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Q535958 Português

                                             Democracia e autoritarismo


      O fato de que as pessoas que vivem em um regime democrático não saibam o que é democracia é uma questão por si só muito grave. O saber sobre o que seja qualquer coisa – e neste, caso, sobre o que seja a democracia – se dá em diversos níveis e interfere em nossas ações. Agimos em nome do que pensamos. Mas muitas vezes não entendemos muito bem nossos próprios pensamentos, pois somos vítimas de pensamentos prontos.

      Creio que, neste momento brasileiro, poucas pessoas que agem em nome da democracia estejam se questionando sobre o que ela realmente seja. É provável que poucos pratiquem o ato de humildade do conhecimento que é o questionamento honesto. O questionamento é uma prática, mas é também qualidade do conhecimento. É a virtude do conhecimento. É essa virtude que nos faz perguntar sobre o que pensamos e assim nos permite sair de um nível dogmático para um nível reflexivo de pensamento. Essa passagem da ideia pronta que recebemos da religião, do senso comum, dos meios de comunicação para o questionamento é o segredo da inteligência humana seja ela cognitiva, moral ou política.

      [...] a democracia flerta facilmente com o autoritarismo quando não se pensa no que ela é e se age por impulso ou por leviandade. Eu não sou uma pessoa democrática quando vou à rua protestar em nome dos meus fins privados, dos meus interesses pessoais, quando protesto em nome de interesses que em nada contribuem para a construção da esfera pública. Eu sou autoritária quando, sem pensar, imponho violentamente os meus desejos e pensamentos sem me preocupar com o que os outros estão vivendo e pensando, quando penso que meu modo de ver o mundo está pronto e acabado, quando esqueço que a vida social é a vida da convivência e da proteção aos direitos de todos os que vivem no mesmo mundo que eu. Não sou democrática quando minhas ações não contribuem para a manutenção da democracia como forma de governo do povo para o povo, quando esqueço que o povo precisa ser capaz de respeitar as regras do próprio jogo ao qual ele aderiu e que é o único capaz de garantir seus direitos fundamentais: o jogo da democracia.


                                       (Marcia Tiburi. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2015/03/

                                                                         democracia-e-autoritarismo/. 18/03/2015. Adaptado.) 

No último parágrafo do texto, a autora utiliza como estratégia argumentativa o uso da 1ª pessoa do singular com o propósito de
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: A primeira pessoa exemplifica condutas para avaliá-las, sem comprovar uma confissão autobiográfica: “Eu sou autoritária quando, sem pensar, imponho violentamente os meus desejos e pensamentos sem me preocupar com o que os outros estão vivendo e pensando”. Ao relacionar imposição individual e desconsideração pelo outro ao autoritarismo, a autora procura convencer o leitor do caráter autoritário dessas ações, o que sustenta D.

Tema central: Primeira pessoa na argumentação
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa reconhece corretamente a intenção persuasiva, mas acrescenta uma confissão que o texto não comprova. As formulações “Eu não sou uma pessoa democrática quando” e “Eu sou autoritária quando” estabelecem critérios de avaliação de comportamentos, sem demonstrar que a autora efetivamente os praticou.
B
Errada
O parágrafo relaciona sistematicamente comportamentos à esfera pública, à convivência e aos direitos coletivos. Essa avaliação fundamentada sustenta uma finalidade argumentativa; não há apoio textual para afirmar que a autora se beneficia de sua posição para desabafar.
C
Errada
A autorreferência apresenta ações como exemplos sujeitos a julgamento, não como admissão de responsabilidade por todas as práticas contrárias à democracia. A expressão “toda a responsabilidade” amplia indevidamente o alcance do posicionamento da autora.
D
Certa
A alternativa D identifica a finalidade desse posicionamento: convencer o leitor acerca do efeito autoritário de certas ações. A autora adota discursivamente a posição de quem as pratica para exemplificar a avaliação, sem que isso comprove episódios vividos por ela.
Pegadinha da questão
Confundir o uso de “eu” e de possessivos com prova de confissão pessoal. A alternativa A explora essa confusão ao combinar a finalidade persuasiva, efetivamente presente, com a afirmação não comprovada de que a autora executou as atitudes descritas.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique o que a primeira pessoa faz na argumentação: aqui, ela apresenta condutas e as avalia segundo critérios democráticos.
  • Observe as construções com “quando”: neste contexto, elas relacionam comportamentos a avaliações, sem comprovar episódios vividos pela autora.
  • Separe a intenção persuasiva de acréscimos não sustentados, como confissão, desabafo ou responsabilidade total.

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Comentários

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Letra D.

Por mais que os verbos estejam na primeira pessoa do singular, isso não é uma confissão. Está mais para exemplificar casos onde o próprio ser executador seria ela mesmo.

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