Tanto no poema de Adélia Prado quanto no conto de Mia Couto,...

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Ano: 2018 Banca: Exército Órgão: CMRJ Prova: Exército - 2018 - CMRJ - Aluno - Português |
Q2045381 Português
A despedideira

    Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas. [...]
    Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele  foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
    Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada.
    Lembro desse encontro, dessa primogênita primeira vez. Como se aquele momento fosse, afinal, toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por ali parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.
    No entanto, algo nele aparentava distância. [...]
    Nesse mesmo pátio em que se estreava meu coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo. Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. [...] O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar.
    [...] Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.
    Porque eu não sou por mim. Existo refletida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.
    Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.
     [...] Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.
    Ninguéns.

(COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p.51-54.) 
Tanto no poema de Adélia Prado quanto no conto de Mia Couto, a expressão “primeira vez” remete a momentos felizes:
“O silêncio de quando nos vimos a primeira vez / atravessa a cozinha como um rio profundo” (Texto II, v. 11 e 12)
“Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. [...] Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei. [...] Lembro desse encontro, dessa primogênita primeira vez”. (Texto III, l. 8-13)
O silêncio (Texto II) e a palavra (Texto III), tão marcantes no primeiro encontro de cada casal, remetem, respectivamente à ideia de
Alternativas

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Tema central da questão: Interpretação de texto, com foco especial em semântica (sentido contextual das palavras) e análise dos sentimentos expressos pelos termos “silêncio” e “palavra” em diferentes trechos literários.

Justificativa da alternativa correta (C):

No contexto dos textos, “silêncio” refere-se àquela conexão emocionante e densa vivenciada entre duas pessoas no primeiro encontro. Esse silêncio é mais que ausência de fala, é intimidade: o olhar, o gesto, o entendimento tácito. Já a “palavra” descrita no conto de Mia Couto carrega forte carga emocional, remetendo à lembrança de tempos passados, a um instante marcante e distanciado pelo tempo — ou seja, à nostalgia.

Pela norma-padrão e como indicam Bechara e Cunha & Cintra, a semântica das palavras deve ser sempre interpretada considerando o contexto: aqui, não são apenas “silêncio” e “palavra”, mas “silêncio do primeiro encontro” (íntimo) e “palavra lembrada” (nostálgica).

Análise das alternativas incorretas:

A) Insolência e opressão: Não se identifica nenhum comportamento rude (“insolência”) ou de “opressão” nos sentimentos buscados pelo silêncio ou pela palavra.

B) Inquietude e comoção: O silêncio do primeiro encontro não é inquieto, mas cúmplice; a “palavra” é recordação, não emoção momentânea (comoção).

D) Indiferença e alienação: Os textos descrevem relações intensas, ricas em sentido; “silêncio” e “palavra” expressam envolvimento, não afastamento.

E) Intolerância e abnegação: Não há sinais de negação, sacrifício ou renúncia relacionados aos termos destacados.

Pontos-chave para acertar questões desse tipo:

  • Leia atentamente os trechos, buscando as emoções implícitas, não apenas o significado literal.
  • Desconfie de alternativas que fogem das emoções principais, como hostilidade, alienação ou sacrifício, quando o clima textual é de proximidade ou lembrança afetiva.
  • Nas provas, destaque palavras-chave ou pistas do texto que indicam qual emoção está sendo representada.

Lembre-se: interpretação de texto exige atenção ao contexto, compreensão dos sentimentos presentes e, muitas vezes, sensibilidade para perceber sutilezas emocionais.

Resumindo:Intimidade” (silêncio, partilha inicial) e “nostalgia” (palavra, lembrança afetiva) são as ideias que os termos evocam, tornando a alternativa C a resposta correta.

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Comentários

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gabarito correto ' C '

LETRA C. Não é nescessário ler o texto!

Intimidade e nostalgia. "Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. [...] Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei." Aqui está explicito a intimidade. Apenas com "esse homem" ela teve um sentimento bom ao conversar. Podemos notar que há uma nostalgia em se recordar de um acontecimento bom do passado.

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