Questões de Concurso
Sobre estilística em linguística
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Ele se aproximou e com a voz cantante de nordestino que a emocionou, perguntou-lhe:
– E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?
– Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa, antes que ele mudasse de ideia.
– E se me permite, qual é mesmo a sua graça?
– Macabéa.
– Maca
– o quê?
– Béa, foi obrigada a completar.
– Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979, p. 53.
Ao trabalhar esse trecho com estudantes do Ensino Médio, um professor de Língua Portuguesa pretende explorar como as escolhas linguísticas contribuem para a construção das personagens.
Dentre as opções a seguir, assinale aquela que atende melhor a esse objetivo.
I. “Volta-se para o que se faz com a linguagem, em que circunstâncias e com que finalidade. Enquanto, no âmbito da semântica, uma sentença como ‘Está frio’ significa que algo está com a temperatura baixa, nada mais além disso, para esta linha dos estudos linguísticos, o entendimento será possível apenas com base no contexto em que o enunciado é proferido.”
II. “Tem como objeto de estudo o texto e seus elementos de análise, como coesão, coerência e intertextualidade. Surgiu como uma reação aos estudos meramente sintáticos e/ou semânticos, que se limitavam às análises de sentenças.”
A partir da análise dos conceitos afirmados acima, pode-se entender que, pela ordem, tais postulações se referem aos seguintes ramos da Linguística:
Assinale a alternativa correta em relação à estilística e os fatores que a envolvem:
"Linguística da Enunciação é a área da filosofia da linguagem que trata do estudo dos enunciados, dos discursos e suas condições de produção. Essa área de estudos da linguagem ganhou destaque com a publicação da obra Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929), quando Mikhail Bakhtin lançou as bases de um novo arcabouço teórico-metodológico para análise dos fenômenos de linguagem, cujo objeto é a enunciação, isto é, a interação verbal."
https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/portugues/ o-que-e-enunciado.htm)
As condições de produção de textos levam em consideração a (o), EXCETO:
Estilo é o uso individual dos recursos expressivos da língua, é o máximo de efeito expressivo que se consegue obter dentro das possibilidades da língua. Trata-se de um conceito intimamente relacionado com as noções de desvio e escolha.
( ) Antífrase ou ironia é utilizado quando se afirma alguma coisa que na verdade se quer negar.
( ) Lítotes, quando se diz alguma coisa e, ao mesmo tempo, nega-se explicitamente que se pretenda dizê-la, ou seja, nega-se claramente que se queira dizer o que se disse, simula-se não querer dizer o que, no entanto, se disse claramente.
( ) Preterição, quando se diz menos para significar mais; ou seja, quando se nega alguma coisa de sentido positivo para afirmar o contrário, com sentido negativo.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
Leia o texto e responda o que se pede no comando da questão:
E a vida continua
Chegou a hora de enfrentar os preconceitos com a velhice.
Tive bons anos, produtivos e confortáveis. Até pouco tempo, eu acreditava quando diziam que não parecia ter mais de 50. Embora minha vaidade estranhasse não me acharem com 40. Fui tomando consciência e não foi uma coisa rápida. Eu achava ótimo ter direito a filas prioritárias. Vaga garantida em shopping. E mais uma série de vantagens que chegam com a idade. Tudo isso eu achava legal, porque também não acreditava ter a aparência dos prioritários. Até que um dia vi a fila do avião. E lá estavam os idosos. Iguais a mim. Descobri para o mundo, eu tinha me transformado em um senhor de idade. Os mais velhos são discriminados, e a gente nem percebe imediatamente o tamanho do preconceito. Mas quando se fala que alguém é "velho", é como pertencesse a uma categoria menor na sociedade. E a dimensão da velhice muda com a idade de quem olha. Lembro-me de que, aos 20 anos, uma amiga namorava um homem de 40. Diziam que era "velho". Eu hoje tenho saudade dos meus 40 anos. Amar alguém de mais idade pode ser inconcebível para quem tem o corpo em cima e a beleza da juventude. Empregos privilegiam os mais novos. Juventude é associada com dinamismo, energia. Há empresas que aposentam obrigatoriamente quem tem 60 ou pouco mais. Quanto mais envelhece, mais a pessoa fica descartável, embora talvez seja seu momento mais pleno de experiência levo em consideração e criatividade. Agora, na pandemia da Covid-19, houve quem perguntasse se valia a pena manter nos aparelhos os mais velhos. O preconceito da idade já recebeu até nomes: ageísmo e etarismo entre outros.
Nem levo em consideração piadas com minha idade. A gente não envelhece. Mas se recria.
A rotina da vida se transforma. Outro dia li na internet que depois dos 30 ressaca parece uma dengue. E 30 é tão pouquinho. De repente, quando viajo, há tanto remédio pra levar. Não estou falando de nada grave. Mas de "por via das dúvidas". Vai que eu tenha um não sei quê... Tudo começou com um necessaire, mas agora é uma malinha inteira, tentando abarcar todas as situações de emergência. Mas claro, se tenho alguma coisa... Precisa-se justamente do remédio em que ninguém pensou. Tenho minhas obrigações: 3 litros de água por dia, no mínimo; caminhadas... Dizem que para manter o cérebro ativo é bom aprender línguas. Outro dia estava procurando aulas de aramaico!
A paisagem em torno da gente vai sumindo. Perdem-se pessoas, de algumas não se ouve mais falar e um dia vem a notícia: "Você soube do fulano?". O preconceito não é só dos mais jovens. Os próprios idosos se discriminam. Difícil ver o dono de uma empresa contratar alguém de sua própria idade. Muitos se atiram em procedimentos estéticos como se envelhecer não fosse parte de um processo da vida. Eu, você, todos nós estamos envelhecendo neste momento.
As pessoas continuam lá com sua genialidade. Seu fascínio. Portanto, se me insinuam "você não tem mais idade para isso", só sorrio. Nem levo em consideração piadas com minha idade. Não vou enfrentar essa discriminação. A gente não envelhece. Mas se recria. A vida é linda, e continua.
(Walcyr Carrasco. Revista VEJA. 26 de janeiro, 2022. ed. 2773)