Questões de Concurso Sobre antropologia
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(__)As manifestações culturais brasileiras estão relacionadas a processos históricos desenvolvidos em diferentes contextos regionais.
(__)A circulação de uma referência cultural em escala nacional faz com que seus significados locais sejam progressivamente substituídos.
(__)Identidades culturais podem incorporar elementos de tradições distintas e atribuir-lhes novos sentidos.
(__)A interpretação de uma referência cultural deve considerar os valores e os contextos dos grupos envolvidos.
(__)A existência de referências culturais compartilhadas nacionalmente é incompatível com a preservação de identidades culturais regionais.
A sequência CORRETA, de cima para baixo, é:
A partir das informações apresentadas no texto e com relação ao papel do rio São Francisco na economia do estado de Alagoas e ao patrimônio histórico-cultural alagoano, julgue o item a seguir.
A produção de cerâmica entre os kariri-xocó, considerada patrimônio cultural, é uma atividade ancestral carregada de significado religioso que compete sobretudo aos homens.
Surge em uma turma a ideia de que povos de costumes muito distintos dos nossos seriam povos de “menos cultura”. O professor identifica nessa afirmação a pressuposição de uma escala de superioridade que confunde possuir cultura com compartilhar os próprios hábitos.
Assinale a opção que apresenta a explicação mais adequada para corrigir esse equívoco.
I. Entre as habilidades previstas para os anos finais do Ensino Fundamental está conhecer as teorias sobre a origem do homem americano.
II. O estudo das origens da humanidade limita-se à identificação dos mitos de fundação, sem considerar hipóteses científicas.
III. O conhecimento das teorias sobre a origem do homem americano substitui o estudo das hipóteses científicas sobre o surgimento da espécie humana.
Assinale a alternativa correta.
Julgue o próximo item, em relação ao patrimônio histórico-cultural alagoano.
Manifestações culturais como o Guerreiro, o Mané do Rosário, o Coco de Roda, a Chegança, a Taieira e o Pastoril são expressões do rico patrimônio cultural alagoano, fruto de processo histórico de formação socioespacial com um mosaico de elementos das culturas indígena, africana e europeia.
“Ogum vivia com Oiá. Um dia seu irmão Xangô foi visitá-lo e, na casa de Ogum, Xangô deparou com sua bela mulher. Voltou para casa atormentado pela beleza que vira. Desejou Oiá ardentemente... Xangô tinha enganado Ogum. Xangô levou Oiá para casa, feliz com sua vitória.” (p. 63-64)
“Um dia Xangô e Ogum se colocaram frente a frente, no campo de batalha: lutavam pela conquista de Iansã. Ogum veio furioso, vestido em sua armadura metálica com todo tipo de proteção... Xangô veio sem nada... Sua única arma era uma pedra que carregava na mão. Então Xangô jogou a pedra em Ogum e ele pegou fogo. A pedra de Xangô era o corisco, um meteorito que solta chamas... Com sua magia Xangô derrotou Ogum e ganhou Iansã.” (p. 149)
“Xangô e Ogum sempre lutaram entre si, ora disputando o amor da mãe, Iemanjá, ora disputando o amor da amada, Oxum, ora disputando o amor da companheira, Iansã. Lutaram no começo do mundo e ainda lutam agora. Ogum usa da sua força física e das armas que fabrica, Xangô usa da estratégia e da magia... Mas só uma vez Xangô venceu Ogum na luta. Numa disputa que travaram por Iansã... Foi então que Xangô apelou para a astúcia... Quando Ogum estava bem no pé da montanha de pedra, Xangô lançou seu machado oxé de fazer raio e um grande estrondo se ouviu. Com o trovão veio abaixo uma avalanche de pedras e as pedras soterraram o desprevenido Ogum... Xangô venceu Ogum naquele dia, única vez que alguém venceu Ogum.” (p. 160)
Considerando a forma como os mitos apresentam a relação entre Xangô e Ogum, bem como a função do mito na religião dos orixás segundo Prandi, assinale a alternativa que apresenta uma inferência correta e coerente com o pensamento do autor.
“Os iorubás acreditam que homens e mulheres descendem dos orixás, não tendo, pois, uma origem única e comum, como no cristianismo. Cada um herda do orixá de que provém suas marcas e características, propensões e desejos, tudo como está relatado nos mitos. Os orixás vivem em luta uns contra os outros, defendem seus governos e procuram ampliar seus domínios, valendo-se de todos os artifícios e artimanhas, da intriga dissimulada à guerra aberta e sangrenta, da conquista amorosa à traição. Os orixás alegramse e sofrem, vencem e perdem, conquistam e são conquistados, amam e odeiam. Os humanos são apenas cópias esmaecidas dos orixás dos quais descendem.” (p. 28-29)
“Exu era o mais jovem dos orixás. Exu assim devia reverência a todos eles, sendo sempre o último a ser cumprimentado. Mas Exu almejava a senioridade... Olodumare disse então que queria ver todos os orixás... Disse ele: ‘Aquele que usa o ecodidé foi quem trouxe todos a mim. Todos trouxeram oferendas e ele não trouxe nada. Ele respeitou o tabu e não trouxe nada na cabeça. Ele está certo... Doravante será meu mensageiro, pois respeitou o euó... Assim, por sua missão, que ele seja homenageado antes dos mais velhos, porque ele é aquele que usou o ecodidé e não levou o carrego na cabeça em sinal de respeito e submissão’. Assim o mais novo dos orixás, o que era saudado em último lugar, passou a ser o primeiro a receber os cumprimentos. O mais novo foi feito o mais velho. Exu é o mais velho, é o decano dos orixás.” (p. 38-39)
Considerando a análise de Prandi sobre a função dos mitos na religião dos orixás, bem como as características atribuídas a Exu e sua relação com os demais orixás, assinale a alternativa que apresenta uma inferência correta e coerente com o pensamento do autor.
“Todavia, a importante novidade proposta por Pettazzoni foi defender o fato de que a comparação podia ser somente ‘histórica’, isto é – contrariamente à Fenomenologia e ao darwinismo –, tendente a evidenciar as irreduzíveis especificidades históricas de todo fato religioso. Por consequência, contra uma comparação que procurava leis gerais e similitudes formais, o historiador italiano apurava um método comparativo que ressaltava as diferenças e as originalidades que somente as particularidades históricas conseguem justificar.” (p. 47).
“E, justamente, a partir do final da década de 1940 – contemporaneamente a uma profunda reflexão teórica sobre a relação entre religiões, Historicismo e Fenomenologia – que De Martino começa a deslocar sua atenção para os camponeses do Sul italiano, para seu ‘folclore’ e suas manifestações rituais. [...] o rito ‘comporta a canalização, a formalização da emoção em termos culturais que conseguem dominá-la, resgatá-la em tempos (periódicos), em modos (os estereótipos verbais, gestuais, musicais etc.) e em um espaço bem definido’.” (p. 53 e 55).
“O método histórico-comparado de Pettazzoni conotou, enfim, a História das Religiões nos termos de uma disciplina afim à Etnologia e à Antropologia religiosa. Afim, mas não idêntica, todavia. Finalmente, o estudioso não pôde deixar de utilizar-se da mesma linguagem daquelas disciplinas maduras, mas teria feito isso com o objetivo final de verificá-la à prova dos fatos e, se necessário, negá-la, contradizê-la ou refiná-la.” (p. 50).
Considerando o percurso metodológico da Escola Italiana de História das Religiões, especialmente no que diz respeito à comparação histórica, à análise do rito e à relação com a Antropologia, assinale a alternativa que apresenta uma inferência correta e coerente com a perspectiva do autor.
“A primeira vertente, a sistemática (evolucionista), pode ser exemplificada: pelos estudos do filólogo Max Müller, desde suas Lectures on the Science of Language (London 1861), e pelos trabalhos de Edward Burnett Tylor ‘The Religion of Savages’ (In: Fortnightly Review, 1866), e Primitive Culture (London 1871), obras que apontam para a conotação essencial do mais primitivo estádio da evolução cultural; essa primeira vertente encerra-se – e será finalmente sintetizada, no âmbito de uma abordagem propriamente sociológica – com a obra de Émile Durkheim em seu estudo Les Formes Élémentaires de la Vie Religieuse (Paris 1912): aqui o mais primitivo estádio da evolução cultural será identificado, enfim, com o ‘sistema totêmico’ australiano com o objetivo de analisar, justamente, essas ‘formas elementares’ do religioso.” (p.9).
“Em uma segunda parte deste mesmo capítulo 1, levaremos em consideração a vertente fenomenológica (essencialista). Faremos isso partindo da obra de Rudolf Otto Das Heilige (O Sagrado, Breslau 1917): obra de um teólogo luterano e filósofo kantiano que se utiliza, propriamente, da Ciência das Religiões para empreender uma característica análise teológica; em seguida abordaremos a obra de Gerardus Vander Leeuw Phänomenologie der Religion (Tübingen 1933), que realiza uma verdadeira operação de desistoricização que se tornará útil à Fenomenologia; finalmente, tentaremos apontar para a síntese mais significativa, complexa e conturbada da própria vertente fenomenológica, através da obra de Mircea Eliade Traité d’Histoire des Religions (Paris 1949).” (p. 9).
“Dessa abordagem, decorre a importante lição, central na perspectiva histórico-religiosa, segundo a qual para entender determinados contextos histórico-culturais ‘outros’ é preciso entrar em (e adequar-se a) uma lógica autônoma e consoante ao sistema de valores e ao mundo das ideias próprios de cada cultura: no contexto das culturas etnológicas, de fato, uma lógica diferente da clássica ocidental (a lógica aristotélica, por exemplo). De outra forma, manifestasse a incapacidade de inteligência com relação àquelas culturas ou, às vezes pior, à adoção de uma leitura etnocêntrica daquelas realidades culturais.” (p. 90- 91).
Considerando a contraposição metodológica entre as vertentes sistemática/evolucionista e fenomenológica, de um lado, e a perspectiva histórico-religiosa da Escola Italiana (Pettazzoni, De Martino, Brelich, Sabbatucci), de outro, tal como apresentada por Agnolin, assinale a alternativa que apresenta uma inferência correta e coerente com o pensamento do autor.
O trecho caracteriza um processo histórico específico de formação social e cultural.
Assinale a opção que apresenta corretamente o conceito ao qual ele se refere.
Observe a imagem a seguir.

Fonte: https://www.themorgan.org/collection/Histoire-Naturelle-des-Indes/111
A interdependência entre familiarização e predação nas Américas é evocada em uma pintura do final do século XVI: um caçador retorna com duas aves, uma para ser consumida e outra para ser alimentada. Enquanto na Europa a caça e a criação de animais coexistiam em tensão, nas Américas a predação e a familiarização eram modos complementares de interação. Alguns animais selvagens eram capturados e domesticados no sentido de serem incorporados como parentes. Tornar alguém parente reside no ato de alimentar. Uma vez que um ser era alimentado, deveria ser estimado, não consumido como comida. Nessa perspectiva, a essência da pecuária europeia — alimentar animais para transformá-los em alimento — simplesmente não faz sentido.
Adaptado de NORTON, M. The tame and the wild. People and animals after 1492. Massachusetts: Harvard University Press, 2024, p. 7.
Com base na imagem e no texto, assinale a opção que interpreta corretamente as diferenças nas formas de relação entre humanos e não humanos nas Américas e na Europa.
Uma comunidade formada por descendentes de imigrantes europeus que chegaram ao Brasil no século XIX preservou, ao longo de gerações, uma variedade linguística própria. Em razão de sua relevância para a memória, a história e a identidade do grupo, essa língua foi reconhecida pelo município como patrimônio cultural imaterial. Com o objetivo de obter reconhecimento em âmbito nacional e promover ações de valorização, seus representantes pretendem solicitar sua inclusão no Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL). Nesse contexto, um levantamento sociolinguístico identificou que a maioria dos falantes é bilíngue em português e constatou a interrupção da transmissão da língua às novas gerações, já que atualmente nenhuma criança a aprende.
Com base no caso, analise as afirmativas a seguir sobre os critérios considerados para a inclusão de línguas no Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL).
I. A quantidade de falantes bilíngues é um dado relevante para o diagnóstico sociolinguístico realizado no processo de inventário, mas não impede sua inclusão no INDL.
II. O reconhecimento da variedade linguística como patrimônio cultural imaterial pelo município constitui requisito prévio indispensável para sua inclusão no INDL.
III. A interrupção da transmissão intergeracional da língua constitui um indicador de redução de sua vitalidade linguística, o que lhe confere prioridade para inclusão no INDL.
Está correto o que se afirma em
I. Os bens materiais associados ao congo, como vestimentas, estandartes, bandeiras e mastros, constituem suportes de sua dimensão imaterial e são reconhecidos pelos detentores como parte integrante de seu patrimônio cultural.
II. O valor referencial do congo fundamenta-se na permanência da prática ao longo do tempo sem alterações, sendo a preservação de sua forma original seu principal elemento constitutivo, como a ritualização da Fincada do Mastro.
III. A referência cultural do congo reside em seu reconhecimento, pelas comunidades, como parte de sua identidade, sendo mantida por sua prática e transmissão nas bandas, frequentemente vinculadas a famílias.
Está correto o que se afirma em
Marcel Mauss propôs-se mostrar primeiramente que a troca se apresenta nas sociedades primitivas menos em forma de transações que de dons recíprocos, e em seguida que estes dons recíprocos ocupam um espaço muito mais importante nessas sociedades que na nossa. Finalmente que esta forma primitiva das trocas não tem somente, nem essencialmente, caráter econômico, mas coloca-nos em face do que chama, numa expressão feliz, “um fato social total”, isto é, dotado de significação simultaneamente social e religiosa, mágica e econômica, utilitária e sentimental, jurídica e moral.
Adaptado de LÉVI-STRAUSS, Claude. La sociologie française”. In: Gurvitch, G. (org.). La sociologie au XX -esiècle. Paris: PUF, 1947, p. 61.
Com base no trecho, é correto afirmar que Marcel Mauss desenvolveu sua noção de troca a partir das ideias de
Antigamente, muitos coletivos indígenas sentiam vergonha de sêlo. Agora “todo mundo quer ser índio”. Antigamente, os especialistas no “processo histórico” diziam que a “condição camponesa” era o devir histórico inexorável e, portanto, a verdade das sociedades indígenas supunha um “modelo “a-histórico”. Mas os índios começam a reivindicar e terminam por obter o reconhecimento constitucional de um estatuto diferenciado permanente dentro da chamada “comunhão nacional”. E então, eles implementam ambiciosos projetos de retradicionalização marcados por um autonomismo “culturalista” que, por instrumentalista e etnicizante, não é menos primordialista nem menos naturalizante. Algumas comunidades rurais do país estão reassumindo sua condição indígena, em um processo de transfiguração étnica.
Adaptado de Entrevista de Eduardo Viveiros de Castros concedida à edição do livro Povos Indígenas no Brasil, Instituto Socioambiental (ISA), 2006.
Com base no trecho, é correto afirmar que ser indígena é
A relação de estranheza entre as chamadas sociedades subdesenvolvidas e a civilização mecânica consiste sobretudo no fato de nelas encontrar o seu próprio produto, ou, mais precisamente, a contrapartida da destruição que ela instaurou para estabelecer sua própria realidade. Ao enfrentar os problemas da industrialização nos países subdesenvolvidos, a civilização ocidental encontrou ali, pela primeira vez, a imagem distorcida, como se congelada por séculos, da destruição que teve que operar para existir.
Adaptado de LÉVI-STRAUSS, Claude. Anthropologie structurale. Paris: Plon, 1958.
Com base no trecho, é correto afirmar que a construção da identidade cultural é marcada por
O processo cultural sempre abrange seres humanos que mantém relações definidas uns com os outros, ou seja, são organizados, manuseiam artefatos e comunicam-se entre si pela palavra ou outro tipo de simbolismo. Os artefatos, os grupos organizados e o simbolismo são três dimensões do processo cultural que estão intimamente relacionadas. Podemos dizer que cada artefato é ou um implemento ou ainda um objeto de uso direto, isto é, pertencente à classe dos bens de consumo.
Adaptado de MALINOWSKI, Bronislaw. Uma teoria científica da cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p.141.
Com base no trecho, assinale a opção que identifica corretamente a corrente antropológica à qual se vincula a perspectiva apresentada.
I. A perspectiva defendida por Janet Carsten, conhecida como o novo parentesco, utilizou-se do pensamento de Schneider para pensar a concepção de parentes em função de outras dimensões, diferentes do elo biológico. O esforço para desnaturalizar o lugar da mulher (mãe/esposa); para contestar as opressões de gênero relacionadas ao caráter natural da procriação e das diferenças fisiológicas. Mas Carsten pondera que pensar as “relacionalidades” afastadas da dimensão biológica arrisca colocar outro problema: quaisquer relações poderiam ser vistas, no limite, como relações de parentesco.
Adaptado de MURILLO, Aline Lopes. Cultures of relatedness. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2016.
II. A Etnologia americanista critica essa nova abordagem do parentesco por considerar que ele carrega o traço eurocêntrico da dicotomia dado/construído, específica do parentesco ocidental, apontando o caráter construído do parentesco para qualquer sociedade. A partir dessas críticas, a ideia de relatedness passou a ser conhecida como parentesco construtivista.
Adaptado de MURILLO, Aline Lopes. 2016. Cultures of relatedness. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2016.
Com base nos trechos, assinale a opção que apresenta corretamente a interpretação dos autores sobre a dimensão relacional dos seres humanos.