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Q4191719 Português
As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz

    Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma transcendência) e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.
    Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio* de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna**, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. A pergunta dele talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.
    Para os estoicos, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estoico não se queixa, rejeita o ressentimento e mantém a dignidade sem ilusões; o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.
     Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “Minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem para frente, nem para trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estoica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati – amar o destino – seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu – e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.
    Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mãe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria, ‘deixa estar’”… Let it be!


(Demi Getschko, “As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz”, O Estado de S.Paulo. Disponível em: https://www.estadao.com.br/ economia/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-como-que-o-destino-nos-traz/. Adaptado)


*Solilóquio: monólogo.
**Fortuna: destino, fado.
Desenvolvendo o tema sinalizado no título, o autor se vale de recursos que respondem pela coerência textual, tais como
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a progressão temática por referências sucessivas a distintas concepções do destino, articuladas em universos culturais diferentes. No texto, Hamlet, os estoicos, Nietzsche e a canção dos anos 70 são mobilizados como etapas de um mesmo percurso interpretativo, o que sustenta a alternativa B.

Tema central: progressão temática sobre o destino
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao afirmar que o texto remete a questões filosóficas já superadas. Isso contraria o início do texto, que traz o problema para o presente: “a complexidade do mundo de hoje” e “como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz”. As referências históricas não aparecem como obsoletas, mas como ainda pertinentes ao tema atual.
B
Certa
A alternativa B acerta porque identifica o recurso usado para desenvolver o texto: o autor percorre diferentes abordagens do destino ao longo do tempo e articula essas referências de modo coerente. O percurso passa por Hamlet, pelos estoicos, por Nietzsche e por uma canção popular, mantendo unidade temática apesar da diversidade de repertórios culturais. O ponto não é apenas citar autores ou ideias, mas construir a progressão do texto por essas referências sucessivas.
C
Errada
A alternativa introduz uma adesão prescritiva que o texto não sustenta. O autor expõe e aproxima perspectivas, mas não manda o leitor aderir a elas. Marcas como “seria”, “talvez” e “haveria talvez ainda outra resposta” mostram modalização e afastam a ideia de imposição ou defesa doutrinária.
D
Errada
A alternativa erra porque o texto não se organiza para defender um ponto de vista próprio por meio da demonstração de contradições nas teorias citadas. Há contraste entre perspectivas, mas não refutação sistemática nem exposição de contradições internas de Hamlet, dos estoicos ou de Nietzsche. O eixo do texto é comparativo e progressivo, não demolidor.
E
Errada
A alternativa é incompatível com o texto porque atribui a ele uma tese ética que não encontra suporte. Em vez de dizer que encarar o destino implique infringir princípios éticos, o texto menciona explicitamente, no estoicismo, “agir virtuosamente no que depende”. Portanto, a leitura proposta pela alternativa não se confirma no conteúdo expresso.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre citar perspectivas históricas e tratá-las como superadas, ou entre comparar concepções e defender que o leitor adira a uma delas. O texto faz percurso temático, não pregação doutrinária nem refutação.
Dica para questões semelhantes
  • Se o comando perguntar por coerência textual, procure como o tema avança de um bloco para outro, e não qual ideia você considera mais correta.
  • Quando o texto reúne referências de épocas ou áreas diferentes, verifique se elas mantêm o mesmo eixo de sentido; isso costuma indicar progressão temática.
  • Observe marcas de modalização como “seria” e “talvez”: elas enfraquecem leitura prescritiva e afastam alternativas que falem em imposição ou adesão obrigatória.

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