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Q3256046 Português
Texto 2


Por parte de pai 


    Debruçado na janela meu avô espreitava a rua da Paciência, inclinada e estreita. Nascia lá em cima, entre casas miúdas e se espichava preguiçosa, morro abaixo. Morria depois da curva, num largo com sapataria, armazém, armarinho, farmácia, igreja, tudo perto da escola Maria Tangará, no Alto de São Francisco.

    [...] Eu brincava na rua, procurando o além dos olhos, entre pedras redondas e irregulares calçando a rua da Paciência. Depois das chuvas, essas pedras centenárias, cinza, ficavam lisas e limpas, cercadas de umidade e areia lavada. Nas enxurradas desciam lascas de malacheta brilhando como ouro e prata, conforme a luz do sol.  

    [...] Meu avô, pela janela, me vigiava ou abençoava, até hoje não sei, com seu olhar espantado de quem vê cada coisa pela primeira vez. E aqueles que por ali passavam lhe cumprimentavam: “Oi, seu Queirós”. Ele respondia e rimava: "Tem dó de nós". Minha avo, assentada na sala, fazendo bico de croché em pano de prato, não via a rua. 

    [...] O café, colhido no quintal da casa, dava para o ano todo, gabava meu avô, espalhando a colheita pelo chão de terreiro, para secar. O quintal se estendia para muito depois do olhar, acordando surpresa em cada sombra. Torrado em panela de ferro, o café era moído preso no portal da cozinha. O café do bule era grosso e forte, o da cafeteira, fraco e doce. Um para adultos e outro para crianças. O aroma do café se espalhava pela casa, despertando a vontade de mastigar queijo, saborear bolo de fubá, comer biscoito de polvilho, assado em forno de cupim. [...] Minha avó, coado o café, deixava o bule e a cafeteira sobre a mesa forrada com toalha de ponto cruz, e esperava as quitandeiras.

    Tudo se comprava na porta: verduras, leite, doces, pães. Com a caderneta do armazém comprava-se o que não podia ser plantado em casa. No final do mês, ao pagar a conta ganhava-se uma lata de marmelada. 

    Depois do cafezal, na divisa com a serra, corria o córrego, fino e transparente. Tomávamos banho pelados, até a ponta dos dedos ficarem enrugadas. Meu avô raras vezes, nos fazia companhia. 

    [...] Meu avô conhecia o nome das frutas. Na hora de volitar, ele trazia, se equilibrando pelos caminhos, uma lata de areia para minha avó arear as panelas de ferro. 

    [...] Atrás da horta havia chiqueiro onde três ou quatro porcos dormiam e comiam, sem desconfiar do futuro. Se eu fosse porco não engordava nunca, imaginava. Ia passar fome, fazer regime, para continuar vivendo, 

    [...] Meu avô me convidou, naquela tarde, para me assentar ao seu lado nesse banco cansado. Pegou minha mão e, sem tirar os olhos do horizonte, me contou: 

    O tempo tem uma boca imensa. Com sua boca do tamanho da eternidade ele vai devorando tudo, sem piedade. O tempo não tem pena. Mastiga rios, arvores, crepúsculos. Tritura os dias, as noites, o sol, a lua, as estrelas. Ele é o dono de tudo. Pacientemente ele engole todas as coisas, degustando nuvens, chuvas, terras, lavouras. Ele consome as historias e saboreia os amores. Nada fica para depois do tempo. 

    [...] As madrugadas, os sonhos, as decisões, duram na boca do tempo. Sua garganta traga as estações, os milénios, o ocidente, o oriente, tudo sem retorno. E nós, meu neto, marchamos em direção a boca do tempo. 

    Meu avô foi abaixando a cabeça e seus olhos tocaram em nossas mãos entrelaçadas. Eu achei serem pingos de chuva as gotas rolando sobre os meus dedos, mas a noite estava clara, como tudo mais. 


Queirós, Bartolomeu Campos. Por parte de pai. Belo Horizonte: RHJ, 1995. 
Em qual opção a expressão destacada apresenta uma preposição seguida de um artigo?
Alternativas

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Tema central: Esta questão avalia o conhecimento morfológico quanto à identificação de preposição seguida de artigo definido em expressões extraídas do texto, exigindo domínio de estrutura frasal pela norma-padrão e atenção à análise gramatical fina.

Justificativa da alternativa correta (D):

Em “conforme a luz do sol”, “conforme” funciona como preposição, e a é o artigo definido feminino que determina o substantivo "luz". Assim, há exatamente a formação pedida: preposição seguida de artigo.

Regra: Muitas preposições se unem a artigos (ex: “de” + “a” = “da”; “a” + “o” = “ao”), mas, mesmo quando não há fusão, preposição seguida de artigo ocorre – é o que vemos aqui, segundo Celso Cunha & Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo).

Exemplo extra: “Após a reunião, saímos.” (“após” = preposição; “a” = artigo)

Análise das demais alternativas:

A) “com seu”: “com” é preposição, mas “seu” é pronome; não há artigo.

B) “para secar”: “para” é preposição, “secar” é verbo no infinitivo (nunca é antecedido de artigo direto).

C) “por ali”: “por” é preposição, “ali” é advérbio de lugar; advérbios não são acompanhados de artigo.

E) “sem retorno”: “sem” é preposição, “retorno” é substantivo sem artigo antes.

Orientação para provas: Atenção: confunda fácil pronome possessivo (“seu”), advérbio (“ali”), infinitivo (“secar”) com artigo – artigo sempre acompanha substantivo concreto ou abstrato, jamais verbo, advérbio ou pronome. Fique atento a esse detalhe para evitar pegadinhas típicas de bancas!

Resumo da regra: Preposição + artigo definido pertence a expressões em que a preposição exige complemento nominal determinado e o artigo antecipa um substantivo. O reconhecimento morfológico dessas classes reforça a interpretação correta em leitura.

Gabarito: D

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Comentários

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era só procurar a opção que havia um artigo em seguida, seja ele definido (o(os)/a(as0 ou indefinido (um(uns)/uma(umas).

gab D

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