Na frase, “O caso do conto ‘O incêndio’ ouviu-o Abel de mim”...

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Q3614934 Português
MACHADO E ABEL

Manuel Bandeira

O Almanaque Garnier de 1906 trazia o conto de Machado de Assis “O Incêndio”, postumamente recolhido no 2º volume de Páginas recolhidas da edição Jackson. O conto principia assim:

Não inventei o que vou contar, nem o inventou o meu amigo Abel. Ele ouviu o fato com
todas as circunstâncias, e um dia, em conversa, fez resumidamente a narração que me ficou
na memória e aqui vai tal qual. Não lhe acharás o pico, a alma própria que este Abel põe a
tudo o que exprime, seja uma ideia dele, seja, como no caso, uma história de outro.

     Este Abel era o engenheiro civil Abel Ferreira de Matos, de que falei em minha crônica passada, na verdade o homem mais espirituoso que já vi na minha vida. Na conversa, fosse com quem fosse – homem, senhora ou menino –, na correspondência – era um correspondente pontual – punha sempre aquele pico e alma própria a que aludiu Machado de Assis e que a tudo comunicava logo extraordinário interesse.

     O caso do conto “O Incêndio” ouviu-o Abel de mim, que por minha vez o ouvi da boca do próprio protagonista, oficial da marinha inglesa, que acabava de curar a sua “perna mal ferida” no Hospital dos Estrangeiros, onde eu então me achava também internado morre não morre. A história pode contar-se em poucas linhas: um navio de guerra inglês andava em cruzeiro pelo sul do Atlântico; no porto de Montevidéu desceu o oficial a terra e passeando na cidade viu um ajuntamento de gente diante de um sobrado envolvido em fogo e fumarada; no segundo andar, a uma janela, parecia ver-se a figura de uma mulher como que hesitante entre a morte pelo fogo e a morte pela queda; o oficial é que não hesitou: abriu caminho entre a multidão, meteu-se casa adentro para salvar a moça; quando chegou ao segundo andar, verificou que a moça da janela não era uma moça, era um manequim; tratou de descer, mas precisamente ao galgar a porta de entrada do sobrado foi atingido por uma trave, que lhe pegou uma das pernas.

    Casos como esse, em que parece haver uma injustiça ou pelo menos indiferença da parte da Divina Providência, punham o nosso bom Abel, que era um crente e um espiritista, completamente desnorteado e infeliz. Foi o que sucedeu quando lhe narrei a história do inglês. Primeiro sacudiu a cabeça entre as mãos ambas. Em seguida comentou: “É um conto para Machado de Assis”.

    E era mesmo. E Machado de Assis não deixou de agravar o caso inventando por sua conta que os bombeiros iam prendendo o oficial na suposição de que fosse um ladrão; era acrescentar à iniquidade divina a iniquidade humana. E Machado acaba o conto instalando o seu desencanto dos homens na alma do oficial, com dizer que ele “foi mandado a Calcutá, onde descansou da perna quebrada e do desejo de salvar ninguém”.

   Abel tinha a Machado na conta de materialista. Convencera-se disso pela leitura de seus grandes romances. Ficou, pois, espantadíssimo quando um dia, no meio de uma conversa, dizendo tranquilamente a Machado: “Vocês, materialistas…”, foi vivamente interrompido pelo outro, que começou a gaguejar protestando: “Eu, ma… materialista? A b s o l u t a m e n t e ! ”


(Fonte: BANDEIRA, Manuel. Flauta de papel. 2.Ed. São Paulo: Global, 2014, p. 63-64-Adaptada)
Na frase, “O caso do conto ‘O incêndio’ ouviu-o Abel de mim”, assinale a alternativa correta quanto à função sintática do pronome grifado:
Alternativas

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TEMA CENTRAL: A questão avalia análise sintática, mais especificamente a identificação do objeto direto pleonástico em uma frase construída segundo a norma-padrão da Língua Portuguesa.

ANÁLISE E CONCEITUAÇÃO:

Um objeto direto pleonástico ocorre quando o objeto direto aparece antecipado e, para dar ênfase, é retomado por um pronome oblíquo átono. Segundo Celso Cunha & Lindley Cintra: “Quando se antepõe o objeto direto ao verbo, costuma-se retomá-lo por um pronome para reforço da ideia”.

EXEMPLO CLÁSSICO:

"Aquelas questões, eu as resolvi ontem."

APLICAÇÃO À FRASE DA QUESTÃO:

No trecho “O caso do conto ‘O incêndio’ ouviu-o Abel de mim”:

  • "O caso do conto 'O incêndio'" (objeto direto) está antecipado.
  • Depois, aparece o pronome "o" logo após o verbo “ouviu”, retomando esse objeto direto.

Por isso, o termo grifado é um objeto direto pleonástico — resposta da alternativa D.

ANÁLISE DAS ALTERNATIVAS INCORRETAS:

  • A) Objeto direto preposicionado: Não há preposição. O objeto direto preposicionado é raro e empregado para evitar ambiguidade ou enfatizar, o que não ocorre aqui.
  • B) Objeto indireto pleonástico: Objeto indireto exige preposição e, no pleonasmo, seria repetido, o que não acontece nesta frase.
  • C) Complemento nominal: Trata-se de um termo que completa o sentido de um nome, e não de verbo. Aqui, temos um complemento verbal (objeto direto).
  • E) Agente da passiva: O agente da passiva indica quem pratica a ação em frases na voz passiva. Não é o caso; a frase está na voz ativa.

ESTRATÉGIA DE PROVA: Atenção à construção frasal e à posição dos pronomes: se perceber objeto antecipado retomado por pronome, pense em pleonasmo sintático. Essa análise é cobrada frequentemente em concursos militares!

Referências: Cunha & Cintra, Nova Gramática; Bechara, Moderna Gramática; Manual de Redação da Presidência da República.

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Comentários

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A) É o objeto direto que começa com preposição por uma questão de ênfase ou clareza. "Ele amou a Deus." (Quem ama, ama alguém).

B) É a repetição do objeto indireto na oração para dar ênfase. "A mim, nada me importa."

C)Completa o sentido de um substantivo abstrato, adjetivo ou advérbio. Sempre tem preposição. Tenho necessidade de atenção.

D) É a repetição do objeto direto na oração para enfatizá-lo. "A lição, eu já a fiz." (GABARITO)

E)É quem pratica a ação na voz passiva. Vem introduzido pela preposição "por" ou "de". O trabalho foi feito por mim.

  • Objeto direto pleonástico é a repetição enfática do objeto direto por pronome.
  • Objeto indireto pleonástico é a repetição enfática do objeto indireto.
  • Objeto direto preposicionado é o uso facultativo de preposição antes do objeto direto.

O objeto direto pleonástico ocorre quando se tem a intenção de chamar a atenção para o objeto direto que vem antes do verbo, repetindo-o na sequência. Exemplo: O presente, Danilo recebeu-o no dia se seu aniversário.

"É justo que muito custe o que muito vale"

PMMG2026!

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