Às vezes a imaginação musical normal transpõe um limite
e se torna, por assim dizer, patológica, como quando determinado fragmento de uma música se repete incessantemente
por dias a fio e às vezes nos irrita. Essas repetições, em geral
uma frase ou tema breve e bem definido de três ou quatro
compassos, tendem a continuar por horas ou dias, circulando
na mente, antes de desaparecer pouco a pouco. Essa repetição interminável e o fato de que a música em questão
pode ser banal ou sem graça, não nos agradar ou até mesmo ser abominável, indica um processo coercivo: a música
entrou e subverteu uma parte do cérebro, forçando-o a disparar de maneira repetitiva e autônoma (como pode ocorrer
com um tique ou uma convulsão). Vem daí o termo em inglês
earworms (algo como “vermes de ouvido”).
Obviamente, na própria música existem tendências inerentes à reiteração. Nossos poemas, baladas e canções são
ricos em repetições. Cada obra de música clássica possui
suas marcas para indicar as repetições ou variações sobre
um tema, e os nossos maiores compositores são mestres da
repetição; as rimas infantis e as cantigas que ensinamos às
crianças pequenas têm coros e refrões. Somos atraídos pela
repetição, mesmo quando adultos; queremos o estímulo e a
recompensa várias vezes, e a música nos dá.
Embora sem dúvida existam earworms desde que nossos
antepassados pela primeira vez tocaram notas em flautas de
osso ou tamborilaram em troncos caídos, é significativo que
o termo só tenha entrado para o uso comum em décadas
recentes. Quando Mark Twain escrevia sobre o assunto nos
anos 1870, havia bastante música para se ouvir, mas ela não
era onipresente. Para ouvir música instrumental, quem não
possuía piano ou outro instrumento em casa tinha de ir à igreja ou a um concerto. Tudo isso mudou radicalmente com o
advento das gravações, das transmissões radiofônicas e dos
filmes. De repente, a música passou a estar por toda parte, e
a magnitude dessa disponibilidade multiplicou-se muitas vezes nas duas últimas décadas. Hoje estamos cercados por
um incessante bombardeio musical, queiramos ou não.
Metade de nós vive plugada em iPods, 24 horas imersa
em concertos com repertório da própria escolha, praticamente alheia ao ambiente. E para quem não está plugado há a
música incessante, inevitável e muitas vezes ensurdecedora
nos restaurantes, bares, lojas e academias. Essa barragem
musical gera certa tensão em nosso sistema auditivo primorosamente sensível, o qual não pode ser sobrecarregado
sem temíveis consequências. Uma delas é a grave perda de
audição encontrada em parcelas cada vez maiores da população, mesmo entre os jovens e particularmente entre os
músicos. Outra são as irritantes músicas que não saem da
cabeça, que chegam sem ser chamadas e só vão embora
quando bem entendem. Podem não passar de anúncios de
creme dental, mas neurologicamente são irresistíveis.
(Oliver Sacks, Alucinações musicais:
relatos sobre a música e o cérebro. Adaptado)
Assinale a alternativa em que o trecho foi reescrito em
conformidade com a norma-padrão de emprego do acento indicativo de crase.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Treine mais com um simulado focado no seu concurso. Criar simulado
teste
Parabéns! Você acertou!
Está mandando bem! Treine mais em um simulado completo. Criar simulado