A Biblioteca de Alexandria não foi destruída pelo
fogo, mas pelo esquecimento
Por Bruno Vaiano
"Há crimes piores do que queimar livros. Não lê-los é
um deles." – Ray Bradbury.
Três séculos antes de Cristo, Alexandre, o Grande,
conquistou o Egito e mandou erguer, do zero, uma
metrópole no litoral norte do país. Alexandria, batizada
em homenagem a seu patrono desumilde, seria a nova
capital da região. A estética faraônica clichê, dourada
e azul, prevaleceu por lá (bem como o hábito egípcio
de os nobres se casarem entre irmãos, à moda Cersei
em Game of Thrones). Mas esse novo Egito Antigo,
assim como o próprio Alexandre, tinha uma pinta grega
inegável.
O sucessor de Alexandre, o Grande, por aquelas
bandas, nomeado Ptolomeu I, ordenou a construção
de um centro de ensino e pesquisa em Alexandria para
atrair a elite intelectual da época. Tipo uma versão
helênica e antiquíssima do Instituto de Estudos
Avançados de Princeton, onde monstros sagrados das
exatas como Einstein, Gödel e Neumann trabalharam
juntos na década de 1950.
O nome dessa instituição era Mouseion. Em
português, “Museu”. O significado original da palavra é
“templo dedicado às musas” — as deusas do panteão
grego que, na tradição helênica, inspiravam as artes, a
literatura e a ciência. Essa também é a origem
etimológica de “música”, diga-se. Compôs uma bela
canção? Legal, mas não foi bem você. Tudo que é belo
emana dessas divas – artistas são só os meros
mortais que, volta e meia, têm o privilégio de receber
um download de versos do Olimpo.
A Biblioteca de Alexandria acabou se tornando o
mais famoso dos prédios desse complexo. Bibliotecas
não eram novidade. Já existiam na Suméria; são
quase tão antigas quanto a escrita em si. Mas essa
almejava um passo além: Ptolomeu queria uma cópia
de cada obra já escrita na Terra. Por isso, os
tripulantes de toda embarcação que aportava em
Alexandria eram forçados, por decreto, a fornecer ao
Museu os pergaminhos que tivessem a bordo – que
então eram copiados por escribas e armazenados na
coleção. Deu certo.
Essa Harvard ptolomaica prosperou por séculos, e
não acabou por causa de um incêndio – nem qualquer
outro ato pontual de vandalismo. Júlio César danificou
parte da coleção quando sitiou Alexandria e ateou fogo
ao porto, em 48 a.C. Mas, nessa época, o Museu já
havia perdido prestígio e os acadêmicos preferiam
trabalhar em outros lugares.
Em 297 d.C., quando Diocleciano incendiou a cidade
novamente para conter uma rebelião, é provável que o
prédio original da Biblioteca já não existisse mais: as
últimas evidências inequívocas da contratação de
funcionários datam de 260 d.C.
Não era fácil sustentar um exército de bibliotecários
e escribas copistas para manter a coleção atualizada,
higiênica e catalogada. Bastava um fiapo de
desinteresse coletivo para a coisa degringolar. O
território egípcio mudou de mãos e crenças muitas
vezes ao longo da História – os califados árabes
vieram por último e estabeleceram sua capital
intelectual em Bagdá, relegando Alexandria à periferia
do avanço científico-tecnológico durante a Idade
Média.
O fato é que você não precisa atear fogo a um livro
para queimá-lo. O conhecimento não desaparece da
noite para o dia só porque seu suporte material foi
destruído.
Hoje, qualquer sebo parrudo contém mais
conhecimento do que a Biblioteca de Alexandria.
Mesmo assim, 73% dos estudantes brasileiros estão
abaixo do nível de conhecimento sobre Matemática
que a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) considera
mínimo para que se possa exercer a cidadania
satisfatoriamente.
Na avaliação de Leitura, são 50%. Em Ciências,
55%. Mais da metade da população em idade escolar
do País, nas palavras dos organizadores do Programa
Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), tem
algum prejuízo na hora de “participar plenamente da
vida social, econômica e cívica em um mundo
globalizado”.
Pode soar o alarme: nossa biblioteca está
(metaforicamente) em chamas.
Adaptado de: https://super.abril.com.br/historia/a-biblioteca-dealexandria-nao-foi-destruida-pelo-fogo-mas-pelo-esquecimento/.
Acesso em: 28 mai. 2025.
No trecho “[…] quando Diocleciano incendiou a
cidade novamente para conter uma rebelião, é
provável que o prédio original da Biblioteca já não
existisse mais [...]”, a oração em destaque
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