Considere as passagens a seguir: •  “… ter claro como dever...

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Q4191723 Português
As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz

    Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma transcendência) e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.
    Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio* de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna**, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. A pergunta dele talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.
    Para os estoicos, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estoico não se queixa, rejeita o ressentimento e mantém a dignidade sem ilusões; o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.
     Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “Minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem para frente, nem para trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estoica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati – amar o destino – seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu – e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.
    Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mãe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria, ‘deixa estar’”… Let it be!


(Demi Getschko, “As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz”, O Estado de S.Paulo. Disponível em: https://www.estadao.com.br/ economia/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-como-que-o-destino-nos-traz/. Adaptado)


*Solilóquio: monólogo.
**Fortuna: destino, fado.
Considere as passagens a seguir:

•  “… ter claro como deveríamos lidar com o que há…” (1º parágrafo)
•  “A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós…” (3º parágrafo)
•  “Assumir o destino como fato, e responder por ele…” (4º parágrafo)

De acordo com a norma-padrão de regência e com o sentido original do texto, as expressões destacadas podem ser substituídas, respectivamente, por:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O comando exige simultaneamente sentido contextual e regência normativa nas três substituições, conforme os trechos “... ter claro como deveríamos lidar com o que há...”, “A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós...” e “Assumir o destino como fato, e responder por ele...”. Só a alternativa C atende a esse duplo critério, com “nos ocupar do”, “sujeitar-se ao” e “Admitir o”.

Tema central: regência e sentido
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por inadequação semântica em duas substituições decisivas. “pelejar contra o” altera “lidar com”, porque introduz oposição e combate, não o sentido de tratar da realidade existente. Além disso, “Retificar o” não substitui “assumir o destino como fato”, pois “retificar” significa corrigir, o que desvia completamente da ideia de reconhecer e responder pelo destino.
B
Errada
Está errada por combinar desvio de sentido e erro de regência. “trabalhar no” não preserva adequadamente o valor de “lidar com o que há”. “aderir com o” traz regência inadequada, porque a construção indicada na base não é essa. “Concordar do” também viola a regência pertinente, além de não reproduzir o sentido de “assumir o destino como fato”.
C
Certa
A alternativa C é a única que preserva, nas três substituições, a compatibilidade sintático-semântica exigida. “nos ocupar do” corresponde a “lidar com” no sentido de tratar de algo e mantém a regência de “ocupar-se de”. “sujeitar-se ao” é compatível com o contexto estoico de aceitar o que não depende de nós e respeita a regência de “sujeitar-se a”. “Admitir o” conserva, em “assumir o destino como fato”, a ideia de reconhecer o destino como dado da realidade, sem deslocar o sentido para correção, consentimento ou posse.
D
Errada
Está errada por inadequação sintático-semântica e por regência imprópria. “conviver no” não substitui adequadamente “lidar com” e ainda se mostra impróprio com “o que há”. “conformar-se no” fere a regência, já que essa construção não corresponde à exigida pelo verbo no uso adequado. “Consentir ao” também não mantém o sentido de “assumir o” no contexto, porque desloca a relação semântica para outra direção.
E
Errada
Está errada por desvio semântico e erro de regência. “suportar o” reduz “lidar com” a mera tolerância ou sofrimento, empobrecendo o sentido do trecho. “reconhecer ao” apresenta regência inadequada para o complemento dado. “Tomar posse do” desvirtua totalmente “assumir o destino como fato”, pois transforma reconhecimento e responsabilização em apropriação.
Pegadinha da questão
A banca mistura sinonímia com regência: algumas opções até parecem semanticamente próximas em um trecho isolado, mas caem porque exigem outra preposição ou porque deslocam o sentido contextual de “lidar”, “aceitar” e “assumir”.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique sempre os dois filtros do comando: o substituto precisa manter o sentido e também a regência.
  • Não valide a opção por semelhança vocabular solta; confira se o verbo realmente se constrói com a preposição usada.
  • Em reescrita, leia o verbo dentro do contexto: “assumir”, aqui, significa reconhecer e responder, não tomar posse.

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