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Q4192542 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão



As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz


    Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma transcendência) e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.


    Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio* de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna**, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. A pergunta dele talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.


    Para os estoicos, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estoico não se queixa, rejeita o ressentimento e mantém a dignidade sem ilusões; o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.


    Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “Minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem para frente, nem para trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estoica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati – amar o destino – seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu – e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.


    Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mãe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria, ‘deixa estar’”… Let it be!



(Demi Getschko, “As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz”, O Estado de S.Paulo. Disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-com-o-que-o-destino-nos-traz/. Adaptado)



*Solilóquio: monólogo.
**Fortuna: destino, fado.
Assinale a alternativa que reescreve passagem do texto de acordo com a norma-padrão de concordância verbal e de colocação dos pronomes átonos.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é normativo: concordância verbal e colocação dos pronomes átonos na reescrita do trecho “Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo.” A alternativa E é a única que preserva esses dois eixos sem erro, porque traz próclise correta com advérbio negativo anteposto em “Jamais se questionam”, mantém “pode haver” no singular, já que “haver” no sentido de existir é impessoal, e emprega corretamente a ênclise em “afirmá-lo”.

Tema central: Pronomes e concordância
Análise das alternativas
A
Errada
Há dois erros de concordância verbal. Em “Não cabe aqui afirmações”, o verbo deveria concordar com “afirmações”: “Não cabem aqui afirmações”. Em “o que se exigem”, o verbo deveria ficar no singular, porque o núcleo é “o que”: “o que se exige”.
B
Errada
O erro está em “os estoicos sempre o rejeita”. Com sujeito plural, o verbo deve ir para o plural: “rejeitam”. A alternativa reproduz indevidamente o singular do trecho original, que trazia “O estoico... rejeita... mantém” com sujeito singular.
C
Errada
A incorreção está na colocação pronominal em “que deu-nos”. O pronome relativo “que” funciona como fator de próclise, por isso a forma adequada é “que nos deu”.
D
Errada
Há erro em “não se tratam de caprichos dos deuses”: a construção correta é “não se trata de”. Além disso, “uma fatalidade que lhes são impostas” viola a concordância, porque “fatalidade” está no singular e não combina com “são impostas”.
E
Certa
A alternativa E está correta porque sua reescrita respeita os pontos cobrados. Em “Jamais se questionam”, o advérbio negativo anteposto atrai o pronome, exigindo próclise. Em “pode haver em nós disposições”, o verbo “haver”, com sentido de existir, permanece no singular. Em “afirmá-lo”, a colocação do pronome com infinitivo está de acordo com a norma-padrão. Portanto, é a única opção que reescreve a passagem sem violar a concordância verbal nem a colocação pronominal.
Pegadinha da questão
A banca misturou erros de concordância com erros de colocação pronominal para induzir o candidato a validar alternativas parecidas com o texto. As armadilhas mais claras são aceitar “que deu-nos” apesar do fator de próclise e pluralizar verbos por atração de termos próximos, como em “o que se exigem” e “se tratam”.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique primeiro se há palavra atrativa antes do verbo; com advérbio negativo ou pronome relativo, a próclise deve ser respeitada.
  • Em construções com “haver” no sentido de existir, mantenha o verbo no singular, mesmo diante de termo plural.
  • Não faça o verbo concordar com a palavra mais próxima; identifique o sujeito real da oração.
  • Se a reescrita mudar o sujeito de singular para plural, revise todos os verbos da frase antes de marcar a alternativa.

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Comentários

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Letra E não seria "Podem" haver em .....

???

o verbo auxiliar não conjuga quando o principal está no sentindo de existir

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