A publicidade tomou conta do mundo e não há
mais um centímetro de superfície que não venda
alguma coisa
(Ruy Castro)
O jornalista Paulo Francis nunca usou um
jeans na vida. Em 30 anos de convívio, nunca vi.
Sempre de calça social. Incomodava-o ver sujeitos
na rua ostentando aquele couro costurado no
bolso de trás com a marca do fabricante,
anunciando-a como se fossem outdoors
ambulantes. Não entendia como alguém podia se
orgulhar de exibir nomes como Levi’s ou Wrangler
quando a etiquetinha de seus ternos e gravatas da
Brooks Brothers era aplicada internamente, de
forma a ser lida apenas pelo usuário. "Bundinha
que mamãe beijou vagabundo nenhum prega a
marca", dizia.
Quando Francis morreu, em 1997, a tomada do
mundo pela publicidade apenas começava. Em
Nova York, onde morava, cartazes, outdoors e
luminosos já faziam parte da paisagem desde os
anos 1920, claro, mas concentravam-se no distrito
teatral —Broadway, Rua 42, Times Square, parte
do Village. Os táxis e ônibus circulavam com os
nomes de suas respectivas empresas na lataria, e
só. Mesmo as lanchonetes vagabundas, que
adorava frequentar por causa dos hambúrgueres,
limitavam-se às ofertas do dia, a giz, no quadro-negro atrás do balcão. [...]
Francis era do tempo em que os anúncios nos
jornais e revistas faziam parte da página impressa
e não nos agrediam. Ao contrário, as agências de
propaganda disputavam em criatividade e
sofisticação — na imprensa brasileira, ficaram
clássicos os anúncios do Banco Nacional, com o
guarda-chuva como símbolo, e os do Volkswagen,
que faziam do modesto buggy um objeto de
desejo.
Hoje, a propaganda é grosseira e compulsória
em tudo que a vista alcança. Não há um
centímetro que não seja usado para vender
alguma coisa. Não preciso descrever isso aqui,
nem há espaço para tanto. É só olhar em torno. E
não apenas na rua — em tudo que trazemos para
casa, há um anúncio de alguma coisa de que
nunca tínhamos ouvido falar e de que não
podemos abrir mão.
O filial Francis não gostaria de saber que,
agora, há até ovos carimbados com a marca de
sua granja natal e anunciando suas mães como
grandes poedeiras.
(Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2025/04/outdoorsambulantes.shtml/. Acesso em 12/04/2025)
A conjunção adverbial temporal “quando” está
presente no primeiro e no segundo parágrafo
do texto. Em relação ao seu emprego, é correto
afirmar que exprime, em sua primeira e
segunda ocorrência, respectivamente: