalidade discursiva ou ao reconhecimento das condições de interlocução.


III.A oralidade, entendida em sua dimensão textual, articula-se a uma lógica de construção de sentidos que não depende da linearidade sintática, mas da interação entre os sujeitos, o que a torna inapropriada como objeto de descrição formal no ensino de língua.


É correto o que se afirma em: 

Alternativas
Respostas
121: B
122: D
123: C
124: E
125: D
126: D
127: C
128: A
129: B
130: A
131: B
132: D
133: B
134: D
135: E
136: A
137: D
138: A
139: A
140: C