FURTEI UMA FLOR daquele jardim. O
porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a
flor. Trouxe-a para casa e coloquei-a
no copo com água. Logo senti que ela não
estava feliz. O copo destina-se a beber, e
flor não é para ser bebida.
Passei-a para o vaso, e notei que ela
me agradecia, revelando melhor sua delicada
composição. Quantas novidades há numa flor, se
a contemplarmos bem. Sendo autor do furto, eu
assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a
água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por
sua vida. Não adiantava restituí-la ao jardim.
Nem apelar para o médico de flores. Eu a
furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da
morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no
jardim onde desabrochara. O porteiro estava
atento e repreendeu-me: - Que ideia a sua, vir
jogar lixo de sua casa neste jardim!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1981, p.80.
No trecho “Passei-a para o vaso, e notei
que ela me agradecia, revelando melhor sua
delicada composição.”, qual é a função
sintática do pronome destacado?