Para responder à questão, leia o capítulo XVI e
o início do capítulo XVII do romance Memórias póstumas de
Brás Cubas, de Machado de Assis.
Capítulo XVI
Uma reflexão imoral
Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo
uma correção de estilo. Cuido haver dito, no cap. XIV, que
Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma coisa que morrer; assim o afirmam todos
os joalheiros desse mundo, gente muito vista na gramática.
Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos
dixes1
e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia
fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque não
se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer
é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela, se
a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem
menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita,
Marcela amou-me...
Capítulo XVII
Do trapézio e outras coisas
... Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem2
dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso
excedia as raias de um capricho juvenil.
— Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar
uma universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para
homem sério e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto: — Gatuno, sim, senhor; não é outra
coisa um filho que me faz isto...
Sacou da algibeira os meus títulos de dívida, já resgatados por ele, e sacudiu-mos na cara. — Vês, peralta? é assim
que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e
meus avós ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra3
! Desta vez ou tomas juízo, ou ficas
sem coisa nenhuma.
Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu
ouvi-o calado, e nada opus à ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava a ideia de levar Marcela comigo.
Fui ter com ela; expus-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcela
ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a Europa.