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Q4192539 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão



As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz


    Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma transcendência) e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.


    Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio* de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna**, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. A pergunta dele talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.


    Para os estoicos, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estoico não se queixa, rejeita o ressentimento e mantém a dignidade sem ilusões; o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.


    Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “Minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem para frente, nem para trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estoica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati – amar o destino – seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu – e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.


    Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mãe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria, ‘deixa estar’”… Let it be!



(Demi Getschko, “As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz”, O Estado de S.Paulo. Disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-com-o-que-o-destino-nos-traz/. Adaptado)



*Solilóquio: monólogo.
**Fortuna: destino, fado.
Desenvolvendo o tema sinalizado no título, o autor se vale de recursos que respondem pela coerência textual, tais como
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a coerência construída pela progressão temática que articula referências históricas, filosóficas e culturais sobre o destino: “Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio de Hamlet... / Para os estoicos... / Uma terceira via... seria a adotada por Nietzsche... / Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta... que veio de um conjunto musical nos anos 70.” Como o texto desenvolve o tema por essa sequência de abordagens distintas, a alternativa correta é a D.

Tema central: abordagens do destino
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao atribuir ao texto uma defesa de adesão. O texto expõe e articula perspectivas sobre o destino, mas não afirma ao leitor que deva aderir a alguma delas. Falta uma conclusão prescritiva; o movimento textual é expositivo-comparativo, não injuntivo.
B
Errada
A incorreção está em dizer que as questões filosóficas estão superadas. O texto mobiliza Hamlet, os estoicos e Nietzsche para pensar um problema atual, ligado já no início à “complexidade do mundo de hoje”. As referências históricas não aparecem como ultrapassadas, mas como ainda pertinentes.
C
Errada
A alternativa supõe uma estrutura de refutação que o texto não tem. O autor não organiza o texto para mostrar contradições nas teorias citadas nem para demolir essas posições. Ele apresenta diferentes respostas possíveis ao destino e as encadeia comparativamente.
D
Certa
A alternativa D descreve exatamente o procedimento usado no texto para desenvolver o tema. O autor passa por Hamlet, pelo estoicismo, por Nietzsche e pela canção “Let it be”, formando um percurso temático comparativo. Esse encadeamento reúne literatura, filosofia e música popular, isto é, diferentes universos culturais, e mantém a unidade do texto em torno da mesma questão: como lidar com o destino.
E
Errada
Há extrapolação indevida. Embora o trecho sobre os estoicos mencione ética, o texto não argumenta que encarar o destino seja impossível sem infringir princípios éticos. Essa ideia não é desenvolvida como tese global; a menção à ética estoica é apenas parte de uma das abordagens apresentadas.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre texto expositivo-comparativo e texto de defesa de uma tese única: como há referências valorativas e filosóficas, o candidato pode achar que o autor manda aderir a uma visão ou refuta as demais, quando o procedimento real é articular abordagens de diferentes épocas e universos culturais.
Dica para questões semelhantes
  • Leia o comando com precisão: aqui se pede o recurso de coerência textual, não a opinião final do autor.
  • Observe a progressão dos parágrafos e identifique se o texto enumera perspectivas, compara posições ou refuta uma delas.
  • Não trate referências históricas como superadas sem que o texto diga isso explicitamente.
  • Se o texto mistura literatura, filosofia e música, isso pode ser o núcleo da coerência temática, não um detalhe acessório.

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